segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O MUNDO DE PÉRICLES (01)

Dessa vez não era nenhum tipo de encenação. Seus gestos dramáticos eram realmente fruto de sua angústia vinda da face oculta do coração e não ensaiados como gostariam de supor seus detratores.

O público, tanto os admiradores como os inimigos, estava verdadeiramente hipnotizado, magnetizado sem poder desviar os olhos e a atenção daquele homem que falava na tribuna.

Péricles, o nobre, o mais brilhante político e militar de Atenas (a Nova York de sua época) bradava usando todo seu talento para defender... uma prostituta.

Aspásia, a prostituta, estava presente. E sua presença próxima a Péricles era algo que causava a mais exasperante curiosidade e admiração.

Aspásia de Mileto era a mais bela das prostitutas de Atenas. Para ser aceita no sindicato das prostitutas (sim, as prostitutas tinham sindicato, aliás, um dos mais organizados) a jovem ateniense tinha que ser linda, atualizada, boa ouvinte e boa de papo, além de boa de cama, pois não era pra qualquer uma transar profissionalmente com os homens mais inteligentes do mundo, pelo menos, do seu mundo.

Além de mais bela, Aspásia era também considerada a mais inteligente das prostitutas. Líder do sindicato durante a famosa greve sexual que acabara com as Guerras Médicas na sua primeira fase. Oficialmente, apenas conselheira e conversadora do grande orador.

Desde que Péricles se divorciara, formava com Aspásia o mais conhecido dos casais secretos de Atenas. O amor entre os dois era tão intenso, tão verdadeiro, que, provocava todo tipo de comentários e inveja. Ao contrário dos homens famosos e poderosos de seu tempo que consideravam fraqueza a demonstração de afeto, Péricles jamais negou que amava Aspásia.

O amor provoca ódios e o próprio filho de Péricles, Xantipo,ridicularizava a relação atacando o próprio pai por ser 26 anos mais velho que a amada.

Depois de atacarem Fídias e o filósofo Anaxágoras, seus melhores amigos, acusados de ateísmo, agora, as forças políticas adversárias de Péricles atacavam Aspásia, acusando-a de corromper as mulheres de Atenas com suas idéias de liberdade e de igualdade, inclusive, se rebelando contra a proibição das mulheres votarem na Eclésia. Se condenada, Aspásia seria, no mínimo, expulsa de Atenas para sempre.

Agora, todos assistiam o grande orador defendendo a amada com o talento que só Péricles tinha e só Péricles teve em todo o dourado século V a.C que mais tarde a história chamaria de “o século de Péricles”.

Foi então, ninguém sabe exatamente quando, mas juram que entre uma frase que falava de amor, que Péricles fez o impensável. O inimaginável. O inacreditável. Aquilo que jamais nenhum outro homem ousara fazer na tribuna exposta dos oradores...

Péricles chorou.

Seu choro foi profundo, vindo de alguma parte perdida da alma. Emergiu pela garganta impulsionado pela revolta dos inocentes e pelo hálito ardente dos apaixonados e materializou-se num som de inconfundível dor.

Diante dos mais cultos personagens de seu tempo. Diante de generais, sábios e políticos. Diante dos populares que apinhados assistiam o discurso, Péricles chorou. As lágrimas substituíram os argumentos.

Chorou de amor e de inconformidade com o espetáculo armado. De amor paternal ferido pelo deboche do próprio filho. Um choro de indolência, de cansaço, de rebeldia adolescente e do mais adulto e maduro amor que só um homem na casa dos cinquenta pode sentir.

Houve alguns segundos do mais absoluto silêncio que aquela assembléia jamais assistiu.

E, enquanto Aspásia também se entregava ao mais profundo pranto a Assembléia explodiu.

Viva Péricles! Viva Aspásia! Chega de acusações!

Péricles, o povo chora contigo!

Liberdade para Aspásia!

Dizem que até Xampito, o filho revoltado, abraçou o pai.

Aspásia foi absolvida. Os dois voltaram juntos para casa, aplaudidos de pé ao cruzarem a saída da grande praça.

O grande orador grego acabara de provar que as vezes, a verdade não precisa de palavras.


Prof. Péricles

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