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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

ORIENTE MÉDIO – ACOMPANHANDO AS NOTÍCIAS

Para aqueles que procuram compreender melhor o mais complexo entrevero político de nossos tempos (a questão do Oriente Médio), o entendimento de alguns conceitos é fundamental para acompanhar a linguagem das notícias e dos livros que se publicam sobre o assunto. Então, aí vão algumas coisas que você deve saber antes de entrar nesse “labirinto”:

- SEMITA: Povo antiguíssimo que habitava o planalto da Turquia e que a milhares de anos ao migrar para áreas mais amenas deram origem a três povos: os hebreus, os Assírios e os Fenícios. Os dois últimos já desapareceram, mas os hebreus são os modernos judeus. Quando os livros dizem que os nazistas eram anti-semitas estão dizendo que eram anti-judeus.

- SIONISTA: nome que se dá ao movimento nascido na Áustria no final do século XIX que buscava estabelecer um espaço nacional, uma área geográfica onde se estabeleceria o estado Judeu, ou Israel.

- PALESTINA: genericamente designa toda uma região do Oriente Médio, em vários aspectos sagrada para as três maiores religiões do mundo – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Mais especificamente designa a pátria do povo palestino, muçulmanos de turbante quadriculado. O estado Palestino criado pela ONU em 1948 é composto de duas regiões não contínuas, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia.

- GUERRA DOS SEIS DIAS: Conflito ocorrido em 1967 que estabeleceu uma vitória militar completa de Israel/Estados Unidos. No final do conflito a Palestina não existia mais como nação independente já que foi totalmente anexada por Israel. Além da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, Israel tomou a Península do Sinai, do Egito e as Colinas de Golan, da Síria.

- INTIFADA: ou “revolta das pedras”. Designação dada a uma resistência civil dos palestinos contra Israel nas áreas ocupadas.

- OLP: Organização para a Libertação da Palestina, grupo criado na década de 60 onde se destacou a liderança de Yasser Arafat. A OLP defendia a luta armada contra o invasor e ações de impacto, como seqüestros de aviões, por exemplo, para chamar a atenção do ocidente para a sua luta. Na década de 90 a OLP acabou, transformando-se em ANP. Atualmente lideranças políticas palestinas falam em recriar a OLP agora com outras funções.

- ANP: Criada por Yasser Arafat nos anos 90 com o intuito de substituir as ações armadas e de terror contra Israel pela diplomacia, reconhecendo o estado judeu e negociando o reconhecimento por parte deste.
- HAMAS e FATAH: grupos políticos e ativistas dos palestinos. São rivais e, de certa forma, inimigos. O Hamas não é reconhecido por Israel e governa (depois de eleito em eleições livres) a Faixa de Gaza. O Fatah consegue dialogar diplomaticamente com Israel e governa (também foi eleito) a Cisjordânia.

- LIKUD: Partido político radical de Israel. Defensor da manutenção do controle da questão palestina mantendo-se o uso da força. O diálogo que se pretende avançar em busca da paz com os palestinos sempre é mais difícil (ou impossível) quando esse grupo, como agora, está no poder.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A CULPA SEMPRE É DO POBRE

Roma foi o maior império da antiguidade. Unificou seu poder das ilhas da Bretanha às fronteiras da Índia, do Egito ao norte da África às terras próximas da Escandinávia. Este vasto Império explorou a exaustão o trabalho escravo. Havia escravos em Roma para todos os serviços e atividades, desde lecionar (sim, professores sempre foram escravos) até lutar e morrer para a diversão da platéia nos estádios. Desde que Roma caiu sob as patas dos cavalos dos “bárbaros” os historiadores consideraram o seguinte: a causa da queda do gigante foi... dos escravos. Sim, foi o excesso de escravos nas atividades remuneradas que fez crescer o desemprego entre a população livre, a inflação, etc., que por fim fez ruir o maior império do ocidente. Não foi a ganância, a vaidade, a exploração. Foram os escravos. Sugados até o bagaço ainda carregam para a eternidade a culpa do fim do mundo romano.

Na Idade Média, os grandes latifundiários compunham a nobreza. Junto com o clero, concentravam toda a riqueza da época: a posse da terra. Os pobres, os miseráveis, trabalhavam para os donos de terra de sol a sol, sem salário, sem sindicato, sem elogios, nem hora extra. Eram os servos. Uma espécie de escravo que não era escravo só porque não era um mero instrumento que pudesse ser comprado ou vendido, mas que no mais, vivia igual ou pior que o escravo romano do passado. Quando esse mundo pré-determinado pelo nascimento entrou em decadência, com pestes mortais, fome e guerras infindáveis, os analistas consideraram que a culpa foi... dos servos. Seu crescimento populacional sem ser acompanhado por mais terras para feudalizar, e a busca desses infelizes de uma vida melhor através do comércio provocaram a ruptura do mundo feudal.

Hoje, o capitalismo que até uma década atrás se pavoneava como o modelo social perfeito, vencedor de todas as disputas e cujos defensores chegaram a alardear o fim da história, esse capitalismo, como o conhecemos, agoniza. Potências econômicas no divã, não sabem o que fazer para conter a decadência de suas moedas, de seus valores, de suas economias de papel. No sufoco, buscam culpados e os culpados são... os pobres.

Sim, são as políticas públicas, os investimentos públicos em saúde, previdência, educação, transporte, em síntese, os gastos públicos renomeados de déficit público os culpados. Os pobres, claro, só podiam ser eles. A culpa não é do gasto excessivo em guerras. Nem são das falcatruas criadas nas instituições especulativas internacionais. Nem da especulação gananciosa e sem freios que nada cria além de uma neurótica rede de mentiras. Não. A culpa é do remédio gratuito. Do valor da aposentadoria. Do aposentado ainda com saúde para trabalhar. Das leis trabalhistas. A culpa é dos pobres.

Quando o presidente Obama injeta aquela avalanche de dinheiro “na economia” ele está investindo que dinheiro? O do contribuinte, e sabemos bem que a contribuição maior é a do pobre. Pra onde deveria ir? Para os investimentos públicos, lógico, pois nesse país, nem saúde pública gratuita existe. Mas pra onde realmente irá? Para os cofres bancários “salvar o sistema financeiro nacional”, ou seja, salvar os coitadinhos dos bancos que faliram vendendo imóveis que não existiam, publicando saldos de lucros mentirosos para vender suas ações na bolsa, na ciranda imoral das falcatruas.

Essa associação do “sistema financeiro” com “nacionalismo” foi o argumento usado para convencer os povos da necessidade da Primeira Guerra Mundial. Essa associação é indevida e mentirosa pois povo e banco não são, nunca foram e jamais serão a mesma coisa e jamais habitarão o mesmo barco.

O discurso do momento, repetido por todos os governantes, que faz eco em todos os meios de comunicação é esse: a culpa da crise é o déficit público, os gastos públicos.

Por favor, não caia nessa, mentira.
A culpa não é dos pobres.

Prof. Péricles

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

TRÊS JORNALISTAS

Em tempos de polêmica sobre a mídia, apresentamos a seguir três histórias de jornalistas que ajudaram, por bem ou por mal, a escrever a história do Brasil.

01) Morre o Jornalista, Cai Um Imperador.

Líbero Badaró, nasceu na Itália e mudou-se para o Brasil em 1826. Médico formado pelas Universidades de Turim e Pávia, mas era de escrever que gostava mais. No Brasil se radicou em São Paulo, fundou o jornal “O Observador Constitucional” tornando-se seu diretor e redator chefe. Liberalista, defendia causas populares e progressistas para sua época. Tornou-se crítico voraz do primeiro imperador do Brasil. Noticiou e comentou com entusiasmo os acontecimentos da Revolução de 1830 em Paris, defendendo que D. Pedro I era figura política autoritária, idêntica ao deposto Carlos X.

As 22 hs. do dia 20 de novembro de 1830, quando voltava pra casa na rua de São Sepé (hoje rua Líbero Badaró) foi cercado por quatro elementos e fuzilado com um tiro fatal de bacamarte. Segundo testemunhas antes de morrer teria dito “morro defendendo a liberdade”.

A morte do jornalista italiano causou uma comoção em São Paulo, onde 5 mil pessoas compareceram ao enterro, e no restante do país.
D. Pedro I foi responsabilizado pela morte (apenas uma pessoa foi presa, porém logo libertada) e esse foi um forte componente na crise política que derrubou o imperador que abdicou em 07 de abril de 1831.

02) O Atentado que Feriu o País.

Carlos Lacerda fundou o jornal “Tribuna da Imprensa” em 1949. Esse talentoso jornalista e orador foi vereador, deputado e Governador da Guanabara. Mas, seu sonho mesmo, era ser presidente. O problema é que para ser presidente ele deveria enfrentar uma eleição nacional e vencê-la, e isso, parecia não agradar Lacerda, um golpista nato, que tentou impedir a posse de JK, foi pivô da crise que levou Getúlio Vargas ao suicídio, apoiou Jânio Quadros e depois tentou derrubá-lo, e, finalmente, foi um dos articuladores do golpe militar de 1964, embora tenha sido rejeitado posteriormente pelo regime. É mole, ou quer mais?

No dia 5 de agosto de 1954, quando retornava para casa na Rua Toneleros, acompanhado do amigo major-aviador Rubens Florentino Vaz, Carlos Lacerda sofreu um atentado a tiros. Como saldo do atentado o Major morreu e Lacerda ficou ferido, com um tiro no pé. O raciocínio da época foi o seguinte: Lacerda, líder da UDN (partido de oposição ao presidente Getúlio Vargas) e jornalista tagarela que diariamente atacava o presidente em seu jornal “Tribuna da Imprensa” e assim, encarnara o anti-getulismo, sofrera um atentado à bala. Quem seria o mentor? Quem? Ula-la, ele mesmo, o próprio presidente seria o maior interessado em calar a boca do desafeto. O próprio Lacerda jogou lenha na fogueira e uma semana após o atentado já pedia, em seu jornal, a deposição do presidente da república.

Resultado? Na madrugada de 24 de agosto, ou seja, apenas 19 dias depois do tiroteio, o presidente Getúlio Dorneles Vargas se suicidava nas dependências do Palácio do Catete. Um tiro no peito que iria ter profundas conseqüências na história do Brasil.

03) O Jornalista do Suicídio Impossível

Em 1975 o regime militar mantinha-se em pé em terreno movediço. O governo Médice, período de maior terror do regime, havia acabado em 1974 e o novo General na presidência, Gen. Geisel, anunciava a abertura política, lenta e gradual de retorno à democracia. Isso exigia estratégia e atenção permanente para acomodar as “peças” no tabuleiro político, tanto os que pressionavam para o retorno à normalidade, como não desagradar a ala dura do regime que defendia mais tempo de ditadura. Geisel se equilibrava numa corda bamba e por isso seu governo é denominado de “pendular”, pois recheado de idas e vindas, entre o arbítrio e a abertura. Um fato que sacudiria a corda bamba foi a morte de um jornalista.

O jornalista Vladimir Herzog tinha então, 38 anos. Pai de sois filhos e diretor de jornalismo da TV Cultura de São Paulo, não era militante de nenhum partido político ou de qualquer organização de luta contra a ditadura.

No dia 24 de outubro de 1975, Herzog despediu-se da família com um “já volto e compareceu ao DOI-CODI de São Paulo para prestar depoimento sobre sua suposta proximidade com o PCB. No dia seguinte, 25 de outubro, em nota oficial desse órgão da repressão era anunciada a morte do Jornalista Vladimir Herzog por suicídio através de enforcamento na cela em que estava detido.

Para comprovar o fato, foram divulgadas na imprensa, fotos de Vladimir como supostamente havia sido encontrado pelos carcereiros. Para espanto de todos a foto mostrava Vladimir com a corda atada ao pescoço e a uma das grades, numa posição abaixo da própria altura. Para morrer por asfixia, o suicida teria que fazer muita força, sentado, abaixando a cabeça até o chão e não erguendo-a até a asfixia fazer seu trabalho. Considerando-se o instinto de sobrevivência, a patética foto mostrava a impossibilidade do enforcamento.

Três anos depois, no dia 27 de outubro de 1978, novas fotos saídas dos abismos do terror, mostravam Vladimir Herzog nu, com a cabeça entre as mãos em evidente estado de perturbação própria dos torturados. O processo movido pela família do jornalista revelou a verdade sobre a morte de Herzog. A União foi responsabilizada pelas torturas e pela morte do jornalista. Foi o primeiro processo vitorioso movido por familiares de uma vítima do regime militar contra o Estado.


Prof. Péricles

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

MAZDA X ARIMÃ


A história dos persas como civilização, inicia-se realmente quando Ciro, o grande, líder dos Persas, derrota seus vizinhos, primos e eternos rivais, os Medas ou Medos. Isso ocorreu no século VII a.C.

Após a vitória, Ciro não esmagou o adversário vencido, como era de se esperar, mas ofereceu a este, um plano de fartura. Ciro pretendia a união dos dois povos, persas e medas, formando um só povo, sob seu comando.

A maioria dos Medos aceitou a proposta de bom grado. Uma parcela, que não aceitou, foi então, convidada por Ciro a migrar em busca de outros ares, e essa, aliás, é a origem de um importante povo da atualidade sem pátria, os Curdos.

Inteligente, hábil, único não hebreu nomeado como “enviado de Deus” no antigo testamento (ele libertou os hebreus escravizados na Babilônia e os levou de volta à Palestina), Ciro deu origem ao que poderíamos chamar de o primeiro
Império da antiguidade, onde os inimigos derrotados em guerras expansionistas não eram massacrados (e suas edificações destruídas), mas mantidos relativamente livres, na condição de Província (Satrápias), acessa ao imperador dos Persas.

Claro que, além da união política proposta, estava também a obrigatoriedade de pagar tributos anuais ao governo de Persépolis (capital do Império), e para isso eram designados sátrapas, fiscais do governo central (olhos e ouvidos do rei) para impedir sonegações e prever rebeliões.

Os imperadores persas esmeraram-se na construção de estradas que unissem as diferentes Satrápias à capital do Império e entre si. Criaram também, o primeiro serviço regular de correios do mundo.

Esse povo conhece também, uma interessante religião estruturada por seu profeta-mor Zaratrusta ou Zoroastro. Nessa religião existiam dois deuses: Mazda (deus do bem, da luz e da ordem) e Arimã (deus do mal, das trevas, do caos).
Esses deuses estavam em eterna luta pelo controle do universo, e os homens, que após a morte seriam julgados e levados para o reino divino em que mais estivessem identificados, com suas ações determinavam qual deles era preponderante.

O primeiro grande império da humanidade teve duração, relativamente curta. Após conquistarem o oriente próximo, os reinos da mesopotâmia e o Egito, ao norte da África, seus interesses comerciais os levaram a cobiçar o porto de Atenas que dominava as rotas do Mar Egeu e à guerra contra os gregos (Guerras Médicas), em que foram vencidos, em duas campanhas.

A partir das derrotas nas Guerras Médicas (vem de Medas, como os persas eram chamados pelos gregos) o império entrou em decadência e acabaria sendo totalmente conquistado por Alexandre, o grande, na formação de outro império meteórico, o Império Macedônico, no século IV a.C..

O Irã é, e está, onde se originou a Pérsia. Até 1933 o nome oficial do país era Pérsia.

O povo iraniano, incorretamente identificado até pela mídia como árabe, é, portanto, persa e não árabe. A chegada do islamismo à região ocorreu no século VII da nossa era, durante o Jihad muçulmano, a expansão da fé após a morte de Maomé.

Até 1979 foi governado por um monarca denominado de Xá (o último foi o Xá Rezza Pahlev) e muito próximo do ocidente.
Nesse ano de 1979 ocorreu a chamada “Revolução Xiita” do Aiatolá Komeine, que do seu exílio, em Paris, comandou a revolta liderada por estudantes que derrubou o governo do Xá.

Desde então o país adotou os preceitos de um governo fundamentalista cuja autoridade máxima é exercida por um Conselho de Aiatolás (autoridade religiosa máxima entre os xiitas) e o Corão fundamenta a Constituição.

O governo iraniano é acusado de violentar direitos humanos reconhecidos internacionalmente, apedrejar mulheres consideradas infiéis e intolerância contra os homossexuais.

O Presidente Ahmedinejah, por sua vez, faz aumentar a polêmica, com declarações nada amenas. Em discurso na ONU teria afirmado que o Holocausto judeu na Segunda Guerra Mundial não existiu e foi forjado pela propaganda sionista. Em outra oportunidade afirmou que no Irã não existem homossexuais, já que o país não os admite, entre outras afirmações.

Atualmente o Irã (ou Pérsia) está no centro de grande polêmica internacional que ameaça degringolar para uma guerra de efeitos imprevisíveis.

Possui um programa nuclear voltado, segundo seus governantes, para objetivos pacíficos.

Acusado por Israel e Estados Unidos de que seu programa busca construir armas nucleares e atacar Israel o governo de Ahmedinejah rebate e afirma que só louco atacaria Israel com armamento nuclear já que Israel possui, não uma, mas centenas de armas nucleares.

Apesar de não ter condições bélicas de derrotar as forças norte-americanas e israelenses, o Irã possui reconhecida capacidade de atacar o estado judeu, bloquear o Estreito de Ormuz por algum tempo e de exportar a guerra a toda a região do Oriente Médio.

Dias aflitivos vivem os que torcem pela paz Aflição que, infelizmente, os Estados Unidos pré-eleitoral e Israel do Likud, parecem não ter interesse em extinguir.

Observando-se o cenário atual parece que o velho Zaratrusta diria que Arimã está derrotando Mazda, de goleada.

Prof. Péricles

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

SALVAR VIDAS OU O CAPITAL?

Frei Betto

O melhor Papai-Noel do mundo: 523 instituições financeiras europeias receberam quatro dias antes do Natal: 489 bilhões de euros (o equivalente a R$ 1,23 trilhão), emprestados pelo BCE (Banco Central Europeu) a juros de 1% ao ano!

Curiosa a lógica que rege o sistema capitalista: nunca há recursos para salvar vidas, erradicar a fome, reduzir a degradação ambiental, produzir medicamentos e distribuí-los gratuitamente. Em se tratando da saúde dos bancos, o dinheiro aparece num passe de mágica!

Há, contudo, um aspecto preocupante em tamanha generosidade: se tantas instituições financeiras entraram na fila do bolsa-BCE, é sinal de que não andam bem das pernas…

Quais os fundamentos dessa lógica que considera mais importante salvar o Mercado que vidas humanas? Um deles é este mito de nossa cultura: o sacrifício de Isaac por Abraão (Gênesis 22, 1-19).

No relato bíblico, Abraão deve provar a sua fé sacrificando a Javé seu único filho, Isaac. No exato momento em que, no alto da montanha, prepara a faca para matar o filho, o anjo intervém e impede Abraão de consumar o ato. A prova de fé fora dada pela disposição de matar. Em recompensa, Javé cobre Abraão de bênçãos e multiplica-lhe a descendência como as estrelas do céu e as areias do mar.

Essa leitura, pela ótica do poder, aponta a morte como caminho para a vida. Toda grande causa - como a fé em Javé - exige pequenos sacrifícios que acentuem a magnitude dos ideais abraçados. Assim, a morte provocada, fruto do desinteresse do Mercado por vidas humanas, passa a integrar a lógica do poder, como o sacrifício "necessário” do filho Isaac pelo pai Abraão, em obediência à vontade soberana de Deus.

Abraão era o intermediário entre o filho e Deus, assim como o FMI e o BCE fazem a ponte entre os bancos e os ideais de prosperidade capitalista dos governos europeus - que, para escapar da crise, devem promover sacrifícios.

Essa mesma lógica informa o inconsciente do patrão que sonega o salário de seus empregados sob pretexto de capitalizar e multiplicar a prosperidade geral, e criar mais empregos. Também leva o governo a acusar as greves de responsáveis pelo caos econômico, mesmo sabendo que resultam dos baixos salários pagos aos que tanto trabalham sem ao menos a recompensa de uma vida digna.

O deus da razão do Mercado merece, como prova de fidelidade, o sacrifício de todo um povo. Todos os ideais estão prenhes de promessas de vida: a prosperidade dos bancos credores, a capitalização das empresas ou o ajuste fiscal do governo. Salva-se o abstrato em detrimento do concreto, a vida humana.

O espantoso dessa lógica é admitir, como mediação, a morte anunciada. Mata-se cruelmente através do corte de subsídios a programas sociais; da desregulamentação das relações trabalhistas; do incentivo ao desemprego; dos ajustes fiscais draconianos; da recusa de conceder aos aposentados a qualidade de uma velhice decente.

A lógica cotidiana do assassinato é sutil e esmerada. Aqueles que têm admitem como natural a despossessão dos que não têm. Qualquer ameaça à lógica cumulativa do sistema é uma ofensa ao deus da liberdade ocidental ou da livre iniciativa. Exige-se o sacrifício como prova de fidelidade. Não importa que Isaac seja filho único. Abraão deve provar sua fidelidade a Javé. E não há maior prova do que a disposição de matar a vida mais querida.

A lógica da vida encara o relato bíblico pelos olhos de Isaac. Este não sabia que seria assassinado, tanto que indagou ao pai onde se encontrava o cordeiro destinado ao sacrifício. Abraão cumpriu todas as condições para matar o filho. Subjugou-o, amarrou-o, colocou-o sobre a lenha preparada para a fogueira e empunhou a faca para degolá-lo.

No entanto, inspirado pelo anjo, Abraão recuou. Não aceitou a lógica da morte. Subverteu o preceito que obrigava os pais a sacrificarem seus primogênitos. Rejeitou as razões do poder. À lei que exigia a morte, Abraão respondeu com a vida e pôs em risco a sua própria, o que o forçou a mudar de território.

Se não mudarmos de território – sobretudo no modo de encarar a realidade -, como Abraão, continuaremos a prestar culto e adoração a Mamom. Continuaremos empenhados em salvar o capital, não vidas, e muito menos a saúde do planeta.


[Frei Betto é escritor, autor de "Sinfonia Universal – a cosmovisão de Teilhard de Chardin” (Vozes), entre outros livros.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

EXPECTATIVAS PARA 2012 (Estados Unidos e Brasil)

ESTADOS UNIDOS
Na política externa as eleições de novembro serão decisivas.

Segundo alguns analistas, existe um “Projeto Republicano” inaugurado pelo presidente Bush (pai) e continuado pelo Bush filho, de dominação militar da área do petróleo. Por esse projeto, os Estados Unidos praticamente forçaram as duas guerras contra o Iraque (até, finalmente dominar o país) e invadiram o Afeganistão. Mas, a eleição de Obama (Partido Democrata) fez com que o projeto se mantivesse em suspenso, devendo ser a questão da Líbia vista em outro contexto que não do projeto original. Caso algum candidato republicano vença em novembro, e, se realmente esse projeto existir, o Irã e a Síria deverão ser atacados em breve. Se Obama for reeleito haverá um jogo de forças entre os que defendem e se opõem à esse projeto militarista considerando que ele realmente exista. A balança penderá para as forças que forem decisivas para a vitória da reeleição do presidente.

De qualquer forma esse ano de 2012 exigirá definições norte-americanas no Oriente Médio. O apoio irrestrito a Israel está cada vez mais difícil, principalmente após o reconhecimento da ONU ao governo palestino da ANP. Ou esse apoio se cristaliza, por exemplo, com um ataque à usina nuclear do Irã, ou o governo de Washington terá que forçar uma reaproximação de Israel com o Hamas. Como está é que não pode ficar.

Dentro de casa, se Obama vencer ganhará muito mais força política para impor algumas questões sociais que lhe são caras, como o atendimento médico público. Questões como essa, foram eleitas por Obama como o marco histórico que pretende deixar na passagem do primeiro negro pelo governo dos EUA. Caso algum candidato republicano vença, o projeto de saúde vai direto para o ralo e poderemos esperar medidas econômicas ortodoxas, como cortes profundos no chamado déficit público (que é como chamam os investimentos em ações sociais).

Parece que 2012 não promete ser um ano ameno para os americanos. E essa eleição, por tudo isso, deverá ser cheia de golpes sujos e dedo nos olhos.

BRASIL

O Brasil está diante de mais um desafio: é necessário crescer menos. Tudo na vida em excesso faz mal, até desenvolvimento, e aprendemos isso com os Estados Unidos na crise de 1929 representada pela quebra da Bolsa de Nova York. Os índices de desenvolvimento deverão ser menores até para acompanhar os passos da crise internacional e não se “isolar” dela, mas, deverão existir. Ou seja, como dizia Pinheiro Machado quando percebeu seu carro cercado de olhares hostis em 1917 “devemos andar, nem tão devagar que pareça provocação, nem tão rápido que pareça covardia”.

Como fazer isso? Esse é o desafio da área econômica. Sem nunca esquecer que alguns países, hoje com economia dependente da nossa, como a Argentina, precisam andar no mesmo compasso para que não ocorra um desequilíbrio regional.

Devemos nos livrar da dependência das exportações de comodites, restringir o crédito interno, investir num confronto com a China pelos mercados Europeus setoriais, como o de calçados? Perguntas que aguardam respostas esse ano.

Teremos em 2012 a Rio +20, Conferência organizada pela ONU na seqüência iniciada com a ECO-92, também no Rio de Janeiro. A atenção do mundo estará voltada para cá, pois não é mais possível adiar decisões sobre a questão climática do planeta. O fracasso da Conferência de Durban, no final de 2011, não permite mais protelações.

Haverá em outubro, eleições para prefeituras municipais. Mais do que um embate político regional, essas eleições terão enorme significado para as próximas eleições presidenciais.

Pela primeira vez depois de muitos anos, o PT ameaça o feudo tucano que é São Paulo. A candidatura Fernando Haddad, ex-ministro da educação, que deverá ter apoio direto de Lula, somada à crise nas hostes tucanas, onde José Serra e Fernando Henrique Cardoso parecem um casal à beira de um ataque de nervos, possui reais possibilidades de vitória. Se essa vitória se consolidar e o PT vencer no coração do PSDB no mapa eleitoral brasileiro, o caminho para uma reeleição de Dilma Roussef parece, desde já, livre e sem ameaças reais.

Veremos.


Prof. Péricles

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A COPA (NÃO) É NOSSA



Por Frei Beto


Para bem funcionar, um país precisa de regras. Se carece de leis e de quem zele por elas, vale a anarquia.  O Brasil possui mais leis que população. Em princípio, nenhuma delas pode contrariar a lei maior – a Constituição. Só em princípio. Na prática, e na Copa, a teoria é outra.

Diante do megaevento da bola, tudo se enrola. A legislação corre o risco de ser escanteada e, se acontecer, empresas associadas à FIFA ficarão isentas de pagar impostos. 

A lei da responsabilidade fiscal, que limita o endividamento, será flexibilizada para facilitar as obras destinadas à Copa e às Olimpíadas. Como enfatiza o professor Carlos Vainer, especialista em planejamento urbano, um município poderá se endividar para construir um estádio. Não para efetuar obras de saneamento...

A FIFA é um cassino.  Num cassino, muitos jogam, poucos ganham. Quem jamais perde é o dono do cassino. Assim funciona a FIFA, que se interessa mais por lucro que por esporte. Por isso desembarcou no Brasil com a sua tropa de choque para obrigar o governo a esquecer leis e costumes.

A FIFA quer proibir, durante a Copa, a comercialização de qualquer produto num raio de 2 km em torno dos estádios. Excetos mercadorias vendidas pelas empresas associadas a ela. Fica entendido: comércio local, portas fechadas. Camelôs e ambulantes, polícia neles!

Abram alas á FIFA! Cerca de 170 mil pessoas serão removidas de suas moradias para que se construam os estádios. E quem garante que serão devidamente indenizadas?

A FIFA quer o povão longe da Copa. Ele que se contente em acompanhá-la pela TV. Entrar nos estádios será privilégio da elite, dos estrangeiros e dos que tiverem cacife para comprar ingressos em mãos de cambistas. Aliás, boa parte dos ingressos será vendida antecipadamente na Europa.

A FIFA quer impedir o direito à meia-entrada.  Estudantes e idosos, fora! E nada de entrar nos estádios com as empadas da vovó ou a merenda dietética recomendada por seu médico. Até água será proibido.  

Todos serão revistados na entrada. Só uma empresa defast food  poderá vender seus produtos nos estádios.  E a proibição de bebidas alcoólicas nos estádios, que vigora hoje no Brasil, será quebrada em prol da marca de uma cerveja made in usa.

Comenta o prestigioso jornal Le Monde Diplomatique: “A recepção de um megaevento esportivo como esse autoriza também megaviolação de direitos, megaendividamento público e megairregularidades.”

A FIFA quer, simplesmente, suspender,  durante a  Copa, a vigência do Estatuto do Torcedor, do Estatuto do  Idoso e do Código de  Defesa do Consumidor. Todas essas propostas ilegais estão contidas no Projeto de lei 2.3302011, que se encontra no Congresso. Caso não seja aprovado, o Planalto poderá efetivá-las via medidas provisórias.  

Se você fizer uma camiseta com os dizeres “Copa 2014”, cuidado. A FIFA já solicitou ao Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) o registro de mais de mil itens, entre os quais o numeral “2014”. 

(Não) durmam   com um barulho deste: a FIFA quer instituir tribunais de exceção  durante a  Copa. Sanções relacionadas à venda de produtos, uso de ingressos e publicidade. No projeto de lei acima citado, o artigo 37 permite criar juizados especiais, varas, turmas e câmaras especializadas para causas vinculadas aos eventos. Uma Justiça paralela! 

Na África do Sul, foram criados 56 Tribunais Especiais da Copa. O furto de uma máquina fotográfica mereceu 15 anos de prisão! E mais: se houver danos ou prejuízo à FIFA, a culpa e o ônus são da União. Ou seja, o Estado brasileiro passa a ser o fiador da FIFA em seus negócios particulares.

É hora de as torcidas organizadas e os movimentos sociais porem a bola no chão e chutar em gol. Pressionar o Congresso e impedir a aprovação da lei que deixa a legislação brasileira no banco de reservas. Caso contrário, o torcedor brasileiro vai ter que se resignar a torcer pela TV.


Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

EXPECTATIVAS PARA 2012 (Europa e América Latina)

EUROPA
A Europa encontra-se numa encruzilhada.

De um lado a crise financeira que corrói diariamente o Euro. Essa crise, que iniciou nos Estados Unidos e se expandiu pelo velho continente, é hoje, o foco das maiores preocupações de seus governantes, até porque, cinco governos já ruíram diante dela: Finlândia, Portugal, Espanha, Itália e Grécia.
Hoje, o maior temor de seus economistas é que a crise rompa a zona do Euro fazendo que algum dos países membros da Comunidade se desligue do Euro, retornando a moeda antiga. Caso isso aconteça, o Apocalipse estará próximo. Outro efeito imediato da crise financeira é com a necessidade (segundo seus economistas) de cortar gastos públicos, o que invariavelmente traz consigo crises sociais, povo na rua e conflitos.

Por outro lado, velhos pesadelos aproveitam-se da situação para retornar ao cenário político europeu. Xenofobia, nacionalismo extremado, fascismo. Velhos monstros considerados mortos ressuscitam (ou jamais estiveram mortos?) e tiram o sono que já sentiram na carne e na alma as consequências do crescimento desses vilões das democracias.

Portugal, Islândia, Grécia e Espanha, formam hoje o PIGS, grupo de perigo imediato a uma hecatombe econômica. Mas, a Itália, correndo por fora, pode entornar essa caldo antes que o esperado.

Nas eleições francesas estará em teste a sobrevivência do governo Nicolau Sarkosy.

Esse ano haverá Olimpíadas na Inglaterra (país fora da Zona do Euro) e a esperança do reerguimento econômico do continente passa por uma reavaliação dos custos sociais do desenvolvimento e da necessidade de ampliar a união, coisa que os jogos podem inspirar.

AMÉRICA LATINA

O Peru, do recém empossado Presidente Ollanta Humala será observado de perto por seus vizinhos. É mais um presidente de esquerda na região. Será possível avançar para a construção de uma UNASUL livre e soberana? Keiko Fugimori e seus neoliberais podem ser os fiéis da balança no país da prata e do peixe.

Ao que tudo indica Hugo Chaves vencerá mais uma eleição livre na Venezuela ganhando assim, mais tempo para promover sua revolução Bolivariana.

Evo Morales, da Bolívia, parece perdido em terreno movediço. Após ordenar a construção de uma estrada que cortaria territórios indígenas, voltou atrás, pediu perdão aos seus índios (ele também é um índio) e agora enfrenta pressões do grande capital (inclusive brasileiro) para tomar uma decisão definitiva sobre a obra.

E que a justiça ilumine e abençoe as mentes dos argentinos que seguem, sem medo, julgando, condenando e prendendo seus ditadores e torturadores. Ao menos, na Argentina, o horror vai pensar duas vezes antes de tentar retornar ao poder. Coisa que não se pode dizer de países de condição moral mais frágil, como o Brasil.

Em Cuba seguem as reformas não noticiadas pela mídia amestrada do Brasil. Raul Castro, segue com vigor ampliando as bases de uma abertura cubana aos novos tempos, sem Fidel, cada vez mais adoentado. Entre as mudanças, a demissão de milhares de funcionários públicos que agora, vagueiam entre o desemprego e a desesperança, coisa que capitalista adora, e chama de justiça social.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O MUNDO DE PÉRICLES 3 - FINAL



O ano é 430 a.C.

Você chega desconfiado, vindo do norte. Atravessa a pé e sem problemas o pequeno rio Iliso e eu estou te esperando na outra margem.

Te convido a seguir comigo, e a passos lentos seguimos a pequena estradinha de chão batido.

À medida que caminhamos as casas vão se “apertando” num número cada vez maior de moradias.

Faz sol e calor.

Você acha bonita a moldura dos pequenos montes próximos à cidade e eu te “apresento” os montes Parnaso e Pantélico enquanto seguimos rumo oeste, em direção ao centro da cidade.

Você então acha curioso um grupo de pessoas que parecem atentas, ouvindo um homem que fala mansamente e gesticula com enérgica tranqüilidade. Mas, fala a verdade, sua atenção foi atraída pela roupa do indivíduo, não foi? Uma bata longa, suja e amarrotada. Eu te explico que esse homem, que tem agora 39 anos (e que morrerá com 70 em 399 aC) é Sócrates. Sua atenta platéia está doida para pegá-lo em contradição. Fazem parte de uma gangue chamada Sofistas e são filósofos e professores que atendem à domicílio, mediante pagamento, claro. Sócrates adora confundi-los na sua própria soberba e o diálogo entre eles merece uma parada, que se estenderia por algumas horas, se não tivéssemos pressa. Você faz uma careta e eu digo antes que complete, sim... fede. Sócrates tem o péssimo hábito de detestar banho, por isso, talvez esse seja o preço mais caro em poder usufruir de sua sabedoria.

Em pouco tempo a paisagem se altera. Estamos agora numa praça, bem no centro de um amontoado de casas. Pessoas andam pra lá e pra cá. Você nota discussões acaloradas em vários pontos diferentes. As pessoas parecem nervosas e gesticulam às vezes, apontando o dedo para algum lugar mais ao sul.

Diante de seu olhar de interrogação eu te explico que estamos no meu lugar preferido de Atenas, a Ágora. Um espaço público. Um espaço do cidadão e do exercício da cidadania. É aqui, nessa praça no ponto mais baixo do sítio da cidade que o cidadão discute, formula hipóteses, troca idéias, no exercício da tal democracia, coisa que nasceu aqui e que o mundo tentará imitar.

Explico que eles estão nervosos porque os espartanos estão organizando uma expedição contra a cidade na guerra declarada um ano antes e que chamamos “Guerras do Peloponeso”. O que farão nossos estrategos responsáveis por criar as estratégias? A culpa dessa ameaça não será de Péricles que, aproveitando os recursos da Liga de Delos construiu, entre outras coisas o Partenon? (e apontam seu dedo para a parte, mas elevada da cidade, onde está a Acrópole e o próprio Partenon, cuja construção se concluiu a apenas 8 anos, em 438 aC). Daqui sairão as principais argumentações para a reunião na Eclésia de daqui a pouco, quando Péricles fará seu célebre discurso (onde até as pedras chorarão).

Mas, eu o apresso, o tempo é curto e o fim de tarde já dá seus primeiros sinais. Temos que subir para a Acrópole. Não podemos perder o discurso de Péricles e a agitação política daquela Polis, que hoje, é o centro do mundo.

No caminho, o número de transeuntes vai aumentando (Atenas, eu lhe digo, tem hoje algo em torno de 200 mil habitantes).

Você esbarra, e pede desculpas, em Aristófanes, dramartugo genial, autor de “As Nuvens”. Você fica sem jeito e me pergunta por Platão, seu filósofo preferido, e explico que, apesar de Platão morrer com 80 anos, no momento ele tem apenas 2 e, portanto ainda deve estar olhando a parede da caverna.

Um homem dá uma gargalhada e, expansivo agita os braços como se fosse voar. Nós rimos e eu falo em seu ouvido que esse é Fídias, escultor, arquiteto e gênio, amigo de Péricles. Embora não tenha projetado o Partenon (Ictinos de Mileto e Calícrates foram os projetistas) a ele “A Morada das Virgens” deve a beleza de suas formas imortais.

A Eclésia cada vez se enche mais, e nós procuramos um bom ponto para sentar, você está com os olhos cheios de alegria e expectativa pelo grande encontro quando... começa a despertar.

Você resiste ao chamado impiedoso da matéria. Busca apoio na mão de Palas Atena, deusa da inteligência, mas seus olhos frios de estátua não se movem por ti. É hora de ir.

Porém, enquanto alma eterna e atemporal permaneço, entre ruínas e sonhos, e entre sonhos em ruínas. Entre os ideais antropocêntricos naquele que foi o nosso mais glorioso momento.

Eu fico e te espero, alma inquieta, porque um dia, com certeza nos encontraremos, no mundo de Péricles

Prof. Péricles


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O MUNDO DE PÉRICLES - 2



Péricles foi o grande articulador da união das pólis sob a Liga de Delos. A ele foi depositada a confiança das demais cidades-estados tornando-o líder da Liga.

Teoricamente a Liga de Delos visava preparar os gregos militar e financeiramente para um novo ataque persa, dando continuidade às Guerras Médicas. Como esse ataque jamais ocorreu, Péricles usando todo seu talento de oratória, convenceu os membros da Liga a permitir o uso dos recursos para restaurar Atenas, em teoria, a mais atingida das cidades quando da última expedição dos persas.

A partir de então, Atenas conhecerá um período de incomparável explendor. Péricles e o escultor Fídias, seu amigo, embelezarão a cidade e darão fundamentos à construções que sobreviverão aos tempos, inclusive, o Partenom.

Em pouco tempo Péricles estabelece uma unificação monetária de todas as cidades de Delos, tendo o Dracma (moeda ateniense) como moeda única.

Prédios foram reconstruídos e o Porto de Atenas quase totalmente reformado.

Tais fatos elevarão Atenas sobre todas as outras cidades estados, levando os historiadores a identificar esse momento como de um imperialismo ateniense.

Obviamente isso atraiu a fúria e a inconformidade de Esparta que, além de não aderir à Liga de Delos, criara a sua própria Liga de cidades aliadas, a Liga do Peloponeso.

As Guerras do peloponeso, que se estenderiam de 431 a 404 a.C. seria a ruína da civilização grega. O fim da independência de seus povos e de todas as pólis, debilitadas, enfraquecidas pela guerra e finalmente conquistadas por Alexandre da Macedônia. E essa triste guerra que pôs fim à democracia ateniense e ao mundo grego teve, como causa mais profunda, a rivalidade das duas ligas, Peloponeso X Delos.

Em 430 a.C. o exército espartano atacou a Ática, porém Péricles manteve sua estratégia inicial de evitar o confronto direto com o exército espartano. Buscando o combate onde Atenas era superior, no mar, liderou uma expedição naval para saquear a costa peloponésica, obrigando os espartanos a recuar.

No verão daquele mesmo ano, uma epidemia devastou a população ateniense. Provocava dor de cabeça, dores no corpo e nas articulações, febre, calafrio e manchas vermelhas. A maioria acredita tratar-se do Tifo, transmitida pelo piolho. O pânico embruteceu os cidadãos. A fome grassou pelo rompimento das rotas comerciais naturais. Inconformados com a penúria provocada pela epidemia, desencadeou-se uma onda de revolta entre a população contra Péricles.

Então, para se defender, Péricles pronunciou um discurso emocionado, histórico, e considerado uma oração monumental, da amargura de Péricles a ingratidão de seus compatriotas.

Sobre o estilo de vida de Atenas ele diria:

- "A liberdade que gozamos no nosso sistema de governo estende-se também para a nossa vida em sociedade. Nós não exercemos uma invejosa espionagem uns sobre os outros (...) embora toda esta liberalidade nas relações privadas não nos torne cidadãos que não respeitam as leis".
- "Na educação, enquanto nossos rivais são treinados desde o berço para a guerra, em Atenas vivemos exatamente como queremos, e, assim mesmo, estamos preparados sempre para enfrentar qualquer desafio".

- "Nós Atenienses somos capazes de opinar sobre todos os temas, e, ao invés de encararmos as discussões como um obstáculo para a ação, nós as consideramos como a preliminar indispensável para qualquer ação prudente e sábia".

- "Na generosidade também somos singulares. As amizades nós conquistamos fazendo favores e não os recebendo, e somente nós os atenienses, sem medo, outorgamos benefícios não por interesse e sim na expectativa da reciprocidade. Esta é a Atenas pela qual estes homens, na afirmação do seu desejo de não perdê-la, nobremente lutaram e morreram."

No início de 429 a.C Péricles comandou o exército de Atenas em importantes vitórias no terreno militar. Porém, no outono desse mesmo ano, sofreria o golpe que lhe seria fatal e decisivo. Seus dois filhos (com a primeira esposa), Páralo e Xantipo, morrem, vítimas da epidemia.

Péricles jamais se recuperaria desse golpe e, em tempo meteórico desceria todos os degraus da dor, até a morte.

Passou a ter longos períodos de silêncio e crises compulsivas de choro. Nem mesmo Aspásia conseguia trazer de volta o equilíbrio. Tornou-se comum vê-lo à noite, perambulando entre os doentes terminais vítimas da epidemia.

No final de abril de 429 a.C. aos 66 anos, Péricles morreu, também vítima da peste, como parece ter sido sua vontade.

Com sua morte os destinos de Atenas e os rumos da Guerra do Peloponeso estavam definitivamente traçados, embora ainda durasse alguns anos.

Atenas, sem sua liderança, foi derrotada por Esparta, que seria derrotada por Tebas, que seria, assim como todo mundo grego, conquistada pelos Macedônios em 395 a.C.

O grande historiador grego, Tucídides, assim falou na oração fúnebre de Péricles:

“Pois os homens só podem suportar ouvir os outros sendo louvados enquanto podem persuadir a si mesmos acerca de sua própria habilidade de igualar os atos que estão sendo narrados. Uma vez que este ponto seja ultrapassado, surge a inveja, e com ela a incredulidade.”

Prof. Péricles