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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O GÊNIO DAS CURVAS




A regra geralmente prepondera sobre o inusitado.

As paralelas percorrem o universo até o infinito, lado a lado sem jamais se tocarem. E previsível e monótono.

O mais fácil sempre é o conforto. O de sempre, pois, apresentam resultados já conhecidos e esperados.

Filósofos gastaram suas vidas demonstrando a lógica matemática dos sólidos, as regras perfeitas dos ângulos e o que esperar de cada combinação aritmética.

O mais fácil é esperar pelo estabelecimento dessas fórmulas lógicas e viver como as paralelas, na certeza da previsibilidade infinita.

Por isso, o novo assusta. O pioneiro encanta, embora invejosos se apressem em dizer que tudo é muito simples, esquecendo que o simples antes da primeira vez, não havia sido tentado.

A linha reta é a mais séria de todas as formas.

Não admite brincadeiras, é soturna, sóbria e sem rodeios.

A linha reta não transgride à sua função, não permite soberba ou devaneios, é sólida e completa.

Já a curva é uma transgressão.

No seu molejo ela brinca no espaço, seduz a qualquer sobriedade, pinta e borda, vai e vem.

Enquanto a reta é homem, a curva é mulher.

A curva é incoerência que faz sentido ao mundo das formalidades. É devassidão, é conquista e desafio. A curva é sorriso.

A arquitetura antes de Oscar Niemeyer era reta.

Retratava a conquista e o poder.

Era econômica, prática e dura.

Oscar Niemeyer brincou com as formas, introduziu as curvas e inventou a leveza arquitetônica. Fez rir o mundo sombrio das construções.

Foi o novo. O Imprevisível. Trouxe a expectativa do resultado.

Com ele as paralelas finalmente se tocavam e o infinito era logo ali.

Inédito, pioneiro, gênio.

É claro que teve sorte, como todos os gênios.

Assim como Colombo teve a sorte de receber três naus para realizar seus sonhos, Niemeyer teve uma cidade inteirinha para construir. E, como criança num quarto cheio de brinquedos, ele brincou e brincou até se empanturrar, fazendo prédios, monumentos, igrejas e tudo o mais que faz parte de uma cidade a ser feita a partir de seus desenhos no papel. Enquanto algumas crianças brincavam de montar seus fortes ele os construiu.

Oscar Niemeyer foi o maior brincalhão da arquitetura.

Ele partiu levando consigo seus 104 anos de vida plenamente vivida e deve agora estar envolvido em outros projetos.

Repare bem, pode reparar se acha que estou mentindo.

Erga os olhos pro céu e confira se desde ontem, as nuvens não estão mais curvas, mais belas, e mais engraçadas.

Oscar Niemeyer morreu às 21:55 hs. de quarta-feira, 05 de dezembro de 2012, 10 dias antes de completar 105 anos. Foi o arquiteto que recebeu do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, a missão de construir Brasília em sua arquitetura. Era comunista militante do PCB, amigo de Luis Carlos Prestes. Teve que se exilar do país durante a Ditadura Militar. É reconhecido no mundo inteiro como um dos maiores gênios da arquitetura moderna mundial.

A esse grande brasileiro nós lançamos um beijo no ar, e temos certeza que, após algumas voltas e piruetas, entre algumas leves curvas, ele chegará ao seu destino.

Prof. Péricles

Um comentário:

Anônimo disse...

Prof. Péricles, excelente! só uma "coisita"... Ele faleceu no dia 05/12/2012. Ato falho, amigo querido..rsrsrs!
Bjão! Ivony