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domingo, 31 de março de 2013

ÍDOLOS DE PÉS DE BARRO




Houve um tempo, no Brasil e no mundo, em que todas as portas para a participação política estavam fechadas.

Um tempo em que se dizia amém antes mesmo da prece terminar e que toda a indignação, todo questionamento era proibido.

Tempo de guerras injustificáveis como a do Vietnã e de primaveras, como a de Praga.

Anos duros em que qualquer participação política era crime, a censura dava a última palavra e oposição apenas consentida, num verdadeiro faz-de-conta.

Nessa era de trevas, os inquietos e inconformados, especialmente a juventude, talvez pela natural chama ardente da idade, os intelectuais, operários, e o meio artístico, que quisessem protestar ou denunciar, tinham que ser criativos e buscar formas de fazê-lo sem perder a liberdade ou mesmo, a vida.

Então, o estilo de vida, o fazer e a forma de fazer determinadas coisas, tornaram-se por si mesmas, protestos e gritos sem sons.

Nesses tempos rebeldes, em especial a década de 60, 70 e parte da 80, os cabelos compridos, a roupa desbotada, o ritmo rebelde do rock e das motos turbinadas e o excesso de velocidade, assim como o consumo de drogas, assumiram ares de rebeldia e protesto, e, com o tempo, ocuparam um espaço na mitologia da juventude, assumindo contornos de estilo de vida.

Algumas drogas marcaram época como a maconha (a mais comum entre os brasileiros), morfina (consumida principalmente nos Estados Unidos e Europa) e o ácido lisérgico, o LSD. Este último tinha, inclusive, defensores públicos de sua liberação como agente facilitador para a compreensão de outras dimensões da existência, como o peyote seria entre os índios mexicanos.

Muitos ídolos desses tempos tiveram suas vidas ceifadas por esse modo de viver e até hoje ocupam o panteão dos heróis “imortais”: James Dean,(morto em 30/09/1955 em acidente de carro por excesso de velocidade), Marilin Monroe (morta em 05/08/1962 por ingestão de várias drogas), Jimi Hendrix (em 18/09/1970 por ingestão de comprimidos para dormir), Janis Joplin (03/10/1970 por overdose de heroína), Jim Morrison (vocalista da Banda The Doors em 03/07/71 na banheira de seu apartamento por overdose de álcool e outras drogas) e muitos outros.

Todos eles jovens, todos eles rebeldes, viraram estrelas de uma geração amordaçada, que vivia perigosamente, raspando no guard-rail da vida, mergulhada no álcool e namorando com a morte.

Mas, a vida é uma constante evolução, e o mundo não para sua rotação por nenhuma de nossas dores.

Novos tempos vieram. A democracia sobreviveu à tirania no Brasil, na Argentina, no Chile e em outros países. As guerras injustificáveis como as do Vietnã tornaram-se caras demais e acabaram, o socialismo real e a União Sovética entraram em declínio e acabaram, e, apesar dos grilhões, novas formas de luta acompanhadas de novas tecnologias surgiram.

O caráter e a função das drogas também se alteraram.

Hoje o uso abusivo de drogas lícitas e ilícitas não indica qualquer tipo de mensagem política e é fonte de verdadeira epidemia.

Ao contrário de representar qualquer embate pela liberdade o uso de drogas está associado à escravidão, pois a liberdade é impossível quando se é dependente.

A droga perdeu seu charme. Perdeu seu mito. A droga perdeu a graça.

Entretanto nem todas as cabeças assumiram essa nova mentalidade.

Ainda existem ídolos que acham cult viver no limite do suicídio, ser considerado louco e morrer na banheira, afogado no próprio vômito.

Se é verdade que as novas gerações precisam urgentemente de ídolos, não é menos verdade que precisam de ídolos sadios. Que tragam com seu carisma a força da vida e da juventude a serviço dos ideais maiores.

Chega de cultivar o doentio.

Temos que ter clareza que morrer chapado é coisa de otário. Ser encontrando num apartamento sangrando por dar chute em parede é burrice.

Negar seu talento à seus fãns por um crise de dor de cotovelo, não é bonito, é mesquinho.

Chega de perder gente talentosa, porém, manhosa.

Basta de cultivar ídolos de pés de barro.


Prof. Péricles


quarta-feira, 27 de março de 2013

O ÓDIO AO ENEM




por Paulo Moreira Leite

É claro que, como qualquer cidadão de bom senso, tenho muitas preocupações sobre a qualidade do ensino de nossas escolas e o desempenho dos jovens em todas as fases de aprendizado.

Mas confesso que não entendo o escândalo em torno das redações do ENEM. Ou melhor: entendo perfeitamente.

Não passa de uma combinação de nossa velha hipocrisia em relação à garotada, combinada com um esforço permanente para desmoralizar toda iniciativa destinada a fortalecer a educação pública.

Vamos combinar que o português é uma língua complexa, de regras muito particulares e assimilação difícil. As exceções são freqüentes, os casos especiais também.

O mais grave é que as regras são submetidas a reformas ortográficas periódicas, o que torna o aprendizado um esforço permanente. O sujeito mal conseguiu memorizar as mudanças quando é informado que em algum ponto do universo foram aprovadas novas regras por motivos que só estão claros para quem reside em outra galáxia.

Profissional que lida com a língua portuguesa há quatro décadas, confesso que freqüentemente me vejo às voltas com dúvidas e até cometo erros que poderiam ser motivo de humilhação pública num país onde a falta de educação formal chega a ser motivo de ofensa e preconceito.

No caso do ENEM, esse comportamento se agrava por um esforço para condenar uma postura descontraída e irreverente dos estudantes. Tudo bem que é meio esquisito um sujeito interromper uma redação e dar uma receita de Miojo. Ou fazer um elogio a seu time de coração.

Mas eu pergunto se isso é o mais importante. Provas de redação devem medir a capacidade de uma pessoa se expressar. Muito mais importante, portanto, é saber se a receita está bem redigida, com pontos, vírgulas e frases no local correto, do que implicar com o assunto escolhido. Basta ler a imprensa pátria para confirmar que a distinção entre assuntos sérios e assuntos leves, questões relevantes, puro entretenimento e bobagens comerciais tornou-se muito difícil de definir, certo?

Essa postura de afirmar autoridade sobre a juventude é um traço de comportamento daninho. Reflete insegurança em relação ao futuro.

No caso do ENEM, há um agravante. O combate a todo esforço de melhorar a qualidade do ensino público é uma das bandeiras sagradas que unem os meios de comunicação, a rede privada e a indústria de vestibulares.

Com muito mais virtudes do que defeitos, o ENEM é uma ameaça à ordem criada pela privatização da educação que se transformou em política de Estado durante o regime militar – e nunca foi questionada como era preciso.

Cabe às autoridades aprimorar o ENEM, sem impressionar-se com reações histéricas nem cair na armadilha de fazer inúteis demonstrações de autoridade diante de uma garotada que, desde o início dos tempos, apenas irá dar risada daqueles que não se esforçam para compreendê-la.


sábado, 23 de março de 2013

CONSELHOS DO CONSELHEIRO




Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo


Não tive uma infância pobre. Meu pai era comerciante e se não tínhamos luxo, ao menos, não vivíamos na miséria. Mas minha infância foi triste, pois perdi minha mãe, Maria Joaquina de Jesus, com apenas seis anos. Nunca superei essa perda.

Fui maltratado pela madrasta e até por meu pai em seus delírios de alcoolista, e por isso, construí um mundo só meu, onde me escondia para sobreviver a tanta amargura.

Para acelerar meu tempo nesse mundo só meu, estudei por conta própria português, geografia, francês e latim. Li de tudo, era um apaixonado por leitura, especialmente de lendas populares.

Lhe tenho amor, Lhe tenho horror. Lhe faço amor, Eu sou um ator

Aos 27 anos perdi também meu pai. Passei a cuidar da loja e cuidar de minhas três irmãs. Graças às minhas leituras e meu talento me tornei uma espécie de advogado sem diploma, que chamam de rábula. Dava aulas numa escolinha de fazenda, lá, depois do fim do mundo e ainda me tornei escrivão de cartório.

Diria, então, que estava com minha vida arrumada.

Nunca fui de muita sorte e tive o azar de casar com uma mulher que não me amava. Brasiliana Laurentina, minha prima de 15 anos, linda e deliciosa. Resultado? Numa noite sem estrelas ela fugiu com outro. Mais uma vez me senti sozinho e me escondi no mundo que criei pra mim.

Você sabe o que significava ser abandonado pela mulher numa cidade pequena do nordeste no final do século 19? Significava deboche, piadas, risadas escondidas, enfim, muita humilhação. Resolvi largar tudo, profissão que pagava bem, emprego que a mim sobrava. Tudo. Larguei e fui embora.

Eu quero dizer agora, o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante

Passei a andar pelo mundo como alguém que nada mais espera da vida. Claro que queria encontrar aqueles dois, mas, felizmente, jamais os encontrei. Perambulei não só pelo Ceará como também por outros estados e, para sobreviver dei uma de pedreiro, ofício que aprendi de meu pai, para restaurar capelas, igrejas e cemitérios.

Passei a ler os Evangelhos com desespero e fervor. E, repassei esse fervor aos humildes, aos analfabetos. Os pobre passaram a confiar na minha palavra e a me pedir conselhos. Consolava como podia e meus conselhos tornaram-se a panacéia dos miseráveis.

Tornei-me conhecido por Antonio Conselheiro e a ter meus passos seguidos por essa gente desamparada.

É chato chegar a um objetivo num instante
Eu quero viver nessa metamorfose ambulante


Padres e fazendeiros me odiavam. Os padres pela perda de prestígio junto ao povo que me seguia. Os fazendeiros pela perda de mão de obra abundante e barata que, comigo, ia embora.

Brasiliana morreu e fui acusado de tê-la assassinado. Queriam se livrar de mim, mas no julgamento provei minha inocência e tiveram que me soltar e meu povo passou a me ver como mártir e um perseguido, como eles próprios sempre foram.

Dezessete anos depois de começar minhas andanças, em 1893, me estabeleci numa fazenda abandonada às margens do rio Vaza-Barris, numa remota região do sertão baiano, conhecida como Canudos. Ali, fundei um povoado, o” Belo Monte”. Rapidamente, o vilarejo se transformou numa cidade de aproximadamente 20 mil habitantes.

Vivíamos da agricultura familiar, não havia propriedade da terra os lucros da venda de nossos produtos eram por todos divididos igualmente. Não havia patrão ou senhor. A constituição de nosso mundo estava escrita nas nossas responsabilidades que eram iguais, para todos e nos Evangelhos dos humildes.

Era um mundo paralelo, um mundo alternativo à dura realidade do sertão. Uma sociedade alternativa.

Em 1887, o arcebispo, junto ao presidente da província, me acusou de pregar doutrinas subversivas. Fui acusado de louco e anarquista e, após a proclamação da república, de monarquista. A Igreja e o latifúndio se uniam para afastar aquilo que não entendiam e que temiam.

Mundo igualitário? Justiça social? Ausência de propriedade? Era demais pra eles.

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo


Um dia, mandei arrancar das paredes e queimar, os editais que determinavam novas cobranças de impostos da gente do interior, que já não tinha mais como pagar e meus homens derrotaram os policiais que tentaram detê-los.

Depois disso, o sistema declarou guerra.

Entre outubro de 1896 e outubro de 1897 o governo do Presidente Prudente de Moraes enviou 4 expedições militares para nos matar. Vencemos as três primeiras, pois conhecíamos aquela região como a palma de nossa mão, mas fomos massacrados na quarta expedição cujo cerco a Canudos durou um mês e terminou no dia 5 de outubro de 1897.

Não houve prisioneiros, nem rendição. Perto de 25 mil pessoas, incluindo mulheres e crianças morreram. Segundo Euclides da Cunha, militar e escritor autor do livro “Os Sertões” sobre a Guerra de Canudos, um velho, um homem coxo e uma criança foram os últimos a tombar.

Antes disso, no início de setembro chamei meus ajudantes diretos e anunciei que iria morrer no final daquele mês. E, exatamente como previ me encontraram morto no leito no dia 22 de setembro de 1897. Tinha então, 67 anos.

Se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor.


E como eu previ? Previ porque aprendi no meu mundo que morremos quando morrem nossos sonhos e que nossos sonhos morrem quando não são sonhados por todos. O sistema não nos deixa sonhar nos educando para um mundo de exploração e ganância, nos fazendo crer que essa é a única maneira de viver.

Aprendi que um outro mundo é possível sim, mas somente se abdicarmos do mundo que nos é imposto e jogarmos nos Vaza-barris da vida, todas as máscaras que nos fazem mal e que se deixarmos aderem ao nosso rosto e nossa alma.

Temos que acreditar que tudo é possível até o impossível como o sertão virar mar e o mar virar sertão.

Mesmo que isso doa, mesmo que a gente chore, mesmo que se magoe temos que perder o medo de trocar de planos, de mudar de idéia e de chorar por todos.

Mesmo que isso te transforme numa metamorfose ambulante.

Eu vou lhe desdizer aquilo tudo que eu lhe disse antes
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante



Obs. Realmente o sertão virou mar com a construção entre 1951 e 1967 da Represa de Cocorobó que alagou toda a região de canudos, vista, atualmente somente em épocas de grandes secas.



Prof. Péricles

“Metamorfose ambulante”
Letra de Raul Seixas



quarta-feira, 20 de março de 2013

O PECADO DA OMISSÃO



Por Clóvis Rossi jornalista

Jorge Mario Bergoglio leva ao Vaticano um pecado imperdoável: foi no mínimo omisso durante o genocídio que a ditadura militar argentina praticou entre 1976 e 1983.

Nem é possível alegar que não era, então, uma figura destacada na hierarquia eclesiástica: foi provincial dos jesuítas entre 1973 e 1979. A parte mais selvagem da repressão se deu precisamente entre o golpe de 1976 e 1978, quando, a rigor, a esquerda armada já havia sido esmagada, junto com milhares de civis desarmados.

Há na Argentina quem acuse Bergoglio de ter sido pior do que omisso: o jornalista Horácio Verbitsky, autor de um punhado de livros sobre a ditadura, acusa o agora papa de ter sido cúmplice da repressão ao denunciar aos militares, como subversivos, sacerdotes que desempenhavam forte ação social.

Verbitsky diz possuir documentos obtidos na Chancelaria argentina que demonstram a veracidade de sua acusação.

Antes do conclave anterior (2005), um advogado da área de direitos humanos chegou a propor uma ação contra Bergoglio, acusando-o de ter sido cúmplice no sequestro de dois padres jesuítas em 1976.

Bergoglio sempre negou as acusações. Disse que, ao contrário, tentou proteger os jesuítas perseguidos.

O que não dá para negar é que Bergoglio passou em silêncio por um período negro da história argentina, em que o comportamento de sua igreja foi obsceno.

Não é, portanto, um cartão de visitas auspicioso para um papa condenado a enfrentar uma evidente crise de credibilidade, se não da igreja, pelo menos de sua cúpula.

A igreja argentina também perdeu credibilidade por sua pusilanimidade, para dizer o mínimo, durante a ditadura militar. Como correspondente da Folha em Buenos Aires de 1980 a 1983, fui testemunha ocular das intoleráveis omissões da hierarquia ante a violência do Estado.

Conto apenas um episódio menor para mostrar a covardia.

Um dado dia, as Madres de Plaza de Mayo pediram uma audiência aos bispos. Um grupo delas, todas senhoras de idade, rostos vincados pelo tempo e pela dor, foi até a sede da Conferência Episcopal Argentina para entregar uma petição, obviamente relacionada à violação dos direitos humanos.

Chovia, fazia frio, o vento era cortante. Pois os responsáveis pela igreja argentina não tiveram nem sequer a piedade de permitir que as senhoras esperassem no interior do imóvel. Ficaram mesmo ao relento, como a sociedade argentina ficou desprotegida pelos seus pastores durante toda a ditadura.

É dessa igreja que vem Bergoglio. Uma igreja que jamais pediu perdão por esse insuportável comportamento.

É possível que, tendo a Argentina da democracia passado a limpo o período do terror, a questão dos direitos humanos no passado seja deixada de lado ou vá para um pé de página no perfil do novo papa.

Entendo. Os homens passam a ser santos, ou quando morrem ou quando assumem o papado.
A ver se o papa Francisco corrigirá no Vaticano o pecado de omissão de Bergoglio.

domingo, 17 de março de 2013

POLÍTICA DE COTAS, UM SUCESSO



Por Elio Gaspari

Na essência da política de cotas há um aspecto que exaspera seus adversários: um estudante que vai para o vestibular sem qualquer incentivo de ações afirmativas tira uma nota maior que o cotista e perde a vaga na universidade pública. Quem combate esse conceito em termos absolutos é contra a existência das cotas, cuja legalidade foi atestada pela unanimidade do Supremo Tribunal e aprovada pelo Congresso Nacional (com um só discurso contra, no Senado). É direito de cada um ficar na sua posição, minoritária também nas pesquisas de opinião.

Uma coisa é defender as cotas quando a distância é pequena, bem outra seria admitir que um estudante que faz 700 pontos na prova deve perder a vaga para outro que conseguiu apenas 400. O que é diferença pequena? Sabe-se lá, mas 300 pontos seria um absurdo.

Os adversários das cotas previam o fim do mundo se elas entrassem em vigor. Os cotistas não acompanhariam os cursos, degradariam os curriculos e fugiriam das universidades. Puro catastrofismo teórico. Passaram-se dez anos, Ícaro Luís Vidal, o primeiro cotista negro da Faculdade de Medicina da Federal da Bahia, formou-se no ano passado e nada disso aconteceu. Havia ainda também as almas apocalípticas: as cotas estimulariam o ódio racial. Esse estava só na cabeça de alguns críticos, herdeiros de um pensamento que, no século XIX, temia o caos social como consequência da Abolição.

Mesmo assim, restava a distância entre o beneficiado e o barrado. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais divulgou uma pesquisa que foi buscar esses números no banco de dados do Sistema de Seleção Unificada. Neste ano as cotas beneficiaram 36 mil estudantes. Pode-se estimar que em 95% dos casos a distância entre a pior nota do cotista admitido e a maior nota do barrado está em torno de 100 pontos. Em 32 cursos de medicina (repetindo, medicina) a distância foi de 25,9 pontos (787,56 contra 761,67 dos cotistas).

O Inep listou as vinte faculdades onde ocorreram as maiores distâncias. Num caso extremo deu-se uma variação de 272 pontos e beneficiou uns poucos cotistas indigenas no curso de História da Federal do Maranhão. O segundo colocado foi o curso de Engenharia Elétrica da Federal do Paraná, com 181 pontos de diferença. A distância diminui, até que no 20º caso, do curso de Ciências Agrícolas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Federal do Rio Grande do Sul, ela ficou em 128 pontos.

Pesquisas futuras explicarão como funcionava esse gargalo, pois, se a distância girava em torno de 100 pontos, os candidatos negros e pobres chegavam à pequena área, mas não conseguiam marcar o gol. É possível que a simples discussão das ações afirmativas tenha elevado a auto-estima de jovens que não entravam no jogo porque achavam que universidade pública não era coisa para eles. Neste ano 864.830 candidatos (44,35%) buscaram o amparo das cotas.

A política de cotas ocupou 12,5% das vagas. Num chute, pode-se supor que estejam em torno de mil os cotistas que conseguiram entrar para a universidade com mais de cem pontos abaixo do barrado, o que vem a ser um resultado surpreendente e razoável. O fim do mundo era coisa para inglês ver.

sexta-feira, 15 de março de 2013

POLÍTICAS AFIRMATIVAS



Imagine que você e um grupo de amigos e vizinhos brasileiros, mudem-se, em definitivo, para outro país, por exemplo, a Bongoróvia.

Você e seus amigos são surpreendidos, logo na chegada, por condições de trabalho que, absolutamente não eram as esperadas por vocês e prometidas pelos empregadores que vieram buscá-los aqui, no Brasil.

Apesar disso, não há volta. Vocês queimaram o passaporte num compromisso pétreo exigido pelos que aqui vieram buscá-los. Então, vocês prosseguem no trabalho, embora se sentindo passados para trás.

O tempo passa e as condições só pioram. Os filhos crescem, você envelhece, os netos chegam, e você ainda dando duro sem poder se aposentar. Pior, ganhando pouco, muito, muito pouco.

O salário era tão pequeno que seus filhos e netos não tiveram condições de estudar. Para ajudar você começaram a trabalhar muito cedo. Nem você, nem seus filhos e netos tiveram condições de acumular qualquer patrimônio.

O vento do tempo sopra e um dia sua alma parte deixando em Bongoróvia uma descendência pobre, ignoranten atrasada, desinformada e sem condições de competir por salários melhores.

Muitas décadas depois os descendentes dos seus empregadores declaram o compromisso firmado extinto. Seus netos já não são obrigados a viver na Bongoróvia.

Porém, mesmo com o fim do compromisso, seus netos e bisnetos que sequer conhecem o Brasil e por aqui não possuem nenhuma raiz, permanecem em Bongoróvia onde são naturalmente excluídos de qualquer emprego com melhor salário e praticamente alijados de qualquer possibilidade de estudo.

Na verdade, os bongorovianos criaram uma realidade que excluí sua gente de qualquer participação mais próxima à dignidade, e pior, não se sentem culpados por isso ou obrigados a qualquer acordo.

Pergunta: você não acha que deveria haver por parte da Bongoróvia e dos bongorovianos um compromisso de facilitar a inclusão social de sua gente?

Você não acha que, seria justo uma compensação por tantos anos de exploração e exclusão que começou com você e se espalhou aos seus herdeiros?

Foi mais ou menos isso que aconteceu com os africanos, trazidos à força para o Brasil e reduzidos à condição de escravidão.

A tal de “Lei Áurea” que, em apenas um artigo, considerou o fim da escravidão, não previu qualquer compromisso entre o governo e os recém-libertos. Ao contrário, antes de maio de 1888 quando da abolição, o governo brasileiro desenvolveu uma política de imigração, trazendo europeus, especialmente alemães e italianos para suprir as vagas que a liberação da mão de obra escrava traria.

Escravo por 3 séculos e alienígenas no mercado de trabalho.

Compromisso do governo? Nenhum.

Políticas governamentais de assistência, treinamento ou qualquer tipo de inclusão do escravo no mercado de trabalho? Nenhuma.

Pois a alguns anos se desenvolve no Brasil aquilo que chamamos de “Políticas Afirmativas”.

E o que são as Políticas Afirmativas?

São medidas especiais e temporárias, tomadas ou determinadas pelo estado, espontânea ou compulsoriamente, com o objetivo de eliminar desigualdades historicamente acumuladas, garantindo a igualdade de oportunidades e tratamento, bem como de compensar perdas provocadas pela discriminação e marginalização, decorrentes de motivos raciais, étnicos, religiosos, de gênero e outros.

Portanto, são ações atuais mas de causas históricas.

No caso são políticas públicas que visam, de alguma forma, compensar a população negra do Brasil do grande esquecimento a que foi submetida ao longo de 125 anos pós alforria.

Entre essas políticas encontram-se as cotas voltadas aos jovens negros nas faculdades públicas.

Os conservadores retrucam, e fazem disso uma questão de oposição e crítica ao governo, mas o fato é que, em todas as instâncias, em todos os tribunais a que apelaram via PSDB e DEM, para acabar com as cota, foram derrotados.

As cotas são hoje uma realidade e nem por isso o Brasil acabou ou entrou em declínio. Ao contrário, mais e mais talentos juntam-se à obra da construção de um país mais justo e de todos.

E você, meu amigo bongoroviano, no silêncio de seu túmulo, não acharia justas as políticas afirmativas?




Prof. Péricles

quarta-feira, 13 de março de 2013

CRISES E ATITUDES



Ninguém face à crise pode ficar indiferente. Urge uma decisão e encontrar uma saída libertadora. É aqui que se encontram várias atitudes para ver qual delas é a mais adequada a fim de evitarmos enganos e desilusões.

A primeira é a dos catastrofistas: a fuga para o fundo: estes enfatizam o lado de caos que toda crise encerra. Vêem a crise como catástrofe, decomposição e fim da ordem vigente. Para eles a crise é algo anormal que devemos evitar a todo custo. Só aceitam certos ajustes e mudanças dentro da mesma estrutura. Mas o fazem com tantos senões que desfibram qualquer irrupção inovadora.

Contra estes catastrofistas já dizia o bom Papa João XXIII referindo-se à Igreja mas que vale para qualquer campo: “A vida concreta não é uma coleção de antigui¬dades. Não se trata de visitar um museu ou uma academia do passado. Vive-se para progredir, embora tirando proveito das experiências do passado, mas para ir sempre mais longe.”

A crise generalizada não precisa ser uma queda para o abismo. Vale o que escreveu um suíço que muito ama o Brasil, o filósofo e pedagogo Pierre Furter: “Caracterizar a crise como sinal de um colapso universal, é uma maneira sutil e pérfida dos poderosos e dos privilegiados de impedirem, a priori, as mudanças, desvalorizando-as de antemão”.

A segunda atitude é a dos conservadores: a fuga para trás. Estes se orientam pelo passado, olhando pelo retrovisor. Ao invés de explorar as forças positivas contidas crise atual, fogem para o passado e buscam nas velhas fórmulas soluções para os problemas novos. Por isso são arcaizantes e ineficazes.

Grande parte das instituições políticas e dos organismos econômicos mundiais como o FMI, o Banco Mundial, a OMC, os G-20, mas também a maioria das Igrejas e das religiões procura dar solução aos graves problemas mundiais com as mesmas concepções. Favorecem a inércia e freiam soluções inovadoras.

Deixando as coisas como estão fatalmente nos levarão ao fracasso senão a uma crise ecológica e humanitária inimaginável. Como as fórmulas passadas esgotaram sua força de convencimento e de inovação, acabam transformando a crise numa tragédia.

A terceira atitude é a dos utopistas: fuga para frente. Estes pensam resolver a situação-de-crise fugindo para o futuro Eles se situam dentro do mesmo horizonte que os conservadores apenas numa direção contrária. Por isso, podem facilmente fazer acordos entre si.

Geralmente são voluntaristas e se esquecem que na história só se fazem as revoluções que se fazem. O último slogan não é um pensamento novo. Os críticos mais audazes podem ser também os mais estéreis. Não raro, a audácia contestatória não passa de evasão do confronto duro com a realidade.

Circulam atualmente utopias futuristas de todo tipo, muitas de caráter esotérico como as que falam de alinhamento de energias cósmicas que estão afetando nossas mentes. Outros projetam utopias fundadas no sonho de que a biotecnologia e a nanotecnologia poderão resolver todos os problemas e tornar imortal a vida humana.

Uma quarta atitude é a dos escapistas: fogem para dentro. Estes dão-se conta do obscurecimento do horizonte e do conjunto das convicções funda¬mentais. Mas fazem ouvidos moucos ao alarme ecológico e aos gritos dos oprimidos. Evitam o confronto, preferem não saber, não ouvir, não ler e não se questionar. As pessoas já não querem conviver. Preferem a solidão do indivíduo mas geralmente plugado na internet e nas redes sociais.

Por fim há uma quinta atitude: a dos res-ponsá-veis: enfrentam o aqui e agora. São aqueles que elaboram uma resposta; por isso os chamo de responsáveis. Não temem, nem fogem, nem se omitem, mas assumem o risco de abrir caminhos. Buscam fortalecer as forças positivas contidas na crise e formulam respostas aos problemas. Não rejeitam o passado por ser passado. Aprendem dele com um repositório das grandes expe¬riências que não devem ser desperdiçadas sem se eximir de fazer as suas próprias experiências.

Os responsáveis se definem por um a favor e não simplesmente por um contra. Também não se perdem em polêmicas estéreis. Mas trabalham e se engajam pro-fundamente na realização de um modelo que corresponda às necessidades do tempo, aberto à crítica e à autocrítica, dispostos sempre a aprender.

O que mais se exige hoje são políticos, líderes, grupos, pessoas que se sintam responsáveis e forcem a passagem do velho ao novo tempo.

Leonardo Boff


domingo, 10 de março de 2013

CUBA E SUA LUTA




Podemos discordar do regime político de Cuba, que se mantém sob o domínio de um partido único. Mas é preciso seguir o conselho de Spinoza: não lisonjear, não detestar, mas entender. Entender, ou procurar entender. A história de Cuba – como, de resto, de quase todo o arquipélago do Caribe e da América Latina – tem sido a de saqueio dos bens naturais e do trabalho dos nativos, em benefício dos colonizadores europeus, substituídos depois pelos anglo-saxões.

E, nessa crônica, destaca-se a resistência e a luta pela soberania de seu povo não só contra os dominadores estrangeiros, mas também contra seus vassalos internos.

Já se tornou lugar-comum lembrar que, sob os governos títeres, Havana se tornara o maior e mais procurado bordel norte-americano. A legislação, feita a propósito, era mais leniente, não só com o lenocínio, e também com o jogo, e os mais audazes gângsteres de Chicago e de Nova Iorque tinham ali seus negócios e seus retiros de lazer. E mais: as mestiças cubanas, com sua beleza e natural sensualidade, eram a atração irresistível para os entediados homens de negócios dos Estados Unidos.

A Revolução Cubana foi, em sua origem, o que os marxistas identificam como movimento pequeno burguês. Fidel e seus companheiros, no assalto ao Quartel Moncada – em 1953, já há quase 60 anos – pretendiam apenas derrocar o governo ditatorial de Fulgêncio Batista, que mantinha o país sob cruel regime policial, torturava os prisioneiros e submetia a imprensa a censura férrea. A corrupção grassava no Estado, dos contínuos aos ministros. O enriquecimento de Batista, de seus familiares e amigos, era do conhecimento da classe média, que deu apoio à tentativa insurrecional de Fidel, derrotada então, para converter-se em vitória menos de seis anos depois. Os ricos eram todos associados à exploração, direta ou indireta, da prostituição, disfarçada no turismo, e do trabalho brutal dos trabalhadores na indústria açucareira.

Foi a arrogância norte-americana, na defesa de suas empresas petrolíferas, que se negaram a aceitar as novas regras, que empurrou o advogado Fidel Castro e seus companheiros, nos dois primeiros anos da vitória do movimento, ao ensaio de socialismo. A partir de então, só restava à Ilha encampar as refinarias e aliar-se à União Soviética.

Os norte-americanos, sob o festejado Kennedy – que o reexame da História não deixa tão honrado assim –, insistiram nos erros. A tentativa de invasão de Cuba, pela Baía dos Porcos, com o fiasco conhecido, tornou a Ilha ainda mais dependente de Moscou, que se aproveitou do episódio para livrar-se de uma bateria norte-americana de foguetes com cargas atômicas instalada na Turquia, ao colocar seus mísseis a 100 milhas da Flórida, no território cubano.

A solução do conflito, que chegou a assustar o mundo com uma guerra atômica, foi negociada pelo hábil Mikoyan: Kruschev retirou os mísseis de Cuba, e os Estados Unidos desmantelaram sua bateria turca, ao mesmo tempo em que assumiram o compromisso de não invadir Cuba, mas mantiveram o bloqueio econômico e político contra Havana. Enfim, ganharam Moscou e Washington, com a proteção recíproca de seus espaços soberanos – e Cuba pagou a fatura com o bloqueio.

O malogro do socialismo cubano nasceu desse imbróglio de origem. Tal como ocorrera com a Rússia Imperial e com a China, em movimentos contemporâneos, o marxismo serviu como doutrina de empréstimo a uma revolução nacional. O nacionalismo esteve no âmago dos revolucionários cubanos, tal como estivera entre os social-democratas russos, chefiados por Lênin e os companheiros de Mao.

Os cubanos iniciaram reformas econômicas recentes, premidos, entre outras razões, pelo fim do sistema socialista. Ao mesmo tempo tomaram medidas liberalizantes, permitindo as viagens ao exterior de quem cumprir as normas habituais. É assim que visita o país a dissidente Yoani Sanchez (que mantém seu blog na internet de oposição ao governo cubano) e é reverenciada pelos setores de direita. Ocorre que ela não é tão perseguida em Havana como proclama e proclamam seus admiradores.

Tanto assim é que, em momento delicado para a Ilha, quando só pessoas de confiança do regime viajavam para o exterior, ela viveu dois anos na Suíça, e voltou tranquilamente para Havana.

É seu direito dizer o que quiser, mas não podemos tolerar que exija do Brasil defender os direitos humanos, tal como ela os vê, em Cuba ou alhures. Um dos princípios históricos do Brasil é o da não interferência nos assuntos internos dos outros países.

O problema de Cuba é dos cubanos, que irão resolvê-lo, no dia em que não estiverem mais obrigados a se defender da intervenção dos estrangeiros, que vêm sofrendo desde que os espanhóis, ainda no século 16, ali se instalaram. Foram substituídos pelos Estados Unidos, depois da guerra vitoriosa de Washington contra o frágil governo da regente Maria Cristina, da Espanha. Enfim, o generoso povo cubano, tão parecido com o nosso, não teve, ainda, a oportunidade de realizar o seu próprio destino, sem as pressões dos colonizadores e seus sucessores.

Dispensamos os conselhos da senhora Sanchez. Aqui tratamos, prioritariamente, dos direitos humanos dos brasileiros, que são os de viver em paz, em paz educar-se e em paz trabalhar, e esses são os direitos de todos os povos do mundo. Ela, não sendo cidadã de nosso país, não deve, nem pode, exigir nada de nosso governo ou de nosso povo. Dispensamos seus avisos mal-educados e prepotentes, e esperamos que seja festejada pela direita de todos os países que visitará, à custa de seus patrocinadores – como o Instituto Millenium –, iludidos pelo seu falso prestígio entre os cubanos.

Por Mauro Santayana, via Jornal do Brasil

quarta-feira, 6 de março de 2013

HUGO CHAVES, NASCE O MITO



Gostaria de acreditar que enquanto a maioria absoluta dos venezuelanos chora copiosamente a “morte” de Hugo Rafael Chávez Frías não existe quem a esteja comemorando. Entretanto, não me iludo. Apesar de ser um homem de paz que nunca revidou com violência a violência que sofreu nos idos de abril de 2002, Chávez era odiado com fervor por uma minoria.

Seus inimigos não o combateram por seus defeitos, que, como qualquer ser humano, deveria ter muitos. Não, não. Ele foi combatido por suas qualidades, porque sua obra – que ultrapassou as fronteiras de seu país – tornou o mundo mais justo e a vida dos compatriotas desvalidos menos penosa.

Foi chamado de “ditador”, mas nenhum governante das três Américas jamais se apresentou tantas vezes ao voto popular limpo e inquestionável quanto ele. De 1999 até o ano passado, incontáveis foram as eleições que venceu sem que nunca um só questionamento à lisura dos processos eleitorais que lhe deram as vitórias tenha sido sequer levado a sério.

Chávez logrou fazer da Venezuela a campeã das Américas em redução da pobreza e da desigualdade social. Sua obra social, como não podia ser atacada por conta de êxitos como o de tornar o seu país o segundo da América Latina, ao lado de Cuba, a extirpar a chaga do analfabetismo, foi ignorada pela mídia internacional e até pela venezuelana.

Nunca me esquecerei de uma viagem que fiz à Venezuela em 2007, quando fui a um dos morros que cercam Caracas e, em visita ao uma unidade do programa social de Chávez que acabou com o analfabetismo, vi adolescentes e até adultos recém-alfabetizados estudando a constituição do país.

Mas a obra de Chávez extrapolou as fronteiras de seu país natal. A revolução bolivariana se espalhou pela América Latina. Sua influência mais forte tem sido sentida na Argentina, na Bolívia e no Equador, com um modelo revolucionário que reformou constituições e democratizou a comunicação de massas.

Perto da redução da pobreza, da miséria e da desigualdade que Chávez promoveu, a que conseguimos no Brasil, em comparação proporcional, não lhe chega nem aos pés. Isso porque, com risco da própria vida e sacrificando a paz pessoal, ele comprou brigas com poderes imensuráveis que, se não tivesse comprado, teria tido uma vida mais fácil no poder.

Dolorosamente, a morte física de Chávez será explorada de forma nauseabunda por multibilionários das mídias de ultradireita que infestam esta parte do mundo. Tentarão culpa-lo pela própria morte. Em lugar de destacarem sua obra, destacarão o processo sucessório na Venezuela.

A esses, digo que se antes tinham poucas chances de derrotar esse herói latino-americano, esse verdadeiro patrimônio da humanidade, agora suas chances são nulas, morreram fisicamente com ele, que acaba de renascer. Hugo Rafael Chávez Frias renasceu, chacais da miséria humana. Tornou-se um mito que os assombrará até o fim dos tempos.

Morto fisicamente, Chávez adquiriu poderes que nem todos os editoriais, colunas, telejornais ou reportagens mal-acabadas da Terra conseguirão equiparar. Sua verdadeira história só agora começará a ser contada às gerações futuras, mostrando que quando um homem devota sua vida ao bem comum como ele fez, torna-se imortal.

Descanse em paz, Hugo.

Por Eduardo Guimarães
Pátria Latina – 06/03/2013

segunda-feira, 4 de março de 2013

HABEMUS PAPAM



Estamos vivendo aquela expectativa natural, na escolha de um novo Papa.

Agora vem o isolamento, a espera, a nuvem negra quando ainda não escolheram, e branca quando já foi escolhido o novo Papa.

Muita gente anda dando seus “chutes” e fazendo suas apostas na nacionalidade do futuro Pontífice e eu entrei na onda.

Imagina, por exemplo, se o Papa for brasileiro.

Dezenas de brazucas enrolados na bandeira do Brasil, alguns segurando um cartaz “Eu Já Sabia”. Hino nacional brasileiro a todo pulmão na Praça de São Pedro.

Antes mesmo de receber o Anel do Pescador o novo papa aparece no programa “E Agora papa?”.

Aliás, a televisão iria protagonizar os momentos mais emocionantes.

Já pensou a Globo querendo adquirir os direitos exclusivos da Missa do Galo...

Xuxa fazendo carinha de sofrida cantando uma música emocionante (e irritante) acompanhada por um coral de crianças contra a pedofilia...

Pedro Bial promovendo o primeiro BBB direto da Basílica de São Pedro chamando os cardeais de “meus heróis”.

Na música, com certeza, apareceriam “As Papetes” nova banda de Funck composta de gostosas seminuas cantando “Excomunga, excomunga a Vagabunda”.

Claro que haveria o uso político do Papa brasileiro.

Os conservadores diriam que o Papa é a cara da tradicional família brasileira e dos valores cristãos contra esses “esquerdistas” admiradores de Cuba e de Chaves.

A galera progressista convidaria o companheiro Papa para distribuir pessoalmente os recursos da Bolsa Família entre os mais necessitados, com transmissão ao vivo, claro.

Com certeza não faltariam boatos de que o Papa iria virar símbolo de algum partido nanico.

Quer saber? Melhor não pensar nessa possibilidade. Um papa brasileiro não!!

Seria mais interessante que o novo Papa fosse da África. O candidato de Gana está bem cotado, mas isso não quer dizer muita coisa. Um Papa africano seria o primeiro Papa negro da história e isso daria voz a inúmeras comunidades que jamais passaram da sala de espera do Vaticano.

Um Papa do Líbano, único país majoritariamente católico do Oriente Médio ou do Egito copta, seria bem representativo.

Não sei... mas depois de dois papas não italianos, se fosse apostar eu apostaria que o próximo papa será da Itália.

Qualquer que seja a nacionalidade, que seja um Papa progressista, capaz de levar a Igreja pelos caminhos necessários da mudança, da modernidade e principalmente, da democratização.

Um Papa que faça a Igreja Católica ouvir o clamor de seus fiéis que esperam por novos ares em sua fé.

Mas um papa brasileiro não, por favor... Galvão Bueno narrando a via-sacra, Nãããão!

Prof. Péricles




sábado, 2 de março de 2013

O TREM DAS ESTRELAS



Estavam todos suavemente acomodados. Alguns olhavam para o lado de fora como a catar recordações perdidas. Outros conversavam no balanço das horas.

Num espaço mais a frente aquele senhor muito magro, calvo, de óculos de lentes redondas, e de trajes longos, pacientemente falava a um grupinho, sobre a importância da não-agressão, mesmo quando se é agredido.

- “Principalmente nessas horas, dizia Gandhi, devemos manter a serenidade. Não é preciso aniquilar pela força com o invasor, basta não obedecê-lo para tornar inviável a dominação dos brutos”.

O que o senhor acha presidente? – alguém perguntou.

Lincoln, até então muito compenetrado, ajeitou a cartola, que mesmo assim permaneceu torta, e esfregando a barba respondeu:

- “Bem, no meu caso para manter a paz eu tive que ir a Guerra. Não se tratava de lutar contra a dominação e sim de impedir uma divisão. Também tive que trapacear para aprovar a 13ª Emenda, coisa que nosso Gandhi, claro que não concordaria, mas, às vezes é assim mesmo, temos que ter força para manter a paz”.

Ao ouvir essas palavras, um homem negro, o mais jovem do grupo, se aproximou e com um sorriso franco no rosto, Martim Luther King pôs um braço sobre os ombros de Lincoln, que acabara de silenciar, e complementou:

- “Verdade meu Presidente, às vezes é preciso pressionar, como fizemos com mais de 300 mil participantes na Marcha Sobre Washington, mas também concordo com nosso Mahatma quando afirma que a paz, a não-agressão também possui seus resultados inquestionáveis. Enfim, pela paz e pela liberdade temos todos nossas razões e nossos sonhos. Eu pelo menos tenho um sonho”. E todos riram gostosamente com a sacada do Pastor King.

Inclusive aqueles dois que não param de tagarelar, apontou o Gandhi negro.

Quem são perguntou alguém.

- Ithzak Rabin e Yasser Arafat.

- “Claro disse Lincoln, eles representavam dois povos que se odeiam visceralmente e estavam praticamente selando a paz quando foram assassinados. Talvez por isso não parem de falar ao infinito, sobre a violência que poderia ser evitada e como seria possível construir um Oriente Médio pacífico.”

Mais barulhento ainda é aquele grupo comenta um anjinho gorducho que estava calado... estão no fundo do vagão como se fossem clandestinos fazendo uma espécie de reunião.

- “E é uma Reunião disse Chico Mendes... são meus compatriotas do PCB – Partido Comunista Brasileiro... gente que sempre foi contra a luta armada e defendeu a luta política pacífica contra a Ditadura Militar brasileira, mas que foi impiedosamente perseguida e morta por uma tal de Operação Radar dos órgãos da Repressão.”

Puxa cochichou um anjinho com a asa amassada, todos nesse trem defendiam a paz e por isso foram mortos...

Sim, sussurrou outro anjo, com um colar de hippie, todos foram assassinados, todos vítimas da violência que combatiam.

É mesmo disse o asinha amassada. O mundo teima em matar os que defendem a paz. Eliminam a tiros e de todas as formas os pacíficos enquanto tornam heróis os agentes da guerra e da violência.

- "Sim, retornou o do colar de hippie, isso faz parte da estúpida história humana e de sua ânsia de exploração da própria espécie. Os que morrem dessa forma absurda acabam vindo pra cá, para esse trem da paz entre as estrelas para que continuem brilhando pois a mensagem da paz jamais acaba, ela apenas se transforma... A vitória da violência é apenas aparente, pois mesmo matando os homens jamais se matará a idéia e outros homens empunharam a bandeira... Mas o que é que você olha tanto criatura?"

Bem, fala o gorduchinho, sem virar o rosto, é que estou tentando lembrar de onde conheço o maquinista, aquele moço cabeludo e de barbas com aquelas enormes feridas nas mãos.

Passageiros Ilustres:

- Mohandas Karamchand Gandhi: Morto a tiros em 30 de janeiro de 1948 por um hindu radical. Gandhi fez uma revolução sem violência e libertou seu país, a Índia.

- Abraham Lincoln: Morto com um tiro na cabeça por um ator e espião confederado em 14 de abril de 1865. Presidente que estancou a violência da escravidão nos EUA.

- Martim Luther King: Morto a tiros em 04 de abril de 1968 quando se encontrava na sacada de seu quarto de hotel por um racista fanático, em Memphis. Na luta pelo fim da segregação racial em seu país, King superou os líderes que defendiam o uso da violência.

- Itzak Rabin: herói de guerra e premiê israelense assassinado por um radical de direita contrário à paz com os palestinos, no dia 4 de novembro de 1995, minutos antes participara de um comício pela paz na Praça dos Reis, em Israel.

- Yasser Arafat: Líder maior do povo palestino, junto com Rabin ganhou o prêmio Nobel da Paz de 1994. Morto em 11 de Novembro de 2004, sabe-se hoje, em decorrência de anos de contínuo envenenamento realizado pelos serviços secretos israelenses.

- Francisco Alves Mendes Filho (Chico Mendes): ativista que lutava pela preservação da floresta Amazônica e pela manutenção da paz entre seringueiros e grileiros no Acre, morto em 22 de dezembro de 1988, com tiros de escopeta no peito na porta dos fundos de sua casa.

Prof. Péricles