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terça-feira, 30 de abril de 2013

GUERRAS E SUICÍDIOS



A taxa de suicídio entre agentes militares norte-americanos em serviço ativo, disparou em 2012, superando o número de soldados que morrem no campo de batalha e determinando um ritmo que pode bater o recorde anual registrado desde o início das guerras no Iraque e no Afeganistão há mais de uma década, informou o Pentágono.
O número de suicídios aumentou mesmo apesar de os militares americanos terem retirado suas tropas do Iraque e intensificado os esforços para fornecer assistência de saúde para problemas psicológicos, que visa limitar o uso de drogas e álcool, além de providenciar aconselhamento financeiro.

Os militares americanos afirmaram que houve pelo menos 154 suicídios entre soldados na ativa até 7 de junho. O número representa 18% de aumento em relação ao mesmo período em 2011, que registrou 130 suicídios entre militares na ativa. Foram 123 suicídios entre janeiro e junho de 2010 e 133 durante o mesmo período em 2009, informou o Pentágono.

Por outro lado, foram registradas 124 mortes de militares americanos no Afeganistão até o dia 1º de junho deste ano, segundo o Pentágono.

Os índices de suicídio entre militares subiram acentuadamente desde 2005, à medida que as guerras no Iraque e no Afeganistão se intensificaram. Recentemente, o Pentágono criou o Gabinete de Prevenção do Suicídio.

Na sexta-feira, a porta-voz do Departamento de Defesa Cynthia Smith afirmou que o Pentágono tenta lembrar os comandantes que aqueles que procuram aconselhamento não devem ser estigmatizados.

"Esta é uma questão preocupante e estamos empenhados em conseguir a ajuda que nossos membros necessitam", disse ela. "Quero enfatizar que a obtenção de ajuda não é um sinal de fraqueza, é um sinal de força."

Em uma carta a comandantes militares no mês passado, o secretário de Defesa Leon E. Panetta disse que "a prevenção do suicídio é uma responsabilidade da liderança", e acrescentou: "Comandantes e supervisores não podem tolerar qualquer ação que deprecie, humilhe ou ostracize qualquer indivíduo, especialmente aqueles que estão se comportando de maneira responsável ao procurar a ajuda profissional de que necessitam".

Mas grupos de veteranos disseram que o Pentágono não tem feito o suficiente para moderar o imenso stress vivido pelos soldados em combate, incluindo as várias implantações.


"Está claro para os militares que as coisas não estão sendo tratadas de maneira compreensiva", disse Bruce Parry, presidente da Coalizão de Organizações de Veteranos, um grupo com sede em Illinois. "Eles precisam entender de forma mais profunda o trauma que os soldados estão enfrentando."


Por Timothy Williams
The New York Times

sábado, 27 de abril de 2013

VIAGENS E UTOPIAS



Numa mensagem de Roberto Mitsuichi, a vida é comparada a uma viagem mais ou menos longa de trem.

Numa estrada maravilhosa, cheia de eventos e de diferentes paisagens, o trem segue seu rumo, como deve ser, nos levando do êxtase ao tédio.

Cheia de estações ao longo do caminho contamos, desde o início da viagem, com pessoas que mudarão nossa vida de alguma maneira e que nos deixarão ao longo da estrada, em diferentes estações.

Desde nossos pais, os primeiros passageiros de nosso vagão, que terão que descer do trem em algum ponto da estrada, antes de nós, passando por amigos de infância, namoradas, professoras, esposa, filhos...

Alguns descem de nosso vagão deixando-o mais vazio. Muitos levam um pouco de nós na bagagem nos deixando enormes vazios quando partem. Mas o trem segue.

Até que chega a nossa estação, e todos nós temos a estação marcada para descer.

Achei muito bela essa mensagem e fiquei pensando que o mesmo se aplica a nossas expectativas, nossos sonhos e utopias.

Quando crianças levamos uma coleção de sonhos brilhantes, de muitas cores e sons. Queremos ser médico, professor, bombeiro, policial... Queremos ser o destaque do colégio, dos irmãos, de tudo, pois quando crianças nossos sonhos são egoístas e exclusivistas.

Com o andar do trem barulhento ao longo do tempo, vamos nos definindo como seres sociais e nossos sonhos se tornam mais altruístas. E sem que a gente perceba nascem nossas utopias.

Então, percebemos que podemos sentar nos bancos da direita ou da esquerda do trem.

Se da esquerda iremos nos entender responsáveis pela própria sociedade em que habitamos e responsáveis não apenas por nossa comodidade, mas pela comodidade de todos os outros passageiros, sejam conhecidos nossos, ou totalmente anônimos. Iremos querer transformar o trem, torna-lo mais suave e acabar com as diferenças entre passageiros de primeira, segunda ou terceira classe. Provavelmente te acharão esquisito, maluco, um passageiro que talvez deva ser jogado pra fora do trem em movimento.

Se da direita, iremos sonhar sonhos já sonhados e conservados em vidros mágicos. Sonhos em conserva, capazes de suportar longo tempo, mantendo o sabor mesmo que rançoso e cruento. Nesse tipo de sonho, nos bancos da direita, a paisagem terá aspectos profundamente contrastantes e você os verá de acordo com a altura de seu banco. Se mais no alto você achará a viagem maravilhosa e talvez se dê por satisfeito se os dos bancos mais baixo não conseguiram subir à sua altura.

Num certo ponto da viagem, já próximo de sua estação você poderá perceber que seus sonhos envelheceram.
O médico, o professor, o bombeiro, o policial, já não habitam a sua alma. Não ligue. Sonhos envelhecem assim como a gente e como peles de cobras podemos trocá-los por outros.

Mas, mantenha viva suas utopias. Poderão até estarem gastas, desbotadas e doloridas. Mesmo assim, que estejam vivas.

Não sei exatamente como é o fim da viagem mas... algo me diz que serão as únicas coisas que poderemos levar. Não havendo roupas nos vestimos de utopias e foram elas que aqueceram nossos dias com esperança.

Cuide-se. Não chegue nu ao fim da linha.

Prof. Péricles

quinta-feira, 25 de abril de 2013

CONVERSA COM MR. DOPS




Aos 80 anos, José Paulo Bonchristiano conserva o porte imponente dos tempos em que era o “doutor Paulo”, delegado do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo, “O DOPS era um órgão de inteligência policial, fazíamos o levantamento de todo e qualquer cidadão que tivesse alguma coisa contra o governo, chegamos a ter fichas de 200 mil pessoas durante a revolução”, diz, referindo-se ao golpe militar de 1964, que deu origem aos 20 anos de ditadura no Brasil.

Bonchristiano é um dos poucos delegados ainda vivos que participaram desse período, mas ele evita falar sobre os crimes. Prefere soltar o vozeirão para contar casos do tempo em que os generais e empresários o tratavam pelo nome. Roberto Marinho, da Globo, diz, “passava no DOPS para conversar com a gente quando estava em São Paulo”, e ele podia telefonar a Octávio Frias, da Folha de S. Paulo “para pedir o que o DOPS precisasse”.

Nas entrevistas, o ex-delegado resistiu duas tardes inteiras antes de admitir que se torturava e matava no “melhor departamento de polícia da América Latina” – o que hoje qualquer cidadão pode constatar através dos depoimentos reunidos no “Memorial da Resistência”, museu que desde 2002 ocupa as antigas instalações do DOPS, no centro de São Paulo.

“Uma vez prendi um cara em um aparelho no Tremembé, e quando estava chegando no DOPS, o Fleury pediu o preso emprestado, não lembro o nome dele. Depois de dois dias sem notícias do preso, fui perguntar para o Fleury, e ele me pediu desculpas, tinha matado o cara que eu nem ouvi”, relata, como se fosse um contratempo na repartição. “

Bonchristiano admitiu que frequentava os outros centros de tortura montados em São Paulo a partir de 1969, como a OBAN (Operação Bandeirante) e o DOI-CODI, comandados pelo Exército e compostos de policiais civis e militares instruídos a torturar. Só no período de 1970 a 1974, a Arquidiocese de São Paulo reuniu 502 denúncias de tortura no DOI-CODI paulista, apelidado jocosamente pelos policiais de “Casa da Vovó”.

“O pau-de-arara não é, assim, uma tortura, vai tensionando os músculos, se o cara falar logo não fica nem marca, mas se o cara for macho e segurar…”.

Em seus primeiros anos no DOPS, Bonchristiano se especializou em infiltrações em movimentos sindicais, mas a partir de 1968 os estudantes se tornaram prioridade. “Quem faz revolução é estudante, operário faz revolução na Rússia”, costumava dizer.

Uma das operações das quais mais se orgulha, que o levou às páginas de revistas e jornais, foi o desmantelamento do Congresso da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna, em 12 de outubro de 1968, comandado por ele. “Prendi 1263 estudantes sem disparar um tiro”, diz – embora os policiais do DOPS e da Força Pública de Sorocaba tenham comprovadamente anunciado sua chegada com rajadas de metralhadora para o ar. “Coloquei a garotada em 100 ônibus cedidos pela (viação) Cometa e levei todo mundo para o DOPS. Separei os líderes e liberei o resto para ir para casa. Não tínhamos vontade de matá-los, eram estudantes”, ironiza.

“Eu sabia tudo o que o Dirceu fazia porque ele era metido a galã e eu coloquei uma agente nossa para seduzi-lo”, gaba-se o delegado. “Ela era muito bonita, a Maçã Dourada, e me contava todos os passos dele”, diz o delegado. A “estudante” Heloísa Helena Magalhães, uma das 40 moças contratadas pelo DOPS para esse tipo de serviço, segundo ele, chegou a ser secretária de Dirceu na UNE (na verdade, José Dirceu foi diretor da UEE).

“Depois que o presidente Truman criou a CIA, era a CIA que acompanhava o movimento dos subversivos”, continua. “Então trabalhávamos juntos, viajávamos juntos em muitos casos, mas nossas reuniões eram fora do DOPS, na happy hour de bares de hotéis como o Jandaia e o Jaraguá, no centro de São Paulo.

Dulce de Souza Maia, militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) oi presa na madrugada do dia 25 de janeiro de 1969, enquanto dormia na casa da mãe.

Dois dias antes, vários líderes da VPR tinham sido presos e os repressores já sabiam que ela havia participado de um atentado a bomba no II Exército, que matou o sentinela Mario Kozel Filho. Também havia sido erroneamente apontada como uma das autoras do atentado que em 1968 matou o capitão do Exército americano, Charles Chandler, acusado pelos guerrilheiros de dar aulas de tortura no Brasil a serviço da CIA.

Dulce não sabe dizer se todos que a torturaram no quartel da Polícia do Exército eram militares, mas sua lembrança mais forte é a cara redonda do homem que a estuprou, depois de dar choques em sua vagina. “Eu aguentei 48 horas”. “

Em 1983, os ventos democratas extinguiram o DOPS e trouxeram um novo delegado geral, Maurício Henrique Pereira Guimarães, que despachou Bonchristiano para uma obscura seção da Secretaria de Justiça, encarregada das viúvas dos soldados mortos na II Guerra.

“Preferi me aposentar, hoje não acredito mais em nada. Fiz o que o presidente queria, os militares queriam, e não ganhei nem aquelas medalhinhas que eles davam para todo mundo”, desdenha, referindo-se à Medalha do Pacificador, entregue pelos militares a torturadores famosos.

A família ainda sofre com o passado do delegado. A filha, uma artista plástica, escolheu o prédio do antigo DOPS como cenário de uma performance acadêmica. No Facebook, comenta que o pai ficou “do lado dos algozes da ditadura”, enquanto uma de suas filhas – neta de Bonchristiano – faz campanha pela Comissão da Verdade em seu perfil.

Quando entrei no taxi para ir embora, refletindo sobre quem afinal estaria ameaçando quem, lembrei de uma ocasião em que nossas relações eram mais amistosas e pude lhe perguntar por que “eles” tinham enterrado os corpos, em vez de atirá-los ao mar ou incendiá-los para apagar definitivamente as provas.

De pé, na sala decorada com os estofados confortáveis, rodeados por mesinhas enfeitadas com fotos de família e bibelôs de inspiração religiosa, Bonchristiano reagiu: “Nós somos católicos, pô!”.


Trechos selecionados de Reportagem postada em www.apublica.org/2012/02/conversas-mr-dops

sábado, 20 de abril de 2013

JANGO LIVRE



O carro cruza a fronteira de Uruguaiana vindo de Mercedes, Argentina, a 120 km por hora. Ele conduz uma carga macabra, um caixão lacrado.

Aparentemente toda a população de São Borja estava nas ruas, num silêncio tenso, acompanhado de perto por soldados armados.

O carro conduzindo o caixão lacrado chega até a catedral e dali, diminui a marcha e ruma, agora lentamente, em direção ao cemitério.

O carro é imediatamente cercado pelos soldados armados dispostos a seguir a risca a ordem de não permitir manifestações populares

De repente, vindo do meio da multidão, um grito, “Jango, Jango”. De forma contagiante o grito se espalha e se multiplica “Jango, Jango, Jango”. Toda a tropa percebe que é inútil tentar evitar o sentimento que brota da multidão.

João Goulart, o Jango, presidente do Brasil deposto em 1964, e desde então, exilado político, está de volta ao país.

Porém, da maneira mais triste e definitiva: morto, bem como sonharam seus inimigos e inimigos da democracia que o derrubaram no golpe de 31 de março.

Seu corpo foi enterrado a 40 metros do túmulo de Getúlio Vargas, por exigência dos militares.

Jango morreu de forma inesperada e até hoje não completamente explicada no dia 6 de dezembro de 1976.

Oficialmente o ex-presidente morreu de ataque cardíaco. Porém, o regime militar jamais permitiu autópsia, que muitos achavam necessária para esclarecer todas as dúvidas.

Exatamente naquele momento vários políticos ligados a regimes derrubados na América foram assassinados num plano orquestrado pelas ditaduras do Cone Sul denominado “Operação Condor” e que visava à eliminação física dos políticos mais populares e que inspiravam reação contra as ditaduras.

Sobre a morte de Jango estendeu-se um véu de mistério. Passou-se a falar a boca pequena, como dizem os gaúchos, que Jango, na verdade, também fora assassinado assim como outras lideranças como Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda.

Trinta e sete anos depois a Comissão da Verdade anuncia que, finalmente, seu corpo será autopsiado para, finalmente se estabelecer a verdade.

O Presidente João Goulart, o Jango, foi assassinado ou realmente morreu de causas naturais?

Esta é apenas uma, das muitas perguntas sobre esse período negro de nossa história, que precisa ser respondida.


Prof. Péricles


sexta-feira, 19 de abril de 2013

AS OUTRAS SEPULTURAS




Por Luis Fernando Veríssimo

Sempre é bom começar citando Hegel. Porque dá uma certa classe ao texto e porque, a partir de Hegel, você pode ir para qualquer lado, para a esquerda e ou para direita. Marx afiou suas teses criticando e às vezes assimilando Hegel, e Hegel, ao mesmo tempo em que sacudia o pensamento conservador europeu, era o exemplo mais acabado do que Marx abominava, o filósofo que explicava o mundo em vez de tentar mudá-lo. Mas minha citação de Hegel não tem nada a ver com esta divisão, mesmo porque é uma que todo o mundo - a partir da redescoberta da peça no século 18 - endossaria. Hegel disse que a Antígona de Sófocles era o mais sublime produto da mente humana, e sua heroína a mais admirável personagem, da História.

Escrita 400 anos antes de Cristo, a peça conta a história da filha de Édipo. Rei de Tebas, com a sua mulher (e mãe, lembra?) Jocasta. Antígona quer enterrar seu irmão, morto num ataque a Tebas, contrariando as ordens do rei Creonte, para quem o corpo do traidor, que permanecera insepulto, pertence ao Estado e não à sua família.

Antígona rouba o corpo do irmão para que sua alma, sem os ritos fúnebres, não se perca no mundo dos mortos, e o sepulta no meio da noite. Para punir sua desobediência, Creonte a condena a ser enterrada viva.

Muitos conflitos são desnudados na peça, mas, o principal deles é entre o Estado e o indivíduo, entre a lei fria e costumes antigos, entre o direito do soberano e o direito do sangue comum. O fascínio da peça para Hegel e outros tem muito a ver com o renascente interesse pela cultura grega na Europa de então, mas também com a revolução que acontecia nas relações Estado/cidadão no explosivo começo do século 19.

A história de Antígona se adapta ao momento no Brasil, quando se tenta investigar o que permanece simultaneamente enterrado e insepulto no nosso passado, tantos anos depois do fim da ditadura. Os corpos ainda não foram devolvidos às suas famílias, os direitos do sangue ainda não se impuseram aos direitos do Estado algoz, os ritos fúnebres de muitos continuam restritos à imaginação de novas Antígonas, tão trágicas quanto a Antígona grega.

Os arquivos da ditadura estão sendo aos poucos desenterrados. Já passou da hora de abrir as outras sepulturas.

sábado, 13 de abril de 2013

O HOMEM QUE DISSE NÃO



A moça recosta-se na poltrona satisfeita ao final do filme.

O avô a observa e pergunta por que está tão satisfeita.

Ela responde que o filme que acabara de assistir fora ótimo, mostrara um militar norte-americano que sobrevivera ao Massacre do General Custer, e ainda salvara da morte a esposa, os filhos e algumas outras pessoas.

- Que pena que não existem heróis assim no Brasil, né vovô?

O avô deixa escapar um sorriso tímido antes de discordar.

- Ao contrário menina, nosso país tem muitos heróis maravilhosos. Você já ouviu falar no capitão Sérgio Macaco?

- Quem? Acho que nunca vovô...

- pois pode deixar que o vovô aqui vai te contar a história de um herói brasileiro... foi assim:

“Em 12 de junho de 1968, o capitão para-quedista Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, conhecido simplesmente como “Sérgio Macaco”, chegou preocupado para uma reunião no Gabinete do Ministro da Aeronáutica onde foi recebido por dois brigadeiros.

Aos 37 anos, Sérgio Macaco era integrante do Para-Sar, esquadrão de elite da aeronáutica que executava missões de resgate e salvamento. Já tinha seis mil horas de vôo e 900 saltos em missões humanitárias que o fizeram um herói entre os índios que o chamavam de Nambiguá caraíba, que quer dizer, homem branco amigo.

Por tudo que já fizera recebera quatro medalhas por bravura.

Ele jamais poderia imaginar que seu maior ato de bravura se daria naquele dia, e exatamente naquele gabinete.

- Nossa vovô, o que aconteceu? Explodiu uma bomba no Prédio?

No prédio não minha neta, mas no coração de Sérgio Macaco...

Num diálogo surreal que ele jamais esqueceria, lhe é sugerido o cumprimento de uma missão terrível: propuseram-lhe que ele acompanhado por outros para-quedistas selecionados, colocasse bombas na porta do Citibank e da embaixada americana, causando algumas mortes. Em seguida viria a grande carnificina: ele dinamitaria a Represa de Ribeirão das Lajes e, simultaneamente, explodiria o gasômetro. As cargas, de efeito retardado, seriam colocadas pelo capitão Sérgio, que depois ficaria aguardando, os acontecimentos no Campo dos Afonsos. Quando a tragédia acontecesse o Para-Sar, comandado por ele, aportaria no local da tragédia posando de bonzinho, prestando socorro a milhares de feridos e recolhendo mortos vitimados pela ação da própria aeronáutica...

Colocariam a culpa nos grupos esquerdistas que lutavam contra a ditadura. Sérgio seria tido como herói por salvar as supostas vítimas dos "comunistas" e receberia sua quinta medalha, enquanto a ditadura teria um pretexto para aumentar a repressão contra os "subversivos”.

- Não acredito vovô. Brasileiros matando brasileiros... mas isso é monstruoso.

Sim, monstruoso, mas aquele ano de 1968 era decisivo para a continuidade ou o fim da Ditadura. Lembre-se que foi em 1968 a Passeata dos Cem Mil, a Morte de Edson Luis, e em dezembro a assinatura do AI-5 e aí...

- E aí o inferno desceu sobre o Brasil.

“Exatamente. Por isso a ação radical, na cabeça monstruosa dos que defendiam a linha dura, se justificava.”

- E então, o que aconteceu?

“O Capitão poderia aceitar a missão. Se tornaria um herói nacional, ganharia a quinta medalha e seria eternamente protegido pelo regime. Poderia como tantos fizeram justificar para si mesmo que apenas cumpria ordens, tinha tudo pra se dar bem, mas... não, ele olhou altivo para seus dois superiores que já o chamaram no Gabinete do Ministro para impressioná-lo e disse essa palavrinha de apenas três letras – Não.”

- Meu Deus...

“Sua recusa impedia que a missão fosse cumprida por outro, pois os dois brigadeiros sabiam que o segredo estava quebrado. Então a vida de Sérgio Macaco virou um martírio.

Foi perseguido pela ditadura, discriminado, removido para o Recife, reformado na marra aos 37 anos, cassado pelo AI-5 e pelo Ato Complementar 19, acabou na prisão...

Em 1970, necessitando de um tratamento de coluna, aconselharam-no a não se internar em unidade militar, pois certamente seria assassinado lá dentro. Graças ao jornalista Darwin Brandão, com auxílio do médico Sérgio Carneiro, o capitão acabou sendo tratado clandestinamente no Hospital Miguel Couto.

Pra você ver seu sentido de ética, em 1979 recusou ser anistiado.
Ser anistiado porque se não fiz nada errado e impedi uma carnificina?

Sérgio Macaco morreu de câncer no estômago em 04 de fevereiro de 1994 e três dias depois foi promovido a Brigadeiro”.

A moça parece grudada na poltrona...

- Caramba, esse sim é um verdadeiro herói... E ninguém lhe dá valor, ninguém nem ao menos conhece sua história...

“Sim querida. Ele foi enterrado sem honras militares e acompanhado apenas pela família. O diretor francês Olivier Horn fez um documentário que conta sua história, intitulado “O Homem que disse Não”, mas, aqui no Brasil ele não aparece nos livros nem nas aulas de história.”

- Mas a partir de hoje vovô, ele será o meu herói. Escreverei assim na memória “Sérgio Macaco, um herói de verdade”.

Prof. Péricles

quinta-feira, 11 de abril de 2013

CARROCINHA DE PIPOCA



Por Luis Fernando Veríssimo


Eu sei que a coisa é séria. Se o Kim Jong-un disparar mesmo os foguetes que está ameaçando disparar contra bases americanas na Ásia, teremos uma guerra nuclear com dimensões e consequências imprevisíveis. Mas lendo sobre o perigo iminente não pude deixar de pensar na história do homem que foi atropelado por uma carrocinha de pipoca.

Era um homem cauteloso que olhava para os dois lados antes de atravessar a rua e só atravessava no sinal, e que dificilmente um carro pegaria. Mas que um dia não viu que vinha uma carrocinha de pipoca, e paft.

Já no ambulatório do hospital, onde lhe deram uns pontos no braço, o homem disse que tinha sido atropelado por um motoboy.

Em casa, contou que tinha sido atropelado por um carro e só por sorte escapara da morte.

Naquela noite, para os amigos que souberam do acidente e foram visitá-lo, especificou: tinha sido atropelado por um BMW. No dia seguinte disse aos colegas de trabalho que tinha sido atropelado por um caminhão e não sofrera mais do que um corte no braço por milagre. E quando um dos colegas de trabalho comentou que tinha visto o acidente e vira o homem ser atropelado por uma carrocinha de pipoca, gritou: "Calúnia!".

Por que me lembrei do homem que tinha vergonha de ter sido atropelado por uma carrocinha de pipoca?

Desde o fim da Guerra Fria a possibilidade de um confronto nuclear entre duas potências, os Estados Unidos e a Rússia, diminuiu, mas os estoques de armas nucleares continuaram e sua proliferação também. Israel se segura para não usar seus foguetes para destruir as bombas nucleares que o Irã está ou não está construindo, Índia e Paquistão vivem comparando seus respectivos arsenais nucleares como guris comparando seus pipis, a França e a Inglaterra têm a bomba...

Enfim, ainda se vive num frágil equilíbrio de terror possível, exigindo de todos os nucleares um cuidado extremo, um cuidado de atravessar a rua sem serem atropelados pelo imprevisto.

E aí aparece o Kim Jong-un empurrando uma carrocinha de pipoca em alta velocidade...

terça-feira, 9 de abril de 2013

CORÉIA DO NORTE: NADA A PERDER



Simon Bolívar costumava dizer que só teve coragem de lutar todas as guerras que lutou, e botar a vida em risco tantas vezes como fez, porque perdera sua esposa muito cedo.

Jovem e sem filhos, cheio do dinheiro e sem prazer para gastá-lo, resolveu seguir seus sonhos doidos de promover a independência da América Latina. Missão difícil, quase impossível e de imenso perigo. Na época, para impor o medo aos coloniais, as metrópoles não faziam prisioneiros. Enforcavam alguns, fuzilavam outros, e até mesmo esfolavam vivo como fizeram com o índio Tupac Amaru.

O homem costuma medir as conseqüências dos seus atos, e nada o torna mais prudente e temeroso do que ter família para prover e filhos para ver crescer. Quanto menos ele tiver a perder mais afoito será, mais radical poderão ser suas alternativas.
De certa forma dá para dizer o mesmo das nações.

Quanto mais tem a perder numa guerra maior a prudência, quanto menos a perder maior a afoiteza.

É exatamente esse o perigo que representa a Coréia do Norte hoje para a paz mundial.
Desde que a Coréia se desmembrou em duas por força do cessar fogo de Pamunjog (tecnicamente ainda estão em guerra), em 1953, a Coréia do Norte se acostumou a fazer papel de vilão para, em troca, manter a independência e a economia funcionando. Dessa forma, durante a Guerra Fria foi sustentada pela China e em troca representava um peão, estrategicamente colocado pelo bloco socialista no tabuleiro mundial. Quando a Guerra Fria acabou o peão deixou de ter importância e a Coréia do Norte tornou-se uma espécie de peça de museu de uma era encerrada.

Ela está muito longe de representar qualquer tipo de governo socialista. Não representa nem o socialismo nos moldes da antiga União Soviética, nem o socialismo que veio dos campos, como na China. Na verdade é uma ditadura atípica, algo como uma Monarquia absolutista em que o poder se processa por hereditariedade.

Tudo o que se sabe da Coréia do Norte, não se sabe, apenas se desconfia tão fechado é o país para os olhos do mundo.

Segundo desconfia a FAO, órgão da ONU encarregado dos assuntos da agricultura e alimentação, ocorre alta taxa de mortalidade infantil originada da falta de alimentos.
Ao mesmo tempo o país investiu seus parcos recursos num programa nuclear cujo único objetivo é esse que vemos atualmente, ameaçar o mundo. É, portanto uma espécie de miserável, esfomeada, mas muito bem armada.

Ao contrário do Irã, a Coréia do Norte, embora não tenha chance nenhuma de vencer um conflito, tem condições reais de provocar grandes prejuízos, especialmente ao Japão e à Coréia do Sul. Além disso, poderia causar um prejuízo incalculável ao meio ambiente e a todo o planeta.

E o pior é que, diante da situação econômica de abandono, quando até a China, agora interessada em manter mercados, lhe volta às costas, a Coréia do Norte não tem muitas opções.

Por isso, a crise só pode lhe trazer benefícios de barganha, já que, pior do está, não pode ficar. Não tem literalmente, nada a perder

Prof. Péricles

O JULGAMENTO POPULAR DE MARGARET TATCHER



Por Paulo Nogueira

Manifestação de Morrisey, cantor do Smiths, à morte de Thatcher.

“Cada movimento que ela fez foi marcado pela negatividade.

Ela odiava os mineiros, ela odiava as artes, ela odiava os pobres, ela odiava o Greenpeace e a todas as entidades de proteção ambiental.

Ela deu a ordem para explodir o Belgrano já quando o navio argentino estava se afastando das Malvinas. E quando os meninos argentinos a bordo do Belgrano sofreram uma morte terrível e injusta, Thatcher deu o sinal de positivo para a imprensa britânica.

Ela odiava feministas ainda que tenha sido graças a elas que o povo britânico aceitou que um primeiro-ministro pudesse realmente ser do sexo feminino.

Thatcher era um horror sem um átomo da humanidade.”



Quanto a mim: sabia, evidentemente, que Thatcher era uma figura que dividia os ingleses.

Mas não imaginava, até ver as reações a sua morte aqui na Inglaterra e em outras partes do Reino Unido, quanto o ódio que ela despertou suplantava o amor e a admiração.

Horas depois do anúncio da morte, enfrentaram-se em Manchester os dois times locais, o United e o City.

Não houve minuto de silêncio. A torcida teria devastado o tributo.

Em Liverpool, os torcedores cantavam em comemoração à morte de Thatcher. Numa tragédia em que morreram muitos torcedores no estádio do Liverpool nos dias de Thatcher, a polícia acusou a torcida local – erradamente, como se veria depois.

Thatcher condenou a torcida e apoiou a versão falaciosa da polícia. Jamais foi perdoada.

Em Glasgow, uma multidão foi às ruas celebrar a morte. Os escoceses acham que foram tratados como subespécies por Thatcher.

No twitter, o congressista George Galloway lembrou que ouviu Thatcher chamar Mandela, no Parlamento, de “terrorista”. (Alguém disse que houve justiça poética em Mandela, tão combalido, ter sobrevivido a ela).

“Que ela arda no inferno”, disse Galloway, sob numerosas manifestações de apoio e poucas de protesto. Alguém pediu respeito a Galloway.

A melhor maneira de mostrar respeito hoje é esta, respondeu Galloway – e postou um link que ia dar no seu partido, chamado exatamente Respeito.

Fora da galhofa, Galloway disse algo que merece reflexão.

Ele comparou a reação à morte de Thatcher com a reação à morte de Chávez, um mês atrás.
O povo não é bobo.

Thatcher fez um governo dos ricos, pelos ricos e para os ricos.

Chávez governou para os pobres.

O reconhecimento da voz rouca das ruas — vital para o que vai ficar registrado para a posteridade nos livros – irrompe com potência sublime e comovedora na morte de pessoas públicas.

É a aprovação definitiva, ou a reprovação, ou a indiferença.

Chávez foi amplamente aprovado, como gritaram as filas de catorze horas formadas por venezuelanos desesperados por vê-lo pela última vez em Caracas – num lamento épico e histórico protagonizado não pelo Comandante, mas pelos excluídos ao longo da história por uma elite corrupta e predadora controlada pelos Estados Unidos.

Thatcher foi reprovada.



Sobre o autor: O jornalista Paulo Nogueira, baseado em Londres, é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

sábado, 6 de abril de 2013

SEM NOÇÃO



Sempre tem aquela figura da turma que desmoraliza com brincadeiras sem graça ou ações os momentos mais sérios...

Você e seus amigos ali, concentrados, tentando fazer aquela maldita fubica funcionar pra te levar pra praia e chega alguém pra dizer que não adianta porque vai chover.

Ou quando interessadíssimo na nota da última avaliação do bimestre, você fazendo o melhor trabalho possível enquanto o teu colega folheando uma revista de mulher nua canta a “Atoladinha”.

Você sabe aquela rodinha de amigos discutindo qual seria o melhor filme de todos os tempos que você assistiu em toda sua carreira de cinéfilo, o que incluí alguns filmes alternativos e nada comerciais, e um infeliz chega de repente e diz que jamais conseguirá esquecer do “Titanic”.

Convenhamos que não tem graça nenhuma.

São os verdadeiros “sem-noção” ou “abobado feliz”.

Pois alguém resolveu sacanear dessa maneira com a Comissão de Direitos Humanos da Câmara ao indicar (na verdade nomear) como Presidente da própria Comissão um exemplo de sem-noção...

Na boa, não tem graça nenhuma.

No campo democrático pode-se discutir nomes e concordar com uns, discordar de outros. Faz parte do jogo.

Mas não se pode avacalhar nas escolhas dos nomes sob pena de avacalhar com a própria democracia.

Com certeza, certas viúvas esfregam as mãos e resmungam que na Ditadura se escolheria melhor. Afirmação com a qual eu discordo, pois na Ditadura não haveria Comissão dos Direitos Humanos para ter um presidente.

Entretanto, o fato se presta para deboche e provocação. Mas, se a intenção foi fazer pouco dos trabalhos que a comissão realiza, conseguiu.

Essa Comissão tão cara ao povo brasileiro e a seu governo (a Presidenta Dilma sempre afirmou que os direitos humanos seriam uma das prioridades de seu governo) ficou com a cara da Academia Brasileira de Letras, do guardinha do colégio ou do ET de Varginha: já foi importante, já foi respeitada, mas agora ninguém mais leva a sério.

Como levar à sério uma Comissão de Direitos Humanos cujo Presidente afirma que a África é miserável porque sofre uma maldição divina dos tempos de Noé?

Ou que demonstra homofobia até quando tenta disfarçá-la?

Sinceramente, alguém deveria proibir os “sem noção” de falar sobre carros ou discutir cinema ou presidir comissões sérias.

E algumas pessoas nesse país deveriam levar o país mais a sério, pois, brincar com a democracia, não tem graça nenhuma.

Prof. Péricles

quarta-feira, 3 de abril de 2013

TESTAMENTO DE UM POVO



Após a independência, proclamada em 04 de julho de 1776 e ratificada pelo Tratado de Versalhes em 1781, os Estados Unidos viram-se como o maior potencial em desenvolvimento das Américas.

Não tendo sido colonizados na forma de exploração tipo “plantation” ou mineração, puderam criar um mercado local único, que apesar de humilde, nos primeiros tempos, iria se ampliar e ratificar o novo país como uma potência futura.

A industrialização era viável desde que houvesse a expansão de sua produção interna e consumo.

Entretanto, havia um grave problema: pelas próprias características de ocupação do terreno, as colônias existiam na prática apenas na parte leste do atual mapa. Para ampliar sua indústria nascente e seu mercado, era necessário ocupar e fazer crescer, também o oeste do país.

Ocorreu então a chamada “marcha para o oeste”.

Na ocupação do oeste, o ouro que apareceu na Califórnia foi decisivo para atrair colonos, ávidos por riqueza. E dois povos tiveram um encontro com o destino.

Primeiro foram os mexicanos que derrotados em guerras territoriais perderam quase metade de seu território aos Yankes.

Outro foi o povo indígena, verdadeiros proprietários das terras invadidas.

O que aconteceu com essa gente na chamada “conquista do oeste” foi um verdadeiro holocausto.

O governo norte-americano financiou várias “Guerras Indígenas”, sempre culpando os índios, claro, e ao final, os sobreviventes foram colocados em reservas, sem a menor preocupação e respeito por suas culturas. Povos das montanhas, como os Navajos foram retidos em reservas na planície enquanto povos de planície como os Apaches foram presos às montanhas.

Uma verdadeira chacina cultural que regada à muito álcool prostou esse povo à uma situação de mendicância..

Uma vez, questionado, o General nazista Humller confessou que os campos de concentração de judeus na II Guerra Mundial foram inspirados nas reservas indígenas dos Estados Unidos.

Ao cidadão norte-americano sempre foi divulgada a idéia de que índio era selvagem. Povo sem Deus e sem compaixão, justificando o massacre hediondo. Apenas em 1970, com o lançamento do filme “O Pequeno Grande Homem” (Little Big Man) de Arthur Penn, magistralmente interpretado por Dustin Hoffman, a opinião pública norte-americana conheceu o outro lado da história, a versão dos índios.

Em 1855, Chefe Seattle, cacique da tribo Suquamish, escreveu uma carta ao presidente dos Estados Unidos (que ele chamava de O Grande Chefe de Washington) que muitos consideram o testamento, o último suspiro de um povo em fase de extermínio. Nessa carta temos uma grande lição sobre preservação da natureza, respeito ao meio-ambiente e crescimento sustentável.

De certa forma, é uma carta profética e embora bem conhecida do público, sempre merece uma releitura pela sua incrível atualidade.

Leia a seguir a carta de um índio e tire suas conclusões sobre quem é o “selvagem”.



"O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.

Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.
Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.
Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra fere também os filhos da terra.

Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano a terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.

Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã.

Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos.

Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."


Prof. Péricles
Agradecemos a colaboração do amigo Hilton.