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domingo, 29 de junho de 2014

ASSANGE, DOIS ANOS DE CONFINAMENTO



Por Mário Augusto Jakobskind


Quando o mundo inteiro reverencia o ex-agente de inteligência norte-americano Edward Snowden, muito justamente, por sinal, por se tratar de um herói da humanidade, outro herói da humanidade, Julian Assange, responsável pelo site WikiLeaks vem sendo esquecido. Praticamente saiu do foco midiático

Assange acabou de completar dois anos, na quinta–feira (19/06), de confinamento na representação diplomática do Equador em Londres, uma pequena sala. Está impedido de tomar sol e está sujeito a doenças a que ficam sujeitas pessoas nessa situação.

Na quinta-feira última mesmo, Assange assegurou que manterá a promessa de seguir divulgando ao mundo toda a informação em seu poder sobre a atuação e operação dos Estados Unidos e seus aliados.

Como se não bastasse todo esse infortúnio, por pressão do Departamento de Estado norte-americano, Assange está sendo impedido de receber doações através de cartões de crédito que o site WikiLeaks recebia de diversas partes do mundo. Ou seja, além de impedido de sair do local onde se encontra, porque se o fizer será preso pelas forças policiais britânicas acantonadas na saída da representação diplomática equatoriana em Londres, as pressões econômicas aumentam a cada dia.

A Grã Bretanha obedece fielmente, como um cão de guarda, os interesses norte-americanos e não dá tréguas na vigilância a Assange. Também não divulga o custo financeiro representado pela a prontidão policial.

E tudo isso acontece sob quase total silêncio dos grandes meios de comunicação ocidentais, que sempre se dizem não apenas interessados em oferecer informações aos seus leitores, telespectadores e ouvintes, como se apresentam como defensores incondicionais da liberdade de expressão e de imprensa.

A pressão, criminosa, dos Estados Unidos contra Assange, não resta dúvida, é atentatória à liberdade de expressão, e não pode continuar sendo silenciada. É preciso que os espaços midiáticos em todo mundo abandonem a desinformação sobre a real situação em que se encontra o herói da humanidade Julian Assange.

Louve-se o governo do Equador, que em nenhum momento deixou de oferecer ajuda a Assange. Claro que tudo isso tem um custo financeiro. O governo de Rafael Correa arca com esse custo e está mostrando ao mundo que acima de tudo leva em conta a questão humanitária.

Se algo de grave acontecer a Julian Assange, a responsabilidade é do Presidente Barack Obama e dos serviços de inteligência norte-americanos. Não se exclui também a responsabilidade do cão de guarda britânico, o Primeiro-Ministro David Cameron, que ordena o cerco policial à representação diplomática do Equador.

No Brasil, Assange recebeu homenagem do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ, com a Medalha Chico Mendes de Direitos Humanos. No ano passado, a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) também homenageou o responsável pelo site WikiLeaks com a concessão de uma Medalha de Direitos Humanos. E todas essas homenagens foram omitidas pela grande mídia brasileira.

O GTNM-RJ e a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI somam-se a outras entidades de várias partes do mundo que exigem dos governos dos Estados Unidos e da Grã Bretanha que terminem com o cerco autoritário a que está sendo submetido o herói da humanidade Julian Assange e permitam que ele siga imediatamente rumo ao Equador.

As duas entidades também apelam aos meios de comunicação e agência internacionais de notícias a romperem o vergonhoso silêncio sobre o cerco criminoso a que está sendo submetido Julian Assange.

Além de Assange, outro herói da humanidade, Edward Snowden terá seu asilo na Rússia expirado em agosto. Em recente entrevista para a Globo News, o ex-agente da CIA manifestou o desejo de conseguir asilo político no Brasil. Disse que tinha feito um pedido nesse sentido quando ainda se encontrava no aeroporto de Moscou, O governo brasileiro negou ter recebido o pedido. Agora, para esclarecer em definitivo com quem está a verdade, Snowden deveria fazer um outro pedido formal ao governo brasileiro. Se não houver resposta e for dito que não houve nenhuma solicitação se saberá quem mente. Se o governo brasileiro conceder o visto, estará tudo esclarecido. Mas se negar estará na prática dando sinal de fraqueza, o que se espera não aconteça.

Aguardemos o desenrolar dos acontecimentos não deixando que a questão seja esquecida, como tem sido em relação ao herói da humanidade Julian Assange.


Mário Augusto Jakobskind, jornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil); preside a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI.



sexta-feira, 27 de junho de 2014

ABUTRES, COVEIROS E GOIABAS


Por Flávio Aguiar

A campanha nacional e internacional contra o Brasil e os brasileiros disseminou três tipos de detratores do nosso país: abutres, coveiros e goiabas.

1. Os abutres

São os mais ideológicos de todos. No plano internacional têm sido puxados por The Economist e Financial Times. Para eles o Brasil se assemelha a uma valiosa cariniça a ser saqueada. O valor da carniça aumentou muito desde as descobertas na camada atlântica do pré-sal. Muitos deles mantém uma pretensa elegância, muito própria para quem gosta de usar ternos de grife no trabalho. Seu estilo preferido é o prosaico analítico, com direito, vez por outra, a certos sarcasmos pesados, que eles vêem como mera ironia, como a de comparar a nossa presidenta a Groucho Marx. Adoram elogiar o México e a Aliança do Pacífico, como “respostas” ao Brasil e o Mercosul. Às vezes animam gente mais grosseira, como no caso das vaias VIP, no Itaquerão. Mas aí começamos a entrar no segundo grupo.

2. Os coveiros

De um modo geral, são aqueles detratores que, no fundo, bem no fundo, acham que nasceram no país, na latitude e na longitude erradas, além do fuso horário trocado. Latitude errada: nasceram no hemisfério sul. Longitude errada e fuso horário trocado: a hora da nossa capital não é a mesma de Washington, nem de Londres, nem de Paris. Grosso modo, dividem-se em dois grupos. O primeiro simplesmente detesta o país em que nasceu. Não suporta olhar pela janela e ver bananeiras ao invés de pine trees. Detesta até ver palmeiras ao invés de palm trees. São os detratores de sempre, os que se ufanam da Europa e dos Estados Unidos e que pensam que o nosso povo é desqualificado para ser um povo. Sua abrangência é nacional, mas também aparecem alguns no plano internacional. Ouvi durante seminário recente aqui em Berlim que o Brasil é um país que não tem cultura, só tem música e samba. Não sei exatamente o que a pessoa em questão, que não era brasileira, entendia por “cultura”, “música” e “samba”, mas sei muito bem o que ela entendia por ”Brasil”: um bando de gente nu por fora e por dentro, mais ou menos como os primeiros europeus viam os índios quando chegaram para conquistá-los e dizimá-los. São e serão os coveiros de sempre. O segundo grupo pegou carona na campanha dos abutres. Gosta de falar mal do Brasil de agora, este que aí está, com pleno emprego e melhora na repartição de renda. Quer dar a volta no relógio e no calendário, nos ajustar de novo ao tempo em que pobre era miserável e miserável não era nada. Acha que pode garantir de novo os aeroportos só para si. Mas é um grupo que gosta de falar também em generalidades. Se dentro do Brasil, usa o pronome nós (“nós somos corruptos”, “nós somos violentos”, “nós somos ineficientes”, etc.), mas é um “nós” que tem o valor de “eles”, pois só vale da boca para fora.

Os estilos preferidos variam: vão do insulto grosseiro à lamentação sutil. Os coveiros deste grupo costumam ter um alvo preciso, que copiam dos abutres: no momento atual, a eleição de outubro. Já os coveiros do primeiro grupo não têm alvo preciso, a não ser o de fazer compras em Miami (alguns) ou passear de bonde ou ônibus nas capitais europeias enquanto faz campanha contra corredores de ônibus nas cidades brasileiras.

3. Os goiabas

Este é um grupo mais variado. Seu estilo varia entre a euforia e a lamentação. Mas são plagiadores profissionais. Copiam sem restrição tudo o que lhes é servido pelos abutres e os coveiros. Repetem entusiasticamente: “o gigante acordou em junho do ano passado”. Ou chorosamente: “a Copa do Mundo no Brasil tirou dinheiro das escolas e dos hospitais”. E repetem firmes outras condenações peremptórias, como “a de que os estádios ficarão necessariamente ociosos depois da Copa”. São muito numerosos, barulhentos, tanto dentro como fora do país. Também repetem-se muito entre si mesmos, achando que estão sendo originais. Gostam de dizer que estão “mostrando o verdadeiro Brasil” ao nos detratar como um país imóvel, que não tem entrada nem saída.

Os grupos ficaram martelando – mais os coveiros, os goiabas e, mas com a reza em voz baixa a seu favor vinda dos abutres internacionais e também com as vezes a reza em voz alta dos abutres nacionais – que a Copa não ia dar certo, que seria um fracasso, que os aeroportos iam entrar em colapso, que as cidades (e o metrô de S. Paulo no dia da abertura) iriam parar, etc.

Deram com os burros n’água. Cavaram a própria cova e esqueceram de levar uma escada de saída. Ainda esperam que “algo”, alguma catástrofe, qualquer coisa, aconteça até o final da Copa. Depois deste final, vão tentar uma de duas: se o Brasil ganhar a Copa, vão dizer que o nosso povo é um bando de babacas que só sabem correr atrás da bola quando vêem uma. Se o Brasil perder, vão insistir na ideia de que o governo jogou dinheiro fora. Vamos ver o que vai acontecer.

Antes de encerrar, quero esclarecer que “abutres”, “coveiros”, “goiabas” e até “burros n’água” são apenas metáforas literárias, que não deve ser lidas literalmente. Nada tenho contra os abutres que, como os urubus, ajudam a manter a limpeza no seus espaços; nem contra a operosa classe dos coveiros, tão socialmente valiosos como qualquer outra profissão laboriosa; muito menos contra as goiabas, frutas deliciosas como tantas outras; e certamente na da contra os pacientes burros da vida real, que nada têm de burros. Burros, neste último sentido, apesar de alguns se acharem espertalhões, são os “abutres”, os “coveiros”, e os “goiabas”.

terça-feira, 24 de junho de 2014

MUDAR O MUNDO


Muitas pessoas pensaram em mudar o mundo.

Algumas fizeram apenas sugestões teóricas, outros atuaram ativamente para provar que suas idéias eram corretas.
Mudar o mundo foi o sonho, a obsessão e o objetivo de muitas vidas.

Adam Smith, por exemplo. Foi um filósofo e economista escocês que viveu no século XVIII. Para ele o mundo em que a produção e a distribuição das riquezas eram dirigidas pelo Estado, ou seja, pelo rei, era a causa de todas as dores sociais. O Rei privilegiava interesses e os ricos só poderiam ser ricos se circulasse em sua órbita.

A solução para mudar o mundo? O liberalismo econômico onde a produção, preço, distribuição e consumo seguissem as leis não escritas do mercado. Em busca do lucro tudo se ajeitaria e a economia como uma carroça de melancias se ajeitaria por si só.
Adam Smith é o pai do liberalismo econômico e sua obra “A Riqueza das Nações” a Bíblia. Suas idéias chegaram ao poder coma vitória da burguesia na Revolução Francesa, mas, se os ricos tornaram-se mais ricos, os pobres ficaram ainda mais abandonados e o mundo não mudou e ficou melhor para todos como ele imaginava.

Karl Marx também acreditava ser possível mudar o mundo. Para esse judeu alemão do século XIX o mundo se dividia entre exploradores (uma minoria, a elite burguesa) e explorados (os trabalhadores em geral). Dividia-se entre os que tinham os meios de produzir riqueza e obter lucros e os que não tinham esses meios mas produziam a riqueza com a sua força de trabalho, sendo obrigados a alugar essa força como se fosse uma ferramenta.

Para Marx era possível e natural mudar o mundo. Bastaria que os trabalhadores (especialmente os urbanos) se organizassem num partido político e sob a direção desse partido fizesse a revolução para um mundo novo, que ele chamou de socialista, e depois, para o paraíso possível na terra, a sociedade comunista, perfeita.

Obras como “O Capital” e “O Manifesto Comunista” foram à expressão maior das idéias de Marx e seu parceiro Engels. Em 1917 essas idéias foram postas em execução na Rússia, sob a liderança de um homem extraordinário chamado Vladimir Lênin. Mas, Lênin morreu poucos anos depois, o partido e o país passaram a ser liderados por homens que demonstraram enorme sede de poder, gerando uma das mais dramáticas ditaduras que o mundo já viu o stalinismo.

Nunca passamos do estágio socialista para a experiência comunista e o próprio socialismo ruiu em meados da década de 80 do século passado.

Outro que achava poder mudar o mundo foi Adolf Hitler. Acreditando na possibilidade de criar uma sociedade dominada por uma raça superior, a dele, claro, e na formação de estados centralizado sobre um líder (duche) forte, comprometido com a direção do estado e da economia como quem dirige uma fábrica levando o bem para todo o seu povo, Hitler provocou a maior tragédia humana que foi a segunda guerra mundial (1939-1945). Mein Kampf é onde expõem em dois volumes suas idéias de uma forma mais ou menos clara.

Muitos outros pensaram ser possível mudar o mundo, mas, de forma geral, o sucesso de suas idéias foi relativo e, de forma alguma definitivo.

Uma personagem, entretanto, foi exceção.

A figura de Jesus não tem comprovação histórica, isso é não existem dados documentais suficientes para se estabelecer com alguma garantia os seus passos, influências, origem e sua atuação política e social.

O que sabemos de Jesus é quase nada tendo em vista que apenas um historiador judeu romanizado, Josefo, o menciona em seus escritos.

Basicamente, o que sabemos de seus pensamentos estão contidos em obras clandestinas, de autoria não comprovada e de terceiros, os Evangelhos.

Escritos, com certeza no primeiro e segundo século de nossa Era, os evangelhos foram cuidadosamente selecionados pela Igreja Romana, mas isso, já é outra história.

O que nos importa aqui é que, de suas palavras e ensinamentos a multidão, relatados pelos evangelistas, entendemos que esse sábio também acreditava na possibilidade de mudar o mundo, mas não o mundo em si. Jesus foi totalmente diferente de qualquer outro pensador já citado, na medida em que defende que se mude a si mesmo. Ou seja, Jesus não menciona mudar o mundo e sim, mudar o próprio homem.

A força dessa idéia parece indestrutível.

Conforme se acredita, Jesus foi preso, sumariamente julgado, condenado e executado, mas, paradoxalmente, suas idéias sobreviveram ao tempo e atravessaram os séculos. Como sabemos, a sociedade ocidental foi moldada a partir do que chamamos de cristianismo.
Esse pensador, entretanto, não propôs nenhuma forma de revolução política ou de alteração profunda da economia. Por isso mesmo, sua proposta é a mais revolucionária das propostas de mudar o mundo.

Simplesmente incentivou a mudança de cada um, numa revolucionária mudança de valores.

Exortando que cada um encontrasse no outro a si mesmo, amando o próximo como amaria a si próprio, Jesus alterou a face do mundo e configurou as relações humanas da civilização ocidental.

Simples assim, sem manuais, exercício partidário ou definições de mercado.

Talvez, seja a hora do ocidente reviver o cristianismo em sua prática.

Promovendo a mudança interior, quem sabe, possamos, finalmente, mudar o mundo?

Prof. Péricles


sábado, 21 de junho de 2014

ALGUMA CHANCE


Quem sabe a verdade mesmo, é que nascemos num mundo torto? Talvez, não exatamente torto, mas, fora de foco.

Vivemos as conseqüências de um mundo que buscou no comércio das coisas promover a circulação das riquezas e a felicidades das pessoas, mas que, ao mesmo tempo, sempre buscou concentrar as riquezas e junto com a riqueza de alguns, promoveu a misérias da maioria.

Um mundo em que a industrialização permitiu fazer mais rápido e muito mais e por isso lucrar indefinidamente, elevando ao infinito a possibilidade de enriquecer. E foi essa possibilidade que a tudo transformou em mercado e a todos nomeou consumidores.

Por mais maluco que pareça foi o direito e a valorização da liberdade burguesa, expressa a partir da Revolução Francesa, que nos escravizou, pois ao mesmo tempo em que nos libertou da tirania dos soberanos e nos privilégios do berço nos acorrentou às aparências e ao etéreo poder do dinheiro.

Enquanto valorizou-se a privacidade e o individualismo criou-se o império do egoísmo onde desde criança se aprende a competir e a ser melhor do que o outro para o resto de nossas vidas.

É triste reconhecer que escolhemos viver assim. Lutamos para viver assim.

Pesaroso concluir a democracia existe apenas enquanto metáfora para justificar a dominação das elites.

Vivemos num mundo de 7 bilhões de pessoas. Graças à internet nunca fomos tão próximos, mas, também, nunca estivemos tão sozinhos.

Enquanto vivenciamos os prazeres que a informatização pode dar nos perdemos em comunidades fictícias, nos embrenhamos numa floresta de virtualidades que fazem com que essa seja também a era do antidepressivo e do estres.

Estimativas humildes apontam que 10% dos habitantes do planeta desenvolvem dependência química e 20% sofrem de depressão.

Num mundo desequilibrado usamos bengalas para nos equilibrar e essas bengalas são tão variáveis quanto nossas dores. E as dores, podem ser as mesmas, mas o sofrimento não.

Cada um sofre do seu jeito. A dor é coletiva, mas o sofrimento é individual.

Francamente, sejamos sinceros, a dor que entra só entra porque encontra vazios e se nosso problema é ter tantos vazios talvez seja possível buscar soluções preenchendo esses vazios com outras coisas.

E para fazer isso precisamos mudar o foco.
É necessário repensar sem medo. Viajar para os porões mais sombrios de nossa alma, onde escondemos tudo aquilo que não queremos admitir. Olhar para dentro de nós mesmos, da vida e da sociedade que construímos.

Temos que repensar valores. Preservar os tesouros que conquistamos e não temer abrir mão do que não funciona.

Faz-se urgente uma cirurgia social que ampute todos os preconceitos e idéias radicais de superioridade, de raça, de verdadeiro, de nacional, de posse, de ser melhor que a concorrência. Essas coisas já nos levaram aos mais horrendos holocaustos.

Mais do que faturar temos que valorizar o humano. Mas do que defender a propriedade privada temos que valorizar a construção coletiva. Mas do que selecionar temos que incluir.

Nós só teremos alguma chance de ser feliz se não tivermos medo de construir uma sociedade mais justa.

Caso contrário, nossos vazios continuarão sendo preenchidos pelas drogas e pelas mentiras e nossa felicidade apenas virtual.


Prof. Péricles







quarta-feira, 18 de junho de 2014

MAIS CRIMINOSOS QUE O PCC



Por Francisco Costa

Hoje está fazendo uma semana que a Copa do Mundo se iniciou.

Conforme prognosticaram os jornalistas, embasados em vasta experiência jornalística, honestidade de propósitos, compromisso com a verdade e isenção política, infelizmente está tudo acontecendo como o esperado.

Parabéns às tevês Globo e Band, à revista Veja, aos jornais Folha de São Paulo e O Globo, pela perfeita percepção da realidade, o que só os que fazem jornalismo sério, não corrompido por interesses políticos e pecuniários, podem ter.

Como era esperado, o vexame é total, o que enxovalha o Brasil aos olhos do mundo e mostra toda a incompetência política e administrativa desse governo, nos expondo assim a humilhante situação, da qual demoraremos muitos anos para nos livrarmos.

Para fazer as afirmações que se seguem, pautei-me pelo que tenho lido na imprensa internacional, a partir de jornalistas estrangeiros e turistas do mundo todo, e postado pelos bravos militantes da direita, intelectualizados e precisos nas suas análises e críticas.

Os estádios todos inacabados, de arquitetura no mínimo duvidosa, feios, mal iluminados… Acertaram os que disseram que só ficariam prontos na próxima década.

As chamadas obras de infrestrutura, no entorno dos estádios, foram uma balela. Os engarrafamentos, nos momentos que antecedem os jogos, são quilométricos, com os torcedores chegando atrasados, inclusive com muitos deles desistindo de entrar nos estádios.

Os aeroportos superlotados, com voos atrasados e cancelados, filas imensas nos guichês, bagagens extraviadas… Com todos os aeroportos por terminar, cheios de materiais de obras espalhados, numa imundície só.

Um outro fiasco que não poderia passar em branco é o das comunicações, com os correspondentes sem poder fazer contatos com suas bases, os links interrompidos ou com interferências, nos isolando nos momentos de pico, que antecedem e durante os jogos.

E o apagão, a suprema humilhação? Como é que em pleno século XXI um país inteiro pode ficar sem energia elétrica por horas, em silêncio, no escuro, envergonhado?

O apontado infelizmente aconteceu: um surto de dengue em pleno inverno, com os hospitais lotados, sem ambulâncias para transportar doentes, medicamentos em quantidade insuficiente, com muitos turistas debandando, voltando para os seus países, com medo.

Mas… O que mais temíamos e tínhamos certeza que aconteceria e ficaria fora de controle… A violência generalizou-se de tal maneira que nem mesmo as Forças Armadas estão tendo força suficiente para, se não debelar, pelo menos minorizar: brigas generalizadas entre torcidas, resultado de um serviço de segurança ineficiente, pequeno no número de homens, e despreparados.

As delegacias policiais já não dão conta de tantos registros de ocorrências de roubos, assaltos e sequestros, com balas perdidas em grandes aglomerações de turistas, os arrastões, promovidos por facções criminosas, com gente descida dos morros e vindas dos subúrbios.

Perdeu-se a conta de ônibus queimados, vitrines quebradas, lojas comerciais saqueadas…

Claro que uma situação dessa, e que só surpreendeu aos mal informados, não leitores de nossos jornais e revistas e telespectadores, só poderia gerar protestos, indignação, e então o que se viu foi o coro, em São Paulo, usando palavras de baixo calão, dirigidas à presidente da república.

Não passou pela cabeça de ninguém que deixar o povo ter acesso aos estádios seria uma temeridade? Como esperar civilidade, educação, postura, respeito e até caráter de pessoas de pouco estudo, baixos salários, residindo em áreas longínquas? Como esperar dessa gente qualquer coisa como simpatia, hospitalidade, cortesia? São ogros.

Só deveriam ter acesso aos camarotes vips dos estádios os grandes empresários, os políticos de direita, os artistas e apresentadores da televisão, gente polida, educada, respeitadora, como não mostram no vídeo, em pleno exercício de monetário cinismo.

O país está um caos, e não foi por falta de aviso: a mídia avisou que seria assim, a oposição ao governo provou que seria assim, uma multidão de internautas inteligentes e bem informados mostraram todas as evidências de que seria assim, mas o governo não quis ouvir e pôs avante esse sonho megalômano de realizar uma Copa do Mundo aqui.

O Brasil nunca mais será o mesmo aos olhos do mundo, que agora entendeu que, aqui, a mídia e os partidos de direita (Dem, PSOL, PSDB…) são mais criminosos que o Comando Vermelho e o PCC.


sábado, 14 de junho de 2014

A IGNORÂNCIA DA ELITE É UM ESPANTO, UM ESPANTO!


José Eugênio Soares, ou, simplesmente, Jô Soares, foi um humorista que criou personagens inesquecíveis para os de minha geração.

Com um humor inteligente e geralmente satírico, esses personagens pronunciavam bordões, aquelas frases que enfatizam a piada, que entraram para a história de todos nós, daquela época.

Um desses personagens era um professor cínico, que aparecia, geralmente num encontro social, em que muitas pessoas conversavam animadamente. Um pequeno grupo de gente mais velha, logo identificados como seus ex-alunos, aproximava-se do professor e estabelecia um diálogo, sempre criticando a juventude e sua propalada ignorância.

O professor demonstrava concordar que a juventude era ignorante e relatava um caso em que seus alunos afirmavam determinada coisa, supostamente errada. Os mais, ao redor, velhos davam risada e lamentavam tanta burrice, mas logo ficavam sem graça quando o professor parava de rir e dizia que aquilo era verdade e os alunos tinham razão.

Todos ficavam sem jeito por rir de algo que estava certo e o quadro terminava com o professor pronunciando o bordão “realmente, a ignorância da juventude é um espanto, um espanto!”

Lembrei desse quadro do Jô Soares ao assistir as vaias para a presidenta Dilma Roussef na abertura da Copa do Mundo.

Um dos momentos de maior deleite da classe média brasileira, supostamente esclarecida e bem informada, é curtir os erros de expressão dos mais pobres que, de acordo com seus critérios de hierarquia, demonstram inferioridade.

Esquecendo-se que nem todos nesse país governado pelas elites puderam estudar, apontam erros gramaticais e erros de concordância como atestado de ignorância e de incapacidade.

O próprio presidente Lula, um ex-metalúrgico, vindo do nordeste identificado como terra do atraso é personagem central de piadas grotescas nesse sentido.

São preconceitos típicos de mentalidades conservadoras que preferem um presidente sociólogo, ou filho da burguesia, que fale bonito e escreva bem.

Na quinta-feira, dia 12, na abertura da Copa do Mundo, na Arena do Corinthians, o estádio estava repleto desses luminares esclarecidos.

Filhos das elites e da classe média, identificados de alguma forma com a Coca-cola, Liberty Seguros, Adidas, Hyndai, Kia, Emirates, Sony, Visa, Budweiser, Castrol, Johnson e Johnson, McDonalds e outros patrocinadores do evento que distribuíram cerca de 70% dos ingressos, ocupavam os espaços, generosamente oferecidos.

Pela dificuldade de aquisição e pelo preço, as classes de menor poder aquisitivo estavam impedidas de comparecer.

Pois, eis que, dessa massa de boa gente, branca, católica e bem alimentada. Bons filhos, bons profissionais, esclarecidos, que falam bonito e conjugam bem os verbos, ergueram-se apupos tão intensos dirigidos à presidente da República que, longe de ser qualquer tipo de protesto civilizado tornaram-se ofensas pessoais, grosseiras e de tão baixo nível que nem podem ser reproduzidas aqui.

Com certeza gente que fala bonito. Sem grandes erros de concordância. Alguns até escrevem em colunas sociais proferindo palavrões típicos de suas piadas mais sórdidas quando se referem aos menos cultos.

Comovente exemplo a não ser seguido pelos que falam errado.

Com certeza o professor do Jô Soares não estava no estádio, inacessível ao trabalhador.

Mas, junto a 1 bilhão e meio de pessoas de todo o mundo que acompanhavam a cerimônia pela televisão, deve ter feito aquela cara tão conhecida por nós quando ironizava a suposta ilustração e dito “realmente, a ignorância dos bem nascidos brasileiros é um espanto, um espanto!”.

Resta-nos recordar o presidente Juscelino Kubitschek, que um dia, vítima de uma armação de Ademar de Barros, após ser terrivelmente vaiado em uma universidade, disse, na saída “Feliz do país que tem estudantes que podem vaiar seu presidente”.


Prof. Péricles




quarta-feira, 11 de junho de 2014

EGITO E TURISTAS DO PASSADO



No tempo dos romanos, no início da nossa era, o Vale dos Reis já era um sítio antigo, que atraía turistas.

Naquele vale, foram sendo construídos pelos faraós, túmulos e sepultados de suas mulheres e filhos. Mas também muitos túmulos de outras famílias da nobreza egípcia.

Agora, uma equipe da Universidade da Basileia, na Suíça, escavou um dos túmulos e descobriu os restos de 50 múmias egípcias, incluindo múmias de crianças.

Os túmulos, construídos em profundidade, têm vários tamanhos. O mais impressionante, foi erigido em grande parte por Ramsés II para sepultar os seus filhos. A sepultura, que tem mais de 120 corredores e câmaras, começou a ser escavada por arqueólogos sistematicamente na década de 1990 mas ainda hoje não se encontraram os seus limites.

O túmulo escavado agora é bem menor, tem apenas cinco câmaras subterrâneas.

Os especialistas pensavam que o túmulo descoberto (batizado de KV 40) não fosse um túmulo da realeza. "Cerca de dois terços dos túmulos do Vale dos Reis não pertencem à realeza", explica Susanne Bickel, egiptóloga da Universidade de Basileia e responsável pela operação.

Mas, dentro do KV 40, os investigadores encontraram na câmara central e em três câmaras laterais os restos de 50 múmias. A partir das inscrições encontradas em vasos canópicos - onde eram guardadas as vísceras das pessoas mumificadas – foi possível identificar o nome de 30 pessoas. E, afinal, havia muito sangue real naquele espaço.

Entre as múmias estavam príncipes e princesas das famílias de dois faraós da XVIII dinastia, Tutmés IV e Amenófis III, que reinaram no século XIV a.C. Destes, oito princesas e quatro príncipes não eram conhecidos até agora pelos historiadores.

Chama a atenção a descoberta de várias múmias de recém-nascidos e crianças. "Descobrimos um número notável de recém-nascidos e crianças cuidadosamente mumificados, que normalmente teriam sido enterrados de uma forma muito mais simples", diz Susanne Bickel.

Espera-se agora que uma análise mais aprofundada dos achados arqueológicos revele a composição da corte faraônica durante a XVIII dinastia, assim como as condições de vida e as tradições do enterro na época.

Nas paredes de muitos túmulos do Vale dos Reis existem mais de 2000 mensagens, assinaturas e desenhos, uma espécie de graffiti, que são testemunhos dos muitos turistas que visitaram aquele local sagrado entre o século III a.C. e o século VI d.C.

Nas fotografias do agora escavado KV 40 nota-se a ferrugem negra de um incêndio que o túmulo sofreu. "Os restos [arqueológicos] e as paredes foram afectados por um incêndio que terá sido iniciado, muito provavelmente, pelas tochas de salteadores de túmulos".

Além disso, já muito tempo depois de o Vale dos Reis ter deixado de ser uma necrópole real, restos de caixões feitos de madeira e de material composto por fibras vegetais ou papiros encontrados no lugar indicam que houve uma utilização posterior da sepultura para enterrar outros mortos: no século IX a.C. as famílias de sacerdotes terão usado aquele túmulo como cemitério.


domingo, 8 de junho de 2014

FERNANDÃO


A história não se restringe ao seu contexto oficial. Existem muitas histórias e muito jeito de contá-las.

Toda história é importante e todas estão interligadas.

A história do futebol, e de seus times, é das mais significativas para milhões de brasileiros que fazem do futebol o palco maior de sua liturgia, e não é por se tratar de um segmento esportivo que deve ser menosprezada.

A história de seu clube é também a história de sua paixão, de seus mais intensos sentimentos que variam da euforia indescritível à frustração imensa e dolorosa.

Existem vitórias e derrotas tão marcantes que quando mencionadas nos “levam” imediatamente ao que fazíamos e onde estávamos quando aconteceu, e isso, muito mais do que outras referências, reconta a nossa própria história individual.

Por isso, a morte de um ídolo como Fernandão, mexe com todos os que gostam de futebol, sejam eles torcedores do seu clube, no caso, o Internacional, ou de seus adversários.

Nunca conversei com Fernandão. Não o conhecia pessoalmente. Mas ele, muitas vezes entrou na minha casa, me entristeceu com suas habilidades a serviço do rival, e foi embora depois dos 90 minutos, para voltar no jogo seguinte.

Jamais tomamos um cafezinho e conversamos sobre política, mundo, ou sobre mulher, mas, de certa forma, éramos íntimos.

Não me venham dizer que não posso me emocionar pela morte de um desconhecido. Eu o conhecia. Nos víamos em todas as rodadas. Fazia parte da família.

Lembro de sua intensa e comovedora liderança entre seus companheiros. Aprendi que nenhum time, por mais qualificado tecnicamente é campeão sem líderes como ele era, dentro do gramado e, especialmente, fora dele.

Foi numa entrevista de Fernandão que, muito antes de Yokohama, temi que o Inter conseguisse o sonhado campeonato.

Admirei quando após abandonar o futebol foi, humildemente, ocupar um banco escolar de treinador de futebol.

Ao contrário de muitos que por terem jogado já se consideravam conhecedores de tudo, foi estudar. Tem como não admirar uma pessoa assim?

O mundo do futebol perde prematuramente um de seus personagens mais encantadores. O Rio Grande do Sul, em especial, e a torcida colorada, em especial.

Mas perdem, sobretudo, todos aqueles que admiram as pequenas ações, os gestos mais simples e a humildade de saber ganhar.

Como gremista jamais me senti desmerecido por esse atleta, pois nunca ouvi de sua boca, uma frase menor de soberba ou de deboche.

Apesar de vocacionado à grandeza, como ser um dos símbolos da conquista do mundial, essa mesma conquista começou, com certeza, com um pequeno gesto de apoio, um olhar, uma crítica fraterna e furtiva, uma mão estendida pelo seu capitão.

Bola pra frente. A vida é assim e Fernandão agora é uma estrela do mundo do futebol, que brilhará para sempre para todos aqueles apaixonados colorados, de todas as gerações.

E para os jovens, muito jovens de hoje, ou os futuros colorados que ainda não nasceram, haverá sempre a história, a testemunha mais importante para cada um de nós, para resgatar sua lembrança.

Prof. Péricles

quarta-feira, 4 de junho de 2014

SEM-VERGONHA


Por Marcelo Zero

Ao contrário de alguns, não sinto nenhuma vergonha do meu país.

Não sinto vergonha dos 36 milhões de brasileiros que conseguiram sair da pobreza extrema, graças a programas sociais como o Bolsa Família. Na realidade, me alegro muito disso. Sei que eles se libertaram daquilo que Gandhi chamava de a “pior forma de violência”, a miséria. Agora, eles podem sonhar mais e fazer mais. Tornaram-se cidadãos mais livres e críticos. Isso é muito bom para eles e muito melhor para o Brasil, que fica mais justo e fortalecido. E isso é também muito bom para mim, embora eu não me beneficie diretamente desses programas. Me agrada viver em um país que hoje é um pouco mais justo do que era no passado.

Também não sinto vergonha dos 42 milhões de brasileiros que, nos últimos 10 anos, ascenderam à classe média, ou à nova classe trabalhadora, como queiram. Eles dinamizaram o mercado de consumo de massa brasileiro e fortaleceram bastante a nossa economia. Graças a eles, o Brasil enfrenta, em condições bem melhores que no passado, a pior crise mundial desde 1929. Graças a eles, o Brasil está mais próspero, mais sólido e menos desigual. Ao contrário de alguns, não me ressinto dessa extraordinária ascensão social. Sinto-me feliz em tê-los ao meu lado nos aeroportos e em outros lugares antes reservados a uma pequena minoria. Sei que, com eles, o Brasil pode voar mais alto.

Não tenho vergonha nenhuma das obras da Copa, mesmo que algumas tenham atrasado. Em sua maioria, são obras que apenas foram aceleradas pela Copa. São, na realidade, obras de mobilidade urbana e de aperfeiçoamento geral da infraestrutura que melhorarão a vida de milhões de brasileiros. Estive no aeroporto de Brasília e fiquei muito bem impressionado com os novos terminais e com a nova facilidade de acesso ao local. Mesmo os novos estádios, que não consumiram um centavo sequer do orçamento, impressionam.

Lembro-me de velhos estádios imundos, inseguros, desconfortáveis e caindo aos pedaços. Me agrada saber que, agora, os torcedores vão ter a sua disposição estádios decentes. Acho que eles merecem. Me agrada ainda mais saber que tudo isso vem sendo construído com um gasto efetivo que representa somente uma pequena fração do que é investido em Saúde e Educação. Gostaria, é claro, que todas as obras do Brasil fossem muito bem planejadas e executadas. Que não houvesse aditivos, atrasos, superfaturamentos e goteiras. Prefiro, no entanto, ver o Brasil em obras que voltar ao passado do país que não tinha obras estruturantes, e tampouco perspectivas de melhorar.

Tranquiliza-me saber que o Brasil tem um sistema de saúde público, ainda que falho e com grandes limitações. Já usei hospitais públicos e, mesmo com todas as deficiências do atendimento, sai de lá curado e sem ter gasto um centavo. Centenas de milhares de brasileiros fazem a mesma coisa todos os anos. Cerca de 50 milhões de norte-americanos, habitantes da maior economia do planeta e que não têm plano de saúde, não podem fazer a mesma coisa, pois lá não há saúde pública. Obama, a muito custo, está encontrando uma solução para essa vergonha. Gostaria, é óbvio, que o SUS fosse igual ao sistema de saúde pública da França ou de Cuba. Porém, sinto muito orgulho do Mais Médicos, um programa que vem levando atendimento básico à saúde a milhões de brasileiros que vivem em regiões pobres e muito isoladas. Sinto alívio em saber que, na hora da dor e da doença, agora eles vão ter a quem recorrer. Sinto orgulho, mas muito orgulho mesmo, desses médicos que colocam a solidariedade acima da mercantilização da medicina.

Estou também muito orgulhoso de programas como o Prouni, o Reuni, o Fies, o Enem e os das cotas, que estão abrindo as portas das universidades para os mais pobres, os afrodescendentes e os egressos da escola pública. Tenho uma sobrinha extremamente talentosa que mora no EUA e que conseguiu a façanha de ser aceita, com facilidade, nas três melhores universidades daquele país. Mas ela vai ter de estudar numa universidade de segunda linha, pois a família, muito afetada pela recessão, não tem condição de pagar os custos escorchantes de uma universidade de ponta. Acho isso uma vergonha. Não quero isso para o meu país. Alfabetizei-me e fiz minha graduação e meu mestrado em instituições públicas brasileiras.

Quero que todos os brasileiros possam ter as oportunidades que eu tive. Por isso, aplaudo a duplicação das vagas nas universidades federais, a triplicação do número de institutos e escolas técnicas, o Pronatec, o maior programa de ensino profissionalizante do país, o programa de creches e pré-escolas e o Ciência Sem Fronteiras. Gostaria, é claro, que a nossa educação pública já fosse igual à da Finlândia, mas reconheço que esses programas estão, aos poucos, construindo um sistema de educação universal e de qualidade.

Tenho imenso orgulho da Petrobras, a maior e mais bem-sucedida empresa brasileira, que agora é vergonhosamente atacada por motivos eleitoreiros e pelos interesses daqueles que querem botar a mão no pré-sal. Nos últimos 10 anos, a Petrobras, que fora muito fragilizada e ameaçada de privatização, se fortaleceu bastante, passando de um valor de cerca de R$ 30 bilhões para R$ 184 bilhões. Não bastasse, descobriu o pré-sal, nosso passaporte para o futuro. Isso seria motivo de orgulho para qualquer empresa e para qualquer país. Orgulha ainda mais, porém, o fato de que agora, ao contrário do que acontecia no passado, a Petrobras dinamiza a indústria naval e toda a cadeia de petróleo, demandando bens e serviços no Brasil e gerando emprego e renda aqui; não em Cingapura. Vergonha era a Petrobrax. Pasadena pode ter sido um erro de cálculo, mas a Petrobrax era um crime premeditado.

Vejo, com satisfação, que hoje a Polícia Federal, o Ministério Público, a CGU e outros órgãos de controle estão bastante fortalecidos e atuam com muita desenvoltura contra a corrupção e outros desmandos administrativos. Sei que hoje posso, com base na Lei da Transparência, demandar qualquer informação a todo órgão público. Isso me faz sentir mais cidadão. Estamos já muito longe da vergonha dos tempos do “engavetador-geral”. Um tempo constrangedor e opaco em que se engavetavam milhares processos e não se investigava nada de significativo.

Também já se foram os idos vergonhosos em que tínhamos que mendigar dinheiro ao FMI, o qual nos impunha um receituário indigesto que aumentava o desemprego e diminuía salários. Hoje, somos credores do FMI e um país muito respeitado e cortejado em nível mundial. E nenhum representante nosso se submete mais à humilhação de ficar tirando sapatos em aeroportos. Sinto orgulho desse país mais forte e soberano.

Um país que, mesmo em meio à pior recessão mundial desde 1929, consegue alcançar as suas menores taxas de desemprego, aumentar o salário mínimo em 72% e prosseguir firme na redução de suas desigualdades e na eliminação da pobreza extrema. Sinto alegria com esse Brasil que não mais sacrifica seus trabalhadores para combater as crises econômicas.

Acho que não dá para deixar de se orgulhar desse novo país mais justo igualitário e forte que está surgindo. Não é ainda o país dos meus sonhos, nem o país dos sonhos de ninguém. Mas já é um país que já nos permite sonhar com dias bem melhores para todos os brasileiros. Um país que está no rumo correto do desenvolvimento com distribuição de renda e eliminação da pobreza. Um país que não quer mais a volta dos pesadelos do passado.

Esse novo país mal começou. Sei bem que ainda há muito porque se indignar no Brasil. E é bom manter essa chama da indignação acessa. Foi ela que nos trouxe até aqui e é ela que nos vai levar a tempos bem melhores. Enquanto houver um só brasileiro injustiçado e tolhido em seus direitos, todos temos de nos indignar.

Mas sentir vergonha do próprio país, nunca.

Isso é coisa de gente sem-vergonha.