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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

VICTOR JARA, A VOZ CALADA DO POVO


Por Nashla Dahás

Segundo o historiador Gabriel Salazar, desde que o Chile iniciou sua vida independente, o "baixo povo" já estava preso, proibido de manifestar-se nas ruas e praças públicas. O carnaval, chamado la challa, foi excomungado justo quando essas pessoas não tinham trabalho estável nem reconhecimento social como cidadãos; a população mestiça passava por processo de estigmatização e desterramento, todos classificados como vagabundos.

Seguiu-se a repressão moral policial, ou a opressão pela via do mercado (exclusão), que, gradualmente, foram extinguindo as formas de expressão cultural popular. Diz Salazar que até 1890 essas expressões teriam mesmo desaparecido.

Na década de 1910, porém, um intervalo de meio século nesse quadro de repressão das festividades populares foi possível por conta da criação das "casas asiladas", ou prostíbulos onde a "classe trabalhadora buscou refúgio para reavivar e celebrar o 'carnaval' de sua identidade, reacendendo no sangue do corpo a historicidade da alma".

Mas após 1973, e até os dias atuais, esse refúgio foi desmantelado pela repressão cultural da ditadura e, depois, do neoliberalismo. Exilada por completo do espaço público, a festa popular estaria agora em qualquer parte, em qualquer lugar, e de qualquer modo, a propósito de qualquer coisa, com mais violência que alegria, com muito mais agressividade do que liberação.

Foi nesse intervalo, porém, que Victor Jara se tornou conhecido.

Diretor de teatro e professor universitário; viu suas canções ganharem a forma de representações do sentimento popular chileno e foi acolhido nas áreas mais pobres do país. Sempre acompanhado de um violão, circulam hoje versões sobre sua morte que incluem um capítulo em que os militares arrancam as suas unhas e depois cortam partes da ponta de seus dedos para que ele nunca mais possa tocar. "Victor tocava com a pele dos dedos e não com as unhas, tinha uma técnica própria e continuou tocando e desafiando a ditadura a calar o nosso povo", contam alguns.

Dizem outros que ele teve as duas mãos quebradas e posteriormente decepadas. Joan Jara, a viúva do cantor, afirma que o oficial que coordenava a sessão de tortura ainda teria mandado sadicamente que ele cantasse depois disso. Jara teria levantado e cantado "Venceremos", um dos hinos dos movimentos revolucionários chilenos e das mobilizações dos anos 70.

Amigos que estiveram com ele no campo de concentração do Estádio Nacional, por sua vez, dizem que ele foi um dos primeiros a serem espancados publicamente, e depois seu corpo só tornaria a ser visto morto numa das primeiras levas de corpos que saíram do estádio no dia 16 de setembro de 1973, menos de uma semana após o golpe civil-militar que levou o general Augusto Pinochet ao poder.

Mitos, depoimentos, memórias individuais e coletivas; esses fragmentos de histórias do golpe e da ditadura, são hoje elementos de uma crise moral republicana que, a cada dia, experimenta formas de lidar com essas lembranças.

Onde foi parar o "mal estar interno" sobre os qual as músicas de Victor Jara falavam e ou traduziam; ou a ira que caracterizou grupos políticos como o Movimiento de Izquierda Revolucionario, a unir teorias e fuzis em nome de um projeto de nação alternativo ao que se vivia?

Perguntando-nos hoje se algo como a “Unidade Federativa das Nações Latino Americanas sob o regime socialista” defendida por alguns movimentos políticos chilenos nos anos 60 e 70 era possível, a resposta tenderá a ser negativa e a ideia provavelmente parecerá muito mais velha do que realmente é.

Talvez isso decorra do empenho, em parte bem sucedido, das ditaduras latino-americanas em construir uma memória desqualificadora do pré-golpe, em eliminar os seus vestígios humanos e institucionais. Ou ainda, talvez resulte do efeito que o fracasso das guerrilhas causou em alguns de seus líderes, convertidos voluntariamente nas décadas seguintes, ou, talvez, sob tortura, em novos adeptos das democracias capitalistas.

Não convém, entretanto, aprofundar-nos nestas questões, mas denunciar e, se possível, conceituar a ação do terrorismo de Estado, e a dor pelos mortos, o temor e a passividade gerados pela violência golpista, não apenas no Chile, mas também no Brasil.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

A SOLIDÃO DAS AREIAIS




Heródoto, considerado o primeiro historiador, conta na sua famosa obra Histórias o caso de 50.000 soldados persas que desapareceram no deserto, tendo sido apanhados por uma tempestade de areia, por volta de 524 a.C., no século VI a.C.

O rei persa Cambises II já tinha conquistado cidades egípcias como Mênfis ou Tebas, expandindo o império persa até àquela região. Mas o estranho desaparecimento daqueles soldados passou a ser um mistério para os arqueólogos, que desde o século XIX procuraram por vestígios desse exército.

Agora, dois blocos descobertos de um templo romano indicam que estes 50.000 soldados foram, afinal, derrotados pelas forças de Petubastis III, um líder rebelde egípcio que durante um par de anos conseguiu recuperar parcialmente o império egípcio aos persas e foi coroado faraó.

“Heródoto viajou no Norte do Egito e escreveu o que ouviu", explica Olaf Kaper um egiptólogo da Universidade de Leiden, na Holanda. Do que ouviu, "o desaparecimento do exército era claro, mas os persas tornaram o acontecimento menos devastador ao culparem o clima", defende.

Sem provas físicas, os historiadores têm tentado interpretar as palavras de Heródoto com a ajuda do contexto: a geografia, o que já se conhece sobre os impérios egípcios e persas daquela altura, até os fenômenos meteorológicos como as tempestades de areia.

O templo descoberto em 2005 pertence a uma vila romana chamada Amheida, no oásis de Dakhla. "Em dez anos, escavamos algumas casas, uma que tem pinturas nas paredes, banhos romanos e uma igreja, além dos vestígios do templo", explica Olaf
Kaper.

O oásis de Dakhla é enorme, tem um comprimento de 80 quilômetros de leste a oeste, e uma largura máxima de 25 quilômetros. A área situa-se a 500 quilômetros a oeste da antiga cidade egípcia de Tebas, hoje Luxor, que fica junto ao rio Nilo, a cerca de 600
quilômetros a sul do Cairo.

Os primeiros indícios sobre Petubastis III surgiram logo em 2005, quando descobriram uma cartela com o nome real Petubastis - a cartela é um bloco com o nome de um faraó em hieróglifos e uma linha ovalada à volta da inscrição. Em 2014, com a descoberta de uma segunda cartela onde estava escrito "shr-ib-Ra", o nome de coroação de Petubastis III, que reinou entre 522 e 520 a.C., foi possível identificar o faraó certo.

“O fato de este rei desconhecido e efêmero, que governou apenas parte do país durante a ocupação persa, ter construído um templo em Dakhla, mostra que este local era muito especial para ele. Os templos são construídos com dinheiro público, e
normalmente isto é feito em grandes cidades ou nos locais de origem dos reis", defende o egiptólogo. "A única explicação para a existência deste templo é que Petubastis III usou o oásis como um centro de poder.”

É neste lugar que os escritos de Heródoto, o desaparecimento do exército persa de Cambises II e a origem de Petubastis III se conjugam. Segundo as investigações, o rebelde egípcio era uma força a temer. Por isso, Cambises II pôs os seus homens em movimento - num exército com um tamanho bastante razoável para a época - por volta de 524 a.C.: "O exército desapareceu, Heródoto apresenta-nos a história de uma tempestade de areia. Isto é demasiado improvável para ser verdade, certamente não é para ser tido como um fato, uma explicação muito melhor é que o exército tenha sido derrotado. Agora que temos um poderoso inimigo dos persas em Dakhla, este cenário é o mais provável.”

Apesar de o exército persa estar mais equipado, Olaf Kaper especula que as forças de Petubastis III conheceriam melhor o terreno, o que lhes daria uma vantagem determinante.

Cambises II ficou por Tebas enquanto o seu exército tomou o caminho do deserto e desapareceu nos confins da História. Depois, o rei voltou para a Pérsia onde acabou por morrer. Dois anos depois, Petubastis III entrava em Mênfis, onde foi coroado, mas foi faraó por pouco tempo. Dario I, que sucedeu a Cambises II, lançou as suas forças contra o recém-coroado monarca e em 519 a.C. já tinha recuperado o território.

Mas, os 50 mil nunca voltaram para casa e a história da tempestade de areia fatal e dos seus condenados permaneceu sendo contada por gerações.

A escuridão que envolve esta batalha deve-se primeiro a Cambises II e principalmente a Dario I. "Quando Cambises II soube do desastre, ele fez com que a notícia não se espalhasse para não encorajar mais uma revolta", defendeu o egiptólogo na apresentação que fez no congresso de Arqueologia junho. Depois, "Dario I conseguiu restabelecer o controle [do Egito] e apagou todas as referências a Petubastis III nas listas dos reis".

O novo monarca do império persa quis, por isso, refazer a História. É um hábito antigo dos vencedores. Mas os acontecimentos deixam lastro e deixam rasto e afunção da história é resgata-los.

A descoberta feita no oásis de Dakhla transformou agora o destino daqueles 50.000 homens: a tempestade de areia foi engolida por uma batalha.

Talvez agora, depois de vagar por 2550 anos nas areias do deserto, tendo sido sua história descoberta e recontada, eles possam, finalmente, voltar pra casa.

Prof. Péricles
Fonte – texto informativo de Nicolau Ferreira (Portugal)

sábado, 25 de outubro de 2014

AOS INDECISOS - MEDITE ANTES DE VOTAR


O PT chegou ao poder, 20 anos depois de ter sido fundado, sem o glamour e o romantismo que o fazia diferente dos outros partidos. Para chegar lá, Lula fez alianças espúrias, incompreensíveis para muitos e por isso perdeu quadros importantes além de assumir uma interesseira companhia.

Ao transigir para governar deixou fugir alguns dos sonhos mais caros de seus fundadores e de certa forma, vendeu a alma ao diabo em nome da governabilidade.

Falta de execução de uma verdadeira reforma agrária, política mais justa e igualitária aos diferentes servidores militares e civis da união, pressão real por um reforma fiscal e administrativa, repactuação federativa, mão firme contra a corrupção e Lei de regulação das mídias, são apenas alguns dos erros dos governos do PT.

Mas, os governos do PT tiveram acertos também. E muito importantes.

Os programas sociais produziram resultados mensuráveis de notável importância, como o “Fome Zero” e o Bolsa Família, apontados pela ONU como os mais concretos modelos de sucesso no combate à miséria.

O controle da dívida externa e da inflação, a construção de faculdades e escolas técnicas, o revolucionário programa “Mais Médicos”, o investimento em infraestrutura como nas ferrovias, praticamente mortas no Brasil pós JK.

O desemprego, antiga chaga degradante de nosso povo, desapareceu como fenômeno sendo substituído por índices de emprego pleno.

Também é notável a mudança de nossa política externa que buscou novas parcerias abandonando a excessiva influência dos Estados Unidos e abrindo novos horizontes comerciais e políticos. O Brasil tornou-se protagonista assumindo lugar de destaque como jamais assumiu em outros governos.

Talvez o que seja ainda mais importante, o PT no poder barrou a continuidade do neoliberalismo na governança.

Esse novo estágio do capitalismo internacional, o neoliberalismo, nascido a partir da década de 80 com a decadência do bloco soviético, foi verdadeiro câncer disseminado pelo mundo que infelicitou centenas de nações e jogou milhões de pessoas na mais profunda fossa econômica e desespero social.

Defendendo a globalização da economia e o fim das políticas baseadas nas barreiras alfandegárias, o estado mínimo com a demissão de funcionários públicos e a terceirização das atividades públicas, desfazendo conquistas históricas do trabalho, promovendo privatizações e a venda do patrimônio público e estimulando aquilo que o capitalismo tem de mais desumano que é a concorrência e o lucro desenfreado, o neoliberalismo mostrou a face mais horrenda e cruel do sistema.


Numa lógica perversa, o estado cobra menos impostos, automaticamente arrecada menos e por isso investe menos, e onde se dá o menor investimento? Nas políticas sociais, ou seja, na saúde pública, na previdência, etc.

O jargão da modernização da economia refere-se sempre ao interesse privado, ao capital. Aos que tem mais, associando o lucro de terceiros com o bem do país, como se o enriquecimento de uns representasse o bem do país.

Como resultado, milhões de pessoas despencaram de patamares sociais mais elevados e a miséria e o desespero multiplicaram-se.
Na América Latina, além dos resultados nocivos citados ainda acrescentasse o crescimento da dependência econômica dos países pobres em relação aos países ricos, particularmente os Estados Unidos, útero que gestou o monstro durante o governo Ronald Reagan.

Nessas eleições de 2014, mais do que qualquer nome, estão em disputa dois projetos, distintos e antagônicos.
Por um lado temos a proposta encabeçada na reeleição da presidente Dilma.

Do outro está a proposta da volta do neoliberalismo apresentada pelo mesmo partido, o PSDB do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, agora na candidatura de Aécio Neves.

Importante todo eleitor entender que, mais do que simpatias pessoais o que deve se decidir é que projeto deverá governar nosso país a partir de 2015.

Ousamos pedir, em nome dos mais caros programas sociais e de seus beneficiados, que talvez não seja você, mas que se contam aos milhões. Em nome dos avanços obtidos nos últimos anos que colocaram o Brasil a frente de projetos reconhecidos no mundo inteiro e em nome da confiança que por acaso você deposite em nós, pedimos, a você eleitor indeciso, que reflita, pense no todo e em todos e vote em Dilma Roussef no próximo domingo.

Mesmo que você não simpatize com Dilma ou com o PT pense não estar votando em pessoas e sim votando na “não volta” do neoliberalismo ao poder. Não permita que essa lepra social infelicite novamente nosso povo.

Pense com o coração e com a razão e não com aversões.

Seja feliz no seu voto, o Brasil e milhões de brasileiros desafortunados, agradecem.

Prof. Péricles

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

NUNCA FIZ MINHA PRÓPRIA CAMA



Por Paulo Moreira Leite


Em fevereiro de 1977 o jovem Aécio da Cunha Neves talvez nem pensasse que um dia estaria na reta final para disputar a presidência da República, mas viveu uma aventura curiosa fora do país.

Como tantos jovens brasileiros de sua condição social, naquele ano Aécio foi cumprir um programa de intercambio escolar nos Estados Unidos.

Certa vez, durante um momento de descanso, Aécio visitava uma estação de esqui quando conheceu um rapaz de sua idade, Glenn, que o convidou a passar um fim de semana hospedado na casa de seus pais, o casal Pat e Roger Davis, em Middlebush, em Nova Jersey.

Ali, numa pequena comunidade que hoje possui 2000 habitantes, distribuídos em pouco mais de 800 casas, a presença de um jovem brasileiro logo se tornou motivo de atração. Com direito a foto e tudo, Aécio foi parar nas páginas do FranklinNews-Record, pequeno jornal da região, que na edição de 24 de fevereiro de 1977 publicou uma pequena reportagem a seu respeito.

Descrevendo Aécio como um adolescente “igual a todos os outros”, o repórter Bob Bradis registrou seus conjuntos de rock prediletos: Led Zeppelin, The Who, Crosby, Stills, Nasch and Young e sublinhou que ele “realmente gosta de Bob Dylan.” O jornal fala dos programas de TV favoritos do rapaz: Kojak, série policial que fazia muito sucesso na época em torno de um detetive careca, e Waltons, sobre a vida de uma família da zona rural dos Estados Unidos, às voltas com os rigores da Grande Depressão da década de 30. Esportes favoritos? Futebol e vôlei. Demonstrando um interesse por automóveis bastante comum entre garotos de sua idade, ele contou ao Franklin News que a idade mínima para tirar carta de motorista no Brasil é 18 anos mas que não é incomum ver jovens dirigindo carros antes de chegar a essa idade.

Falou de automóveis americanos, como Ford e Chevrolet, mas também elogiou o Puma, um carro nacional, “muito confortável.”

Mas nem tudo era igual entre jovens norte-americanos e brasileiros — e isso não escapou a observação de Bob Bradis. No frescor dos 17 anos, Aécio expressou várias observações sobre a vida social brasileira.

Falando sobre a condição feminina no Brasil, Aécio disse, conforme o Franklin-News, que a vida das mulheres é fácil no Brasil. Segundo as palavras de Bob Bradis, Aécio lhe disse que as mulheres brasileiras não tem necessidade financeira de trabalhar, e podem passar a maior parte de seu tempo na praia ou fazendo compras. Era uma diferença importante em relação à sociedade norte-americana, onde, desde a Segunda Guerra Mundial, muitas mulheres saiam de casa para trabalhar e dividir despesas com o marido.

Falando da vida doméstica, Aécio disse: “todo mundo tem uma empregada ou duas; uma para cozinhar, outra para limpar.” Falando de sua rotina dentro de casa, no Brasil, assinalou outra novidade: “Eu nunca fiz minha própria cama.” Outra diferença, como se sabe.

Bob Bradis conta que Aécio lamentava, naquele fevereiro de 1977, que estivesse fora do Brasil por causa do carnaval. Há uma grande festa antes do início da Quaresma, disse Aécio. O jovem brasileiro contou como todos dançam nas ruas, comem, bebem até altas horas e então vão para casa dar um mergulho, para aí retornar para mais festas. “É a melhor época do ano.” Segundo o Franklin-News, Aécio disse ainda: “Essa é a única época em que a classe baixa e a classe alta se reúnem.”

Perguntado sobre seu próprio futuro, Aécio disse que pretendia estudar engenharia, mas falou que provavelmente acabaria entrando na vida política, como seu pai, que era deputado pela Arena, o partido de sustentação do regime militar, e seu avô, que era um dos principais líderes do MDB, partido da oposição civil.

Dois anos depois do fim de semana em Middlebush, Aécio Neves obteve um emprego na Câmara de Deputados. Foi contratado como assessor do próprio pai. A Câmara funcionava em Brasília, mas Aécio continuou morando no Rio de Janeiro. Cuidava da agenda do pai à distância, embora não houvesse internet naquele tempo. Mas não era um trabalho ilegal. A Câmara só passou a obrigar assessores parlamentares a atuar em Brasília a partir de 2010.

Mas, se pudesse refletir ao longo dos anos, o repórter Bob Bradis poderia avaliar o duradouro significado de uma frase em seu caderno de notas: “Eu nunca fiz minha própria cama.”

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

AOS MEUS AMIGOS QUE VOTARÃO EM AÉCIO



Por Milly Lacombe

Recentemente encuquei com a quantidade de pessoas que julgo inteligentes e que estão declarando voto-protesto em Aécio “para mudar tudo isso aí”. Sempre que alguém me diz que “do jeito que as coisas estão não dá mais” me pergunto se essa pessoa nasceu e cresceu na Dinamarca e chegou no Brasil há alguns anos apenas.

O que não dá mais exatamente? As coisas não estão ótimas, mas já foram imperialmente mais grotescas. Talvez tudo esteja melhor com exceção do trânsito nas capitais – e vamos combinar que trânsito na capital não é a rigor um problema do Governo Federal.
“Ah, mas a corrupção está insustentável”.

Como assim, meu amigo? A corrupção é esporte nacional desde que o tal Dom João aportou por aqui. Pode não ter melhorado, mas agora está aí para ser julgada e condenada, como de fato está sendo.

“O PT quer instalar a ditadura”, já escutei gente que sei que é do bem dizer.

Mas então me expliquem que tipo de ditadura demora 13 anos para ser instalada? E que ditadura mantém poderes independentes e uma Polícia Federal que investiga o pessoal da situação? Que ditadura manda para a cadeia alguns de seus líderes mais influentes? Que ditadura permite ser chamada de ditadura sem mandar prender quem falou isso?

A sensação de insatisfação é mundial. Recentemente, a Europa teve que escolher o novo Parlamento, votado pela população dos países da comunidade Europeia, e duas correntes saíram vitoriosas da eleição: as de extrema direita e as socialistas. Me parece um recado claro de que todos querem mudança.

Mas mudança do que? O que está pegando?

O que está pegando é a desigualdade social e o desemprego. O Brasil não vai mal em nenhum dos dois (desigualdade e desemprego diminuiram), mas a onda da mudança chegou aqui também.

Todos nós sabemos que um pouco de desigualdade faz parte do jogo, mas a desigualdade que vemos hoje é alarmante e dilacerante. E, com a quebradeira de 2008 e os altos níveis de desemprego na Europa e nos Estados Unidos, é natural – embora abominável – que a turma da extrema direita, a turma do nacionalismo, a turma do “volta pra casa imigrante de merda porque é por sua causa que estamos nessa situação” se agigante e saia elegendo seus representantes. A explicação para a catastófica situação de hoje não é, claro, o imigrante, mas situações limite tendem a tirar o pior ou o melhor do ser-humano; e no caso da extrema direita é sempre o pior.

Mas o que levou a economia mundial a esse ponto?

Vamos analisar o caso americano, o berço do neo-liberalismo, esse sistema tão idolatrado pelos psdbistas, e onde hoje quatrocentas pessoas têm mais dinheiro do que a riqueza de metade da população somada. Os parágrafos a seguir estão mais no estilo “economia para idiotas” (o meu caso precisamente), mas sigam comigo porque eu prometo levá-los até que completemos um círculo inteiro.

Setenta porcento da economia americana está no consumo, e quem sustenta o consumo de qualquer economia é sempre a classe média. Se a classe média para de consumir, a economia para de crescer. O salário de um trabalhador comum nos Estados Unidos não cresce desde os anos 70. Não cresce significa que o poder real de compra do salário não muda há 40 anos. Está estagnado há quase quatro décadas. E estagnado nem é a palavra correta. O trabalhador comum ganha menos hoje do que ganhava em 1970.

Em compensação, a produtividade só cresceu, e só faz crescer até hoje. Então: se o salário é o que o patrão dá ao trabalhador, e se produtividade é o que o trabalhador dá ao patrão a gente consegue entender onde foi parar essa diferença. É um gráfico simples que até eu entendo. Mais produtividade, mais lucro. Mais lucro sem aumentar o salário do trabalhador significa acúmulo de dinheiro nas mãos apenas daqueles que controlam os meios de produção (perdoem se aqui o discurso soa marxista, sei que isso assusta alguns, mas prometo não arrepiá-los pedindo que se instale o comunismo).

E o que o patrão fez com esse dinheiro acumulado? Em vez de devolver ao mercado, ele guardou. Guardou em ações, em capital especulativo — no mercado de capital enfim. É um dinheiro que não cria utilidade social, o que seria aceitável numa sociedade de iguais, e não é esse o caso. Em 1970 a diferença entre o que ganhava um trabalhador comum e o que ganhava o dono do negócio era de 40 vezes. Hoje essa diferença chega a ser 400 vezes maior. Não precisamos de muito mais para entender o tamanho da desigualdade.

No mesmo período, fortificou-se a ideia de que taxar o patrão não é um bom negócio porque ele é o cara que cria empregos e, afinal, precisamos de empregos. Então, impostos sobre os ricos só caíram. Um trabalhador comum nos Estados Unidos hoje paga em torno de 30% de impostos. Warren Buffet, uma das maiores fortunas do mundo, paga 11%.

O centro do universo econômico é o consumidor e não o empresário como gosta de pensar o neo-liberal. E toda a história de prosperidade econômica de uma comunidade é uma história de investimento social. Investimento nas classes mais baixas, e em coisas básicas como educação – gratuita e de qualidade. Se querem um exemplo de investimento social fiquemos com a Coreia do Sul porque assim poupo vocês de falar de Cuba e não perco leitores.

Não é preciso ser um gênio para entender que se a produtividade aumenta, o salário também precisa aumentar. Não apenas porque é legítimo e moral, mas porque se o salário aumenta, o trabalhador compra mais, e se ele compra mais a empresa cria mais empregos, e se a empresa emprega mais e fatura mais, ela paga mais impostos. E se ela paga mais impostos o governo ganha mais e investe mais em social e em educação e a economia cresce. Se em alguma dessas etapas o giro é interrompido para que alguma das partes possa acumular capital, a economia trava e a desigualdade aumenta.

Isso chamamos de neo-liberalismo: o mercado quase sem regulação federal, pouco ou nenhum investimento social, capital acumulado na mão daqueles que controlam os meios de produção.

O modelo neo-liberal, o modelo do PSDB, não prevê investimentos sociais (vamos apenas lembrar que o PT fez o Minha Casa Minha Vida, o Luz Para Todos, o ProUni e ampliou o Bolsa Família que era um programa nanico e anêmico durante os anos FHC), não prevê força sindical, não prevê taxação maior aos ricos, não prevê regulação mais forte do mercado em benefício das classes mais baixas.

O modelo PSDBista é uma cópia do modelo falido americano, e para que saiamos da abstração o melhor exemplo talvez seja a Cantareira e a falta de água em São Paulo. Quando a administração estadual decide não reformar o sistema que grita por melhorias para privilegiar a distribuição de dividendos a acionistas temos, na prática, o neo-liberalismo ferrando o social. Estamos sem água, mas os acionistas estão com seu lucro no bolso.

O modelo PTista, ao investir no social, mudou a cara do Brasil na última década. Fez ascender uma multidão de pessoas ao mercado consumidor, girou a economia, pagou o FMI, deu status ao país lá fora, diminuiu desigualdade, desemprego, tirou o Brasil do mapa mundial da fome, fortaleceu a Petrobrás (Ah, por favor. Sem essa de escândalo de corrupção. Está tudo aí, sendo investigado etc e tal. Veja apenas quanto valia a empresa com FH e quanto vale hoje).

Em outra palavras: você investe no social e nas classes mais baixas, todos ganham. Você investe no empresário, apenas o empresário ganha e a desigualdade aumenta.

É isso o que estaremos escolhendo no dia 26.

Não se trata de optar entre aqueles que fizeram o Mensalão ou aquele que construiu aeroporto particular com grana pública e empregou parentes em seu governo. Não se trata de escolher entre o “menor dos delitos”, ou em “alternar poder”. Não se trata de escolher entre o azul e o vermelho, entre o bom e o mau, entre o que fala bem e o que fala aos trancos, entre o filhinho de papai e a guerrilheira. Se trata de escolher um modelo de país. De optar entre o investimento no acionista ou o investimento no social. Entre a proteção ao dinheiro do rico ou à dignidade do pobre. É disso que se trata o dia 26.


Obs: Esse texto foi elaborado com base em ensaios e livros de Noam Chomsky e David Harvey, em documentário de Robert Reich (Inequality for All) e em dezenas de aulas do professor e economista Richard Wolff.




terça-feira, 21 de outubro de 2014

AOS INDECISOS


O PT chegou ao poder, 20 anos depois de ter sido fundado, sem o glamour e o romantismo que o fazia diferente dos outros partidos. Para chegar lá, Lula fez alianças espúrias, incompreensíveis para muitos e por isso perdeu quadros importantes além de assumir uma interesseira companhia.

Ao transigir para governar deixou fugir alguns dos sonhos mais caros de seus fundadores e de certa forma, vendeu a alma ao diabo em nome da governabilidade.

Falta de execução de uma verdadeira reforma agrária, política mais justa e igualitária aos diferentes servidores militares e civis da união, pressão real por um reforma fiscal e administrativa, repactuação federativa, mão firme contra a corrupção e Lei de regulação das mídias, são apenas alguns dos erros dos governos do PT.

Mas, os governos do PT tiveram acertos também. E muito importantes.

Os programas sociais produziram resultados mensuráveis de notável importância, como o “Fome Zero” e o Bolsa Família, apontados pela ONU como os mais concretos modelos de sucesso no combate à miséria.

O controle da dívida externa e da inflação, a construção de faculdades e escolas técnicas, o revolucionário programa “Mais Médicos”, o investimento em infraestrutura como nas ferrovias, praticamente mortas no Brasil pós JK.

O desemprego, antiga chaga degradante de nosso povo, desapareceu como fenômeno sendo substituído por índices de emprego pleno.

Também é notável a mudança de nossa política externa que buscou novas parcerias abandonando a excessiva influência dos Estados Unidos e abrindo novos horizontes comerciais e políticos. O Brasil tornou-se protagonista assumindo lugar de destaque como jamais assumiu em outros governos.

Talvez o que seja ainda mais importante, o PT no poder barrou a continuidade do neoliberalismo na governança.

Esse novo estágio do capitalismo internacional, o neoliberalismo, nascido a partir da década de 80 com a decadência do bloco soviético, foi verdadeiro câncer disseminado pelo mundo que infelicitou centenas de nações e jogou milhões de pessoas na mais profunda fossa econômica e desespero social.

Defendendo a globalização da economia e o fim das políticas baseadas nas barreiras alfandegárias, o estado mínimo com a demissão de funcionários públicos e a terceirização das atividades públicas, desfazendo conquistas históricas do trabalho, promovendo privatizações e a venda do patrimônio público e estimulando aquilo que o capitalismo tem de mais desumano que é a concorrência e o lucro desenfreado, o neoliberalismo mostrou a face mais horrenda e cruel do sistema.


Numa lógica perversa, o estado cobra menos impostos, automaticamente arrecada menos e por isso investe menos, e onde se dá o menor investimento? Nas políticas sociais, ou seja, na saúde pública, na previdência, etc.

O jargão da modernização da economia refere-se sempre ao interesse privado, ao capital. Aos que tem mais, associando o lucro de terceiros com o bem do país, como se o enriquecimento de uns representasse o bem do país.

Como resultado, milhões de pessoas despencaram de patamares sociais mais elevados e a miséria e o desespero multiplicaram-se.
Na América Latina, além dos resultados nocivos citados ainda acrescentasse o crescimento da dependência econômica dos países pobres em relação aos países ricos, particularmente os Estados Unidos, útero que gestou o monstro durante o governo Ronald Reagan.

Nessas eleições de 2014, mais do que qualquer nome, estão em disputa dois projetos, distintos e antagônicos.
Por um lado temos a proposta encabeçada na reeleição da presidente Dilma.

Do outro está a proposta da volta do neoliberalismo apresentada pelo mesmo partido, o PSDB do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, agora na candidatura de Aécio Neves.

Importante todo eleitor entender que, mais do que simpatias pessoais o que deve se decidir é que projeto deverá governar nosso país a partir de 2015.

Ousamos pedir, em nome dos mais caros programas sociais e de seus beneficiados, que talvez não seja você, mas que se contam aos milhões. Em nome dos avanços obtidos nos últimos anos que colocaram o Brasil a frente de projetos reconhecidos no mundo inteiro e em nome da confiança que por acaso você deposite em nós, pedimos, a você eleitor indeciso, que reflita, pense no todo e em todos e vote em Dilma Roussef no próximo domingo.

Mesmo que você não simpatize com Dilma ou com o PT pense não estar votando em pessoas e sim votando na “não volta” do neoliberalismo ao poder. Não permita que essa lepra social infelicite novamente nosso povo.

Pense com o coração e com a razão e não com aversões.

Seja feliz no seu voto, o Brasil e milhões de brasileiros desafortunados, agradecem.

Prof. Péricles


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

HISTÓRIA NÃO MENTE, QUEM MENTE É VOCÊ



É claro que cada um têm o direito a opinião e fazer sua opção de acordo com seus valores. A princípio, ninguém tem nada com isso.

O que perturba é o fato de que, para justificar sua opção, as pessoas desprezem ou, pior ainda, desvirtuem a história do país.

Pode-se defender determinadas políticas do nazismo, se assim o quiser. Mas não se pode negar os crimes do nazismo e o envolvimento de Hitler com o holocausto judeu, porque isso, não é opinião, é história.

Alguém pode defender que a seleção brasileira de 1982 jogava muito melhor futebol que a seleção de 1994. Pode. Mas não pode, para justificar seus argumentos, "esquecer" que, a seleção de 1982 perdeu e a de 1994 foi campeã. Porque isso já não é opinião, é história.

Assim é que, para justificar sua escolha por Aécio Neves em detrimento de Dilma Rousseff no segundo turno das eleições presidenciais, pessoas espezinham os fatos como se suas simpatias tivessem o direito e o poder de esquecer, alterar ou confundir o conhecimento histórico.

Um desses fatos é o neoliberalismo, o poder e o PSDB, no Brasil.

O PSDB não é novidade. O eleitor de Aécio não pode se recusar saber que esse partido esteve no poder entre 1995 e 2002 e nem pode querer alterar os resultados, positivos ou negativos, de suas políticas.

Tratar as propostas neoliberais do PSDB como uma novidade, como se essas propostas estivessem aparecendo agora no Brasil é desprezar o passado.

O neoliberalismo, aliás, tem eixos muito bem definidos como, privatização de estatais, a defesa do estado mínimo que é o enxugamento da máquina administrativa com demissões de servidores (os pequenos e de carreira, bem entendido), achatamento salaria, o enfraquecimento das garantias do trabalho a partir de uma justificativa denominada "custo Brasil", engajamento ao que se convencionou chamar de globalização da economia, etc. Negar isso é negar o óbvio.

A história é uma ciência. Possuí métodos e exige o rigor de provas. Essas provas não são empíricas por isso não podem ser mensuradas como algo físico, mas são provas válidas, testemunhais e documentais, de onde o historiador se debruça e lança luz através das teorias que daí nascem, sobre os fatos históricos, suas causas e consequências.

Não é uma arte onde a pessoa tem o direito de gostar ou não daquele quadro ou daquela escultura.

Nem é fato aberto às paixões e preferências. História é ciência.

A história, não mente, quem mente é quem a pretende esconder.

E eu não sei se as pessoas atualmente carecem mais de humildade para entenderem que não podem “reescrever a história” ou um bom livro didático acompanhado de um professor da área.

Prof. Péricles

sábado, 11 de outubro de 2014

NARCISO E O ECO NOS ROCHEDOS





Narciso era filho do rio Cefiso e de Leríope, a ninfa, nasceu extremamente belo.

Quando ainda era criança, sua mãe procurou o adivinho Tirésias para saber algo sobre o futuro de seu rebento.

"Narciso viverá longos anos, desde que não se veja." Disse o velho.

E o menino o mais belo entre todas as crianças e tornou-se o jovem mais atraente e desejado.

Em sua jovem vida, passou a colecionar paixões.

Jovens mortais, entre as mais belas. Ninfas de extrema sensualidade e deusas, todas eram atraídas por sua beleza.

Entre as apaixonadas encontrava-se Eco, uma ninfa que acobertara Zeus em uma de suas incontáveis traições. Furiosa, Hera (esposa de Zeus) condenou Eco ao silêncio. A ninfa não conseguia mais falar e apenas repetia os últimos sons das palavras que ouvia.

Louca de amor e desejo Eco segue Narciso, sem ser vista. O jovem, em determinado momento começou a gritar pelos amigos que ficaram distantes. Eco fica confusa com o som que ele emite e pensa que ele chama por ela. Feliz ela sai de seu esconderijo e corre para ele. Narciso, porém nem presta atenção em sua presença e vira as costas em profundo desprezo.

Tamanha humilhação é demais pra sofrida Eco. Nos dias seguintes, entregue aos prantos, ela deixa de se alimentar e definha.

Finalmente, dilecerada de dor, transforma-se num rochedo e multiplica-se em muitos outros rochedos capazes apenas de repetir os derradeiros sons do que se diz.

As demais ninfas, irritadas com a insensibilidade e frieza do filho de Leríope, pedem vingança a Nêmesis, deusa da justiça, que prontamente condenou Narciso a amar um amor impossível.

Foi então que o jovem mais belo entre todos, sedento, debruça-se sobre a fonte de Téspias para matar a sede. Ao ver a própria imagem refletida no espelho da água, torna-se prisioneira da própria beleza. Narciso está irremediavelmente apaixonado por si mesmo. Um amor impossível, como condenou a deusa Nêmesis, e mortal.

Estirado na relva, agoniza entre a fonte que espelha sua imagem e o solo úmido de sua orla, até morrer de amor.

Quando procuram por seu corpo, encontram apenas uma delicada flor amarela, cujo centro era circundado por pétalas brancas.

Narciso alerta sobre como pode ser devastador o fascínio pela auto-imagem.

A felicidade solitária é impossível como amar apenas a si mesmo. Ninguém é feliz sozinho.

Adotam-se verdades, que passam a justificar crenças e valores. São nossos mitos, e amamos profundamente nossa própria mitologia.

Porém, vale mais a busca de si mesmo refletido no próximo do que nas frias águas da vaidade. Se não houver a procura do outro é possível sucumbir à cilada armada pelo orgulho e pela força devastadora do egoísmo.

Vale a lembrança em tempos de eleições definidoras do futuro de milhões.

Insensibilizados as necessidades sociais de multidões de mais pobres, às vezes emudecidos pelas contingências, o voto pode ser a expressão mesquinha de um Narciso que só enxerga a si mesmo.

Alienados, os corações não podem tornar-se cruéis reproduzindo o eco nos rochedos.

Que o eleitor seja belo, como a flor Narciso e justo como Nêmesis, ao depositar o voto, não guiado por simpatias pessoais ou preconceitos que residem no egoísmo, na vaidade e no orgulho, mas pelo desejo sincero de encontrar sua humanidade na fonte da Téspia das águas puras de sua alma.

Prof. Péricles

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

POR QUE UM LÍDER SE CORROMPE?



Por Dr. Cristiano Nabuco


Não é de hoje que convivemos com a máxima de que o poder pode corromper seus líderes, seja nas estruturas menores ou ainda nas grandes organizações.

Da antiguidade aos dias de hoje, acadêmicos têm procurado estudar as causas da corrupção e o quanto ela permeia todas as formas de poder. Assim sendo, o tema de uma nova pesquisa, que será publicada ainda neste ano no The Leadership Quaterly (Elsevier), procurou analisar exatamente esse processo.*

Os autores realizaram dois experimentos (um com 478 participantes e o outro com 240 participantes), onde a questão era averiguar se o poder poderia, de fato, corromper alguém ou, ao contrário, se os corruptos seriam aqueles mais atraídos pela liderança.

E assim a pesquisa se seguiu.

Depois de preencher alguns testes psicotécnicos para avaliar as diferenças individuais (honestidade etc), os indivíduos foram solicitados a integrar um experimento chamado “jogo do ditador'', onde os participantes receberiam, em certo momento, o controle total a respeito dos pagamentos que deveriam ser feitos para si mesmos e para seus pares.

Além disso, o jogo permitia que os “chefes” tivessem a escolha de tomar decisões que visassem mais o benefício social ou ainda que não favorecessem tanto o grupo – neste caso, diminuindo os pagamentos realizados aos outros participantes do jogo -, enquanto seu próprio salário, obviamente, poderia ser aumentado.

Os resultados mostraram coisas interessantes.

A primeira delas foi que o poder pode afetar sim o comportamento de um líder e o faz, progressivamente, agir de maneira cada vez mais antissocial (pelo menos, no experimento). O mais curioso foi notar que, quanto mais poder esses membros recebiam ao longo das provas, mais violadas foram as normas sociais dos testes.

Assim, segundo os pesquisadores, percebeu-se que o poder teve a força de reduzir a percepção psicológica negativa de atos ruins praticados pelos líderes sobre os demais membros do jogo.

Os resultados também mostraram que, mesmo aqueles que tinham uma predisposição inicial para a integridade e que declaram que um líder não deveria transgredir as regras sociais, também sucumbiram aos efeitos corruptores do poder. Ou seja, mesmo aqueles que defendiam um comportamento mais honesto, não foram, ao longo do tempo, protegidos contra os efeitos da corrupção.

Outra hipótese procurou relacionar a presença do hormônio testosterona com o comportamento antissocial. Interessante destacar que esta variável já havia sido observada em outras pesquisas a respeito do comportamento egocêntrico, ou seja, quanto maiores eram os níveis de testosterona, menor a empatia desses líderes em relação aos sentimentos e às emoções dos outros, o que poderia reforçar ou ainda ser um elemento chave em ações ligadas à corrupção de uma pessoa.

A conclusão?

Quanto maiores forem as possibilidades de uma organização controlar os atos de seus dirigentes, menores serão as possibilidades de ocorrerem os excessos na governança. Obviamente que tal controle pode diminuir a agilidade das decisões e aumentar os custos, entretanto, esses custos seriam inexpressivos, se comparados aos comandos inadvertidos dos líderes corruptos e suas consequências.

Seria possível considerar que nosso passado histórico de assumir o comando do bando nos tenha predisposto a uma inclinação natural para ganhar a qualquer preço?

Ou ainda: quais seriam as implicações desses achados sobre a prática da política pública?

Enfim, para se pensar…

Finalizam os autores da investigação: “As organizações devem limitar o quanto os líderes podem beber do cálice sedutor do poder''.

sábado, 4 de outubro de 2014

DIRETAS, OUTRA VEZ


Em 1984 os brasileiros sonharam poder votar para presidente de forma direta e democrática e desse sonho nasceu o movimento “Diretas Já” que, infelizmente, não sensibilizou o Congresso a aprovar a emenda Dante de Oliveira que permitiria tal eleição.

As primeiras eleições diretas para presidente pós Ditadura Militar, ocorreram apenas em 1989 com um resultado devastador, um candidato fabricado pela mídia, especialmente a Rede Globo, Fernando Color de Melo, derrotou homens de história e profundidade como Brizola e Ulisses Guimarães.

As segundas eleições diretas ocorreram em 1994 e, novamente foi decidida por artificialismos.

Com a imagem associada ao controle da inflação pelo Plano Real Fernando Henrique Cardoso venceu de forma tranqüila. Interessante recordar que a paternidade do Plano Real, criado no governo de Itamar Franco, por uma equipe econômica ligada a PUC de São Paulo, foi atribuída a Fernando Henrique Cardoso para que ele aparecesse como o candidato que salvou o Brasil do dragão da inflação Para isso, foi guindado por Itamar do Ministério das Relações exteriores para o Ministério da Fazendo, momentos antes da implantação do plano.

Novo embuste, nova vitória conservadora. Fernando Henrique Cardoso representou a continuidade das políticas neoliberais, iniciadas no governo interrompido de Color.

A Constituição de 1988, assim como as demais constituições republicanas, não previa a reeleição do presidente. Para que a reeleição de FHC, necessária para manter o perigo petista e Lula afastados do poder, foi produzida aquilo que em teoria jamais poderia ser produzida, uma alteração da Constituição.

Para isso eram necessários os votos de 2/3 do Congresso e essa proporção foi atingida pelo governo FHC e aliados de maneira até hoje acusada de fraudulenta, com suposto pagamento aos congressistas que marca o nascimento do mensalão.

Dessa maneira, a terceira eleição direta se deu a partir de uma artificialidade, e Fernando Henrique Cardoso foi reeleito em 1998.

A quarta eleição direta ocorreu em 2002. O neoliberalismo já mostrava sinais de enfraquecimento, o PT abriu-se para a formação de novas alianças, algumas que decepcionaram até sua militância, e dessa forma Lula é apresentado em nova versão, mais light e vence o pleito.

Na quinta eleição direta em 2006 Lula vence novamente, impulsionado por fortes programas sociais, como o “Fome Zero”.

Em 2010, os brasileiros elegeram, na sexta eleição direta, pela primeira vez, uma mulher, Dilma Roussef, para presidente do país.
Tanto nos dois governos Lula como no governo Roussef, o Brasil e o mundo mudaram muito.

O mundo assistiu duas graves crises econômicas, em 2008 nos Estados Unidos e em 2010 na Europa, além de uma crescente militarização dos conflitos a partir de uma política desenvolvida nos Estados Unidos que lembra os velhos tempos da “Guerra Fria”.

Os principais países emergentes formaram os BRICS e adquirem um peso relevante no cenário econômico internacional. Economias consideradas sólidas ruíram e o neoliberalismo entrou, definitivamente, em decadência.

O Brasil diminuiu a miséria de seu povo e apresenta índices que permitem um otimismo para os dias que virão, apesar das dificuldades que também virão.

Amanhã, teremos Diretas outra vez.

Independente de quem vença as eleições, o mais importante é que cada brasileiro valorize seu voto e recorde das lutas e lágrimas que precederam esse gesto, aparentemente tão simples.

Que o voto de cada um seja coerente com o seu pensamento e com o que deseja para seu povo.

E, principalmente, fechadas as urnas, contados os votos, que todos, aceitem os resultados mesmo que contrários às sua opção.

Um dos mais importantes momentos da democracia é a aceitação da vontade da maioria.


Prof. Péricles

ESSA TERRA TEM DONO


(Continuação de “Terra de Ninguém”)

Na metade do século XVIII a bagunça sobre a posse das terras era tamanha, que um novo Tratado devia ser, urgentemente, negociado.
Entre 1580 e 1640 a Coroa portuguesa estivera sobre a cabeça de reis espanhóis (Filipe II, Filipe III e Filipe IV) e a linha demarcatória de Tordesilhas perdera seu sentido. Em busca do ouro e de sua exploração, cidades surgiram em quantidade, fundada e povoada por luso-brasileiros onde hoje é a região sudeste e centro-oeste.

Portugueses eram expulsos, mas sempre retornavam a Colônia de Sacramento (Uruguai) enquanto jesuítas de fala espanhola habitavam o noroeste do então chamado “Continente do Rio Grande”. Guerras e escaramuças eram constantes assim como a perda de dinheiro.
Era preciso criar alguma ordem no caos.

Então, foi assinado entre portugueses e espanhóis, o Tratado de Madri, em 13 de janeiro de 1750.

Com a Espanha convalescendo de duas derrotas militares seguidas na Europa, o Tratado de Madri foi muito generoso aos portugueses.
As terras da mineração, Minas Gerais e Mato Grosso, e mesmo as do extremo norte como o Amazonas, foram reconhecidas como terras da colônia brasileira e, acabariam dando praticamente, a configuração que o Brasil tem hoje.

O maior foco de discussão residia no extremo sul, onde a bacia do Prata onde a Espanha não abria mão de seu domínio.

Dessa forma, a Colônia de Sacramento foi reconhecida como território espanhol e intimada a retirada imediata de todos os portugueses da região.

Por outro lado, os Sete Povos das Missões e áreas adjacentes, eram reconhecidos como de Portugal.

O Marques do Pombal, ministro e a cabeça pensante do rei português, esfregou as mãos. Há muito tempo destilava rancor em relação aos jesuítas e suas misteriosas missões. Para Pombal, era certo que os padres queriam fundar uma república independente no sul da América e seu maior desejo era anular essa pretensão. Sendo agora, a região reconhecida como lusitana, ele imediatamente determinou a expulsão dos jesuítas.

Para os índios Guaranis isso era algo parecido com o Armageddon. Haviam aprendido muito com os jesuítas, sentiam-se protegidos e a expulsão deles lhes deixavam expostos diante dos seus maiores temores.

O próprio Pombal havia assinado Lei que proibia definitivamente a escravidão indígena, mas, leis eram coisas que os índios não compreendiam e por isso temiam serem caçados como escravos.

Assim que chegaram as ordens de translado, os indígenas tentaram negociar, mas claro que não foram ouvidos.

Em fevereiro de 1753 foram enviadas, pelos ibéricos, comissões demarcadoras para o território missioneiro, para delimitar as novas fronteiras. Para enorme surpresa de seus membros foram recebidos por um grupo de indígenas em São Miguel, liderados por um homem alto e forte, de expressão determinada, que entenderam se chamar Sepé Tiaraju.

Embora os índios não compreendessem a posse da terra, achando que ninguém podia ser proprietário de algo que Tupã dera para todos, haviam aprendido com os jesuítas o quanto isso era significativo para os europeus.

Diante desse novo conhecimento, Sepé Tiarajú teria proferido a frase que até hoje faz parte da mitologia gaúcha – “Essa Terra Tem Dono”.

Pela primeira vez, índios se declaravam proprietários de terras que habitavam.

Estava começando um dos acontecimentos históricos mais dramáticos do sul da América, “As Guerras Guaraníticas”.

(Continua)
Prof. Péricles