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sábado, 26 de setembro de 2015

TE ENXERGA

As melhores ideias foram utilizadas para as piores aberrações.

Algumas sofreram metamorfose tão grande que se inverteram, se não no conteúdo, em sua forma.

O Cristianismo, por exemplo.

A ideia original, o ponto de partida da doutrina cristã é a solidariedade e a igualdade.

Talvez nenhuma outra doutrina tenha destacado tanto a prática da tolerância

A cena descrita nos evangelhos em que Jesus confrontado pela observância da lei que determinava apedrejar as prostitutas, apresenta uma das mais belas respostas que se tem notícia na história humana.

O atire a primeira pedra aquele que não pecou é a expressão máxima do “questione a ti mesmo, assuma teus próprios erros” ou, simplesmente, como se diz no Rio Grande “te enxerga”.

No entanto, posterior a seu nascimento, o cristianismo se tornou propriedade do estado e de um clero profissional que se formou em torno de sua popularidade.

A Igreja deformou de tal maneira a ideia inicial do cristianismo que, na Idade Média justificava a intolerância com a invenção do pecado, financiou campanhas de terror baseada na tortura e na fogueira. O clero profissional criou um exército para impor a sua visão das coisas e as Cruzadas promoveram massacres terríveis, piores até do que o ocidente costuma acusar os muçulmanos.

Nada poderia ser mais intolerante e por isso, menos cristão.

Com certeza, se pudesse, Jesus diria para os cruzados e papas se enxergarem antes de agredir, não com pedras, mas com o aço das espadas.

O capitalismo também.

Nasceu de um sonho diante do desespero.

Homens sem esperança diante das obrigações feudais que lhes tornavam a vida impossível encontraram no comércio à longa distância a centelha de luz para iluminar suas trevas feudais e no lucro honesto uma nova forma de viver e buscar ser feliz.

Lendo obras como “A Riqueza das Nações” de Adam Smith, o papa do liberalismo, percebe-se claramente a preocupação com o humano. A vontade de que o novo sistema trouxesse vida melhor para todos, donos dos meios de produção e meros trabalhadores, até porque os fundadores do capitalismo eram isso mesmo, trabalhadores.

Entretanto, a ideia original do capitalismo foi distorcida por visões encasteladas no egoísmo mais cruel, cuja preocupação sempre foi a concentração da riqueza, tornando o rico cada vez mais rico e o pobre que se lixe.

O maior holocausto da terra que foi o massacre dos povos ameríndios em nome do lucro do estado e das classes mercantis europeias, além da escravidão, foram justificadas (até pela Igreja) como um mal necessário diante da imposição do civilizado (e capitalista) sobre o selvagem e inútil (entrave ao capital).
Igual o cristianismo, tornou-se algo distante e distorcido do próprio início.

O socialismo também.

Desde os utópicos a ideia era a construção de uma sociedade mais justa.

Marx e Engels lapidaram com talento científico o sistema que nascia do mais humano e cristão dos desejos: a igualdade.

Ao despojar os seres da propriedade privada, os fundadores do socialismo jamais pensaram em punir os ricos, mas, de superar a pobreza.

Da mesma forma, ao conceituar a religião como o ópio do povo, eles, como cientistas, referiam-se à religião oficial e dogmática, instrumento utilizado para a exploração e não a qualquer conceito teológico.

Aliás, de várias maneiras percebesse ser o socialismo muito mais próximo das ideias do cristianismo do que mesmo, o Capitalismo, na medida em que prega o total despojamento de qualquer instrumento que permita a exploração do homem pelo homem.

Mas, premido por suas limitações históricas o socialismo, se apresentou alguns êxitos, também deu origem aos mais bizarros ditadores e a ditaduras cruéis que, assim como massificou a propriedade massificou também as criaturas e a liberdade.

Tanto o cristianismo como o capitalismo e o socialismo, eram belos em essência e foram indevidamente reescritos por quem os utilizou a seu proveito.

Assim também ocorre com os movimentos que, de forma justa e democrática expressam oposição e contrariedade ao governo do PT, mas que se tornaram instrumentos utilizados por defensores de ditaduras, homofóbicos e religiosos radicais.

Intolerantes que cultivam o ódio como prática, sem nenhum pudor.

Por isso, é bom manter-se atento à bandeira que se empunha e a máscaras que se prende ao rosto.

É bom ter certeza que expressam e defendem realmente o que pensamos e sentimos ou se o melhor ao convite para ingressar na turba não seria o gaudério e sincero "te enxerga".




Prof. Péricles





quinta-feira, 24 de setembro de 2015

O VALE TUDO E A FALTA DE LIMITES







Por Clóvis Malta






Foi tudo num período tão curto desses tempos difíceis, que quase passou despercebido na fila dos acontecimentos.

Em protesto contra a corrupção, uma senhora com a expressão dessas tias compassivas que todo mundo tem ou teve escancarou num cartaz, em plena Avenida Paulista, seu desejo em relação a antagonistas políticos: "Porquê não mataram todos em 1964?".

Um dia depois, uma professora de Araçatuba, em São Paulo, passou pela humilhação de ficar grudada na cadeira em plena sala de aula. Mas não: o problema maior não está naquele "porquê" grafado junto e com acento na cartolina, num país de tão pouco apreço à educação, em todos os sentidos que o termo abarca. Nem no fato de os alunos terem passado uma supercola no assento. O que inquieta é a falta de limite na origem dos dois casos.


Se até a virtude precisa ser contida, como defendeu Montesquieu, fica mais fácil entender por que o cotidiano virou uma bagunça.

Crianças e adolescentes são incentivados, cada vez mais, a imaginar que podem tudo. Pais, que deveriam ajudá-los a discernir o que é certo, o que é errado, muitas vezes acabam confundindo-os ainda mais com seus exemplos. Ajudam então a perpetuar um círculo perverso.

Fica mais fácil assim entender, mas não aceitar, por que o sagrado direito de protestar contra o que quer que seja acaba dando abrigo à expressão do desejo do extermínio de oponentes — e não foi, não, um caso isolado, nem força de expressão.

Se o exemplo falha em casa e nas ruas, o que esperar de quem vai à escola sem qualquer noção de respeito a um educador e ao que deveria ser visto como um templo de aprendizagem?

Agora mesmo, estamos presenciando as ações contra a corrupção alcançarem, enfim, políticos poderosos que chegaram aonde estão com o nosso voto. São casos típicos de pessoas para as quais nem o céu é o limite. Acham que podem tudo, inclusive quando estão diante do nosso dinheiro.

Corrupção prospera a partir da ganância, do excesso de tolerância, da impunidade. Mas tem também a ver, nas banalidades do cotidiano, com a forma como exercitamos valores éticos com a nossa família, com funcionários, com amigos...

Desde cedo, os brasileiros vêm sendo obrigados a conviver nesse ambiente marcado pelo baixo-astral, mas também pela esperança.

Vamos, então, conferir mais atenção a nossas crianças — desde as pequenas que colocam cola em assentos, até as mais crescidas que usam o acento errado para conclamar morte aos inimigos, sem esquecer, obviamente, daquela que mora em nós.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

PROFESSORES, ESPÉCIE EM EXTINÇÃO



O professor faz parte das mais intensas lembranças da maioria das pessoas.

Ser intermediário entre os pais e os estranhos que povoam os novos caminhos além de nossas casas, os professores marcaram os "melhores momentos" da vida de quase todos.

Atualmente se quedam diante da falta de valorização profissional, da humilhação de serem sinônimos de profissionais mal pagos e, mais recentemente, de saco de pancada de policiais militares a mando de governadores incompetentes, como aconteceu hoje pela manhã, em Porto Alegre e a pouco tempo, em Curitiba.

Talvez estejamos vendo o fim de uma era e de um profissional.

Nas faculdades os cursos de licenciatura já são oferecidos a preço muito abaixo dos demais.

Mesmo assim, falta quem queira segurar o giz que os mais antigos estão largando.

Talvez, nesse mundo informatizado e virtual, não haja mais espaço para os professores...

A seguir, uma texto de Moisés Mendes, cronista da "Zero Hora" onde ele faz um pedido que talvez esteja chegando tarde demais.

Prof. Péricles




Se acabarem com o Facebook, daqui a alguns anos, terá sido tão normal como quando acabaram com o fax e o Orkut.

Podem acabar com o Twitter como acabaram com o CD. E dar um fim à lâmpada de LED e ao smartphone, como descartaram o iPod.

Podem me dizer, sem que represente grande prejuízo, que vão acabar com o Instagram e suas assustadoras paisagens falsificadas. Podem terminar com o que ainda nem inventaram.

Se quiserem, podem extinguir os bancos, esses medievais que estão aí, e inventar os bancos do século 21.

Eu acredito mesmo que os bancos podem ser reinventados. Não me incomoda a ideia do fim de algo aparentemente insubstituível, até que um dia coisas, aparelhos e processos desaparecem e não fazem falta. Podem acabar até com o WhatsApp.

Só não terminem com os professores.

Não há como imaginar um mundo sem professores. Não há como uma criança virar adulto sem que carregue a certeza de que foi cuidada por um professor. É bobo isso? Então cresça e você saberá do que estou falando.

Ninguém será completo se não tiver na memória a imagem daquela professora. Pode ser um professor, mas de preferência que seja uma professora — elas é que são poderosas.

O professor de quem você guarda imagens de uma frase, um olhar, um pito, um silêncio, uma vacilação, uma cena banal.

Um dia você se verá tentando imitar sua fala e seus gestos. Um dia você aí saberá do que estou falando.

Bem, fiquei assim porque há alguns dias conversei por telefone, depois de mais de 50 anos, com a minha primeira professora.

Falei dela e sua neta Bruna leu e nos reaproximou. Vergília de Almeida Mongelôs, diretora, nos anos 60, do Grupo Escolar Alexandre Lisboa, de Alegrete.

Já contei que fui seu aluno do primeiro ano na sala dela, porque me negava a entrar em sala de aula. Tive agora, quando ouvi sua voz ao telefone, uma das sensações mais mágicas da minha vida.

Sim, eu me lembro da professora Vergília sentada à mesa ou circulando pela sala. Eu me vejo naquela sala. Eu sei o que a diretora do Alexandre representou para mim.

Escrevo agora para contar que daqui a alguns dias vamos nos ver.

Mas escrevo também para dizer que desejo que Martina tenha o que meus netos Joaquim e Murilo já têm. Que Martina tenha uma professora para não esquecer. Martina nasceu na terça-feira. É minha primeira neta.

Eu sei que a minha Martina terá a sua Vergília.


Por: Moisés Mendes

sábado, 19 de setembro de 2015

BOLO DE MILHO



Aqueça o forno em temperatura média. Bata o milho como o leite até ficar homogêneo. Em separado bata o açúcar com a manteiga até obter um creme claro. Junte os ovos e bata bem. Ponha o milho reservado, a farinha, o fermento e bata até obter uma mistura homogênea. Coloque na forma e leve ao forno por 30 minutos ou até que, ao enfiar um palito no centro, ele saia limpo. Deixe esfriar, desenforne e polvilhe o açúcar.

Está pronto o tradicional bolo de milho verde.

Por gerações a receita da vovó tem seguido com os mesmos ingredientes e a forma de fazer variado apenas com as melhorias tecnológicas como batedeira e liquidificador.

Receitas tradicionais são assim. As mesmas, através dos tempos.

O neoliberalismo, seja com Margareth Thatcher ou Ângela Merkel, Collor, FHC ou Aécio, mantém a mesma receita para enfrentar as crises econômicas.

Tudo parte dos mesmos ingredientes: o governo gasta mais do que arrecada; os benefícios sociais são insustentáveis; a previdência social é uma bomba silenciosa; as empresas públicas são onerosas e incompetentes, untados com os mesmos molhos, corrupção e inflação.

Leva-se essa mistura ao forno, ou seja, a mídia e todas as formas de comunicação que sirvam para formar uma opinião pré-aquecida.

Em pouco tempo, tudo fervilha e as vítimas se tornam algozes: os funcionários públicos, as empresas públicas, os aposentados e os que trabalham mas custam muito ao pobre empregador: o custo Brasil (fundo de garantia, 13º salário, etc.).

Misturados esses ingredientes e fervilhados na mentalidade nacional, a receita para enfrentar a situação, também é, como a receita do bolo de milho, sempre a mesma: privatizações de empresas públicas, demissões de servidores públicos, cortes de verbas nos programas sociais, aperto dos cintos com achatamento de salários e aposentadorias.

No Brasil, Fernando Collor de Mello deu início ao processo em 1990, mas foi FHC que assumiu a cozinha e apresentou o bolo final.

O patrimônio público foi delapidado com a venda de empresas como a Companhia Siderúrgica Nacional e a Vale do Rio Doce a preço de bananas.

Direitos dos servidores públicos foram estuprados da forma mais vil e vergonhosa.

O resultado: desemprego em massa, fome, exclusão e miséria, apontados por âncoras de telejornais como efeito amargo e necessário para salvar o país.

Mas não para empresários e banqueiros que receberam junto com o bolo de fel o doce suporte de um proer, perdoando todas as suas dívidas e falcatruas.

No bolo de milho podemos substituir o milho verde por uma xícara de milho em conserva escorrido, mas continuará sendo um bolo de milho.

No neoliberalismo cria-se uma reforma fiscal com cara de coisa nova, mas continuará sendo a receita neoliberal com os mesmos resultados conhecidos.

Certamente as reflexões são necessárias à cidadania antes de apoios tácitos a coisas velhas travestidas de novidades.

Se o bolo de milho se mostrar desconfortável ao paladar, inove-se na receita ou tente-se outro bolo.

Já o bolo neoliberal tendo se mostrado ineficaz e amargo, busque-se outras receitas, com outros ingredientes e que outros cintos sejam apertados. Que o "proer" seja ao povo e não aos ricos.

Aliás, essa receita do bolo de milho rende 10 porções e demora de 30 a 45 minutos para ficar pronta.

Quanto à receita neoliberal rende 200 milhões de porções e pode, trazendo de arrastro ditaduras que lhe são afins, demorar 20 anos para demonstrar sua inutilidade.



Prof. Péricles











quinta-feira, 17 de setembro de 2015

DILMA E DUNGA, SALVE-SE QUEM PUDER



Por Laerte Braga


Aumenta na esquerda o descontentamento com a presidente Dilma.

Um dos maiores jogadores de futebol em todos os tempos, o meia Gérson, campeão do mundo em 1970, cérebro de uma equipe magistral, já no final de sua carreira, jogando no clube do seu coração, o Fluminense Futebol Clube, no intervalo de uma partida contra o América, à época uma grande equipe, perdendo de dois a zero, depois de fumar seu cigarrinho no banheiro, foi ouvir as instruções do técnico Duque.

Duque explicou como “virar” o jogo, traçou as coordenadas para o primeiro gol, o gol de empate e o terceiro, que seria o da virada. Do seu canto e com seu jeito, Gérson disparou – “você já combinou com o técnico deles?” Risos disfarçados e a despeito de todo o empenho do time do Fluminense, o jogo foi ganho pelo América.

O time de Dilma Roussef não tem nenhum Gérson. Mas dois trombadores. Joaquim Levy e Nélson Barbosa, respectivamente na Fazenda e no Planejamento, o que no futebol seria equivalente ao meio de campo. Jânio de Freitas é um dos grandes jornalistas brasileiros. E independente. Chama a dupla de “criadores de problemas”.

Permito-me incluir entre eles, o arrogante e incompetente Aluísio Mercadante. Zagueiro que só dá de bico. Com licença de Pinheiro, que nunca perdeu um pênalti e só batia de bico. Jogava no Fluminense e foi titular da seleção na copa de 1954.

Quando tudo parecia marchar para um alívio nas pressões contra o gol do governo Dilma, o vice-presidente Michel Temer, sabotado por Mercadante (quer ser o candidato em 2018), se afasta da coordenação política, deixa um rombo sem tamanho no time e ainda ameaça levar boa parte dos jogadores, os do PMDB, para a oposição. Vai anunciar se sim ou se não em setembro.

E Eduardo Cunha, corrupto com assento na presidência da Câmara dos Deputados, denunciado pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, por falcatruas no ofício que exerce, além do uso indevido do nome de Deus para receber propinas, dá uma suspirada, um gesto de alívio e a despeito de todo o bombardeio contra si, sobrevive. Aos trancos e barrancos, mas forte, no velho esquema de chantagens, extorsões, etc.

Aí vem Dilma e manda a bola nas arquibancadas. Anuncia a extinção de Ministérios e Secretarias. Jogada armada por Joaquim Levy. O pretexto de economizar recursos, reduzir cargos comissionados, a aparente moralidade do anúncio, é para inglês ver. No caso os brasileiros.. Deve achar, como no célebre Fla versus Flu, da Lagoa, que a bola demora a voltar. Hoje são várias as bolas disponíveis, o esquema não funciona.

No caso, perdendo de dez a zero, é mais prudente seguir o conselho daquele técnico aos seus jogadores – “arrecua os harfies que é pra evitar a tragédia”. A conta dessa confusão tática vem toda para os trabalhadores brasileiros. E até a primeira parcela do décimo terceiro de aposentados e pensionistas vai ser dividida em duas, fato inédito nos últimos nove anos. Decisão de Levy, que Dilma engoliu depois de ter anunciado que iria pagar em setembro.

Faz uma espécie de mea culpa ao dizer que demorou a perceber a crise. Mas percebeu, depois de reeleita.

Martin Francisco Lafaiete Andrada, advogado nas horas vagas e técnico de futebol, foi campeão com o Atlético de Madri, Espanha, inventando o 4-2-4 e evoluindo para o 4-4-2. Era descendente do “patriarca da independência”.

Zezé Moreira, técnico da seleção em 1954, com vários títulos e caráter acima de qualquer prova, como Martin Francisco, se contrapõe ao pesado sistema de marcação homem a homem e cria a marcação por zona.

Feola esboça o 4-3-3- e Zagalo, que o provara na prática nas copas de 1958 e 1962, o transforma em realidade na copa do tri, a de 1970.

Oto Glória levou Portugal a um terceiro lugar na copa de 1966 e até Iustrich inventou a tal “cavadinha”. Nem falo de Carlos Alberto Parreira, um fora de série nessas artes.

Há uma crise quase que absoluta no futebol brasileiro. O técnico é Dunga, um turrão que adora mediocridades. Mas Dilma criou uma nova tática, na política – o salve-se quem puder. Como nas melhores peladas de domingo.

Impedimento? Uma quebra da normalidade democrática e incompetência por si só não é justificativa. Mas Dilma está fazendo o possível e o impossível para ficar na banheira.

Ela própria anula seus gols. Seu assistente Mercadante? Busca a bola nas redes e coloca no meio do campo para reinicio do jogo. Está pior que o sete a um de Luís Felipe Scolari.



Laerte Braga, jornalista, trabalhou no Diário Mercantil e no Diário da Tarde de Juiz de Fora, para os Diários Associados e pela agência Meridional (primeira grande agência de notícias do Brasil) e também dos Diários e Emissoras Associadas. Escreve semanalmente para o Diário Liberdade.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

ÍNDIO NÃO É GENTE OU É INVISÍVEL?



Por José Ribamar Bessa Freire


“When a dog bites a man that is not news,
but when a man bites a dog that is news”.
(Charles A. Dana, jornalista americano)

Foi isso que aprendemos no Curso de Jornalismo da UFRJ, assim mesmo, em inglês.

Se um cachorro morde um homem, isso não é notícia, acontece sempre, mas se um homem morde um cachorro, aí sim, é notícia. Notícia é a novidade, o inusitado.

Tal lição importada dos Estados Unidos era ensinada, em 1966, pelo nosso professor Danton Jobim, autor do Espírito do Jornalismo, um espírito de porco que continua baixando ainda hoje nas redações, especialmente se o mordido for um índio e não o filho do dono do jornal.

No domingo vasculhei os dois jornais que assino – um do Rio, outro de São Paulo – para confirmar a notícia dos disparos feitos no sábado (29/8) por pistoleiros pagos que mataram o guarani-kaiowá Simeão Vilhalva, 24 anos, e feriram dez outros índios, incluindo crianças da Terra Indígena Ñande Ru Marangatu (MS).

Nada encontrei. “Não houve tempo hábil de noticiar” – pensei, já que a edição dominical dos jornais fecha cedo no sábado e o corpo de Semião foi encontrado por volta das 15h, no córrego Estrelinha, onde foi atingido na cabeça quando bebia água.

Esperei a segunda-feira e passei um pente fino nos dois jornais. Inútil. Sequer uma notinha. O velório com as rezas de despedida, o caixão sobre banco de madeira ao lado de um galpão, o choro dolorido do filho e da esposa Janaína só apareceram nas redes sociais. A mídia nacional ignorou olimpicamente as mordidas dos “cães raivosos” do agrobanditismo, considerando, afinal, que aquilo não era novidade. Novidade seria se um índio mordesse um desses “cachorros”.

Se índios são assassinados sistematicamente nos últimos cinco séculos, isso é tão corriqueiro que deixou de ser notícia, assim como não é notícia o motivo pelo qual se mata: disputa por terra. No caso, esta área indígena demarcada e homologada pelo presidente Lula, em 2005, teve a homologação suspensa pelo ministro do STF Gilmar Mendes a pedido dos fazendeiros que a ocuparam ilegalmente. Permanece engavetada até hoje, alimentando o conflito, que é silenciado pela grande mídia, mas que bombou nas redes sociais em compartilhamentos indignados.

Os dois jornais de circulação nacional não deram uma vírgula ao longo da semana sobre os desdobramentos do crime: velório, enterro, protestos, ação policial e ministerial. Na terça, negaram aos seus leitores a notícia sobre o enterro. Lá poderiam entrevistar a professora guarani-kaiowá Inaye Gomes Lopes, testemunha do crime: “Houve massacres em dois lugares. Um na fazenda de Roseli, presidente do Sindicato Rural e o outro na fazenda de Dácio Queiroz, onde ocorreu a morte. Os fazendeiros com os pistoleiros deles chegaram atirando”.

Quarta-feira, nas redes sociais circularam notas de protestos de várias entidades, entre outras a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), a Articulação de Povos Indígenas do Brasil (APIB), o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), além de uma Carta Aberta dos Servidores da Funai de Campo Grande/MS, mas os dois jornais de circulação nacional nem seu souza.

Se a morte de Semião não foi noticiada, como publicar notas exigindo a punição dos assassinos?

As notas lembraram outros líderes assassinados como Marçal de Souza e Dorvalino Rocha, condenaram a ação planejada dos ruralistas em ataque paramilitar premeditado, denunciaram o uso de munição própria das forças de segurança pública e exigiram o julgamento dos mandantes e dos executores, além da regularização da terra. O líder guarani Anastácio Peralta disse que Mato Grosso do Sul virou “o maior faroeste, o país perdeu a soberania, quem manda lá é pistoleiro e fazendeiro.

Um boi vale mais que uma criança. Eles matam nós como animais”.

Comparando as redes sociais com o silêncio da mídia, fica claro que noticia, na realidade, é aquilo que os jornais não publicam, o resto é propaganda, matéria paga.

Desconfio que não vou renovar minha assinatura dos dois jornais, transformados em panfletões dos donos da grana.

Eles contribuem para a invisibilidade dos índios no cenário nacional. A publicação dos fatos certamente evitaria outros crimes.

Diante do silêncio “se faz um nó na garganta e se espalha em vários nós por todo o corpo” – como sinaliza Graciela Chamorro, que conclama:

– Em nome de A Bondade de Nosso Pai, quem escreve, escreva; quem canta, cante; quem toca, toque; quem pinta, pinte; quem reza e ora, reze e ore; quem prega, pregue; que os operadores do direito operem com justiça para que a impunidade dos crimes cometidos contra indígenas tenha um ponto final.



José Ribamar Bessa Freire, professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), onde orienta pesquisas de doutorado e mestrado e da Faculdade de Educação da UERJ, coordena o Programa de Estudos dos Povos Indigenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

NALEDI ENTERRAVA SUAS CRIANÇAS



Essa é para os meus alunos que dizem não gostar de história porque é um campo do conhecimento que apenas trabalha com velhas e enfadonhas certezas.

Uma equipe internacional de arqueólogos e paleontólogos trabalhavam despretensiosamente num sistema de cavernas na África do Sul que havia sido descoberto por dois espeleólogos (exploradores de cavernas) em 2013 a cerca de 50 quilômetros de Johanesburgo, capital da África do Sul.

Com certeza nenhum dos 60 membros da equipe estava preparado para as surpresas que viriam. Coisas tão inesperadas para o historiador como seria a descoberta de um novo planeta no sistema solar para o astrônomo.

Foram encontrados mais de 1500 ossos e fragmentos, além de 140 dentes de indivíduos diferentes que incluem homens, mulheres, crianças, adultos e jovens.

Tal quantidade de vestígios num mesmo sítio já seria de espantar, mas surpresas maiores ainda seriam reveladas.

A espécie encontrada é completamente nova, sem nenhum registro entre hominídeos já conhecidos.

Além disso, pode ser a mais primitiva do gênero humano, datando, presumivelmente de 3 milhões de anos.

Já batizado como “Momo Naledi” (pronuncia-se Nalédi), suas características físicas deixam os especialistas perplexos.

Enquanto o crânio, as mãos, os dentes não deixem dúvida sobre ser da espécie hominídeos, e os pés incrivelmente semelhantes aos do Homo Sapiens, sua pelve e ombros são, aparentemente igual de macacos que viveram a 4 milhões de anos atrás.

Aliás, os pés sugerem uma espécie que viviam no solo e percorria distâncias, mas mãos são mais apropriadas para viver nas árvores.

Essa mistura de características de hominídeos modernos e antigos é de deixar qualquer historiador sem saber direito o que dizer.
Mas as perplexidades são ainda maiores.

O grande número de ossos encontrados em um só local, não havendo evidências de que tenham sido depositados ali pelas chuvas, e ainda não existindo marcas que sugiram terem sido carregados por predadores, revelam ser possível que os corpos tenham sido deliberadamente deixados no sistema de cavernas, o que, por sua vez, indicaria terem sido enterrados numa espécie de ritual funerário.

Enterrar seus mortos é algo muito além do instintivo, tanto que nenhum animal além do homem tem essa prática.

Exige que se acredite haver uma necessidade para que isso seja feito, e ainda sentimentos de respeito pelo indivíduo morto, o que exige que haja algum tipo de raciocínio, crença e valor.

Historicamente se acredita que as primeiras espécies suficientemente evoluídas para tudo isso só haviam procedido com algum tipo de funeral a 136 mil anos atrás, aproximadamente.

Como entender que isso fosse feito por uma espécie tão mais antiga (3 milhões de anos) do que os primeiros cemitérios encontrados? E uma espécie cujo cérebro não deveria ser maior do que uma laranja?

Teria a natureza testado o surgimento do homem em épocas diferentes e por diferentes caminhos evolutivos?

De onde veio o Homo Naledi? O que ele ainda tem para nos revelar?

Por tudo isso, a descoberta nas cavernas da África do Sul, pode revolucionar todo o conhecimento que consideramos sólidos e definitivos sobre nós mesmos.

E, para aqueles alunos que limitam o conhecimento histórico como algo acabado e desinteressante sobra o velho refrão: “há mais mistérios entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia possa imaginar”.


Prof. Péricles
Fonte: Hype Science

sábado, 12 de setembro de 2015

AS DESNUDAS DE NOVA YORK



Por José Inácio Werneck



Afinal as mulheres podem ou não mostrar seus seios na Times Square?

O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, acaba de perder uma boa ocasião de ficar calado.

Ele declarou aos jornais que vai por fim às atividades das “desnudas” em Times Square e formou uma Comissão para estudar o assunto. Quer uma providência até o dia 1 de outubro.

Há diversas bobagens na atitude do prefeito, misturadas com uma esperteza climática.

Primeiro, vamos às “desnudas” – conhecidas assim mesmo, pela alcunha em espanhol.

Elas são moças que posam com os seios nus e pintados em Times Square, ao lado de turistas, e esperam receber uma gratificação em troca.

Primeiro, a bobagem do prefeito: é legalmente permitido expor os seios em Nova York, sem medo de multa ou prisão.

Na verdade, a lei em Nova York não faz diferença entre um homem com o torso nu e uma mulher na mesma condição.

Seios não são considerados órgãos sexuais e, portanto, quem os exibe não está cometendo atentado ao pudor.

Aliás há diversas interpretações legais, em muitos países, sobretudo na Europa, que mesmo a exibição de órgãos sexuais não constitui atentado ao pudor, desde que não haja intuito pornográfico por parte do homem nu ou da mulher nua.

Assim é que, em muitas praias europeias, há quem tire totalmente a roupa, mesmo fora das áreas de “naturismo”, sem despertar escândalo dos circunstantes nem repressão policial.

Em Nova York ninguém chegou a tal ponto, mas diversas mulheres já puseram à prova, com sucesso, o direito de andarem nas ruas e até viajarem no “subway” com o torso nu.

O prefeito Bill de Blasio está lidando apenas com seios e mesmo assim chegou a ameaçar com medidas extremas, como a de transformar a Times Square em um parque, eliminando as zonas onde pedestres podem transitar ou sentar-se.

O bom senso indicaria que o prefeito não se metesse no assunto, ou que apenas interferisse no caso das “desnudas” serem agenciadas por exploradores que exijam pagamento dos turistas de forma agressiva.

Mas para isto já existem medidas legais. O “panhandling”, como é conhecida a solicitação de esmolas ou gorjetas, é proibido quando feito agressivamente.

Tenho a impressão de que o prefeito, ao mesmo tempo em que ameaça tomar “medidas drásticas”, está jogando com uma “esperteza climática”, ao pedir soluções para o dia 1 de outubro.

É fácil entender a razão. Em outubro já estaremos em pleno outono no Hemisfério Norte e a cidade de Nova York entrará na estação de temperaturas baixas até pelo menos maio do ano que vem.

Ninguém, nem homem nem mulher, se sentirá atraído pela perspectiva de andar com o torso nu nas ruas da cidade.

E o prefeito espera que reação negativa passe e no ano que vem as jovens possam ser aceitas com mais naturalidade.




José Inácio Werneck, jornalista e escritor, trabalhou no Jornal do Brasil e na BBC, em Londres. Colaborou com jornais brasileiros e estrangeiros. Cobriu Jogos Olímpicos e Copas do Mundo no exterior.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

ROUPINHA DE PASSEIO



Você recebe um convite de aniversário de criança, comparece ao aniversário de criança, parece aniversário de criança, mas só encontra adultos tomando cerveja e discutindo futebol.

Convoca-se reunião de condomínio, você leva sua listinha de problemas do prédio, mas chega lá e só ouve discussões de ódios pessoais e fofocas entre vizinhos.

Tem coisas que parecem, mas não são.

Como aquele mico que te mata de vergonha em que bateu no ombro do velho amigo acompanhado de “aí bixona” e ao se virar... não era o seu amigo, e sim um estranho.

A gente fica sem jeito, não é mesmo?

São coisas que estão além das aparências, mas confundem e provocam constrangimentos.

Como aquela velha foto que em contraste à sua pose de galã hollywoodiano aparece ao fundo um tiozinho brincando com a dentadura.

Ou aquela do menino na praia da Turquia, Aylan Kurdy.

A foto de uma criança numa posição em que crianças costumam dormir depois de exaustas. Roupa nova e bonitinha, daquelas que se vestem nossos filhos quando saímos de casa pra ir na casa da tia.

Você sorri ligeiramente achando que o danadinho deve ter aprontado todas e dormido na beira da praia, mas... ao ler a notícia percebe o engodo.

E seu coração vai ficando apertado a cada novo parágrafo.

Aylan não está dormindo depois de mil peraltices.

Aylan está morto. Afogado. E seu corpo sem vida está sendo recolhido por um oficial da Guarda Costeira.

Então, te passa pela cabeça qual teria sido seu último pensamento...

Crianças de três anos não tem últimos pensamentos pois todos eles são primeiros numa vida que apenas inicia.

Teria tido tempo de sentir medo? Chamar pelo pai?

Então, percebe-se que nem tudo que parece é, e que as imagens, definitivamente enganam.

Doeria menos se usasse turbante e não uma roupinha de passeio?

Não. Não é uma criança síria que está morta, exposta na foto.

É a própria humanidade.

A minha e a sua humanidade. A humanidade de nossos sonhos e mesmo de nossas conquistas.

A humanidade morre um pouco nas praias turcas e gregas, nas favelas cariocas e paulistas, nos asfaltos das grandes cidades cobertas pelo silêncio cúmplice das janelas envidraçadas de todo mundo ou nas matas brasileiras onde crianças Kaioás são queimadas vivas por madeireiros.

A humanidade morre vítima de nossa incompetência de criar um mundo mais justo e fraterno.

Mata-se crianças nas discussões vazias eivadas de preconceitos que insistem em não serem enterrados e até mesmo com o ódio que se espalha pelas comunidades virtuais.

E no silêncio pesado da leitura, sob o impacto da imagem dolorosa, restam as lágrimas, grossas e esguias, que nos lembram que o luto é nosso também.



Prof. Péricles



segunda-feira, 7 de setembro de 2015

CADÊ O BRASIL?

Por Tarcísio Lage

Depois de dois meses perambulando pelo Brasil, voltei ao meu recanto em Hilversum, na Holanda, de onde costumo observar o mundo com o binóculo da internet.

Liguei a televisão para ouvir o noticiário das 20 horas no canal 1 da televisão pública. No noticiário internacional, um tiquinho da Grécia, mas sobre o Brasil nem um pingo, como de resto nos jornais da Holanda.

Em outros países europeus mais chegados ao Brasil, como Portugal e Espanha, e nos maiores – Alemanha, França e Itália – a imprensa dedica bem mais espaço à crise brasileira, mas raramente apresenta o clima de catástrofe e de fim de mundo estampado diariamente nas manchetes dos jornalões, nos editoriais, artigos e, mais ainda, no furor dos telejornais.

Esse quase desinteresse decorre, provavelmente, do desprezo que a “comunidade Internacional” (termo que começou a ser empregado com furor pela ex-Secretária de Estado Madeleine Albrigt no fim do século passado) dedica ao Sul do Planeta.

Do ponto de vista estratégico, o Brasil é ainda visto como um elefante branco: não tem poder nuclear e as Forças Armadas mal dão para o gasto numa região relativamente de poucos conflitos.

Durante o governo Lula, quando se tentou uma política externa mais atuante, não foram poucas as críticas, para não dizer esculhambações, internas e externas, do tipo “vira-lata se metendo em briga de cachorro grande”. Não esqueçamos da arrogância do porta-voz do Ministério do Exterior de Israel, Yigal Palmor, reagindo a uma nota do Itamaraty condenando o excesso de força empregada na Faixa de Gaza no ano passado.

Disse ele ao Jerusalém Post: “Essa é uma demonstração lamentável por que o Brasil, um gigante econômico e cultural, continua a ser um anão diplomático.” Evidetemente, o Sr. Palmor está redondamente enganado.

O Brasil, ainda que seja a sétima economia do mundo, signatário do Tratado de não Proliferação de Armas Nucleares, continuou por muito tempo completamente desprezado pela “comunidade internacional”.

É nessa conjuntura que o Brasil tenta, durante o governo Lula, quiçá pela primeira vez, meter o bedelho na briga dos cachorros grandes da “comunidade internacional”. Mas o Brasil não entra só nessa briga, mas com o respaldo dos países dos BRICS, sendo dois eles detentores de arsenais nucleares que, juntos, quase se comparam aos dos Estados Unidos.

O confronto doravante vai ser cada vez mais intenso entre a “comunidade internacional” e os “BRICS” na linha de frente do “Sul” do Planeta, tão menosprezado.

O pouco caso de Israel pelo Brasil pode ser um engano estratégico. Afinal, ainda que seja um cão de pouco porte (do ponto de vista de armamentos), faz parte de uma matilha que abriga a segunda (ou talvez já a primeira) potência econômica do mundo junto com a herdeira do arsenal nuclear da antiga União Soviética. Pode até ser que mesmo os holandeses, enfurnados com seus pequenos problemas, prestem mais atenção no Brasil.

Há, contudo, um grande perigo: que os países dos BRICS acabem fascinados pelo canto da sereia capitalista e formem com a “comunidade internacional” uma aliança maldita para continuar explorando ainda mais as nações pobres do Planeta.



Tarcísio Lage, jornalista, escritor. Exilado no Chile no final de 1969, trabalhou, em seguida, em três emissoras internacionais: BBC de Londres, Rádio Suiça, em Berna, e Rádio Nederland, em Hilversum, na Holanda, onde vive atualmente. As Tranças do Poder é seu último livro.

sábado, 5 de setembro de 2015

COM A FARTURA NASCE A MISÉRIA



Até aproximadamente 12 mil anos atrás os agrupamentos humanos viviam da coleta e da caça.

Além da insegurança causada pela necessidade de encontrar a caça a cada novo dia havia a tensão dele próprio não ser o caçado.

Entre 12 e 10 mil anos, surgiu algo que iria mudar profundamente a vida de nossos antepassados: a agricultura.

E o homem, de mero caçador e coletor como milhares de outros animais, transformou-se num produtor, o único animal capaz de produzir seu próprio alimento.

Inicialmente, a agricultura abasteceu os grupos com o necessário à sua sobrevivência.

Porém, em algum tempo a produção foi além do necessário, e surge o excedente.

Esse excedente passou a ser trocado por outros excedentes de outros grupos. A troca de produtos marcava o início do comércio.

Era necessário organizar a semeadura e a colheita, além do transporte do essencial e do excedente e assim nasce o que chamamos de governo. Outros grupos poderiam querer roubar a comida e sendo vital protege-la surge o exército.

Para ter reconhecida sua autoridade que não mais se justifica por sua coragem e perícia para à caça, o governante se alia aos que se dedicam a entender a natureza que os cerca e a qual temem, e dessa aliança nasce a religião e o rei teocrático. Mais que um rei, um deus.

As populações, com a certeza da sobrevivência, cresciam cada vez mais e as relações se tornavam mais complexas.

A extração dos minérios e da comida das entranhas da terra somado as diferenças entre as atividades exercidas fazem surgir as classes sociais.

Em pouco tempo se reconhece o acúmulo e as diferenças se tornam maiores.

O excedente da produção, gerou o comércio, o governo e o exército a propriedade e até mesmo o crescimento populacional.

Agora havia riqueza e propriedade privada que, entretanto, não estava distribuída do mesmo jeito entre todos. Estavam inventados o rico e o pobre.

Nas sociedades paleolíticas, enquanto caçadores e coletores e mesmo nos primeiros tempos da agricultura, a natureza organizou a sociedade humana pela divisão de tarefas por sexo e idade. O fruto de seu trabalho dessas sociedades “primitivas” era distribuído de igual maneira entre todos da tribo.

Havia as tarefas dos homens mais jovens, dos mais velhos, e das crianças e mulheres, que, aliás, contavam com uma grande importância dentro do grupo.

A riqueza trouxe a diferenciação e a exploração do trabalho alheio e também a diminuição da importância da mulher.

Se a segurança da produção em relação a insegurança da caça-coleta foi um grande progresso, o próprio progresso trouxe os gérmens da exclusão.

Na origem de nossa civilização, portanto, está o egoísmo tomando o lugar do coletivo.

É o individualismo que dá forma às sociedades ditas civilizadas e não a fraternidade.

Com a fartura da produção coletiva nasce a miséria individual.

Os persas, que habitavam o atual território do Irã, formaram no século VII a.C. o primeiro grande império a partir de conquistas militares.

Seu plano de expansão, após conquistar o oriente, objetivava diretamente a distante Grécia, em especial o porto de Atenas graças... a seu intenso comércio.

E assim tivemos as Guerras Médicas no século V a.C. como tivemos inumeráveis guerras posteriores baseadas no desejo de alguns de acumular indiscriminadamente a riqueza que nunca foi de todos.

O Império Romano foi o apogeu dessa ideia de ambições e sua queda em 476 mudou o mundo, mas não mudou a fome por excedentes.

Durante os dez séculos que se seguiram a sua queda, período que chamamos de Idade Média, o comércio se encolheu, se tornou local, mas a ambição continuou fomentando o acúmulo de riqueza, agora baseada na posse da terra, e a Igreja se destacaria como a mais rica, poderosa e insaciável entre todas as forças da terra.

(Continua)


Prof. Péricles















quarta-feira, 2 de setembro de 2015

ARREPENDIMENTO E VERGONHA NA CARA


Arrependimentos exigem responsabilidade.

Será que o timoneiro do Titanic se arrependeu de tentar desviar do iceberg, manobra que rasgou o casco e provocou o naufrágio, ao invés de bater de bico, que provocaria um estrago muito menor?

Deu tempo de pensar “perdão, falha nossa” ou morreu discutindo que fizera a coisa certa?

E o velho general que garantiu para Adolf Hitler que os aliados invadiriam a Europa pelo sul, na Grécia, e não pelo Norte, na Normandia, como de fato aconteceu?

Ao ver a ocupação inimiga consolidada falou “putz, sou uma besta” em alemão ou saiu assoviando como se não tivesse nada com isso?

Arrependimento exige vergonha na cara.

Sem vergonha na cara o sujeito enrola, faz cara de esperto e insiste no erro.

Por exemplo, os antipetistas do Rio Grande amado...

Insistiram numa candidatura que não apresentava projetos, não discutia ideias e fugia do debate.

Seu eleitor, portanto, não acreditava em suas ideias já que elas não eram expostas. Eram seus eleitores apenas porque era a candidatura com chances para derrotar o PT.

Fosse outro o candidato apontado como contraponto ao petista, esse outro seria seu candidato.

Daí veio as eleições e sabemos, o antipetismo venceu com quase 70% dos votos.

Posta a nova realidade e passados oito meses de novo governo temos o estado estagnado, os trabalhadores sendo humilhados recebendo proventos parcelados e sendo chamados de vadios e uma situação beirando o caos com a saúde e a segurança pública, entre outros setores, em greve.

O candidato vencedor não mentiu. Nenhuma ideia apresentada por ele traiu as expectativas simplesmente porque não foram apresentadas ideias.

Como fica o glorioso eleitor antipetista?

Mesmo não sendo servidor público será que não lhe atinge um certo remorso pela opção eleitoral baseada apenas no preconceituoso “antismo”?

Não sente parte da responsabilidade pelas crianças de pais mais sombrios e desesperados?

Hoje houve um suicídio enquanto um grupo manifestante se agitava muito próximo, na rua Riachuelo. Amanhã provavelmente outros acontecerão. Angústias e depressões se abatendo sobre os lares. E eu me pergunto: ei você...psiu... você mesmo que se sentiu o máximo apenas por votar no anti e por convencer aquele vizinho abestalhado a votar também... você, não se sente responsável?

Sim, todos sabem que sendo o voto secreto sempre será possível manter aquela cara de quem não tem nada com isso... mas você sabe bem qual foi sua escolha e o motivo.

Pense nisso, no silencio de suas horas consigo mesmo.

Você pode ser mal informado mas não há o que justifique não buscas a informação quando isso implica nas relações que vão além do "euismo".

Sim, o arrependimento é pra quem tem vergonha na cara e fruto de um orgulho que não teve vergonha de adoecer.

Já se disse que todos colhem aquilo que plantam.

Eu lhe desejo uma colheita farta e abundante, com tudo aquilo que você mesmo plantou.


Prof. Péricles

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A VIDA É DURA




Por Theófilo Rodrigues


Foi Marx quem observou em meados do século XIX que “os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente”.

A famosa máxima de Ortega y Gasset segue pelo mesmo caminho: “o homem é o homem e suas circunstâncias”.

A elegância estilística dos dois filósofos pode causar confusão em alguns. Mas poderia ser facilmente substituída por uma simples expressão popular: “a vida é dura”.

Ora, a recente vida política brasileira é um baita exemplo de como a vida é dura ou, em outras palavras, de como o ator político é constrangido permanentemente por circunstâncias externas que não controla.

Tendo saído vitorioso da eleição presidencial de 2014 o PT acreditou ter forças para eleger o novo presidente da Câmara dos Deputados no início de 2015. Lançou naquele momento o deputado Arlindo Chinaglia (PT) contra o candidato do PMDB, o deputado Eduardo Cunha.

O PT acreditou que tivesse uma musculatura que a história demonstrou ser insuficiente. Ignorou a regra mais básica da política: a correlação de forças. Como resultado Eduardo Cunha não apenas saiu vitorioso como à vontade para ser um autônomo opositor do PT. A vida foi dura com o PT.

Ao ser acusado por um delator da Operação Lava Jato de ter recebido uma propina de R$ 5 milhões Cunha optou por uma jogada ousada: em busca do apoio da opinião publicada – leia-se, apoio da imprensa – resolveu anunciar que a partir daquele dia faria oposição severa ao governo Dilma. Mas a estratégia não deu certo. A imagem de Cunha já estava abalada demais na esfera pública para convencer a imprensa a ser seu bote salva vidas.

Aécio Neves e seus correligionários também têm sofrido na pele as sequelas de uma vida dura. Ao embarcar na nau do impeachment Aécio viu sua base de sustentação econômica afastar-se de seu projeto político. Pois nem a burguesia financeira, nem a industrial, nem a agrária, nem a comercial estão dispostas a seguir por um caminho que possa afetar seus interesses e seus lucros.


Assim, Aécio ignorou uma outra regra básica: a de que a política não é plenamente autônoma da economia.
Mas não é apenas o mundo da política institucional lá de cima que tem percebido que a vida é dura. Cá do lado de baixo da sociedade essa percepção também é clara.

Vide o caso dos movimentos sociais que organizaram a campanha nacional pela reforma política. Como resultado a Câmara dos Deputados que nunca quis tratar desse tema acabou por aprovar uma reforma pelo avesso: ou seja, colocou na Constituição dispositivos contra os quais os movimentos sociais lutavam como o financiamento empresarial de campanhas.

Ou seja, a sociedade civil conseguiu colocar a roda da reforma política para girar. Só que a roda girou para o lado contrário.
Nossas ações são constrangidas por muitos vetores sobre os quais não temos controle.

A virtude na política, tal qual em Maquiavel, não está no domínio sobre todas as múltiplas determinações da totalidade. Por óbvio, isso seria impossível.

Virtuoso é o ator que tem noção de sua insignificância frente a todas as outras forças do mundo e que a partir dessa consciência adota a tática e a estratégia mais adequada à conquista de seus objetivos.

Virtuoso é aquele que sabe que a vida é dura.



Theófilo Rodrigues é cientista político.