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sábado, 28 de novembro de 2015

OLHAI AS ONDAS DO MAR


Muitos admiradores da mitologia da cultura clássica desconhecem a mitologia brasileira. E isso realmente é lamentável.

Quando os africanos vieram cativos para o Brasil, trouxeram consigo sua fé, esperança e seus mitos.

Aqui, submetidos aos trabalhos forçados mais cruéis da história, foram impelidos a abdicar de suas crenças ancestrais e adotar a religião dos seus senhores.

Apesar de negro não ter alma, conforme a igreja, era preciso combater o paganismo.

Entretanto, a criatividade inata desse povo, ousou criar uma nova concepção religiosa que cresceu entre as frestas de liberdade permitindo, de alguma forma, continuar cultuando seus deuses.

O segredo era “botar uma roupagem” de homem branco em seus deuses e em suas crenças.

Essa mescla de culturas que dá origem a uma outra cultura, chamamos de sincretismo. E é devido ao sincretismo religioso que encontramos tantos elementos cristãos, como incenso, sinos e estatuetas de santos como São Jorge, São Jerônimo, Santa Bárbara e outros, nos terreiros dos cultos afro-brasileiros.

Nos cultos afro-brasileiros os orixás são elementos da natureza e suas relações com o mundo, entre eles e com a humanidade, explica uma série de segredos insondáveis pela razão.

Entre os orixás mais populares encontra-se Iemanjá, a rainha do mar.

Ao contrário dos gregos e latinos que imaginavam uma divindade homem assustadora (Posseidon ou Netuno) como o senhor dos sete mares, os africanos adoravam a figura meiga de uma mulher.

Em vez do homem de tridentes ameaçador, uma mulher, serenamente bela.

Em oposição ao temor, o amor de mãe.

O mar, caminho dos padecimentos desse povo e estrada natural entre seu passado de liberdade que findava com sua travessia e o mundo do cativeiro que o esperava, do outro lado, tinha tudo para representar o que mais doloroso se poderia carregar na alma, e a divindade dominante sobre as águas tinha tudo para ser tenebrosa e cruel.

Entretanto, Iemanjá é bela. É bondosa. É mãe amorosa de todos os seus filhos.

O mar, de onde saiu o primeiro aminoácido que daria origem à primeira célula, é mulher.

Como explicar visão tão sublime diante do caos?

Iemanjá não é a separação de um povo de seu passado, mas o elo que os une.

A estrela do mar, a rainha, a personificação da mãe, travestida de Nossa Senhora da Conceição, da Glória ou dos Navegantes nos cultos cristãos.

Ainda chamada em Angola de Kianda, rege todas as uniões, os aniversários além de todas as comemorações familiares e festas porque Iemanjá é alegria, é esperança, é compreensão, sem tridentes e sem ameaças.

Nos tempos em que os membros de uma mesma família eram separados pelos interesses comerciais de compra e venda, era a Iemanjá a geradora do sentimento de amor entre os entes queridos, dando sentimento e personalidade ao grupo formado por pai, mãe e filhos.

Enquanto os gregos viam no senhor dos mares o poder e a força que utiliza suas filhas, as sereias para encantar e levar os homens à morte, os africanos percebem tiveram uma visão mais humana na harmonia das ondas, a beleza das curvas e a eternidades dos seres

Em Cuba, também veste as cores azul e branca e é negra. Rainha negra do mar.

O mar se completa com a personificação feminina visto que nenhum outro lugar do planeta é tão fecundo.

Sabem os negros que no mar não existem senhores e diante de sua fúria não existem privilégios, por isso, todos sofrem do mesmo medo e suplicam do mesmo jeito por suas vidas.

Iemanjá tudo vê e a todos os seus filhos protege, não só aqui, mas lá na dimensão dos oceanos infinitos, onde a liberdade não se negocia pois está expressa em cada uma de suas gotas.

Haverá no universo mais segredos do que no mar e no coração de uma mulher?




Prof. Péricles



sexta-feira, 27 de novembro de 2015

REDE GLOBO, A TV QUE ILUDE O BRASIL

Por Vanessa Barbara


No ano passado, a revista "The Economist" publicou um artigo sobre a Rede Globo, a maior emissora do Brasil.

Ela relatou que "91 milhões de pessoas, pouco menos da metade da população, a assistem todo dia: o tipo de audiência que, nos Estados Unidos, só se tem uma vez por ano, e apenas para a emissora detentora dos direitos naquele ano de transmitir a partida do Super Bowl, a final do futebol americano".

Esse número pode parecer exagerado, mas basta andar por uma quadra para que pareça conservador. Em todo lugar aonde vou há um televisor ligado, geralmente na Globo, e todo mundo a está assistindo hipnoticamente.

Sem causar surpresa, um estudo de 2011 apoiado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontou que o percentual de lares com um aparelho de televisão em 2011 (96,9) era maior do que o percentual de lares com um refrigerador (95,8) e que 64% tinham mais de um televisor.

Outros pesquisadores relataram que os brasileiros assistem em média quatro horas e 31 minutos de TV por dia útil, e quatro horas e 14 minutos nos fins de semana; 73% assistem TV todo dia e apenas 4% nunca assistem televisão regularmente (eu sou uma destes últimos).

Entre eles, a Globo é ubíqua. Apesar de sua audiência estar em declínio há décadas, sua fatia ainda é de cerca de 34%. Sua concorrente mais próxima, a Record, tem 15%.

Assim, o que essa presença onipenetrante significa?

Em um país onde a educação deixa a desejar (a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico classificou o Brasil recentemente em 60º lugar entre 76 países em desempenho médio nos testes internacionais de avaliação de estudantes), implica que um conjunto de valores e pontos de vista sociais é amplamente compartilhado.

Além disso, por ser a maior empresa de mídia da América Latina, a Globo pode exercer influência considerável sobre nossa política.

Um exemplo: há dois anos, em um leve pedido de desculpas, o grupo Globo confessou ter apoiado a ditadura militar do Brasil entre 1964 e 1985.

Com esses riscos em mente, e em nome do bom jornalismo, eu assisti a um dia inteiro de programação da Globo em uma terça-feira recente, para ver o que podia aprender sobre os valores e ideias que ela promove.

A primeira coisa que a maioria das pessoas assiste toda manhã é o noticiário local, depois o noticiário nacional. A partir desses, é possível inferir que não há nada mais importante na vida do que o clima e o trânsito.

O fato de nossa presidente, Dilma Rousseff, enfrentar um sério risco de impeachment e que seu principal oponente político, Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, está sendo investigado por receber propina, recebe menos tempo no ar do que os detalhes dos congestionamentos. Esses boletins são atualizados pelo menos seis vezes por dia, com os âncoras conversando amigavelmente, como tias velhas na hora do chá, sobre o calor ou a chuva.

A partir dos talk shows matinais e outros programas, eu aprendi que o segredo da vida é ser famoso, rico, vagamente religioso e "do bem".

Todo mundo no ar ama todo mundo e sorri o tempo todo.

Histórias maravilhosas foram contadas de pessoas com deficiência que tiveram a força de vontade para serem bem-sucedidas em seus empregos. Especialistas e celebridades discutiam isso e outros assuntos com notável superficialidade.

Eu decidi pular os programas da tarde –a maioria reprises de novelas e filmes de Hollywood– e ir direto ao noticiário do horário nobre.

Há dez anos, um âncora da Globo, William Bonner, comparou o telespectador médio do noticiário "Jornal Nacional" a Homer Simpson –incapaz de entender notícias complexas. Pelo que vi, esse padrão ainda se aplica.

Um segmento sobre a escassez de água em São Paulo, por exemplo, foi destacado por um repórter, presente no jardim zoológico local, que disse ironicamente "É possível ver a expressão preocupada do leão com a crise da água".

Assistir à Globo significa se acostumar a chavões e fórmulas cansadas: muitos textos de notícias incluem pequenos trocadilhos no final ou uma futilidade dita por um transeunte. "Dunga disse que gosta de sorrir", disse um repórter sobre o técnico da seleção brasileira.

Com frequência, alguns poucos segundos são dedicados a notícias perturbadoras, como a revelação de que São Paulo manteria dados operacionais sobre a gestão de águas do Estado em segredo por 25 anos, enquanto minutos inteiros são gastos em assuntos como "o resgate de um homem que se afogava causa espanto e surpresa em uma pequena cidade".

O restante da noite foi preenchido com novelas, a partir das quais se pode aprender que as mulheres sempre usam maquiagem pesada, brincos enormes, unhas esmaltadas, saias justas, salto alto e cabelo liso. (Com base nisso, acho que não sou uma mulher.)

As personagens femininas são boas ou ruins, mas unanimemente magras. Elas lutam umas com as outras pelos homens. Seu propósito supremo na vida é vestir um vestido de noiva, dar à luz a um bebê loiro ou aparecer na televisão, ou todas as opções anteriores.

Pessoas normais têm mordomos em suas casas, que são visitadas por encanadores atraentes que seduzem donas de casa entediadas.

Duas das três atuais novelas falam sobre favelas, mas há pouca semelhança com a realidade.

Politicamente, elas têm uma inclinação conservadora. "A Regra do Jogo", por exemplo, tem um personagem que, em um episódio, alega ser um advogado de direitos humanos que trabalha para a Anistia Internacional visando contrabandear para dentro dos presídios materiais para fabricação de bombas para os presos.

A organização de defesa se queixou publicamente disso, acusando a Globo de tentar difamar os trabalhadores de direitos humanos por todo o Brasil.

Apesar do nível técnico elevado da produção, as novelas foram dolorosas de assistir, com suas altas doses de preconceito, melodrama, diálogo ruim e clichês.

Mas elas tiveram seu efeito. Ao final do dia, eu me senti menos preocupada com a crise da água ou com a possibilidade de outro golpe militar –assim como o leão apático e as mulheres vazias das novelas.



Vanessa Barbara é colunista do jornal "O Estado de São Paulo" e editora do site literário "A Hortaliça".






quarta-feira, 25 de novembro de 2015

UM RANZINZA EM PARIS


Por Apollo Natali


Outro dia me deu na telha de conhecer Paris. Ranzinzas como eu não devem ir a Paris.

Não me ligo a lugares, paisagens, museus, estátuas, viagens. História, sim. Tinha de ir a Paris. Sou chegado mais nos meus livros, no meu cachorro, no meu chuveiro, na minha cama de Romeu encalhado, na lembrança das mulheres que passaram.

Vidrado mesmo sou em gente e ideias. É isso.

Chegamos. Paris!

Nestas plagas só dá Torre Eiffel. É vista de qualquer canto, pois a cidade milenar é feita toda de prédios baixos, sem espigões. Estonteante, impactante a beleza desse entrelaçamento de aço de luzes douradas tremeluzentes que alcançam o céu.

O padre brasileiro Bartolomeu Lourenço de Gusmão, inventor do balão dirigível, esteve lá, faz alguns séculos, a dar voltas com seu brinquedo cheio de ar nessa torre da altura de um prédio de 100 andares.

Inaugurada em 1889 em comemoração ao centenário da Revolução Francesa, recebe pintura de 2 em 2 anos. Reformada a cada 7 anos. Está sempre lindamente nova.

Inquisição: o Santo Ofício cremou o padre brasileiro na fogueira, acusado de bruxaria por ter inventado o balão dirigível. Sabiam que Bartolomeu de Gusmão escondia dos inquisidores numa floresta os apetrechos do seu balão? Mais dia, menos dia, teria que subir. Foi pego. Só um ranzinza como eu pensa nessas coisas, em Paris.

Leia a placa da casa onde viveu Santos Dumont: o verdadeiro Pai da Aviação. Levantou vôo e aterrisou sob vivas no seu dirigível 14-BIS na Praça de Bagatelle, comecinho do século 20.

Os irmãos Wright, a História conta, não está na placa, isso digo eu, voavam com um fraquinho motor tipo um ponto zero. Esticavam um grande estilingue para pôr o avião no ar. Os manos americanos voavam em linha reta. Santos Dumont, motor potente, subia. Inventou apetrechos para dirigir a sua jeringonça para lá e para cá, para cima, para baixo, esquerda, direita. O brasileiro ainda cruzou os céus de Paris no seu Demoiselle, quer dizer Senhorita, um aviãozinho lindo lindo que voava como uma vespa, o delírio da Belle Èpoque. Grande Santos Dumont, resmunguei. 

O pessoal da fila acho que não entendeu.

Eis o Largo da Concórdia, não o do bairro do Brás, em São Paulo e, sim, o francês, o De la Concorde. É a praça onde a Revolução Francesa decepou na guilhotina o pescoço de mais de 20 mil nobres e aristocratas. Tanta pompa, tanto brilho, tanta arrogância, brutais relações de domínio sobre a pessoa, para, enfim, ficar todo mundo sem o mais valioso bem da espécie humana, o pescoço. O público se amontoava dias antes para ver o morticínio.

Fui dar uma olhada na rua Dè Sevres, onde viveu o líder de outra revolução que se seguiu na França, 60 anos depois desse corte em massa de cabeças. Uma revolução espiritual, liderada pelo ex-ministro da Educação do país, cientista, professor de astronomia, física, química, diretor do Instituto Educacional Pestalozzi, na Suíça, messieur Alan Kadec.

O novo revolucionário mostrou no seu livro O Céu e o Inferno o lugar para onde vão as almas dos déspotas depois da morte do corpo físico, os tiranos de todos os tipos, os do Estado, os domésticos, os midiáticos. O livro descreve a Justiça Divina, segundo o Espiritismo.

Estou de frente para a viela onde Alan Kardec morou e codificou as leis que regem o intercâmbio entre o mundo espiritual e o mundo físico, a chamada Doutrina Espírita.

A Rue Dè Sevre é hoje uma via de passagem deteriorada, abandonada, esquecida, as casas parecendo desabar.

Durante a realização, no século vinte e um, de um encontro espírita mundial, me contaram, a polícia cercou o pavilhão dos espíritas. As lojas de Paris exibiam placas: proibida a entrada de cachorros e de brasileiros. Isso no coração da cidade-berço do Espiritismo. Uma revolução ao avesso.

No meio da praça histórica de La Concorde.

Nesse chão de La Concorde, a Rainha Maria Antonieta chora para não ver seus filhos morrer na frente dela. Suplica para ser guilhotinada antes. Negativo. A senhora vai ver com seus próprios olhos a maneira brutal e sanguinária como o seu governo tirânico matava os filhos dos outros, rangem os revolucionários. Rios de sangue não teriam se formado, talvez, se a Rainha não tivesse mandado os pobres que não tinham pão, comer brioches. Infeliz rainha, desabafei irônica e ranzinzamente.

O passeio no metrô de Paris. Por baixo da cidade, uma rede de trilhos como teia de aranha com rodas de aço. Dão mapas para ninguém se perder no labirintão. Alguém já viu trens de metrô com pneus em vez de rodas de aço? Tem alguns, lá.

E não se vai a Paris sem ir ao Louvre. Um mundo de obras de arte e antiguidades juntas!

Para visitá-las todas, apregoou o guia do museu, levaríamos seis meses contemplando cada uma delas por um minuto e sem interrupção, nas 24 horas do dia. Ao delirar diante do encanto do original da obra mais visitada, a Monalisa, de Leonardo Da Vinci, apertado entre outros turistas, bateram-me a carteira. Do bolso de trás levaram-me os euros. Idênticas algumas ideias, lá como cá.

O Arco do Triunfo!

Em Roma, os legionários vencedores desfilavam por baixo do arco do triunfo deles. Em Paris, foram as tropas vitoriosas de Napoleão Bonaparte que cruzaram esse monumento francês. Decepção: o ranzinza aqui se amargurou lá, em plena Paris, com a reprise mental das tropas nazistas violando o Arco do Triunfo francês, chafurdando por baixo dele. Que horror.

No mais, uma visita à periferia de Paris me fez parecer que eu estava na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro. Não me vi muito vidrado nas gentes da atual Paris. Os franceses que mudaram o mundo, hoje não se dão a mão ao se cumprimentar, não se abraçam, não são efusivos como gente italiana e brasileira como eu. Você lá, eu cá, assim me parecem os franceses de Paris.

Acontece que eu abomino um abismo afetivo entre seres humanos. Prefiro a calorosa Vila Cruzeiro. As francesas são lindas, lindas, eu vi, eu vi! As afetuosas vilacruzeirenses, muito mais.

Nada mais a declarar.




Apollo Natali foi o primeiro redator da antiga Agência Estado, foi redator da Rádio Eldorado, do Estadão e do antigo Jornal da Tarde. Escreve atualmete para diversos sites e blogs de notícia, como o Observatório da Imprensa.




segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A FLAUTA DE PÃ




Pã (para os gregos) ou Lupércio, Fauno ou Silvano (para os latinos) era o deus dos bosques e dos campos. Deus dos rebanhos e protetor dos pastores.

Numa versão Pã é filho de Dryope com o Deus Hermes (Mercúrio), mensageiro dos deuses.


Sendo filho de um deus transitório (entre os deuses e mortais) Pã seria um ser de forma transitória (entre antropo e zoo). É representado com orelhas, chifres, pernas e barba de bode.

Em outra versão ele teria sido um dos filhos de Zeus com sua ama de leite, a cabra Amalteia.

Na visão latina era um deus alegre, que adorava tocar sua flauta e dançar com as ninfas instigando a sensualidade. Nos bacanais (orgias sexuais de Baco, deus do vinho) era constante a sua presença.

Era um ser instável que às vezes podia ser perverso e em outras extremamente bondoso.

Em Roma havia um festival em sua homenagem (Lupercália), celebrado nos dias 15, 16 e 17 de fevereiro. Os sacerdotes que o cultuavam vestiam-se de pele de bode.

Os antigos romanos, nos tempos em que Roma era pouco mais que uma aldeia, temiam a fúria dos lobos famintos e rogavam a sua presença para mantê-los afastados.

Na visão dos gregos era um ser extremamente angustiado pelas zombarias causadas por sua estranha forma animal. Com o tempo, essa divindade tornou-se inspiração dos solitários.

Vivia nas grutas mais profundas, ou como andarilho sem destino nas matas e campos.

O silêncio e a tristeza emanados por Pã impregnavam de tal maneira os seus domínios (os campos, bosques e matas) que podiam atingir aquele que perambulava sozinho esses lugares fazendo brotar em seu coração um medo aparentemente sem sentido dando origem a palavra pânico (de pã).

Em sua homenagem Zeus criou a constelação de Capricórnio.

Já, os senhores da Igreja cristã primitiva associaram sua forma com o demônio e a sedução e luxúria com o som de sua flauta.





Prof. Péricles

sábado, 21 de novembro de 2015

A SOLIDÃO DOS REJEITADOS



Nasci numa noite fria, sem lua.

Feio e repulsivo.

Minha própria mãe, Dríope, me abandonou ao ver meu rosto.

Meu pai, Hermes, foi zombado de tal forma pela minha aparência que me proibiu de chama-lo de pai por toda a eternidade.

Na terra dos deuses belos e conquistadores, nasci com pés de bode, chifres e uma barba espessa e áspera.

Desde criança convivi com as galhofas e zombarias. Com o olhar divertido dos fanfarrões reconhecidamente belos.

Só me restava a solidão.

Passei a viver nos campos e nas matas.

Conversava com o sussurrar dos ventos nas folhas mortas, e agradecia a neblina alta que escondia meu rosto dos desavisados.

Minha dor sempre foi imensa e ela contagiou todo o meu reino, dos pastos aos picos mais altos, das matas verdejantes até a restingas e dunas.

 Passei a ser temido por todos os viajantes que tinham que atravessar as florestas à noite, pois na solidão da travessia, quando só ouviam as batidas do próprio coração era comum serem contaminados por minha melancolia e por um medo inexplicável de estar sozinho.

As ninfas zombavam de mim sem a menor piedade.

Por isso, jurei nunca me apaixonar.

Mas fui traído pelo desejo duas vezes.

Na primeira vez me apaixonei por Syrinx que como eu, amava a solidão apesar de bela e encantadora.

Mas, ela preferiu a solidão eterna dos caniços a se entregar a uma entidade bizarra como eu.

Na segunda vez foi pela ninfa Pítis, que era tão bondosa e tinha o coração tão doce que conseguiu ver em mim mais do que a forma deprimente.

Mas Pítis era amada por Bóreas, o maligno vento do Norte que, num acesso de ciúmes soprou com tamanha impetuosidade que jogou minha amada ninfa num precipício sem fim.

Pítis foi transformada por Zeus numa árvore consagrada a mim (Pitis, pinheiro em grego).

Cada vez mais sofrido e isolado fiz uma flauta com sete tubos.

Meu irmão Cupido à abençoou e me disse que seus sons mágicos deixariam enfeitiçadas as mais belas, apaixonadas pela doce música de minha flauta.

Cupido me disse que o coração da mulher, quando enfeitiçado pela paixão, pode achar a beleza na alma de um homem e no seu talento, mesmo que dele nem mesmo o próprio homem suspeite.

Assim passei a jogar no ar os sons de minha dor misturados com a harmonia das saudades de Pítias.

As ninfas dançavam ao meu redor e me seguiam.

Mas, o amor enfeitiçado não é amor verdadeiro e mantive minha jura de nunca mais amar ninguém.

Quem eu sou?

Eu sou Pã, a divindade protetora dos rebanhos. Deus dos bosques e dos pastos. Protetor dos pastores.

Mas também sou o deus dos rejeitados, o senhor da solidão e mestre do amor perdido.

Quando se sentir só, apure seus ouvidos nas janelas de seu quarto.

Se tiver o coração enfeitiçado ouviras minha música no gemido enlouquecido do vento, que como eu, nunca será de ninguém.



Prof. Péricles



quinta-feira, 19 de novembro de 2015

SÍRIA, A EQUAÇÃO DO INFERNO

Criança Síria se rende ao confundir uma máquina fotográfica com uma arma




País de largas planícies e de desertos, além de altas montanhas, seu relevo facilitou desde tempos remotos a fixação de várias etnias, onde se destacam os curdos, armênios e turcos.

A região era espécie de protetorado da França e se tornou independente, após o fim da segunda guerra mundial, mas precisamente em 24 de outubro de 1945.

Após a retirada das tropas francesas da região, apenas em 1946, o país passou por um período de instabilidade até que em 1963 surgiu um partido poderoso, o Partido Baath, que uniu a maioria dos sírios e deu um golpe, assumindo o poder.

A Síria é inimiga mortal de Israel que, desde 1967, ocupa militarmente, as Colinas de Golan, território sabidamente Sírio e onde os israelenses desenvolveram uma indústria moderna de aços finos, altamente lucrativa.

Ao longo dos anos afastou-se da esfera dos Estados Unidos, tradicional aliado de Israel, aproximando-se da União Soviética, mais tarde Rússia, além da China.

Hafez al-Assad governou de 1970 até 2000, e seu filho, o atual presidente, Bashar al-Assad governa desde então, ou seja, há 15 anos.

Em 18 de dezembro de 2010, na Tunísia, teve início uma série de revoltas de cunho nacionalista e popular, que se expandiria para vários países muçulmanos, denominadas de “Primavera Árabe”.

Em março de 2011, ocorreram revoltas contra Assad e contra o Partido Baath.

Para alguns essas revoltas foram consequência da onda democratizante da Primavera Árabe. Para outros ela foi criada pelos Estados Unidos e aliados dentro da Síria, interessados em derrubar Assad o mais importante aliado da Rússia na região.

Embora o governo Assad se destaque pelo autoritarismo e pela eternização no poder, também se destaca por políticas sociais que lhe davam forte apoio popular.

Talvez, por isso, os rebeldes não obtiveram todo o apoio esperado da população e, assim sendo, não conseguiram derrubar o presidente ou fazê-lo renunciar.

Apoiado por importantes setores da sociedade e também de fora do país (especialmente o Irã), o Presidente manteve o poder, mas não conseguiu aniquilar o movimento de rebeldia.

Diante disso, a Síria vive desde 2011 uma horrenda guerra civil que literalmente destrói o país e massacra seu povo.

De um lado as forças do governo oficial; de outro as forças da “Coalizão Nacional Síria” como passaram a se chamar as forças da oposição.

A “Coalizão Nacional” recebe apoio logístico dos Estados Unidos e da OTAN.

A oposição rebelde é dominada por muçulmanos sunitas enquanto as principais figuras do governo são alauitas.

Essas denominações representam diferentes alas de pensamento dentro da mesma religião (islâmica) sendo que os sunitas (seguem as sunas além do Corão) são tradicionalmente considerados menos radicais e próximos do ocidente, enquanto os alauitas são xiitas, isso é, mais ortodoxos e distantes do ocidente (isso, claro, nem sempre ocorre de forma tão simplista).

A partir de 2013 a situação caótica de um país dividido (acredita-se que o governo tenha poderes apenas sobre 60% da população e 30 a 40% do território) surge o autoproclamado “estado Islâmico”.

O EI surgiu como uma das facções da al-Qaeda de Osama Bin Laden, depois se desmembrou desse grupo. Inicialmente lutou ao lado da oposição contra Bashar al-Assad, mas, nesse ano de 2013 passa a reivindicar um território próprio cuja área é composta por territórios da Síria e uma parte do Iraque.

Em junho de 2014 o EI proclama a criação de um Califado e Abu Bakr al-Baghdadi, seu líder, o califa da região.

Califa é o chefe de estado, um governante político e religioso e Califado, uma comunidade muçulmana governada pela sharia (a Lei do Corão) que iam se formando a partir da expansão muçulmana do século VII e VIII.

O primeiro a usar o título de califa foi Abu Bakr, sogro de Maomé após sua morte em 632.

O título de Califa deixou de existir no século XX, principalmente após o fim do Império Turco Otomano em 1924.

Em outubro de 2015 a Rússia anunciou sua participação direta no conflito com ataques aéreos ao Estado Islâmico.

A presença da Rússia preocupa pelos efeitos colaterais que pode ter.

Como aliados de Assad provavelmente aproveitem a oportunidade para atacar também os grupos rebeldes (aliados dos EUA lembra?) e um enfrentamento entre as duas superpotências não seria bom para ninguém.

A Rússia, inclusive, acusa as forças da coalizão EUA-Europa de estarem fazendo “corpo-mole”, não atacando adequadamente o EI, preferindo atacar as tropas leais ao presidente.

Existem ainda fortes indícios que o califado receba do próprio EUA aparato militar para manter os combates.

Os ataques do EI em Paris, são significativos. Eles demonstram que o grupo está sentindo a pressão militar russa já tendo, segundo algumas fontes, perdido cerca de 20% do território que já dominou.

O ataque fora da Síria é politicamente arriscado e militarmente suicida e o EI sabe disso.

Ao optar assim mesmo pela ação, parece ter concluído não haver possibilidade de sustentar a guerra por muito tempo e prepara-se para agir como a Al-Quaeda, ou seja, com ações do tipo guerrilha e fora do Oriente Médio.

Hoje a Síria é expressão do horror.

Com o governo atuante apenas em 40% do território a manutenção dos serviços públicos estrangulou. O respeito aos direitos mínimos da população não são assegurados por nenhuma das forças em conflito.

Abastecimentio de água e provisões, energia elétrica, transporte, etc deixaram de existir enquanto serviços básicos e a população, abandonada à própria sorte sofre com o desabastecimento e os combates que não respeitam nenhum limite geográfico.

Não há mais escolas para as crianças, nem trabalho para os jovens, pois toda a estrutura do país entrou em colapso.

Mais de 2,5 milhões de sírios fugiram para países vizinhos, especialmente Jordânia e Líbano, além de tentarem a fuga desesperada para a Europa (a foto do corpo do menino Aylan, recentemente, chocou o mundo).

Cerca de 500 mil cristãos movem-se com extremo cuidado em uma fuga cautelosa e solitária, pois foram jurados de morte pelo exército do Califa.

Em terra o território convulsionado está repartido entre vários atores: o governo que mantém a fidelidade do exército nacional, armado com equipamentos russos e chineses domina de 30 a 40% do território, especialmente o leste, incluindo a capital Damasco.

Grupos armados da Coalizão Nacional (treinados e equipados pelos Estados Unidos); Forças militares e paramilitares do Estado islâmico e seu califado ao centro e norte.

Grupos armados curdos que habitam o norte da Síria e combatem o EI tendo significativas vitórias; comandos especiais do Irã, também ao norte.

Comandos da Al-Quaeda que dominam a região sudoeste, tropas turcas estacionadas a oeste, na fronteira e determiandas a impedir qualquer aproximação de seu território e tropas israelenses, ao sul, ocupam Golan e impedem qualquer aproximação temendo um envolvimento que poderia ser catastrófico aos seus interesses.

No ar aviões de guerra dos Estados Unidos, França, Inglaterra e Rússia, além de misseis de médio alcance, e conforme recentes informações, misseis de cruzeiro disparados de navios franceses estacionados no Golfo Pérsico.

Por tudo isso, poucas coisas parecem claras na Síria além de que, é muito fácil morrer, enquanto muitas indagações assombram o mundo.

Pilhas de crianças mortas, adultos inválidos, mulheres estupradas e escravizadas compõem seu novo cenário.

Talvez a maior dúvida seja, afinal, como civis ainda sobrevivam no meio do caos e, na equação do inferno, quem é mocinho e quem é bandido nas terras de Alá?



Prof. Péricles


terça-feira, 17 de novembro de 2015

SEXTA-FEIRA 13, A GUERRA VOLTOU À EUROPA

Por Rui Martins


Já tive oportunidade em outras oportunidades de comentar o que era ainda um risco iminente do jiadismo trazer a guerra de atentados à Europa. Esses horríveis e covardes atentados desta Sexta-feira 13 de novembro assinalam o começo de uma longa e dolorosa guerra desfechada pelos fanáticos islamitas jiadistas aos infiéis europeus em nome de Alá, por um califado fiel a uma leitura e aplicação literal do Corão.

Alguns ensaios e ameaças tinham sido feitos na Bélgica e, faz dez meses, houve o ataque e assassinato dos redatores da revista Charlie Hebdo com um objetivo bem definido: punir os humoristas desenhistas autores das caricaturas de Maomé.

Os atentados desta Sexta-feira 13 não tinham um objetivo específico mas visavam aglomerações de pessoas, fosse num estádio de futebol como numa casa de espetáculos ou bares e restaurantes com a intenção de matar cegamente a desconhecidos.

De onde saíram esses novos bárbaros que se comprazem em transmitir imagens de brutalidade e ódio na guerra missionária em que estão empenhados? Da Caixa de Pandora aberta pelos Bushs americanos ao atacarem e destruírem o Iraque de Sadam Hussein, único Estado laico existente na época no Médio Oriente.

Aprendiz feiticeiro, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy quis imitar Bush, enquanto o inglês Cameron quis imitar Tony Blair e assim abriram outra Caixa de Pandora destruindo a Líbia de Kadhafi.

Embora venerados por certos esquerdistas, tanto Hussein como Kadhafi eram ditadores implacáveis, mas asseguravam um certo equilíbrio dentro do mundo árabe-muçulmano xiita ou sunita.

Esse equilíbrio acabou, instalou-se a luta entre os muçulmanos xiitas (o Irã não é árabe, mas persa) e os sunitas, uns subvencionados pela Arábia Saudita outros pelo Irã, surgindo primeiro a Al Qaída e a seguir com autonomia própria, o Estado Islamita ou Daesch.

Infelizmente, a primavera árabe, que muitos imaginavam levar o mundo árabe à democracia, provocou o caos ao deixar entrarem fundamentalistas islamitas entre as legiões de combatentes internacionais na luta contra o ditador sírio Assad.

Assim, entraram na Síria brigadas vindas do Estado Islamita que, ao participarem da guerra na Síria, provocaram a fuga de milhões de pessoas para a Europa, fracionando a União Europeia na questão do dar ao não refúgio a esses fugitivos.

E procuraram conquistar jovens das periferias europeias, marcados pela estigmatização e exclusão social, incitando-os a se tornarem voluntários na luta contra Assad com o objetivo de lhes darem treinamento militar para, ao regressarem à Europa, criarem o clima de terror entre os infiéis europeus.

Mais de quatro mil jovens revoltados, filhos de imigrantes do Magreb (Argélia, Marrocos, Tunísia e Líbia) nos países europeus, encontraram sua fé no fundamentalismo islamita literal do Corão, onde os conceitos de solidariedade e humanidade foram substituídos pela aplicação dos preceitos de uma religião exigente e cruel.

Alguns já foram mortos em combate pela bandeira negra do terror, mas algumas centenas estão regressando aos seus países, depois de um aprendizado prático da guerra como o saber matar sem ter medo de morrer. Não há nessa luta um objetivo social ou político, nos moldes das antigas lutas de libertação contra o colonialismo, mas o retorno a objetivos de dominó religioso comparáveis ao que o Ocidente viveu na Idade Média.

Esses jovens estão de volta e diluídos na população, escondidos e disfarçados entre seus familiares religiosos moderados, irão por em execução sua missão de desestabilizar a União Europeia com séries períódicas de atentados. Difíceis de localizar, podendo agir em conjunto, mas preferivelmente como células independentes, os jiadistas lançaram nesta Sexta-Feira 13 seu primeiro grande e simultâneo ataque.

Alguns eram kamikases, e ao se explodirem com a promessa de irem ao céu de Alá, não deixaram pistas, os outros fugiram e serão difíceis de localizar.

Esses atentados feitos por uns poucos fanáticos serão suficientes para instaurar o caos e desestabilizar a União Europeia.

Hoje a Europa deixa de viver seus longos anos de paz desde 1945, para entrar numa outra época – a da guerra intestina, de atentados ou guerrilhas, que provocarão a insegurança nas populações dos diversos países a começar pela França.

Essa guerra irá fortalecer os movimentos racistas de extrema-direita que elegerão parlamentos e governos. Hoje a Europa mudou, nada mais será como nestes últimos anos, a insegurança vai se juntar à crise econômica e de desemprego. Como os ovos do Alien, eles serão chocados pelos próprios europeus.





Rui Martins, jornalista, escritor. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, pela recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e rádios RFI e Deutsche Welle.


sábado, 14 de novembro de 2015

DILMA E A SÍNDROME DE ESTOCOLMO

Pattie Hearst
No Julgamento



Numa quente manhã do verão de 1973, dois homens invadiram o “Creditbank” em Estocolmo, capital da Suécia. A ação dos assaltantes não deu certo e o prédio acabou cercado pela polícia, resultando num terrível tiroteio.

Impossibilitados de fugir, a dupla de assaltantes fez quatro desafortunados reféns por longos e arrastados seis dias (de 23 a 28 de agosto) de ameaças e negociações  com a polícia.

Para surpresa de todos, ao final das negociações os reféns mostraram-se arredios ao auxilio da polícia e usaram os próprios corpos para proteger os assaltantes de algum atirador de elite. Em seguida passaram a defender publicamente os raptores.

Desde então, essa estranha condição psicológica em que a vítima submetida a longo estresse físico e emocional (quando perde toda esperança de escapar) desenvolve um processo de simpatia, aceitação e dependência da aprovação do raptor, é denominado de Síndrome de Estocolmo.

Segundo especialistas “A princípio, as vítimas passam a se identificar emocionalmente com os sequestradores por meio de retaliação e/ou violência. Pequenos gestos gentis por parte dos raptores são frequentemente amplificados porque o refém não consegue ter uma visão clara da realidade e do perigo em tais circunstâncias. O complexo e dúbio comportamento de afetividade e ódio simultâneo junto aos raptores é considerado uma estratégia de sobrevivência por parte das vítimas”.

O caso mais famoso de Síndrome de Estocolmo envolveu Patty Hearts, uma norte –americana hedeira de um verdadeiro império (neta do Roberto Marinho dos Estados Unidos, William Randolph Hearst, magnata das comunicações).

Sequestrada em 04 de fevereiro de 1974 quando estava em seu apartamento com o noivo, pelo “Exército Simbiones”, um grupo de americanos marxistas pirados que se diziam contra o racismo, a monogamia e o sistema penitenciário do país, Patty foi ameaçada de morte, torturada e violentada pelo líder do grupo, Donald DeFreeze.

Depois de libertada do cativeiro, juntou-se aos raptores e passou a viver com eles com novo nome “Tania” em homenagem a companheira de Che Guevara, participando de assaltos e outras ações do bando.

“Tania” e um casal foram os únicos sobreviventes do “exército” quando os outros seis mebros (inclusive DeFreeze) foram mortos em confronto com a polícia em Los Angeles.

Reorganizaram o grupo e executaram mais dois assaltos (um com morte de uma mulher grávida), e finalmente presos em setembro de 1975.

Julgada em março de 1976 foi condenada a sete anos de prisão, mas cumpriu apenas 21 meses, tendo a pena comutada pelo presidente Jimmy Carter, muito amigo de seu avô.

Atuou em alguns filmes, como Cry-Baby de 1990 e alguns seriados de televisão, e hoje, aos 61 anos, vive com Bernard Shaw, seu ex-guarda-costas, com quem teve duas filhas.

A síndrome de Estocolmo pode muito bem ser identificada, por exemplo, no clássico conto de Marie le Prince de Beaumont, "A Bela e a Fera".

O que ninguém esperava é que a Síndrome também se desenvolvesse entre governantes, como parece ser o caso dos governos petistas do Brasil.

Embora eleitos democraticamente por uma maioria de milhões de votos, os governos Lula e Dilma padecem do temor diante da falsa ideia de que não existe escapatória se não houver cumplicidade com os raptores.

Os raptores no caso são a mídia que assumiu uma postura de partido político de oposição e industrializou a forma de divulgar notícias que incluí “vazamento” estratégico de notícias sigilosas ainda sendo investigadas e pirotecnia de vocabulários, presunções de culpa e inocência além de defender ideais claramente golpistas.

Reeleita há um ano, Dilma ainda não conseguiu governar, sequestrada por aqueles que perderam nas urnas.

Estranhamente, os governos petistas reduzem-se no enfrentamento dessas agressões, evitando o debate mais aberto e mantendo programas milionários que beneficiam os “raptores” assumindo uma postura que varia da passividade à cumplicidade.

Querem acreditar que os raptores irão gostar deles e alterar posturas.

Enquanto faz de conta que está tudo bem, a apatia dos governos petistas põem em risco a própria sobrevivência da democracia brasileira.

Militantes, simpatizantes, eleitores, de Dilma e de Lula, muitas vezes ficam perplexos diante da passividade assim como os policiais ficavam perplexos diante de fotos de Patty Hearts com metralhadora na mão, assaltando um banco.

Na última viagem da presidenta aos Estados Unidos, na hora da entrevista coletiva que por lá é disputada à unhas e dentes, Dilma, diante da cara de espanto do presidente Obama, concedeu a uma repórter da Globo fazer a primeira pergunta (coisa que nos EUA representa valorização e reconhecimento por parte da autoridade). Fosse Obama e a repórter da Globo ficaria para a última pergunta e nisso nada haveria de ilegal já que é da preferência da autoridade a ordem das perguntas.

Talvez seja necessário que os governos petistas entendam que a defesa da democracia não implica em ser autoritário. A retaliação, dentro dos parâmetros civilizados, faz parte do jogo de pressão que é a essência da política.

Se Leonel Brizola não erguesse sua voz em defesa da Legalidade, a mesma mídia consideraria correta a tomada do poder pelos militares em 1961.

Se alguém erguesse a voz em favor de Getúlio Vargas em 1954, talvez o presidente levasse seu governo até o fim e ainda vivesse muito tempo.

A mídia brasileira jamais aprovará os governos petistas por mais que os governos petistas tentem ser simpáticos e “amiguinhos” da mesma forma que os senhores da Casa Grande jamais defenderão os interesses da senzala.

A mídia brasileira não é neutra e nisso reside um erro gigantesco dos ingênuos. São grandes empresas com grandes interesses aqui e fora do país, e que, defendem seus interesses antes de qualquer outra coisa.

As concessões sempre serão poucas e a exigência de mais concessões sempre será maior, pois o que a elite brasileira quer mesmo é aquilo que ela sempre teve e não se conforma perder, o poder.

Vale ressaltar que, as vítimas da Síndrome de Estocolmo não se reconhecem dentro do quadro doentio. É comum também no caso de violência doméstica e familiar em que a vítima é agredida pelo cônjuge e continua a amá-lo e defendê-lo como se as agressões fossem normais.

Da mesma forma, os governos petistas e seus mais leais e fervorosos defensores, entendem como normais os planos e golpes contra a democracia brasileira.

Pobre país que não tem nem mesmo a esperança de um Jimmy Carter hipotético que lhe indulte os pecados e que perdeu aqueles que não tinham medo da luta.




Prof. Péricles
















quinta-feira, 12 de novembro de 2015

É O MERCADO, ESTÚPIDO


Por Moisés Mendes



Uma das propostas de resgate de fortunas extraviadas que recebi por e-mail neste ano me desafia a buscar US$ 85 milhões no ICBC, o Banco Industrial e Comercial da China.

É o apelo de sempre: o dinheiro abandonado por um investidor poderá ser meu.

Por que sempre tão longe? Por que não no Equador? De qualquer forma, é tentador. É perto dos US$ 97 milhões que Pedro Barusco, o ladrão avulso da Petrobras no tempo do governo tucano, levou para a Suíça.

Foi a primeira vez que recebi tal convite vindo da China.

Tenho e-mails enviados da Síria, do Sudão, da Líbia, da Tunísia, do Azerbaijão.

Ainda me causa estranheza que a terra de Confúcio seja citada entre os lugares de fortunas sem dono. Até pouco tempo, não havia especulação financeira na China, que aos poucos acabou virando essa coisa estranha, disforme, que ninguém sabe direito o que é.

Fortunas de financistas extraviadas na Índia, na Ucrânia, no Paquistão, tudo bem. Mas na China?

E recebo o apelo na hora em que se anuncia que o país vai quebrar. O mundo aguarda a implosão do comuno-capitalismo confuciano.

O que será do povo comunista que investiu loucamente em ações, quando o povo capitalista ocidental tentava se desfazer das suas? De onde os chineses tiraram que o mercado de ações funciona, se desde 2008 as bolsas do mundo rico estão emperradas?

Seria o fim da superbolha chinesa.

Imagine um chinês ainda agarrado à lembrança de Mao Tsé-tung — e ainda em dúvida sobre o que levou o país a esse estranho capitalismo —, agora falido e com um monte de ações que não valem nada.

A China pode ter seu crash de 29, apenas quatro décadas depois da morte de Mao.

Vou esperar o livro Breve Introdução à História da China, que o professor Carlos Eduardo da Cunha Pinent lança agora pela Sulina, para entender a crise de identidade do capitalismo chinês. Gostaria que o professor me ajudasse a decifrar o ódio que certos jovens liberais brasileiros sentem pela ditadura cubana e a adoração que nutrem pela ditadura chinesa.

Um amigo apressado me disse: é o mercado, estúpido. Cuba não tem mercado, nem mão de obra de graça, nem bagulhos baratos. Cuba, estúpido, só tem médicos.

Pobre Mao Tsé-tung.

O estágio superior do capitalismo está vicejando na sua China. Mao não merece. Nem Confúcio.

E muito menos os nossos velhos liberais.




Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre/RS




terça-feira, 10 de novembro de 2015

O ÉDEN AMEAÇADO

Templo de Palmira foi destruído


Mesopotâmia, terra entre rios. Um dos berços da humanidade.

Terra de muitos povos que surgiram, floresceram e desapareceram, mas deixaram sua marca e seu legado.

Tudo testemunhado pelos rios Tigre e Eufrates e seus vizinhos como a Palestina do Rio Jordão e o Egito, a terra dos faraós.

Ali a humanidade aprendeu a escrever em cuneiformes gravados em tabletes de argila, tão antigos quanto os hieróglifos egípcios.

E foi em escrita hieroglífica que ficou registrado o mais antigo código de leis conhecido pelo homem, o Código do grande rei Hamurabi.

“Eu, Hamurabi, pela vontade dos deuses rei de toda a mesopotâmia...”

Suas velhas cidades assistiram o esplendor de povos que cultuavam o prazer do agora e buscavam fazer da vida o melhor passatempo possível.

Segundo os autores bíblicos foi ali que um dia Deus criou o Jardim do Éden, os homens construíram a Torre de babel e onde duas cidades, Sodoma e Gomorra, foram completamente destruídas pela ira de Deus.

Muitas de suas maravilhas, como os Jardins Suspensos da babilônia já desapareceram, muitas outras ainda são perceptíveis através de ruínas e outras ainda estão para serem descobertas.

Mas a Mesopotâmia e seus arredores fica na região mais conflituosa do globo. O Oriente Médio, mais especificamente o Iraque, destruído pelos Estados Unidos e aliados, a Síria, o Irã, o Afeganistão.

Aqui a perversidade anda de mãos dadas com a intolerância e no rastro de exércitos muito mais cruéis do que foram um dia os Assírios do rei Sargão II, os tesouros de sua história convivem com a ameaça de agressão.

A Rússia há algumas semanas entrou no conflito pois o “faz de contas” dos Estados Unidos de combater o tragicômico EI já ameaçava diretamente o governo de seu aliado Bashar al-Assad.

Sem fazer de contas a aviação russa em três semanas destruiu mais da força militar do EI do que EUA e aliados em mais de ano.

Mas os misseis não distinguem os tesouros humanos de seus objetivos, quando lançados, por isso Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores russo, pede que a UNESCO (órgão da ONU para Educação, Ciência e Cultura), envie peritos para a região para avaliar os danos causados pela guerra ao patrimônio cultural e mapear, com clareza, as regiões de interesse histórico mais importantes e que precisam ser preservadas.

Diga-se de passagem, essa é uma súplica antiga de historiadores do mundo inteiro. 

Historiadores norte-americanos chegaram a entregar por escrito uma carta de recomendação ao presidente Barak Obama, assinalando os pontos mais importantes a serem preservados mas, ao que parece, não foram levados em consideração pelos senhores da guerra.

A questão é urgente como demonstra à demolição do templo de Palmira uma antiga cidade semita de muitas histórias, situada num oásis na província de Homs, a 215 km de Damasco, capital da Síria.

Palmira foi declarada Patrimônio Mundial da UNESCO, mas nem por isso o Estado Islâmico deixou de dinamitar vários lugares, incluindo os antigos templos de Baal (divindade máxima dos mesopotâmios) Marduke e Baalshamin, de onde veio a expressão Belzebaal, ou Belzebu, dos hebreus.

O pedido do Ministro Lavrov tem como base jurídica a Convenção das Nações Unidas de 1954 sobre a proteção de bens culturais em caso de conflito armado.
Os esforços da Rússia para o desenvolvimento das relações culturais entre os países do mundo no âmbito do trabalho da Unesco estão prejudicados por medidas discriminatórias de certos governos para quem os interesses estratégicos e econômicos superam em larga margem os interesses culturais, afirma o Ministro.
Espera-se que os deuses antigos orientem os passos daqueles que, como herdeiros da cultura milenar deixada pelos mesopotâmios, têm a tarefa intransferível de protege-la.


Prof. Péricles

sábado, 7 de novembro de 2015

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES



Por Vitor Nuzzi


Pouca coisa se sabe efetivamente sobre a obra de Geraldo Vandré. Sua carreira de músico profissional foi relativamente curta e prejudicada por um certo folclore alimentado pelo silêncio.


São apenas cinco LPs lançados, de 1964 a 1973, data de seu retorno ao Brasil, após quatro anos e cinco meses de andanças pelo exterior, em uma saída forçada pela repercussão de sua música mais conhecida, Pra não Dizer que não Falei das ­Flores (Caminhando), de 1968.


A partir daí, prevaleceram as lendas. Para usar uma expressão do escritor Eric Nepomuceno, em artigo recente no jornal Valor Econômico, o artista "alcançou píncaros de luz para depois mergulhar numa névoa densa, carregada de perguntas sem resposta e mistérios sem solução".


As perguntas mais recorrentes são se Vandré foi mesmo torturado, se enlouqueceu. Ou por que motivo nunca mais se apresentou no Brasil – seu último show foi do lado paraguaio da fronteira, em 1982. A alguns artistas, como Jair Rodrigues e Ney Matogrosso, chegou a falar em fazer apresentações "nas fronteiras", que nunca aconteceram.


Vandré estava no radar do regime, mas tortura física nunca houve. Talvez algo mais grave tivesse acontecido se ficasse no Brasil. Depois da decretação do AI-5, em 13 de dezembro de 1968, ele permaneceu escondido – na casa de praia do pai de sua namorada, no litoral sul paulista, e depois no apartamento de dona Aracy, viúva de Guimarães Rosa, no Rio de Janeiro, perto do Forte de Copacabana. Os soldados faziam manobras e Vandré, versos.


Durante o carnaval de 1969, ele deixou o país disfarçado em direção ao Uruguai, e de lá para o Chile. Partiu para a Europa, andou pelo Velho Continente, fixou-se na França e, por fim, voltou ao Chile, de onde saiu dois meses antes do golpe que em setembro de 1973 derrubou Salvador Allende e iniciou um período de terror.


Artistas como Caetano Veloso e Chico­ Buarque, presos naquela época, dizem que nos interrogatórios era possível perceber certa "prioridade" dos militares em relação a Vandré. Alguns falavam mesmo em matá-lo, segundo o compositor baiano.


Famoso produtor de festivais, Solano Ribeiro acredita que ele poderia ser morto se fosse preso no pós AI-5. Por ironia, seu último show no Brasil como cantor profissional foi em 13 de dezembro, data do ato institucional, em Anápolis (GO).


O motivo de tanta raiva seriam alguns versos de Caminhando, que teriam sido especificamente destinados aos militares, em um período que culminaria no período mais violento da ditadura.


Em 2007, à então estudante de Jornalismo Jeane Vidal, o autor chamaria sua obra mais famosa de expiação. "Mais do que uma canção, Caminhando foi um desnudamento. Um dizer-se tudo quando era proibido dizer-se quase tudo. Sem ofensas e sem reivindicações. Um relato indeclinável para todos nós, brasileiros, que ali nos reunimos num concurso de arte, sem paradigma e sem igual, até hoje, para mim."


O concurso a que Vandré se refere foi o Festival Internacional da Canção (FIC). Um representante do Brasil seria escolhido previamente para a fase internacional. Ganhou Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque. Uma música delicada, que tratava do exílio, mas de forma sutil.


O público queria a canção explícita de Vandré e vaiou longamente a decisão dos jurados. Não era exatamente para Tom, mas ficou marcada como a maior vaia que o compositor recebeu.


O médico otorrino José Vandregíselo (do qual se origina o nome artístico) foi ligado ao Partido Comunista, mas seu filho Geraldo nunca foi militante político.


Paraibano de João Pessoa, no Chile, chegou a ser internado para tratamentos psiquiátricos.


Uma condição para a permanência no Brasil foi uma falsa entrevista, forjada pelos militares e exibida no Jornal Nacional, da Globo, um mês depois da real data de seu retorno. Ali, Vandré renegou qualquer uso político de sua obra. Foi uma espécie de retratação, como se dizia na época.


O silêncio foi imposto e também assumido.


Vandré deu entrevista em 1974 para o programa de estreia de Flávio Cavalcanti, mas o censor viu "apologia" à figura do artista e vetou o quadro. O Brasil também era outro.


Para a pesquisadora Dalva Silveira, autora do livro A Vida não se Resume em Festivais, houve uma tentativa do governo autoritário de "apagar Vandré e sua obra da memória coletiva nacional", à medida que a imprensa não podia fazer referência ao seu nome, nem ele podia se apresentar.


Mas o compositor faz também sua crítica à sociedade que, de alguma forma, deu as costas quando ele retornou, doente e fragilizado, e que talvez o preferisse como mártir.


Assim, há muito o que se explorar e descobrir no universo musical criado por Vandré. Sem se preocupar tanto com o festival que representou seu auge e o fim, ao mesmo tempo. Até hoje fala-se em uma possível pressão militar para que Caminhando não ganhasse em 1968.


"A história reserva às peças desse tabuleiro as suas posições corretas, não adianta você mexer. Tanto filme ganha Festival de Cannes e cai no esquecimento em seguida... E tantos filmes que não ganham prêmio nenhum e ficam eternos na memória de todos os cinéfilos", O que traduz este momento? Naquele momento, traduzimos com Caminhando."


Em Teresópolis, região serrana do Rio de Janeiro, onde tem vivido nos últimos tempos e onde sua mãe morava (dona Marta morreu em 2011; "seu “José, em 1986), ele se ocupa, fazendo canções e versos em silêncio.





O repórter Vitor Nuzzi lançou em abril o livro Geraldo Vandré – Uma Canção Interrompida.




quarta-feira, 4 de novembro de 2015

QUANDO PARLAMENTARES ANDAVAM ARMADOS

Tenório Cavalcanti

Por Norman P.J. Davis Júnior

A liberação de porte de armas para senadores e deputados federais, aprovada em uma especial da Câmara nesta semana, faz lembrar uma época em que era comum que parlamentares não só andassem armados como resolvessem as querelas políticas na base do tiro e da intimidação.

O caso mais famoso foi o do senador Arnon de Mello, pai do atual senador Fernando Collor (PTB-AL), que assassinou um colega em plenário. Foi em 1963. Arnon de Mello tinha uma disputa com Silvestre Péricles, também de Alagoas, e atirou nele. Mas errou.

Quem acabou atingido foi outro senador, José Kairala, que não tinha nada a ver com a briga dos dois. O senador acabou morrendo horas depois em um hospital. Péricles prometeu em seguida que iria matar Arnon de Mello.

A história começou com Arnon de Mello provocando o rival e o chamando de crápula. Péricles partiu para cima dele e Arnon sacou a arma. João Agripino, da UDN paraibana, tio do atual senador José Agripino, tentou apartar. Péricles se jogou no chão para sacar a própria arma.

Kairala morreu porque tentou separar os dois enquanto Arnon seguia atirando. Arnon e Péricles foram presos, mas logo soltos e absolvidos.
(Não deixa de ser curioso que parte dos envolvidos siga com suas famílias representadas no Congresso)

Outra cena célebre envolve o então deputado Antônio Carlos Magalhães, avô do atual prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto. Ele resolveu interromper um discurso de Tenório Cavalcanti, o famoso “homem da capa preta”, que não só andava armado como dava um nome a sua arma: a "Lurdinha".

Cavalcanti acusava um aliado de ACM de corrupção. O baiano retrucou: “Vossa Excelência pode dizer isso e mais coisas, mas na verdade o que vossa excelência é mesmo, é um protetor do jogo e do lenocínio, porque é um ladrão”.

Tenório sacou a arma e disse: “Vai morrer agora!” ACM revidou dizendo: “Atira, fdp!”

Tenório não atirou, e passou para o folclore que ACM molhou as calças em plenário. Mas sobreviveu. Tenório disse para a turma do deixa-disso que não se preocupassem. Podem sossegar. Só mato homem!

Seria uma pena, 50 anos depois, descobrir que os parlamentares pensam em
voltar a se armar e que a política nacional pode ter evoluído tão pouco em meio século.








segunda-feira, 2 de novembro de 2015

GUARDIÃO DE CABELOS AMARELOS


A figura de Sepé Tiarajú está fortemente relacionada ao imaginário do gaúcho.

Líder de um povo subjugado e inferiorizado militarmente teve a coragem de lutar pelo que considerava justo e erguer a voz com seu lendário: "Esta terra tem dono!".

Sepé foi brilhante como líder e como guerreiro em campo de batalha, sendo respeitado até pelos inimigos. Acredita-se que sua morte tenha sido premeditada para tira-lo da cena decisiva do conflito, a batalha de Caiboaté.

Como se dariam os fatos da tenebrosa batalha se houvesse a participação de Tiarajú? Jamais saberemos.

Ao longo do tempo, entretanto, a figura de Sepé foi sendo “europeizada” e “cristianizada” a ponto de ser visto como um santo popular dos católicos do Rio Grande.

Nas representações gráficas sua imagem abandonou o estereótipo guarani para adotar uma postura e rosto do “homem branco”.

Os Guaranis de hoje reclamam dessa “desindianização” do mito e alegam ser essa mais uma grande injustiça contra seu povo.

Como diz Werá Tupã (também chamado de Leonardo), tido como um dos mais destacados intelectuais indígenas do sul do país, “ninguém pode continuar pensando que perdemos a memória”.

Ele faz parte de um grupo de guaranis que vem pesquisando fatos históricos e episódios lendários com o objetivo de reapresentá-los ao povo brasileiro de um modo diferente daquele que se tornou predominante.

Um dos temas, cujo estudo demorou anos e ainda não está totalmente concluído, é a verdadeira história de Sepé Tiarajú.

Segundo Werá Tupã: Os homens da Igreja católica apossaram-se da figura heroica, metamorfoseando-a quase num branco que era índio por acaso.

Os livros falam que ele "abraçou a doutrina cristã" e foi "o mais ardoroso defensor da obra dos jesuítas"; que "seus mestres foram os padres"; que ele lutou "sugestionado pelos religiosos"; que "foi criado pelos jesuítas"; Werá Tupã discorda de tudo isso.

“Ele pertencia a um outro povo indígena que não conseguimos identificar. Ele foi adotado pelos guaranis e criado como um dos nossos".

Essa já é uma declaração bombástica de Leonardo, Sepé, era índio sim, mas não Guarani. E prossegue.

Quando ele tinha dois anos de idade, sua aldeia, que ficava no Rio Grande do Sul, foi atacada por portugueses ou espanhóis. Os guaranis correram para ajudar, mas o lugar já tinha sido invadido e quase todos tinham sido massacrados.

Os guaranis salvaram o menino e o levaram para uma aldeia nossa, perto da missão de São Miguel. Um casal adotou ele. O avô da família era um pajé muito poderoso e o menino adorava ele.

Uma coisa que quase ninguém sabe é que o nome certo dele não era Sepé Tiarajú. Esse era o jeito que os padres das missões entenderam e escreveram.

Seu nome era Djekupé A Djú, que significava "Guardião de Cabelo Amarelo".

"Guardião" porque era um guerreiro e "cabelo amarelo" porque não tinha o cabelo bem preto como os guaranis, era meio castanho. Mas era índio mesmo, não mestiço.

O destino de guerreiro (e não pajé como o avô adotivo) foi porque ele era revoltado com os brancos e tinha gratidão pelos guaranis. Queria lutar pelos guaranis. É que, na aldeia, nunca esconderam dele a sua história, tudo que tinha acontecido no ataque.

Os jesuítas não criaram ele, mas ia sempre nas missões porque aprendia tudo que pudesse com os padres. Foi assim que aprendeu a língua espanhola.

Sepé articulou uma espécie de Confederação Guaranítica, criando inovadoras táticas militares para a época, nas quais priorizava a guerrilha e evitava grandes batalhas. Chegou a idealizar e construir quatro peças de artilharia, confeccionadas com cana brava.

Foi assassinado numa emboscada, nos campos de Caiboaté, às margens da Sanga da Bica, em 7 de fevereiro de 1756.

As pesquisas a respeito de Sepé baseiam-se na história oral, preservada na memória de índios centenários que viveram no Rio Grande do Sul.

Resgatar a memória de Sepé Tiarajú, em nada diminuí seu espaço na galeria de heróis da liberdade, e é fundamental para se fazer justiça histórica a esse mito que sobrevive ao tempo nas histórias contadas e recontadas em torno no fogo de chão.


Prof. Péricles