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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

RELEMBRANDO 2015, NACIONAIS

O ódio nas ruas

De certa forma, 2015 foi um ano perdido na economia nacional também como consequência de uma crise política que não permitiu medidas mais objetivas no enfrentamento das dificuldades econômicas.

A frágil e exígua democracia brasileira (dizem que ela existe) esteve por um tênue fio.

O fascismo representado em outros tempos com os integralistas de Carlos Lacerda retorna lépido e faceiro, vestido de CBF pedindo o fim da corrupção e o impeachment de uma presidente eleita por mais de 54 milhões de votos.

Mas se a “democracia” sobreviveu a ingenuidade dos que acreditavam num presidente do congresso ou num senador derrotado como paladinos da justiça, morreu.

A seguir as manchetes nacionais com jeito de conteúdo de prova de atualidades.

Sempre lembrando que processos ainda em andamento, como a questão do impeachment, não costumam cair em prova.

Ao começar 2015 o Brasil descobriu que em alguns lugares do mundo a pena de morte ainda existe. O carioca Marco Archer Cardoso Moreira, de 53 anos foi fuzilado por tráfico de drogas na Indonésia, já que o presidente daquele país, Joko Widodo não tomou conhecimento dos insistentes pedidos do governo brasileiro de conceder clemência e alterar a pena para prisão.

Em fevereiro uma greve de estranhas origens sindicais promoveu bloqueios em estradas federais, sendo o estado do Rio Grande do Sul, o mais afetado, com 91 bloqueios.

Em março a Operação Lava a Jato passa a fazer parte do cotidiano do brasileiro, quando o ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavaski, deferiu 21 pedidos de abertura de inquéritos.

O Judiciário brasileiro levou uma pancada no seu ego quando em abril o juiz Flávio Roberto de Souza confessa que desviou cerca de R$ 1,14 milhão sob sua tutela, além de utilizar o veículo de luxo do empresário Eike Batista. Mas, o juiz foi exemplarmente punido com.. a aposentadoria.

O vergonhoso futebol brasileiro atingiu seu clímax de vexame internacional com a prisão do ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol, José Maria Marin, em maio, na Suíça.

A cota de fiascos nacionais cresceu em junho quando uma inexplicável missão diplomática, tendo o senador Aécio Neves (PSDB) à frente terminou de forma vexatória algumas horas depois de pousar no aeroporto da Venezuela, com as vaias de populares. Nossos heróis tentaram o papel de vítimas, mas, restou mesmo o papel de intrometidos e desajeitados.

O que não teve graça nenhuma foi um atentado a bomba contra o Instituto Lula, em julho, na Zona Sul da capital paulista. A bomba atirada de um carro em movimento causou apenas danos materiais, mas, serviu de alerta. A extrema direita em ascensão no país deve ser vista com seriedade e atenção.

O horror das chacinas voltou a assustar o Brasil em agosto quando 18 pessoas foram mortas nos municípios de Osasco e Barueri. O paulista sente-se cada vez mais desprotegido e acuado.

Uma anotação que não tem as características de de prova, mas que me obrigo a fazer por uma questão pessoal.

Morreu em setembro um dos meus ídolos dos tempos de formação no curso de história, o grande historiador, escrito e professor Joel Rufino dos Santos. Autor de mais de 50 livros de ficção e não-ficção, Rufino escrevia para adultos, jovens e crianças, ganhou alguns prêmios por sua literatura. Foi uma das cabeças iluminadas na área do ensino de história no período da ditadura militar, quando foi preso e torturado. Foi-se o professor, mas ficou sua obra e sua mensagem de coragem na forma de reinterpretar a história do Brasil.

O Brasil manteve sua tradição de atenção aos refugiados políticos. Em outubro o Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Refugiados (ACNUR) considerou o Brasil um dos mais importantes países para o acolhimento de imigrantes e refugiados. Existem atualmente, 8,4 mil refugiados legalizados no país.

Em novembro (dia 5) ocorreu o maior incidente ambiental da história do Brasil. O rompimento de barragens da mineradora Samarco. O mar de lama desapareceu com a cidade de Mariana (MG) e seguiu num rastro de destruição até desembocar no mar, no estado do Espírito Santo. Os efeitos nocivos ao meio-ambiente ainda são desconhecidos em sua total profundidade.

O ano termina com um alarme sanitário. Com o aumento de casos de microcefalia no país, relacionados ao vírus zika, a coordenadora do ambulatório de microcefalia do Hospital Oswaldo Cruz, Regina Coeli, recomendou que grávidas usem repelentes para evitar que sejam picadas pelo mosquito Aedes aegypti, transmissor do vírus. O país redobra sua guerra contra o mosquito.


Prof. Péricles

domingo, 27 de dezembro de 2015

RELEMBRANDO 2015, INTERNACIONAIS

Seguir em Frente é Preciso

O ano de 2015 foi um ano tenso em vários sentidos no cenário internacional.

O conflito da Síria continua sendo uma das maiores ameaças à paz mundial e com a entrada efetiva da Rússia no palco das ações militares, tudo ficou mais complicado.

A crise continua atingindo as economias com efeito global, a China diminuiu drasticamente suas taxas de crescimento e os próximos movimentos desse estranho gigante é aguardado com ansiedade.

Diante disso parece não haver dúvidas de que estamos próximos de grandes mudanças geopolítica.

Um fenômeno interessante e perigoso parece ter passado à margem da observação da mídia: o crescimento assustador da produção de material bélico nuclear. Ao que tudo indica, será necessário que os povos pressionem seus governos para que a paz continue sendo o primeiro objetivo de cada nação.

Apesar disso, velhos problemas como o conflito palestino-israelense continuam a fazer vítimas diárias, agora com a Intifada das Facas.

Governos progressistas de esquerda, como na Venezuela, Bolívia, Brasil e até Argentina onde o candidato de Cristina Kirshner foi derrotado nas urnas, estão descobrindo que as políticas de programas sociais são insuficientes para se manter no poder se não forem acompanhadas de reformas estruturais profundas, como reforma agrária e reforma urbana, e a discussão emprego/capital, entre outras.

A Europa revive como um velho filme já assistido, a multiplicação de organizações de extrema-direita. O fascismo continua a ter sua força junto aos desempregados pela crise econômica mundial. Os partidos radicais na França, Grécia, Áustria, Portugal e Hungria, principalmente, cresceram muito entre os eleitores desses países.

Quem paga mais diretamente pelo crescimento da xenofobia, são os imigrantes e os refugiado das zonas de guerra, cuja situação alarmante chocou o mundo em 2015. O corpo de uma criança morta quando, levada por seus país tentava chegar à Europa, poderia ser escolhida como a imagem do ano.

Foram muitos fatos marcantes, mas, para efeito meramente de escolha visando a atualização e futuras provas de concursos, escolhemos as seguintes manchetes internacionais de 2015 como manchetes que não podem ser esquecidas, por possuírem a “cara” da maioria das bancas examinadoras:

Em janeiro doze pessoas, incluindo dois policiais foram mortas em um ataque a tiros no prédio onde está instalado o semanário Charlie Hebdo, em Paris. O semanário é odiado pelos muçulmanos do mundo inteiro devido as piadas, consideradas agressivas contra o profeta Maomé.

O presidente Nicolás Maduro, da Venezuela, anunciou, em fevereiro, a detenção dos donos de uma grande rede varejista do país, acusados de, deliberadamente provocar filas e desabastecimento com o objetivo de indispor a população contra o governo.

Em março o mundo ficou traumatizado ao saber que um Airbus 320, com 150 pessoas, entre tripulantes e passageiros, que caiu nos Alpes franceses sem deixar sobreviventes, foi derrubado deliberadamente pelo copiloto Andreas Lubitz, aparentemente numa crise depressiva.

Foi um fato histórico notável quando Barack Obama e Raúl Castro, mandatários dos Estados Unidos e Cuba, se cumprimentaram e trocaram algumas palavras na noite de 17 de abril. Foi o ponta pé inicial de uma série de medidas que reaproximaram os dois países depois de 52 anos de mútuo afastamento.

O mundo respirou aliviado quando em maio, o representante da Organização Mundial da Saúde, Alex Gasarira anunciou a erradicação do vírus ebola na Libéria. Até então foram 4mil e 700 mortos oficialmente reconhecidos como vítimas da doença mais temida do mundo.

Para provar que o horror do racismo não morreu, ocorreu um atentado à Igreja mais antiga da congregação afro-americana, na cidade de Charleston, na Carolina do Sul. Nove pessoas (seis mulheres e três homens) incluindo o reverendo Clement Pinckney, morreram, em junho.

Uma doce ilusão ou um blefe? Em julho, incentivados pelo novo governo de esquerda do país, os gregos foram as urnas para responder a um referendo, onde o “não” para as medidas exigidas pela Alemanha para um novo empréstimo, venceu com larga margem. Infelizmente isso não foi o suficiente e o governo grego, pressionado pelos credores, teve que recuar.

Em agosto, Alexis Tsipras, premiê da Grécia, renunciou e antecipou eleições. Ele voltaria a vencer nas urnas, mas a Grécia já estava irremediavelmente comprometida com os credores.

Quase que uma crise de fronteira leva dois países sul-americanos, Venezuela e Colômbia, a uma guerra, em setembro. A crise se agravou devido a denúncia da Venezuela da entrada no país de produtos ilegais colombianos, com a conivência destes. Conversações no Equador aproximaram os presidentes Nicolás Maduro e Juan Manuel Santos e a pacificação foi alcançada.

O Rio Grande do Sul, que ainda não se recuperou do trauma da boate Kiss, em Santa Maria, relembrou o caso em outubro quando um incêndio na Romênia, em situação muito parecida com a Kiss, deixou 27 pessoas mortas e 184 feridas.

Em novembro o terror chegou forte na França. O grupo Estado Islâmico reivindicou a responsabilidade por ataques que mataram 127 pessoas em Paris. O presidente francês, François Hollande, afirmou que os ataques que incluíram, pela primeira vez em solo europeu, homens-bombas e que aconteceram simultaneamente em várias partes da cidade, Estádio de Futebol, Casa de Espetáculos (Bataclan) e bares noturnos, foi um ato de guerra.

Em dezembro uma boa notícia. A plenária da COP-21, a cúpula do clima de Paris, aprovou o primeiro acordo de extensão global para frear as emissões de gases do efeito estufa e enfrentar as causas e consequências do aquecimento global. Embora tímido, é o principal passo dado nesse sentido desde o Protocolo de Kioto assinado na década de 90.


Prof. Péricles

sábado, 26 de dezembro de 2015

A INTIFADA DAS FACAS

A Terceira Intifada

Dois meninos, um de 12 e outro de 13 anos, aproximam-se lentamente de um homem fardado com as roupas de segurança do bonde que atravessa a cidade de Jerusalém.

Há muito medo em seus olhos, mas, outros sentimentos também se sobressaem.

Ódio, rancor, vergonha e medo, principalmente, muito medo.

Ao chegarem ao alcance de um golpe, ambos retiram facas que estavam escondidas em suas vestes surradas de palestinos pobres.

O ataque é rápido e amador, mas suficientemente forte para atingir o homem que estava totalmente desprevenido. Seus gritos foram ao mesmo de tempo de dor e de susto.

Ele cai mesmo tentando permanecer de pé, enquanto os meninos correm com as facas ensanguentadas. Mas, não chegam a se distanciar 100 metros e são atingidos por uma saraivada de balas que partem de uma submetralhadora automática de um soldado israelense.

Gente se aglomera, ambulâncias, gritos, mas, o pior já havia acontecido e ninguém poderia mudar os fatos. Um homem e duas crianças estão mortas. São agora apenas um número a ser acrescentado nas estatísticas da “Intifada das Facas”.

Intifada (revolta) é o nome popular das insurreições palestinas contra Israel, que ocupa a Faixa de Gaza e Cisjordânia desde 1967.

Inicialmente as Intifadas parecem ingênuas e fadadas ao fracasso, visto que, são impulsionadas por populares contra um exército profissional e bem armado pelos Estados Unidos. Porém o seu peso político é grande e capaz de deixar Israel em situação politicamente delicada.

Essa seria a terceira Intifada.

A primeira Intifada iniciou em 9 de dezembro de 1987, com a população palestina atirando paus e pedras contra blindados e militares israelenses. É por isso denominada de a “Intifada das Pedras”.

Para Israel a Intifada teve um alto custo político, pois tornaram-se comuns fotos e filmes mostrando crianças e mulheres palestinas jogando pedras contra um inimigo infinitamente superior.

A Segunda Intifada ocorreu a partir de setembro de 2000 até o início de 2005.

Em 28 de setembro de 2000, Ariel Sharon, na época apenas um parlamentar do Likud (partido radical israelense) e figura profundamente odiada pelos palestinos que o acusam de ser o líder militar dos ataques criminosos a dois campos de refugiados (Sabrah e Shatila) que mataram cerca de 5 mil mulheres e crianças, visitou, protegido por enorme aparato de segurança, a Esplanada das Mesquitas, local de oração dos muçulmanos, na região do Monte do Templo, em Jerusalém.

A visita de um assassino de seu povo provocou a fúria dos palestinos que viram nesse ato uma provocação e desrespeito.

De fato, muito difícil acreditar que não tenha se tratado de uma atitude planejada pelo Likud que buscava frear o processo de paz iniciado em 1995 por Yitzhak Rabin (que foi assassinado por um judeu radical). Todos sabiam, ou podiam imaginar, o quanto aquela visita iria revoltar um povo que ainda guardava bem na lembrança seus mortos de Sabrah e Shatila.

Após a partida de Ariel Sharon, violentos confrontos opõem palestinos e israelenses junto ao Muro das Lamentações. Sete palestinos são mortos e centenas são feridos. Era o início da segunda Intifada que iria matar centenas de pessoas e principalmente, matar o próprio processo de paz que parecia irreversível.

A atual Intifada se destaca por envolver jovens e até crianças palestinas armadas com simples facas e que atacam não alvos militares, mas cidadãos judeus, indistintamente.

Suas causas estão no ódio, na falta de esperança do povo palestino em uma solução aos seus problemas e principalmente, pela falta de perspectiva de que Israel desocupe os territórios invadidos.

Uma situação caótica provocando situações aberrantes como em 2 de novembro quando um jovem palestino de 19 anos saiu correndo com uma faca no centro da cidade de Rishon (perto de Tel Aviv) e feriu três pessoas, entre elas uma mulher de 80 anos.

Desacordada, a senhora ficou com o corpo atravessado na calçada. Dezenas de israelenses que estavam no local saíram correndo atrás do palestino e muitos simplesmente pisotearam a vítima, causando indignação na família.

A cena da correria atrás do palestino e da senhora de 80 anos sendo pisoteada na calçada sem ser atendida durante longos minutos chocou o país que assistiu a tudo nos telejornais noturnos.

Esses ataques podem ocorrer em qualquer lugar e em qualquer momento, o que cria uma situação de histeria coletiva, que é usada e estimulada pelos radicais interessados no crescimento da violência.

Líderes políticos de Israel exortam a população a sair as ruas armada e alguns pedem que a polícia atire para matar em qualquer suspeito.

Nessa onda de loucura, um judeu, Slincha Hodotov, foi morto por outros judeus que o confundiram com um “terrorista”. Um refugiado da Eritréia, Haftom Zarhum, foi linchado depois de ser acusado de ser cúmplice de “terroristas”.

Os cidadãos israelenses, tanto árabes como judeus, viraram reféns do medo, que dita seus hábitos no cotidiano.

O medo e o ódio inverteram a ordem de vítima e algoz, o que é muito comum naquelas terras, tendo os israelenses matado mais palestinos do que o contrário.

Atualmente a contagem oficial é de 19 mortos entre judeus e 172 palestinos.

Infelizmente enquanto o governo israelense não voltar a ouvir a voz de Rabin que ensinava que a paz necessita de concessões de ambos os lados, é provável que outras e intermináveis Intifadas aconteçam no rastro dolorido da Intifada das Pedras e da Intifada das Facas.

Intifada das Pedras





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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

UM REBELDE E INCONFORMADO NATAL


Depois de um ano tenso, chegamos, inevitavelmente ao natal.

Interessante que, nas festas natalinas, se reproduzem de forma muito clara, as contradições de uma sociedade singular como a nossa.

E os comportamentos revelam, direta ou indiretamente, essas contradições.

Permeadas pela atmosfera envolvente da tradição, a elite busca vestir o manto da humildade e agir como se todos fôssemos, realmente, iguais.

A mesma mão que durante o ano empurrou pra baixo, agora busca ser portadora de um afago social.

Se isso não é sensacional entre os mais ricos, é extraordinariamente marcante na classe média, particularmente, a classe média mais conservadora.

As mesmas vozes que bradaram hinos de ódio e de discriminação, os mesmos indivíduos que nas redes sociais disseminaram mensagens homofóbicas, misógenas, racistas, agora posam de Papai Noel, trazendo presente para os pequeninos.

Por via do “espírito natalino” esses mesmos agentes do conservadorismo recriam atitudes que invertem a lógica de seus discursos que defende a exclusão e o preconceito.

Mas, deixemos pra lá, cada um encontre em si mesmo suas justificativas. Hipocrisia ou coerência, são questões que ultrapassam a formalidade do ensino e dependem muito mais do caráter do que de conhecimento.

O Blog manifesta sua alegria e esperança, nesse natal.

Alegria porque, apesar de toda a massacrante campanha midiática, apesar do uso covarde do poder de explorar a alienação política, apesar da união de forças poderosas que envolvem até parte do judiciário e da polícia de nosso país, apesar de tudo, conseguimos chegar ao natal com a normalidade da ordem política preservada, a presidenta eleita por mais de 54 milhões de votos no pleno exercício de seu cargo e o funcionamento das instituições preservado.

Esperança de que, depois de um ano inteiro perdido, o governo de Dilma Roussef possa retomar o caminho traçado pelas aspirações progressistas mais à esquerda.

A fundamental mudança do ministro da Fazenda já assinala por boas notícias.

O Blog deseja que nesse natal em todos os lares brasileiros, seja nas mansões e nas favelas, entre brancos, negros, índios e todas as etinias, entre todos os gêneros, entre crianças e crianças grandes que são os adultos, predomine a paz, e que, em algum momento, a reflexão em busca de justiça, social e política, seja exercida em todos os lares das mais variadas maneiras.

Esperamos que o verdadeiro papai Noel, não essa figura vermelha, preta e branca criada a partir de uma campanha publicitária da Coca-Cola em 1931, mas, o verdadeiro, aquele que sobrevive na pureza das crianças conquiste espaço em todos os corações.

Que a cristandade relembre o Jesus ídolo das massas de desvalidos cuja memória não nos leva à troca de bens, mas a comunhão de bens.

Esse Jesus que não exige contrapartida econômica, mas comprometimento com os mais sofridos.

Um Jesus rebelde e revolucionário, anarquista e subversivo, morto sob tortura por ordem dos poderosos e que, ao longo da história vem sendo, repetidamente, morto por quem detém o poder.

Que esse Jesus perseguido, mas que jamais desistiu, inspire todos os movimentos que visam a fraternidade, não aquela fraternidade meramente formal a partir de uma bela palavra, mas a fraternidade verdadeira, que brota no desejo de inclusão e respeito a todas as necessidades e diversidades humanas.

Uma fraternidade que ecoa em gestos simples, como, por exemplo, escolher nas urnas as propostas que busquem a igualdade e que defendam os interesses dos mais pobres.

Por tudo isso, desejamos a você, amigo visitante, não um natal tranquilo dos alienados, mas um natal rebelde dos que não se acomodam nem se conformam com as injustiças.

O Blog deseja um feliz, rebelde e inconformado natal àqueles que sonham com a justiça, a inclusão e a igualdade em todos os dias do ano e não apenas no natal.

Um grande abraço para aqueles que sabem que o mundo vai mais além do que seu umbigo e que não perderam a capacidade de se indignar.


 Feliz Natal!




Prof. Péricles

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O QUE ROUBAR NA PRÓXIMA INVASÃO

Michael Moore

Por Rui Martins

O maior crítico e inimigo da estrutura político-militar americana, o cineasta documentarista e escritor Michael Moore, estará em fevereiro no Festival de Cinema de Berlim, com seu novo filme Onde a Próxima Invasão?, já exibido no Festival de Toronto e com estréia nos EUA na véspera do Natal.


Desta vez, o sistema americano quer limitar a penetração do filme entre os jovens, classificando-o como permitido apenas a maiores de 17 anos, alegando algumas cenas de drogas e uns nus naturistas, mas na verdade criando uma nova categoria – a da pornografia política.


Para Michael Moore, os EUA são um país belicoso em permanente estado de guerra, principal responsável pela situação atual no Oriente Médio, decorrente da invasão do Iraque, justificada com mentiras.


Natural, por isso, se esperar uma nova invasão para acionar a indústria armamentista americana e se apropriar de alguma riqueza.


Entretanto, o objetivo desta nova invasão não seria para se apossar do petróleo de algum país, porém – e aqui entra a ironia do gordão provocador Moore – das idéias e soluções político-sociais encontradas por outros países e superiores às aplicadas pelo liberalismo capitalista dentro dos Estados Unidos.


Entre elas estão o sistema de saúde e previdenciário dos franceses ; a política de legalização de certas drogas pelos portugueses ; o comportamento natural de muitos europeus com relação aos seus corpos nos campos naturistas de nudismo ; as merendas escolares nas escolas francesas ; as longas férias concedidas aos operários italianos ; o melhor sistema educacional dos finlandeses ; e a maneira como foram processados e presos os banqueiros islandeses envolvidos na falência do país.


Por que não roubar tudo isso desses países e fincar uma bandeirinha americana no lugar?


O sucesso de “Onde a Próxima Invasão?” vai depender da dose de humor aplicada por Michael Moore, já premiado com Palma de Ouro em Cannes e com Oscars nos Estados.


Seus filmes mais conhecidos – Tiros em Columbine e Fahrenheit 9/11.




Rui Martins, estará em Berlim, do 10 ao 21 de fevereiro, convidado pelo 66. Festival Internacional de Cinema.

sábado, 19 de dezembro de 2015

UM EGÍPCIO PERIGOSO

Simon Metz o mais famoso micro-encefálico
Ele não é cidadão brasileiro, embora a maioria dos brasileiros pensem o contrário.

Faz parte do pacote de tragédias que o país paga pela grande desgraça da escravidão, já que chegou aqui junto com os escravos, em navios negreiros, em algum momento dos anos 1500.

Na verdade, ele é egípcio, mas sem o charme e o interesse das grandes realizações desse país, numa passado distante.

O Aedes aegypti é um dos mosquitos mais fatais e temidos do mundo, transmissor de doenças como a dengue, a febre amarela, a febre chikungunya e o vírus zika.

Em paralelo, aparentemente responsável pelo crescimento de má formação dos bebês, com a microcefalia, provocada pelo vírus zika.

Permaneceu discreto e matando em silêncio até ser descoberto em 1762 e reconhecido como um inimigo mortal em 1818.

Acredita-se que na grande campanha contra a febre amarela, no início do século XX, ele tenha sido derrotado e erradicado do país, com o uso decisivo de inseticidas químicos.

Mas, ele voltou.

Foi novamente identificado nos anos 80, numa nova leva originária, provavelmente, de Cingapura.

Porém, dessa vez o buraco é mais em baixo.

O inimigo ao longo das gerações posteriores às da febre amarela, e pelo uso indiscriminado de nossa parte de produtos químicos, criou resistência aos inseticidas químicos.

Se borrifar na cara dele, ele come como sobremesa.

Ele pediu revanche, e parece que, dessa vez, veio preparado para nos derrotar.

Segundo o Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti (LIRAa), que se baseia em dados dos meses de outubro e novembro de 2015 e acumula informações de 1.792 cidades, um total de 199 municípios brasileiros estão em situação de risco de surto de dengue, chikungunya e vírus zika devido à presença significativa do Aedes aegypti.

A classificação, feita com base em dados reunidos pelo Ministério da Saúde, leva em conta o fato de que em mais de 4% das casas visitadas nesses locais foram encontradas larvas do mosquito.

O Ministério da Saúde identificou ainda, um primo próximo do aegypti, muito perigoso, o aedes albocictus, que também transmite a chikungunya e o vírus zika.

Portanto, além de querer vingança, o danado ainda trouxe reforços da própria família.

A luta, parece, está apenas começando.

Mas uma vez o Brasil se vê às voltas com uma doença típica da falta de educação que nega ao seu próprio povo, pois, assim como outras doenças propagadas pelos mosquitos, é a falta de cuidados e de higiene o maior responsável pela multiplicação dos casos das doenças.

Água parada e suja (água corrente ou limpa o egípcio detesta) deve ser evitada a todo custo.

Cuidados com o lixo e o descarte do que já não será mais útil, porém serve de berçário às larvas do mosquito, como pneus velhos, garrafas, etc., são fundamentais.

São coisas aparentemente simples, mas distantes do policiamento do estado e que exigem a participação da cidadania.

É possível vencer a ameaça, não com o uso de armas poderosas como os inseticidas químicos, mas através de um processo muito mais humano, definitivo e sem contraindicações: a educação.


Prof. Péricles





sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O REI BONZINHO E A MULHERADA DO MAL





Pálido, suando embaixo de seu turbante, o Grã-Mufti (autoridade religiosa máxima) bradou “é como abrir as portas ao mal”.

O religioso se referia às eleições para conselhos locais, realizados no sábado (12/12), e que, pela primeira vez contou com o voto e a candidatura de mulheres.

Na Arábia Saudita as mulheres não podem dirigir, e o “guardião” de uma mulher, que pode ser o pai, o marido, irmão ou mesmo o filho, pode impedi-la de viajar para o exterior, se casar, trabalhar, estudar e fazer certas cirurgias estéticas.

Aliás, foi com extrema irritação que as autoridades do país reconheceram, recentemente, um fenômeno noturno: o grande número de mulheres que dirigiam (um crime) automóveis durante a madrugada, indo para lugar nenhum, apenas, para satisfazer o desejo de motorista.

A Arábia Saudita é o maior produtor de petróleo do mundo. Terra em que nasceu e viveu o profeta Maomé e onde está a cidade sagrada de Meca. É governada pela família real Al Saud como uma monarquia de forte conotação absolutista.

A democracia não tem permissão para existir e os direitos humanos são rotineiramente desprezados, mas, ao contrário de outros governos locais que foram atacados pelos defensores da liberdade, OTAN/Estados Unidos, a família Saud dorme em berço esplêndido, dá as cartas e joga de mão, já que é a maior aliada dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Seu governo é constantemente apontado pelos palestinos e iranianos como responsável pela desunião de seus povos na região, e, inclusive, de apoio a Israel nos intermináveis conflitos militares.

As eleições de sábado, com a participação feminina, ocorreram por vontade e “bondade” do rei Abdullah que as anunciara em 2011, e aconteceram mesmo com a morte do rei em janeiro desse ano (2015).

Além das mulheres poderem votar a magnificência do rei Abdullah ainda incentivou para que mais algumas vagas nas universidades sejam abertas para as mulheres, tadinhas.

Embora a mulherada tenha participado com grande afinco nas eleições (e isso é mais do que compreensível) elas foram muito chatas. Isso porque não existem partidos políticos no país (o rei é o partido único) e as leis impedem debates públicos sobre política e restringem importantes temas locais de interesse da população.

Dá para entender porque apenas 1,48 milhão dos 20 milhões de sauditas se registraram para votar nesta eleição, incluindo 131 mil mulheres.

Na terra do petróleo que enriquece meia dúzia de famílias, mas que mantém na miséria grande parte da população, não se discute política nas ruas nem se estuda nas escolas.

E agradeça a Alá que elas existam além, claro, da clemência e modernidade de seu rei, o amigo número um dos Estados Unidos.



Prof. Péricles

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A FOME COM A VONTADE DE COMER DEMAIS


No mundo existem 7 bilhões de pessoas.
Mais da metade, 4 bilhões, possuem problemas alimentares.
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), 2 bilhões são subnutridas devido a pobreza, enquanto outros 2 bilhões são obesos devido ao pouco saudável estilo de vida que levam.
Milhões morrem anualmente de fome.
Estima-se que 2,5 milhões de pessoas morreram no último ano vítimas dos efeitos da obesidade. Geralmente os piores efeitos são doenças cardiovasculares, diabetes e diversos tipos de câncer.
A OMS anda firmando convicção que a obesidade anda matando mais do que a fome.
Atualmente, países como o Brasil, México e China, conseguiram reduções importantes no mapa da fome, mas, ao mesmo tempo, houve um aumento do número de pessoas obesas.
Já nos países ricos a fome não é problema de massas, mas, é justamente nesses países que se registra maior a presença da obesidade mórbida
De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde, um terço da população dos EUA, por exemplo, está extremamente acima do peso. Na Europa, dependendo do país, essa proporção é de um quinto ou um quarto.
Enquanto a fome é uma característica da pobreza, a obesidade é consequência da pobreza do nível educacional para a alimentação.
Ao mesmo tempo que a obesidade se destaca na paisagem humana a fome em sua face não percebida, a “fome crônica” quando as pessoas se acostumam com a deficiência alimentar e disfarçam seus efeitos nutrindo-se de paliativos (como o pirão nordestino), permanece oculta e silenciosa.
Thomas Malthus (1766-1834), economista britânico que anunciou a teoria de um futuro sombrio quando o planeta não conseguiria alimentar a população sempre crescente deve estar se revirando na sepultura.
Afinal, os números mostram que, a causa da fome não é a insuficiente produção planetária, mas sim, a desigualdade social, a miséria e a ignorância, em todos os seus níveis.

Prof. Péricles





segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

ARACNE, FHC E A INVEJA


Ninguém propala sua inveja em relação a outro aos quatro cantos.

Ao contrário, com exceção dos ataques agudos de inveja, o invejoso disfarça como pode, pois, teme que sua inveja sirva como um atestado de inferioridade.

Por isso, o invejoso nega sua própria inveja.

Mas, algumas invejas são tão intensas que nem o porão mais escondido na alma consegue disfarçar.

É o caso da deusa Atena em relação à Aracne.

Aracne era uma tecelã talentosa. Todos admiravam sua habilidade.

Fiava com mãos mágicas e os elogios que recebia eram sempre intensos e verdadeiros.

Certo dia, ao buscar sua encomenda, um rico homem de negócios de passagem por aquelas bandas ficou tão encantado com o trabalho de Aracne que comentou “só Atena seria capaz de criar algo mais bonito que isso”.

Sabe como são as tecelãs... Aracne ficou indignada com a observação e disse que se pudesse desafiava Atena para um duelo de tecelagem para ver mesmo, ora bolas, quem era a melhor. 

Todos tentaram tirar isso da cabeça da guria, pois, as deusas gregas eram conhecidas pela sua irritabilidade e falta de espírito esportivo, quando perdiam, claro.

Mas, as palavras chegaram aos ouvidos da poderosa deusa que de repente, apareceu trazendo consigo dois teares para enfrentar o desafio.

Amigos de Aracne suaram frio, pois sabiam que aquilo não iria terminar bem. Mas Aracne, com a confiança que só a vaidade dá, permaneceu desafiadora.

As duas começaram a trabalhar dando o máximo possível no que faziam.

Muitas horas depois Atena olhou o que a rival fazia e teve que reconhecer que o talento da mortal era extraordinário e maior que o seu.

Mas, bem capaz que Atena aceitaria sair daquilo derrotada.

Mulheres... ou melhor, Deusas...

Bem, a esperta divindade passou a bajular a rival. Reconheceu que ela até tecia bem e poderia vir a ser muito boa mesmo.

“Amiga, tenho uma proposta pra te fazer”.

E propôs que as duas acabassem agora o desafio já que ela, Atena, era uma deusa muito ocupada e tinha compromissos urgentes no Olimpo, mas, que se a moça aceitasse deixar pra lá, no zero a zero, ela a transformaria na maior tecelã de todos os tempos, e que seria incomparável a qualquer outra.

Aracne, ingênua, aceitou e a temida deusa a transformou numa aranha (de onde vem aracnídeo).

É o caso também de FHC.

FHC que no tempo da ditadura era considerado uma estrela da esquerda, lá no conforto distante das lutas, e que sempre foi reconhecido como um intelectual, governou o Brasil por oito anos.

Seu governo foi frágil.

Seguindo a receita neoliberal, privatizou empresas públicas, e privatizou mal, sem nenhuma vantagem concreta ao país.

A inflação chegou a 70%, os salários congelaram (dos funcionários públicos literalmente congelaram) e a distância entre ricos e pobres só aumentou, como sabemos ser consequência das políticas neoliberais.

Não se criou nenhuma faculdade, nenhuma reforma estrutural no país em nenhum setor estratégico.

O pobre continuou pobre, e até mais pobre e essa população não guarda nenhuma saudade do “príncipe dos sociólogos”.

Quem elogia FHC e acredita nas suas explicações são seus correligionários e a mídia, mas FHC é vaidoso. O que ele queria mesmo era a admiração do povo.

Lula tem apenas o ensino fundamental.

Líder sindical sempre foi desdenhado por supostos erros de concordância e completa falta de lustro intelectual.

Lula também ficou oito anos no governo, mas, nesses oito anos promoveu políticas sociais de intensa repercussão entre os mais pobres.

O Fome Zero, o Bolsa Família, Luz Para Todos e os programas na área de ensino fazem de Lula um ídolo entre os miseráveis até de fora do Brasil.

FHC como bom invejoso não fala isso, nem jamais falará, mas lá dentro, caramba como deve doer a inveja!

Ele sabe quais serão os comentários nos livros futuros de história quando a mídia amiga não mais poder defende-lo. Sabe que, inevitavelmente os dois governos serão comparados. Ele sabe, e isso dói no intelectual vaidoso, mais até do que no político.

Se pudesse, ele faria como Atena, proporia pra Lula deixar pra lá as disputas e se tivesse poderes da grande deusa, transformaria Lula num sapo barbudo.

Mas, não pode.

Por isso, silenciosamente, está por trás de toda a sanha golpista dos últimos meses.

Não é por ideologia ou por motivos conceituais.

Porque assim como Atena, FHC também não sabe perder.

Pura inveja.



Prof. Péricles 

sábado, 12 de dezembro de 2015

ORFEU, NÃO OLHE PARA TRÁS

Orfeu e Eurídice



Era uma vez um jovem chamado Orfeu.

Filho da musa Calíope, inspiradora dos poetas e do rei Eagro da Trácia, numa versão, ou, do próprio deus Apolo, em outra versão.

Era músico e o maior e mais inspirado poeta que o mundo já conheceu.

Sua arte era tão poderosa que, foi capaz de silenciar as sereias usando apenas o seu próprio canto.


Diziam que quando Orfeu tocava sua lira, que ganhou de Apolo, silenciava até o murmúrio dos ventos, das águas e o canto dos pássaros.

Já Eurídice era uma ninfa. Linda. Maravilhosa. Quando era vista, nua ou quase nua por algum mortal, embasbacava o pobre coitado.

Era desejada por deuses e criaturas mágicas. Por homens e mulheres.

Orfeu conheceu e se apaixonou profundamente por Eurídice.

Por sua vez, Eurídice se apaixonou por aquele artista maravilhoso.

A relação entre eles era harmoniosa e sob a inspiração do poeta e de sua música faziam amor nos campos sem fim do mundo mitológico grego.

Himeneu, o deus das paixões e dos matrimônios abençoou os dois quando resolveram casar.

Porém, a tragédia iria se abater sobre o casal apaixonado.

Na véspera do casamento, outro filho de Apolo, Aristeu, tentou seduzir Eurídice.

Tentando fugir de suas armadilhas inconvenientes, a ninfa acabou pisando numa serpente venenosa que a picou, provocando sua morte.

Orfeu enlouqueceu de dor.

Sua poesia calou, seus dias escureceram e tudo em sua volta ficou mais triste.

Inconformado e cego de dor, levando apenas sua Lira, empreendeu uma perigosíssima viagem ao Mundo dos Mortos para trazer de volta sua amada.

Movido pelo amor e transtornado pela dor percorreu vales sombrios e campos inteiros sem nenhum sinal de vida.

Não havia flores e frutos nas árvores, nem peixes nos rios.

Mas, Orfeu não recuou obcecado para rever a mulher da sua vida, dona de seu coração.

Na solidão do mundo dos mortos Orfeu toca sua Lira e canta para espantar a dor.

E é seu canto mavioso que amolece o mais duro dos corações, o coração de Caronte, barqueiro condutor das almas pelo rio Estige, que a princípio negava-se a transportar vivos no reino dos mortos.

O som de sua Lira faz dormir Cérbero, o terrível cão de três cabeças que guardava os portões do reino dos mortos.

Além disso, enquanto avança, o som de sua música maravilhosa aliviava os tormentos e angústias das almas condenadas ao sofrimento.

E, finalmente, Orfeu se vê diante do trono de Hades, o deus dos mortos, tendo ao lado sua esposa, Perséfone.

O poeta não resiste ao acúmulo de suas dores e chora como criança pedindo clemência à Hades para que possa levar Eurídice para o reino dos vivos. Seu choro é pungente, vindo do fundo do coração e comove a todos em sua volta, menos a Hades.

Porém, Perséfone, sensibilizada, implora ao marido que dê uma chance a Orfeu.

O senhor dos mortos acaba cedendo, Eurídice poderia voltar com Orfeu ao mundo dos vivos, mas impõem uma condição: Orfeu não pode olhar pra sua amada até que a luz do sol atinja os dois.

Eufórico Orfeu agradece muito à Perséfone e parte de volta para casa. Vai na frente segurando Eurídice pela mão e sem voltar o rosto. Toca músicas de alegria, numa verdadeira euforia contagiante. Nunca o mundo dos mortos viveu momentos tão alegres.

Algum tempo depois, perto da saída, ocorre o que não poderia ocorrer.

Segundo alguns por não aguentar as saudades, por outros, pelo medo de ter sido enganado por Hades, não se sabe bem, mas a verdade é que Orfeu vira-se para olhar Eurídice.

Por alguns instantes ele a vê, mas em seguida sua imagem começa a desaparecer lentamente.

Ambos choram, Orfeu caí de joelhos, mas o desaparecimento não cessa e em pouco tempo ele se vê sozinho novamente, segurando sua lira e não contendo a dor em seu coração.

A triste história de Orfeu e Eurídice nos lembra de que tudo começa com um desejo, mas que todo desejo possuí suas condições, seus limites, facilmente ultrapassados pela nossa invigilância e impulsividade.

Muitas vezes o que mais ansiamos é ter uma nova oportunidade, mas, geralmente, não estamos preparados para ela, pois mantemos os hábitos mais antigos.

Temos que confiar que seguindo o caminho encontraremos as respostas que amenizem nossas dores apenas quando atingirmos a luz do sol da consciência.

Devemos confiar mais no futuro e não olhando para trás, para o que já passou.

O futuro, sem dúvida é mais radioso e iluminado, é só acreditar.

Quanto a Orfeu, diziam os gregos nas conversas de fim de noite, nunca mais recuperou a paz e a felicidade, tornando-se um artista preso à sua dor e a seu arrependimento.

Sua arte ficou triste, seu semblante nunca mais recuperou o brilho.

Passou a aconselhar as pessoas, especialmente nos assuntos de amor e isso deu origem à expressão “orfismo”, uma ação em que o conselheiro resolve os problemas de todos, menos os seus.

Orfeu nunca mais quis saber de outra mulher, embora fosse constantemente assediado, especialmente pelas Mênades (furiosas) que eram mulheres adoradoras do culto a Dionísio.

Lascivas, incoerentes, perigosas, faziam o sexo mais enlouquecido e descompromissado que se possa imaginar. Sedução, embriaguez, violência, ligadas as forças mais primitivas da natureza, as tornavam temidas até pelos deuses.

Desprezadas, coisa que não podiam suportar, faz Mênades, acabaram num surto de desejo reprimido, num contraste de amor e ódio, matando Orfeu.

As nove musas, incluindo sua mãe, Calíope, sepultaram seu corpo no Monte Olimpo.

As assassinas foram punidas sendo transformadas em silenciosos carvalhos.

Não há lágrimas para esse final, pois, segundo os gregos, finalmente, no mundo dos mortos, Orfeu e Eurídice puderam se reencontrar, que era o que mais queriam.




Prof. Péricles



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

TRISTE APRENDIZAGEM



Nesses tempos complicados que estamos vivendo, de uma coisa a gente não pode se queixar: a falta de aprendizagem.

Poucos momentos foram tão pródigos em lições e descobertas.

Por exemplo, juro que não sabia que o cargo mais poderoso do Brasil fosse o de Presidente da Câmara de Deputados.

Imaginava que o Presidente fosse o agente político mais poderoso, ou o vice talvez, mas nunca imaginei que presidente da câmara fosse o único a manter os poderes absolutistas que eu até julgava que não existissem mais.

O presidente da câmara faz o que bem quer. Bota em votação, tira de votação, decide como se vota, quem vota, mexe na fila de espera, prende e arrebenta.

Grande surpresa! O presidente cheio de limitações aos seus poderes e o Presidente da Câmara dá as cartas e joga de mão.

Outra coisa que eu não imaginava: um processo de impeachment  pode ser aberto contra a autoridade sem nenhuma acusação real.

Eu sempre pensei que o presidente respondesse ao “impedimento” se houvesse indícios fortes e concretos de prática de algo ilícito ou improbo. Afinal, a CPI do PC Farias somente incluiu a figura do presidente Fernando Color quando apareceu um cheque que o ligava diretamente a um carro Fiat Elba envolvido em fato corrupto. Só aí, com o fato concreto, Color passou foi “impitchmado”.

Agora aprendemos que não precisa. Basta que o Presidente da Câmara, aquele cara mais poderoso do Brasil queira e pronto, está iniciado o processo.

Isso é assustador pois todos nós sabemos que o simples fato de responder a uma coisa dessas tráz desgaste à honra do acusado, independente de culpabilidade.

É como se eu ou você respondêssemos por roubo ou furto sem absolutamente nada indicar a nossa autoria. Mesmo inocentes o “peso” jamais sairá da nossa história.

Tudo bem, talvez eu seja mesmo ingênuo, mas também não imaginava que a mídia pudesse criar as notícias, ou, pelo menos, mascará-las dando ênfase a umas e ignorando outras.

Na minha santa ignorância eu acreditava que, por ser uma concessão, a mídia estivesse obrigada por algum código legal a transmitir todas as notícias.

Descobrimos que a mídia, que já foi chamada de “quarto poder”, no Brasil, é o primeiro poder.

Finalmente. Eu não sabia que dignidade e vergonha na cara pudessem ser “administradas” de acordo com as simpatias e interesses das pessoas.

Explico melhor. Eu não sabia que gente que se diz de bem e honrada pudesse apoiar um bandido, reconhecida e comprovadamente bandido, desde que ele ameace alguém que não é de sua simpatia. Tipo, apoiar o traficante do bairro se esse for inimigo do teu desafeto.

Onde será que essa gente de bem guarda sua ética.

Estúpido que eu sou. Acreditava nas gentes de bem.

Tempos tristes. Tempos tensos e de decepções.

Mas, definitivamente, tempos de descobertas.



Prof. Péricles

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A NOITE EM QUE O BRASIL SIFU



POR EQUIPE CORREIO DO BRASIL


“Em que momento o Peru tinha se f…?”, pergunta Mario Vargas Llosa na abertura de “Conversa na Catedral”. Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso do Brasil: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.

Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava.

Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada.

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já… tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os profissionais — conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática.

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro.

Mas, quero deixar registrada — mesmo que tanto tempo depois — minha indignação com o aborto de uma esperança.

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzir os acontecimentos no sentido de um eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o nilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f…