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sábado, 30 de janeiro de 2016

A CORRUPÇÃO CONTRA-ATACA


Falar sobre corrupção é fácil.

Explorar o tema em proveito próprio assumindo uma postura moralista, então, é típico da direita tupiniquim, desde os tempos de Getúlio, passando por JK e eleição de Jânio Quadros e golpe contra Jango.

Mas, mostrar ação contra a corrupção, isso, poucos mostram.

Os governos do PT tem suas mazelas a pagar, com certeza, mas é inegável que mais do que qualquer outro governo, tratou de combater a corrupção. Senão, vejamos:

Em 2003, ano que Lula tomou posse, foi sancionada a lei que criou a Controladoria Geral da União (CGU). Órgão que coordena o sistema de fiscalização e controle da República.

No mesmo ano, o Ministro Marcos Thomaz Bastos reestruturou a Polícia Federal.

Em 2004, foi criado o Portal Transparência que exige que as instituições informem a cidadania, por meio virtual sobre seus procedimentos, de forma que todos possam, facilmente, se informar sobre licitações, adimplência, inadimplências, etc.

Também em 2004, Lula criou o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que fiscaliza o Judiciário. Foi ideia de José Dirceu que, ao que parece, jamais será perdoado por isso.

Também foi ideia de José Dirceu criar o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que fiscaliza os procuradores do Ministério Público Federal e estaduais.

Em 2005, foi regulamentado o pregão eletrônico que, gradualmente se tornou obrigatório. Em teoria, o Pregão Eletrônico substituindo as outras formas licitatórias e estando integrado à plataforma virtual de informação torna mais difícil a maracutaia dos corredores e conversas ao pé do ouvido, estando sujeito ao acompanhamento por parte da cidadania.

Em 2008, foi criado o cadastro de empresas inidôneas, (CEIS).

Em 2009, foi sancionada a lei da Transparência, que determina a disponibilização em tempo real de todas as informações sobre a execução orçamentária e financeira da União, Estados, Distrito federal e Municípios. Antes era uma caixa preta.

Em 2012, foi aprovada a lei de Acesso à Informação.

Todas essas normas jurídicas consolidam a transparência do exercício da função pública e controle social da gestão e dos recursos públicos e atos do governo. Todos os órgãos de fiscalização e controle, tiveram seu corpo funcional ampliado e qualificado.

Em 2013, a Presidente Dilma sancionou a lei que define a figura do corruptor e responsabiliza pessoas jurídicas, por atos contra a administração pública. Essa lei é que está possibilitando o Ministério público, a Polícia Federal, e o Judiciário, irem fundo nas investigações contra a corrupção. Com base nela que estão sendo presos banqueiros, empresários, etc.

Já em 2015, após vergonhosas manobras do Presidente do Congresso Nacional que permitia o financiamento privado de campanha eleitoral (é nesse momento, quando o capital privado financia a eleição de alguém que a maior parte da corrupção começa), a Presidente Dilma, vetou a manobra e, em parceria com o STF que anteriormente já havia se pronunciado contra o financiamento privado, fechou a torneira inesgotável dos apoios corruptos, ao menos, dessa forma.

Importante lembrar ainda que, em 1994, no primeiro governo de FHC, foi extinto a Comissão Especial de investigação (CEI) criada no governo Itamar Franco. Logo depois FHC, alterou a lei de licitação da Petrobrás, abrindo caminho para a corrupção.

O Procurador Geral da República na administração do FHC, não Investigava nada e não abria processo contra ninguém, sendo por isso apelidado de “engavetador geral da república”.

Talvez tudo isso esclareça porque grupos unidos ao fascismo estejam, de forma tão desesperada, tentando derrubar um governo legitimamente eleito e que apresenta, continuamente,  ações concretas contra a corrupção.



Prof. Péricles



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

HOMENAGEM MAIS QUE JUSTA


Por Mário Augusto Jakobskind

Hoje há quase unanimidade quanto à ausência de líderes do porte de Leonel Brizola, governador do Rio de Janeiro por duas vezes e uma no Rio Grande do Sul.


Polêmico, Brizola foi sempre combatido pela mídia conservadora, em particular pelo jornal O Globo.


Tanto assim que uma semana antes da morte do líder trabalhista, o diretor executivo da Rede Globo, Ali Kamel divulgava artigo no jornal mais vendido do Rio de Janeiro culpando Brizola pela onda de violência na cidade do Rio de Janeiro.

Kamel, por sinal, é uma das carreiras mais ascendentes e rápidas do jornalismo brasileiro. Pode-se imaginar o motivo. Em 1982, por ocasião da primeira eleição de Brizola como governador do Estado Rio de Janeiro, Kamel era estagiário na rádio Jornal do Brasil e participou da cobertura da emissora da eleição, tendo comprovado a tentativa de fraude eleitoral no episódio conhecido como Proconsult,

Com o tempo, Kamel deixou para trás essa participação e foi galgando postos até chegar ao cargo atual.

Mas voltando a Brizola, o governador do Estado do Rio de Janeiro foi responsável, junto com Darci Ribeiro, pelo projeto dos CIEPS, combatido por setores da direita e mesmo da esquerda que a direita gosta.

Se o projeto fosse levado adiante, possivelmente nos dias atuais boa parte dos jovens da época poderia ter a oportunidade de encontrar caminhos que possivelmente o levariam a ter um destino diferente da marginalidade.

Mas o tempo passou e logo em seguida ao governo Brizola, Moreira Franco assumiu o Palácio da Guanabara e sepultou o projeto educacional dos CIEPS, contando nesse sentido com o apoio de O Globo e particularmente de Roberto Marinho.

É conhecido por inúmeros jornalistas as pautas de O Globo para combater Brizola.

O próprio Marinho cobrava diariamente dos editores fatos negativos contra o Governador. Chegou ao ponto de um dia o próprio Roberto Marinho ter exigido que o jornal pautasse dessa forma, mesmo que nada houvesse para criticar o Governador.

Brizola ficou em terceiro lugar na primeira eleição presidencial depois do fim da ditadura civil militar que assolou o país durante 21 anos. Brizola colocava sempre em pauta a questão das perdas internacionais, deixando furiosos não apenas o empresário Roberto Marinho, como economistas que posteriormente se tornaram apologistas do modelo neoliberal fortalecido a partir do governo do então Presidente Fernando Henrique Cardoso.

Brizola, sem dúvida, marcou época na política brasileira, antes e depois de 1964, mesmo tendo sido na prática linchado pelas Organizações Globo, tendo à frente figuras como Ali Kamel e outros do gênero.

Onze anos e meio depois de sua morte, a Presidente Dilma Rousseff com muita razão o colocou na lista dos Heróis da Pátria, o que tem provocado irritação de alguns setores, que não se conformam com o fato.

Muitos não têm coragem de aparecer como opositores da medida, preferindo apenas destilar a contrariedade dando continuidade ao sectarismo contra Dilma Rousseff.

Chegou ao ponto de opositores preverem o fim do governo que venceu a eleição presidencial em outubro de 2014.

Nesse sentido surgiram defensores radicais do impeachment, jogando do mesmo lado que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que poderá, por decisão do Supremo Tribunal Federal, perder o cargo que exerce envergonhando o Brasil.

O que Dilma Rousseff enfrenta hoje em termos de oposição sectária, guardando-se as devidas proporções, de alguma forma remete ao que Brizola enfrentou quando exercia cargos públicos depois de eleito pelo povo.

Por estas e muitas outras fez muito bem Dilma Rousseff em colocar Brizola no rol dos Heróis da Pátria.


Mário Augusto Jakobskindjornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

ERA UMA VEZ EM COXILÂNDIA



Era uma vez um país chamado Coxilândia.

Seus habitantes eram chamados de coxinhas.

O símbolo Nacional de Coxilândia era um cachorro vira-lata.

Na verdade, os coxinhas preferiam o tucano, mas por serem muito complexados se identificavam mais com os vira-latas.

Achavam que nada em seu país prestava e sonhavam viver nos Estados Unidos.

A moeda nacional de Coxilândia era o dólar, muito usada nas férias em Miami, Las Vegas ou nas viagens para Disneylândia.

Em Coxilândia havia muita e muita terra agriculturável que não produzia nada útil, mas a posse dessas terras era de poucas pessoas.

Havia também muita e muita gente sem terra para plantar, a quem era oferecido trabalho semiescravo nas terras que já tinham dono.

O uso coletivo da terra, também chamado de Reforma Agrária, faria bem para todos os habitantes de Coxilândia. A comida seria mais barata, haveria menos gente em situação de miséria, diminuiria a violência do campo. Mas, os coxinhas, principalmente aqueles que não tinham terra nenhuma, eram contra a Reforma Agrária.

Existia liberdade religiosa, mas predominavam os católicos que nunca iam nas Igrejas.

Tinha samba, carnaval e futebol, festas populares, porém controladas por contraventores e corruptos que realmente se divertiam.

Muitas outras forças e energias eram adoradas pelos coxinhas.

A imprensa, por exemplo estava num patamar de divindade. Tudo o que era dito na mídia, imediatamente virava dogma.

As novelas televisivas criavam moda, mitos e alienados.

Liam a Revista “Óia” e se achavam bem informados.

Os coxinhas formavam uma sociedade estratificada, dividida oficialmente em: doutores (aquém o coxinha adorava beijar a mão), a classe média, por sua vez subdividida em: os que achavam que um dia seriam doutores e os que desconfiavam que jamais seriam doutores, mas, adoravam puxar o saco deles.

E tinha milhões de outras pessoas que não se enquadravam nesses grupos e eram denominados pelos coxinhas de comunistas, pobres e vagabundos.

Os coxinhas odiavam ver pobre de carro, adquirindo bens, viajando de avião e ver filhos de pobres estudando nos mesmos colégios que os coxinhazinhas estudavam.

Adotavam rótulos onde os pobres, comunistas e vagabundos falavam errado e eram ignorantes sem perceber que era a sua a maior ignorância.

Havia eleições em três turnos em Coxilândia.

No primeiro turno e segundo turnos deviam ser eleitos os candidatos dos doutores e seus amigos. O terceiro turno era para derrubar os candidatos dos comunistas, pobres e vagabundos que ousassem ser eleitos.

A culinária do país era riquíssima.

Além da comida nacional, a coxinha, também eram muito apreciadas as comidas finas, pelos doutores que as comiam e pelos puxa sacos que não comiam, mas, sentiam prazer em saber que os doutores comiam.

O governo era uma república que os coxinhas definiam como “republiqueta”, quando perdiam. Entretanto, a ditadura era um ideal dos que não tinham ideais.

Em Coxilândia 70% dos presos eram negros, menos de 20% dos estudantes nas faculdades eram negros, mas não havia racismo.

Mulheres recebiam salários menores que os homens, eram violentadas e agredidas na proporção de uma a cada 20 minutos, mas não existia machismo.

Homossexuais era agredidos e assassinados nas ruas e na saída de espetáculos, demitidos de seus empregos e não aceitos em certas igrejas, mas não havia homofobia.

Fascista se autodenominava intervencionista.

9% da população concentrava 55% da riqueza, mas se dizia que o país era de absoluta igualdade social e econômica.

Ricos e filhos de ricos que roubavam, violentavam e dirigiam bêbados ou drogados, não iam para a cadeia, mas se dizia que todos eram iguais perante a Lei.

Professores ganhavam uma miséria e eram agredidos pela polícia quando reclamavam enquanto os juízes recebiam até auxílio moradia.

Diziam que Deus era Coxinha e que povo que elegia candidato da mídia era o mais politizado do país.

No próximo texto vamos falar do folclore de Coxilândia. 



Prof. Péricles


sábado, 23 de janeiro de 2016

HORIZONTE CONFUSO


A geopolítica internacional frequentemente é comparada a uma partida de xadrez, onde as nações buscam a melhor posição no complexo cenário das relações internacionais.

E o tabuleiro atual nos mostra um quadro de forte tensão.

Os principais movimentos que levaram ao quadro atual foram:

01. Crise econômica atinge a China, e a china, hoje, é um gigantesco elefante que tentamos guardar dentro de casa. É incompreensível, toma todos os espaços, mas gostamos de pensar que a entendemos. O ano de 2015 apresentou a menor taxa de crescimento desse país em muitos anos seguidos de aceleração.

02. A entrada da Rússia de forma direta no conflito da Síria: as ações de um exército poderoso na região, uma espécie de estranho no ninho, ameaça diretamente os interesses dos Estados Unidos e Israel que sempre apostaram na queda de Bashar AL-Assad e na posse de um governo fantoche, ou, pelo menos, amigo.

03. Aos planos prejudicados no Oriente Médio por Putin, acrescente-se a insatisfação em Israel com a assinatura de um acordo entre Irã e Estados Unidos que reabilita o governo de Teerã e permite que esse país cresça substancialmente de importância na região que, normalmente, Israel considera seu quintal.

04. A decisão da Arábia Saudita de atingir diretamente a economia de seu arqui-inimigo, o Irã, produzindo petróleo em uma quantidade acima do consumo e dessa forma, força a queda do produto. Além do seu alvo, o Irã, essa política da Arábia Saudita provoca instabilidade e desconforto no mundo inteiro.

05. A intenção de Vladimir Putin de negociar o petróleo que vende, aceitando como pagamento ouro em vez do petrodólar ameaça jogar os Estados Unidos numa crise inimaginável, que certamente, puxará junto a Europa. Se a Duma (Parlamento Soviético) autorizar Putin a seguir em frente, estaremos diante de uma situação que transformar dramaticamente toda a “cara” do mundo moderno, pois é com o petrodólar que os Estados Unidos têm mantido sua hegemonia apesar de todas as crises políticas e econômicas recentes..

Quais serão os próximos movimentos no tabuleiro?

O melhor de todos os caminhos, sem dúvida, seria uma tentativa séria e global para a solução do problema da Síria, organizada pela ONU. Apertando Bashar AL-Assad e os grupos rebeldes, é possível isolar o EI, reconciliar o país e afastar Estados Unidos, Israel e OEA. . A pacificação da Síria é hoje o caminho mais seguro para a manutenção da paz internacional.

Mas, infelizmente o caminho da retaliação não está descartado.

É provável uma intervenção militar de Israel no oriente Médio. Seria uma tentativa de criar constrangimento à presença da Rússia. Os efeitos colaterais é que são imprevisíveis.

Mas, talvez o que mais deva nos preocupar é que, em ano eleitoral, os estados Unidos podem tentar uma jogada de mestre para escapar do cheque mate russo e, como sabemos, estratégias arriscadas trazem os riscos de consequências inesperadas.


Prof. Péricles



quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O ASSASSINATO DE DONA CREMILDA


Por Laerte Braga


Cremilda Fernandes, 72 anos, professora no Espírito Santo, morreu ao término de uma manifestação contra toda a sorte de trapaças de governantes. Era, como muitos brasileiros, a imensa maioria, uma das vítimas da insensibilidade de monstros que governam na nossa democracia. Um infarto fulminante.

Momentos antes de sua morte havia dito a vários dos presentes à manifestação que queria participar do ato, panfletar e ouvira do motorista de táxi que a levara até o local que, finalmente, ele havia entendido que o ex-governador Paulo Hartung é apenas um chefe de quadrilha de assaltantes de cofres públicos.

Cremilda Fernandes aos 72 anos estava buscando, indignada e corajosa, os seus direitos. Receber um precatório que lhe era devido e a professores no Espírito Santo.

Precatórios existem em todos os estados e não são pagos a despeito de ações judiciais com trânsito em julgado, enquanto atitudes não são tomadas e atitudes nunca são tomadas.

Bandidos ficam impunes com a cumplicidade de um Judiciário corrupto e/ou leniente.

Professores são sempre o bode expiatório de governos insensíveis e governantes sem qualquer respeito pelo ser humano, como pela classe trabalhadora no seu todo.

Governantes são construídos a partir de interesses das elites, da classe dominante, num espetáculo gerado por especialistas e pela mídia de mercado, na crença que eleições de tempos em tempos significam democracia.

A professora Cremilda Fernandes, pouco antes de morrer, havia declarado que “espero há anos por manifestações assim”.

Um país com Roberto (Gaveta) Gurgel como Procurador Geral da República e Gilmar (Dantas) Mendes no Supremo Tribunal Federal não pode esperar seriedade ou avanços democráticos. No máximo novos escaninhos para esconder os mal feitos ou tapetes para varrê-los para baixo e fazer parecer que a sala está limpa.

“Informado” pela imprensa-de-mercado-de-repeticão (Grupo GAFE, Globo, Abril, Folha, Estadão), as mídias regionais como RBS, ou estaduais como Estado de Minas (MG), Rede Gazeta (ES), etc., um povo não pode adquirir consciência da realidade e se permite massacrar pelos que, de fato, governam – banqueiros, latifundiários e o capital internacional.

Não cumprir o tal preceito que todo cidadão é igual perante a lei, ou transformá-lo em ficção jurídica/constitucional, negar direitos básicos, tem sido uma constante de governos. 

Avanços paliativos não levam às mudanças estruturais que o Brasil necessita e pouco a pouco vamos nos transformando num entreposto do capital internacional, vamos virando parte do plano “Grande Colômbia” concebido pelos senhores do mundo, EUA e Israel.

A morte da professora Cremilda Fernandes tem essa dimensão; causa esse impacto vivo na lição de luta que deixa. Uma brasileira do Espírito Santo, 72 anos, indo às ruas por direitos que a tal lei lhe assegura.

A professora Cremilda é, ela sim, um símbolo, como todos os trabalhadores, que indignar-se é ir à luta e a luta é nas ruas, é o caminho. Fora dos clubes fechados dos amigos e inimigos cordiais que dominam o Estado-instituição.

É necessário entender também que a corrupção é inerente, parte inseparável do capitalismo, aqui ou em qualquer lugar do mundo.




Laerte Braga é jornalista de Juiz de Fora/MG

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

PODE SIM, DONA DESIDÉRIA!


Por José Ribamar Bessa Freire


Ninguém o chamava pelo seu sonoro nome de batismo: Rodolfo Dias. Para todos os efeitos era o Dasaguão, apelido proveniente do Departamento Das Águas, onde labutava como encanador na Estação do Bombeamento, lá na Ponta do Ismael.

Morava em Aparecida, bairro de Manaus no qual se vive um tempo mítico.

Já disse, mas como ninguém me escuta, repito: tudo o que acontece e ainda vai acontecer no planeta já ocorreu nas quinze ruas ou nos treze becos do bairro, como o que agora te conto, que pode ajudar a entender a atual violência nos Estados Unidos.

O filho primogênito do encanador – o Dasaguinha – era menino problemático, encrenqueiro, brigava diariamente, vivia todo esfulepado, cheio de cicatrizes adquiridas nas guerras travadas nas trincheiras dos becos.

Foi expulso em 1955 do Grupo Escolar Cônego Azevedo porque aos oito anos, com uma baladeira, atirou um arrebite quebrando a cabeça do Geraldo Pimbinha, que desmaiou, mas foi socorrido a tempo no SAMDU que ficava ali na Joaquim Nabuco.

Dona Desidéria, sua mãe, magérrima e anoréxica, ficou horrorizada:

– Não sei de onde esse menino tirou tanta agressividade – disse a mãe em depoimento à Polícia, no velho Casarão da Mal. Deodoro.

Ela não sabia? Santa Desidéria! Não relacionou o comportamento do filho com o do pai, que dias antes, com uma chave inglesa, causara lesão grave no Fernando Gogó.

Desaguão era devoto da cachacinha produzida no Beco da Bosta (o que motivou a mudança do nome daquela artéria – artéria é ótimo – para Beco da Indústria). Quando ficava de porre – e ficava um dia sim e o outro também – virava uma fera. Deixava de ser o cidadão cordial e prestativo que consertava torneiras dos vizinhos. Cheio do chá, esquecia canos, tubos, redes hidráulicas e saía pra porrada com Deus e o mundo.

Eis o que eu queria dizer. O Bairro de Aparecida é um retrato da sociedade americana, com uma diferença. Seus 6.996 moradores vivem em 2.222 casas, mas nenhum deles pode comprar armas legalmente, ao contrário da pacata cidadezinha de White Pine, no Tennessee, cujos 2.196 habitantes guardam armas nos 828 domicílios aonde residem.

No sábado (3/10), a população diminuiu. Um menino de 11 anos matou a tiros a vizinha de 8 anos, McKayla Dyer porque ela não o deixou brincar com seu cachorro de estimação. Alienado e perplexo, o xerife W. McCoig declarou:

– O menino é normal, não tem qualquer problema mental. Espero que nunca mais ocorra esse tipo de violência.

Espera sentado, porque vai ocorrer. Está ocorrendo. Todos os dias. O menino é normal, a sociedade onde ele vive é que não é.

O assassinato de uma criança por outra chocou o mundo, mas não é fato isolado. Recentemente foram vários massacres.

Christopher, 26 anos, matou nove pessoas numa escola de Oregon. Dylann Roof, 21 anos, assassinou outras nove numa igreja na Carolina do Sul. Adam Lanza, 20 anos, invadiu uma escola primária em Sandy Hook, disparou mais de 100 tiros e matou 28 pessoas, entre as quais 20 crianças entre seis e sete anos de idade.

Nos últimos mil dias, nos Estados Unidos, foram 994 ataques como esses, que mataram 1.260 pessoas e feriram mais de três mil, numa assustadora banalização da morte.

Na Nothern Arizona University, Steven Jones, 18 anos, matou um colega e feriu três; em Houston, o campus da Texas Southern University foi interditado, após tiroteio que deixou um morto e um ferido. Tiroteios em Denver, no Colorado e em Gret Falls, Montana. Tudo isso nessa sexta.

– É uma situação muito triste que ninguém pode explicar – disse o xerife do Tennessee.

Pode sim, dona Desidéria! Basta relacionar o fato de Tennessee com outro ocorrido no próprio sábado (3/10), na mesma hora, na cidade de Kunduz, no Afeganistão, quando ataque aéreo americano bombardeou um hospital mantido pela ONG humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), matou 22 pessoas e feriu 37: médicos, enfermeiras e pacientes, entre os quais três crianças.

– A decisão do ataque aéreo foi nossa, da cadeia de comando americano, mas atingiu o hospital por um erro. Lamento profundamente a perda de vidas inocentes. Nunca atacaríamos intencionalmente uma instalação médica protegida – declarou o general John F. Campbell, comandante das tropas da OTAN no Afeganistão.

O fipilhopó - Traduzindo na língua do “p”, o general é um fipilhopó da putapá. Premeditou o ataque. Achava que havia talibãs malocados no hospital e decidiu demoli-lo com bombas, “o que é um crime de guerra e exige investigação independente”, declarou a médica Joanne Liu, presidente da MSF.

O general Campbell, que pratica terrorismo de Estado, é um Desaguão? A Pátria dá mau exemplo ao Desaguinha do Tennessee? Parece que o cidadão comum acaba se espelhando na máquina de matar montada pelo complexo industrial-militar.

O presidente Obama confessou sua impotência diante da Associação Nacional de Rifles (NRA), que controla a bancada da bala no Congresso, tem quase 5 milhões de membros pagantes e impede qualquer regulamento de posse e uso de armas nos Estados Unidos.

Se o Geraldo Pimbinha fosse Gerald Little Cock, em vez de um arrebite de baladeira, teria pegado um tiro nos cornos. Welcome to city of White Pine.



José Ribamar Bessa Freire, professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio).

sábado, 16 de janeiro de 2016

SUPLÍCIO DE TÂNTALO

“Como pode” dizia a tiazinha na fila do caixa do supermercado, falando com a “vizinha” da frente, “como pode gente tão rica roubar tanto?”

“Verdade” diz a “vizinha”, já ganham tanto pra trabalhar tão pouco e querem mais e mais... “senador, deputado, governador, empresário... o que mais eles querem”?

Para responder as tiazinhas talvez o melhor fosse contar a história de Tântalo.

Tântalo era um rei da Lídia (ou Corinto). Filho de Zeus com uma princesa terrena, não era imortal.

Mas, por ser filho de Zeus, além de justo e leal com seu povo, tornou-se o preferido dos deuses e o único mortal a ser admitido à mesa dos olímpicos, onde desfrutava de todas as frutas, do néctar e da ambrosia.

Os deuses não escondiam sua predileção e isso foi parindo no íntimo de Tântalo, uma vaidade que não parou mais de crescer, sufocando as suas virtudes sem que ele percebesse.

Cego pela soberba, passou a se imaginar um igual entre os deuses.

Resolveu confirmar sua superioridade, enganando os próprios deuses.

Convidou a todos do Panteão para um banquete em seu palácio e, pondo em teste a onisciência divina, lhes ofereceu o alimento terrestre sob sua forma mais abjeta: a carne humana, de seu próprio filho, Pélops.

Mas os deuses, são sim oniscientes e reconheceram a blasfêmia jogando pra longe seus pratos. 

Apenas a Deméter (deusa da agricultura) perturbada pelo recente desaparecimento de sua filha Perséfone, estava tão desatenta que ingeriu um pedacinho da carne.

Furioso, Zeus ressuscitou Pélops, que retornou à vida faltando apenas um pequeno pedaço no ombro, reconstituído com mármore (marca), que passará a ser a marca do pecado da vaidade (tal qual o pecado original de Adão e Eva).

Como castigo Tântalo foi lançado ao Tártaro, onde, num vale abundante em vegetação e água, foi sentenciado pela eternidade a não poder saciar sua fome e sede, visto que, ao aproximar-se da água esta escoava e ao erguer-se para colher os frutos das árvores, os ramos moviam-se para longe.

Sabiam os deuses que muito dói estar tão próximo e ao mesmo tempo tão distante e que as vezes só a dor faz germinar a humilde.

O mito aborda o eterna inconformidade com o que é possível e o eterno desejo de ser maior e de como isso pode ser destruidor.

A cobiça incoerente de quem já tem tanto e mesmo assim corrompe-se.

O ser humano busca a felicidade suprema, não a felicidade possível. 

Quer o máximo, podendo esse máximo estar o Olimpo, o nirvana, o céu, ou um simples copo d’agua.

Sempre se considera merecedor, sem perceber que esse “merecimento” é um mito que cria sobre si mesmo e com valores próprios à sua psique, não necessariamente reais a quem está ao lado.

Conforme o mito, talvez muitos personagens envolvidos na corrupção grotesca de nossos dias possam até fugir da condenação da frágil justiça brasileira, mas, de um jeito ou de outro, nos dizem os gregos, não fugirão do seu Suplício de Tântalo.

Afinal, para esses, tudo é vaidade.




Prof. Péricles



quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

POLACAS ETERNAS

Por Moisés Rabinovici

As polacas estão ressuscitando.

Párias em vida, abandonadas por 30 anos no gueto em que se enterraram judias, em Cubatão, elas começam a renascer dos túmulos restaurados até junho pela Sociedade Cemitério Israelita de São Paulo, já personagens de quatro livros; estrelas de três projetos teatrais; tema de monografia, tese e conferências.

As polacas do “povo da Bíblia” estavam confinadas ao Deuteronômio: “Não haverá dentre as filhas de Israel quem se prostitua no serviço do templo, nem dentre os filhos de Israel haverá quem o faça” (23:17).

Um “aluvião de Messalinas” invadiu o Rio de Janeiro em 1872. “A horda de judias russas, alemãs e austríacas começou a aparecer na roda cortesã, nos teatros de última classe, nas ruas mais concorridas, mulheres de ademanes desembaraçados, rostos formosos, trajando com luxo e levando presa no olhar a atenção dos transeuntes que as observavam”, como registrou Os Cáftens, um folheto de Clímaco dos Reis.

Elas “paravam nas esquinas, nos corredores e jardins dos teatros, em toda parte e, com uma desenvoltura até então desconhecida, distribuíam bilhetes com seus nomes e moradias…” O Estado de 25 de julho de 1879.

A Província de São Paulo, publicou a notícia de que “duas alegres raparigas deliberaram dar algumas voltas na cidade em um elegante carrinho particular de passeio, tirado por um cavallo, e guiado por uma dellas, de nacionalidade russa, ao que ouvimos contar, e entendida naquellas façanhas hyppicas”.

Nas ruas da Liberdade (“ironias do acaso!”), as duas foram presas e levadas ao chefe da polícia, que as libertou “provando que aqui no Brazil, como na Rússia, é permitido à mulher guiar um carro particular”.

“Abre-se a porta e aparece a mulher, vestindo camisa de cores berrantes”, ele continua. “O freguês que foi despachado passa sem lhe dizer palavra; e o próximo entra, a porta se fecha.” Atônito, conclui: “Tão incrível é o número de fregueses recebidos num único dia que, antes de o revelar, necessário se faz dizer que ele foi confirmado pelas autoridades, pela sociedade judaica de socorros Ezras Noshim e pelos investigadores da Liga das Nações.”

Historiadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Margareth Rago “morreu de medo” ao penetrar no mundo misterioso das polacas e de seus rufiões para o livro Os Prazeres da Noite: Prostituição e Códigos da Sexualidade Feminina em São Paulo, 1890-1930 (Paz e Terra, 1991).

“Fui assustada por gente da comunidade judaica que não queria desenterrar o assunto.” Perguntavam-lhe: “Mas por que você quer mexer com isso?”

Ao saber agora das obras de restauro no cemitério de Cubatão, ela se mostra curiosa e irônica: “Redenção?”

Seguindo o rastro deixado há 50 anos no livro Le Chemin (O Caminho) de Buenos Aires, pelo poeta e famoso repórter Albert Londres, queimado como um arquivo num suspeito incêndio de um navio em 1932, ela identifica no Brasil os tentáculos dos poderosos “maquereaux”, os gigolôs franceses, e dos “polaks”, traficantes de judias das aldeias pobres do Leste Europeu.

Quando perseguidos na Argentina, os rufiones refugiavam-se nas filiais paulista ou carioca, onde mantinham até “escolas de prostituição”.

As máfias francesa e polaca importariam para a América do Sul cerca de 1.200 mulheres por ano, embarcadas nos portos de Gênova, Marselha, Anvers e Hamburgo.

Mas “dificilmente saberemos quantas vieram por vontade própria, ou iludidas com promessas de casamento e perspectivas estimulantes de enriquecimento”

Nos bordéis distinguiam-se as estrangeiras, “embora as raras estatísticas disponíveis registrem uma porcentagem superior de brasileiras”.

Madame O, de 80 anos, testemunhou a belle époque paulista como costureira francesa. E nunca encontrava brasileiras nos bordéis.

“Por quê?”, perguntou-lhe Rago, numa entrevista em 1989. “Porque elas não eram disso no meu tempo”, respondeu. “Quando cheguei ao Brasil, não havia mulheres (brasileiras) não… tudo francesas e polacas, muitas.”

Os judeus brasileiros não queimaram as “curves” (prostitutas, em iídiche) de Santos, do Rio e de São Paulo. Mas lhes reservaram, “impuras”, o mesmo chão dos suicidas que ousam findar a vida dada, e então só tirada por Deus: junto aos muros dos cemitérios.

“Die linke”, esquerdistas, marginalizadas, ou “as outras”, na tradução do jornalista Alberto Dines, as “curves” abriram seus próprios cemitérios, rezaram em sinagogas próprias e congregaram-se em sociedades de assistência mútua. Viveram e morreram judias. Mais do que esquecidas, expiaram. Abolidas, perpetuaram-se.

Eternas polacas.


OBS. Para saber mais sobre o assunto leia o texto "POLACAS" de março/2015, aqui no Blog.



Moisés Rabinovici, jornalista e grande repórter, correspondente durante muitos anos do Estadão em Israel, redator da Agência Estado, diretor dez anos do Diário do Comércio de São Paulo, até o fechamento da edição papel do jornal pela Associação Comercial de São Paulo.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

NOSSAS NOITES DE CRISTAIS



Uma data decisiva para a segunda guerra mundial foi o 9 de novembro de 1938. Isso mesmo, uma data anterior ao início da guerra propriamente dita que foi em 1º de setembro de 1939.

Tornou-se comum a afirmação de que o espetáculo de horror do nazismo ocorreu à margem da aprovação da maioria dos alemães, ou mesmo, contra a vontade dessa maioria.

Isso é desmentido na eleição vencida pela frente de extrema-direita em 1933 que levou Hitler ao poder e pela noite do 9 de novembro de 1938.

Nessa noite, também chamada de “A Noite dos Cristais” (Kristallnacht) as consciências que faziam de conta não ver e nem ouvir o que acontecia com os judeus, tiveram que assumir a sua sua cota de responsabilidade no que estava acontecendo.

Foi a noite do fim da inocência e do “eu não sabia”.

Foi assim.

Como sempre, utilizando-se de uma desculpa (o assassinato do diplomata alemão Ernst von Rath, por num conhecido judeu maluco, Herschel Grynszpan, em Paris), Hitler ordenou que, sob as ordens de Goebbels, agentes da SA (usando trajes civis para parecer um movimento espontâneo) atacassem os judeus, especialmente as lojas e sinagogas.

Evidentemente Hitler esperava a adesão dos cidadãos nazistas, mas, mais profundamente, ele desejava colocar os indecisos e opositores numa situação de cumplicidade, o que é muito mais do simples aceitação.

Por toda aquela noite, estabelecimentos comerciais judeus e sinagogas foram atacados e, a maior parte, incendiada.

Naquela madrugada 91 judeus foram assassinados tentando defender seu patrimônio e meio de subsistência, 7500 lojas foram reduzidas a escombros e 267 sinagogas foram completamente destruídas.

Como se não bastasse, os judeus foram acusados pelo poder público da responsabilidade pelas desordens e multados em um bilhão de marcos. Cerca de 30 mil foram presos e levados para campos de concentração.

Imagine o pavor das famílias judias, apertadas nos fundos de suas casas, vendo suas economias serem destruídas pelo fogo, sem nenhuma defesa. Como o pai judeu poderia explicar às suas crianças assustadas e em lágrimas em lágrimas, o que estava acontecendo?

É instigante pensar de que forma o barulhos dos cristais e vidraças quebradas atingiram os ouvidos dos alemães não-judeus, mas também, não-nazistas?

E mais do que aos ouvidos, como feriram as consciências?

Quantos viveram o resto de seus dias ouvindo o trepidar das chamas?

Se até ali fosse possível não acreditar na violência fascistas. Se até então preferissem acreditar no sorriso do fhurer e vê-lo como uma pessoa comum e a consciência podesse ser enganada permitindo o sono tranquilo, como proceder agora, diante dos cacos, dos sons das pedras e picaretas batendo nas vidraças e da luz das chamas que iluminaram cidade alemãs e austríacas durante toda aquela histórica madrugada?

Porque normalmente é mais confortável fingir não ver, nem ouvir.

Esquecem ou procuram esquecer, os que assim agem, que seu silêncio e sua falta de ação, já representa uma opção em favor do arbítrio.

O silêncio diante da monstruosidade permitiu o crescimento do Terceiro Reich e a tragédia da Segunda Guerra Mundial.

Hoje, o Brasil passa por suas “noites dos cristais”.

O silêncio não pode persistir diante do crescimento evidente do fascismo e do golpismo.

Não é possível permanecer fazendo de conta não perceber a manipulação da notícia por parte de uma mídia interessada na quebra da normalidade.

Ou manter o discreto sorriso reprovador escondido no canto de boca diante do fascismo crescente expresso nas redes sociais, nas piadas homofóbicas, racistas e misógenas.

O fascismo tem que ser combatido todos os dias, o tempo todo porque ele não está apenas nas ruas e na rede de computadores, mas no interior de cada consciência.

Que nosso povo não faça de conta não ouvir a quebra dos cristas que maltratam pessoas e incendeiam índios e flagelados nas calçadas.

Muito menos aceitar o débil discurso do ódio que combatem as sociais que afastaram milhões da miséria. Que acusam de privilégios as cotas das políticas afirmativas negando qualquer reparação com as injustiçasm do passado. Que defendem com sofismas a intolerância e a exclusão.

Ódio que fulmina o pobre, capaz de comprar um automóvel ou seu filho por fazer um curso superior.

As ditaduras são filhas do golpismo.

O silêncio é cúmplice e os cristais se quebram mesmo que se faça de conta não estar ouvindo.

Depois, não há espaço para “eu não sabia” pois a consciência gritará pela condenação, já que somos todos responsáveis pelo país que criamos.




Prof. Péricles



sábado, 9 de janeiro de 2016

ARISTEU, A GENTE COLHE O QUE PLANTA

Artêmis

Aristeu, filho de Apolo e da ninfa Cirene, foi, em parte, responsável pela morte de Eurídice na véspera do casamento com Orfeu. Ao tentar fugir de sua sedução, Eurídice acabou sendo picada por uma serpente.

Era adorado como protetor dos caçadores, pastores e como o pai da apicultura, sendo senhor e mestre de todas as abelhas.

Apesar de filho de Apolo, não possuía (como Orfeu e Eurídice) a imortalidade.

As ninfas, companheiras e amigas de Eurídice, ficaram com tanta raiva de Aristeu que atacaram seu ponto mais fraco, aquilo que mais amava, suas abelhas, matando-as sem deixar sobrevivente.

O primeiro apicultor do universo entrou em estado de prostração e pediu ajuda para sua mãe, que por sua vez indicou-lhe pedir ajudar a Protheus, o velho e sábio profeta.

Bom destacar que todos estavam indignados com Aristeu, até sua mãe, pois o amor verdadeiro de Orfeu e Eurídice, que ele destruíra, embelezava o seu mundo e agora apagara-se deixando apenas tristeza.

Depois de uma luta enorme, em que teve que superar seu próprio medo, Aristeu conseguiu obter os conselhos de Protheus: “Deves reconhecer a besteira que fez interferindo no amor alheio, depois disso render homenagens fúnebres a Eurídice, e finalmente, sacrificar quatro dos mais belos touros e quatro de suas melhores novilhas e deixar as carcaças no bosque, cobrindo-as com folhas. Volte lá apenas depois de nove dias.

O apicultor seguiu as instruções e os próximos nove dias foram de expectativa e ansiedade. Mas ao retornar ao bosque encontrou um enxame de abelhas e uma nova colmeia.

Mas, suas tragédias ainda estavam longe de terminar.

Teve apenas um filho, Acteon. Um dia, enquanto caçava no bosque Acteon deparou com Artêmis, banhando-se totalmente nuas num lago.

Artêmis, a deusa da caça, uma das filhas diletas de Zeus, sempre foi famosa por sua castidades e timidez, preferindo a solteirice e a reclusão das matas. Ao perceber que era espionada ficou furiosa, segurou um pouco da água nas mãos e a soprou no espião, que se transformou, na hora, em um... veado.

Depois disso, o pobre Acteon teve pouco tempo de vida, pois foi perseguido e morto pelos seus próprios cães de caça.

Segundo o mito, Aristeu jamais se recuperou da perda do único filho, recolheu-se num monte na Itália, onde viveu muitos anos e onde morreu na mais completa e triste solidão.

O mito de Aristeu nos transporta à necessidade de todos nós de recomeçar, em algum momento de nossas vidas.

Assim como Aristeu somos frágeis, expostos e traídos pelos instintos e pelas paixões, aprendendo, às vezes, da forma mais cruel que, podemos fazer coisas num instante do qual nos arrependemos o resto de nossas vidas.

Recomeçar pode implicar em saber esperar e ter humildade e paciência. Assim como Aristeu esperou nove dias para ter suas abelhas de volta, nós, às vezes, podemos ter que esperar uma vida inteira até aprender onde erramos com nossos semelhantes.

O protagonismo das abelhas consideradas símbolo de castidade e de Artêmis, indica, de alguma forma, a importância do respeito ao direito feminino sobre seu corpo e seus desejos e suas escolhas.

Aristeu nos ensina, ainda, a importância de reconhecer nossos próprios erros.

Diziam os gregos que ele, inicialmente, se considerava vítima de Eurídice que lhe arrebatara o coração a ponto de nunca mais querer outra mulher, e de ter passado a maior das humilhações ao ser preterido por outro (Orfeu) e a aceitação de seus erros aconteceu apenas no final de sua existência.

Finalmente, sua morte melancólica, longe dos olhos dos simples mortais e na mais completa solidão nos recorda que cada ação, seja ela boa ou má, implica numa reação, que as vezes nos faz sofrer, mas que é na verdade, um aprendizado e simples consequência daquilo que plantamos.



Prof. Péricles

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

ISRAEL E O EMBAIXADOR DA DISCÓRDIA


Desde a Guerra dos Seis dias, em 1967, Israel ocupa a região da Faixa de Gaza e da Cisjordânia que, conforme a ONU ao criar o próprio estado de Israel em 1948, é território da Palestina independente.

Para solidificar a ocupação, Israel criou os nefastos “assentamentos” que são pequenas, mas confortáveis vilas habitadas apenas por judeus.

Isso define claramente a ocupação não como temporária, mas como colonial.

É claro que tal situação irrita profundamente os palestinos (imagine você se um estado estrangeiro ocupasse o Rio Grande do Sul e passasse a criar vilarejos lá pelos pampas).

Os assentamentos representam a maior dificuldade para qualquer processo de paz. É o estigma mais cruel do invasor e a humilhação maior  para os invadidos.

Com relação aos assentamentos observam-se diferentes olhares e consequentes ações por parte dos israelenses.

Há os que reconhecem que o primeiro passo para a paz deve ser dado por Israel com o fim dos assentamentos, como Itzak Rabbin primeiro-ministro assassinado por um jovem judeu ortodoxo na década de 90.

Tem os que reconhecem a arbitrariedade e não esquecem que uma moção da ONU determina a imediata desocupação dessas áreas (mas vetada pelos Estados Unidos), porém, por terem interesses diretos ou indiretos nos assentamentos, ou mesmo por medo de que isso fortaleça os palestinos recusa a idéia de avançar nesse sentido.

Há também israelenses que negam qualquer direito aos palestinos, não reconhecem os assentamentos como focos de crise e são contra qualquer medida séria que busque a solução do problema.

Entre esses últimos um sujeito bem conhecido é Dani Dayan.

Esse político nem chama a Faixa de gaza e a Cisjordania mas de Judéia e Samaria, os nomes bíblicos da região.

De fato, Dayan se declara abertamente contrário à solução de dois Estados, aprovada na ONU sendo totalmente contrário à existência de um Estado Palestino.

Na verdade, ele não acredita, nem apóia, qualquer solução pacífica para a questão e defende a dominação através da força, chegando a ameaçar, num passado recente, o próprio governo israelense contra qualquer concessão aos palestinos.

Pois agora, essa flor de criatura foi designada como embaixador de Israel no Brasil.

Detalhe: o procedimento usual entre todos os países é que o governo que indica um  novo embaixador consulte antes o governo que vai recebe-lo para evitar qualquer tipo de contrariedade com o nome indicado, e isso, Israel não fez, em mais uma demonstração de falta de ética e respeito às normas internacionais.

Só que o Brasil hoje, é governado por gente vertebrada que defende o processo de paz na região e o respeito aos palestinos, e, dessa forma, o Itamaraty recusou a imposição de Dani Dayan guela abaixo e já declarou que espera um embaixador que não represente a colonização da Faixa de Gaza e da Cisjordânia.

Em resposta com o velho estilo truculento sionista, a vice-ministra das relações exteriores Tzipi Hotovely, ressaltou que Israel não enviará outro embaixador  e que seu país está “lidando com o caso de forma discreta, mas que adotará ferramentas alternativas públicas  para repreender o Brasil”.

Incentivado pela arrogância de seu governo o próprio Dayan fez questão de mostrar sua soberba em relação ao nosso país declarando que “Netanyahu não pressionou o governo brasileiro o suficiente para forçar a minha nomeação”, e complementou em entrevista ao jornal Haaretz: "Não sei se serei o embaixador no Brasil e, pessoalmente, não me importa muito. Aliás, isso tornaria as coisas muito mais fáceis para mim [não ir para o Brasil], mas estou lutando pelo próximo embaixador que venha a ser um colono".

Israel, mais uma vez, demonstra seu estilo grotesco, belicoso e autoritário de ver o mundo além do seu umbigo e suas relações políticas.

Que o povo brasileiro saiba reconhecer a grandeza do gesto de seu governo através do Ministério das Relações Exteriores que, certamente, deverá ser aplaudida pelas demais nações latino-americanas além de todas aquelas que respeitam as resoluções da ONU, a 4ª Convenção de Genebra e as decisões da Corte Internacional de Justiça, que asseguram a soberania das nações.


Prof. Péricles



segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

CAFÉ FILHO EDIÇÃO 2015


Por Mário Augusto Jakobskind


A história do Brasil através dos tempos retorna algumas vezes de forma repetitiva, mas sempre como farsa. A história dos vices deve ser lembrada.

Em 1954, por exemplo, quando da crise que resultou no suicídio do Presidente Getúlio Vargas, que como se sabe acabou o banquete golpista, o vice Café Filho, egresso das fileiras do partido de Ademar de Barros, o tal político conhecido como “roubou, mas fez”, acabou se aliando aos golpistas, traindo o titular do cargo e o Brasil.

Não durou muito tempo.

Na ocasião, Café Filho contava com o apoio ostensivo de uma mídia golpista, onde se destacava, além da Tribuna da Imprensa, o panfleto de Carlos Lacerda, o jornal O Globo, comandado pelo empresário Roberto Marinho.

Agora, em 2015, de novo surge um vice-presidente que já não esconde o desejo de ocupar o cargo no lugar da Presidente Dilma Rousseff. Trata-se de Michel Temer, considerado pelo agora pedetista Ciro Gomes como o “capitão do golpe”.

A imprensa nacional, de novo capitaneada por O Globo, passou a endeusar Temer, com matérias especiais sobre ele. E todas muito simpáticas ao vice-presidente, que passou a ser uma nova edição farsa de Café Filho.

Michel Temer dificilmente conseguiria chegar à Presidência numa eleição direta e por isso ele não se incomoda de coroar a sua carreira política ocupando o cargo máximo da nação brasileira através de um impedimento de Dilma Rousseff, impedimento, diga-se de passagem, sem base legal, a não ser pela investida de grupos que querem voltar a gerenciar o Estado brasileiro.

O “capitão do golpe” em outras ocasiões se alinhou com partidários do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Quanto a isso não há dúvidas.

Conta-se até uma história nos bastidores políticos que quando remanescentes do PMDB fundaram o PSDB, Michel Temer queria aderir, mas foi aconselhado pelos próprios tucanos, entre os quais Mario Covas, a permanecer no PMDB, pois nesse partido poderia ser de utilidade para a nova sigla que estava sendo criada. Temer sem pestanejar obedeceu a “ordem” e durante todos os anos manteve-se fiel ao PSDB, mesmo sendo vice-presidente numa composição com o PT.

Neste momento novamente os partidos de direita como o PSDB e o DEM, incluído também o PPS, um agrupamento formado por ex-comunistas, que como todos ex de qualquer espécie acabam se tornando muito mais realistas do que o rei, voltaram às boas com Eduardo Cunha. O deputado Roberto Freire que o diga. E tudo em nome do “pragmatismo” político por ter Cunha aceito o ritual de uma nova forma de golpe de estado.

Eduardo Cunha joga todas as suas cartas, mesmo queimado, na ascensão de Michel Temer. O presidente da Câmara acredita que se tal acontecer, o amigo e correligionário vai tentar de todas as formas livrar a sua cara. Faz parte do jogo do PMDB. Cunha sabe perfeitamente que se a decisão sobre o seu futuro ficar na dependência apenas da Justiça, poderá perder as bocas. É o que pelo menos se espera.

Ele conta com os correligionários, haja vista à ação vergonhosa de alguns deles na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados, que fazem o possível e impossível para livrar a cara de Cunha.

É neste quadro lamentável que vive o Brasil. Diariamente tem havido surpresas, muitas delas negativas, inclusive o não pronunciamento judicial imediato sobre a continuidade de Eduardo Cunha na presidência da Câmara dos Deputados e até mesmo a sua prisão, já alardeada até pelo peemedebista Rena Calheiros, presidente do Senado.

Café Filho, ou melhor, Michel Temer aguarda com ansiedade o desenrolar dos acontecimentos e sem perder tempo já está pensando na formação de seu ministério para levar adiante o seu projeto Brasil, apoiado pelo PSDB. Tanto assim que nos bastidores já se fala até na indicação do senador José Serra, o tal político mencionado no site WikiLeaks como prestador de serviços às multinacionais petrolíferas, entre as quais a Chevron.

Aliás, vale uma pergunta que não quer calar: Serra seria Ministro de um governo brasileiro ou funcionário da Chevron?

Se o momento atual do Brasil é considerado ruim podem imaginar o que seria num governo de “união nacional” entre a facção golpista do PMDB, o PSDB, o DEM e o PPS?

Serra e outros do gênero, entre os quais Moreira Franco, o tal “gato angorá”, segundo Leonel Brizola, ocupariam grandes espaços para levar adiante um projeto que em pouco tempo levaria o Brasil para o abismo total.




Mário Augusto Jakobskind, jornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil).




sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

BRIZOLA, HERÓI NACIONAL



Nasceu no Vilarejo de Cruzinha, hoje município de Carazinho em 22 de janeiro de 1922.

Chegava cedo no colégio trazendo os dois sapatos nas mãos e, só então, já no pátio, os colocava nos pés. Motivo: poupar as solas pois era o único par e sabe lá quando poderia ter outro.

Seu verdadeiro nome era Itagiba, mas, ao entrar na política adotou o nome de um líder maragato da Revolução Federalista de 1923, Leonel Rocha.

Rebelde desde criança, Itagiba nunca se conformou com a pobreza de tantos se comparada com os poucos que viviam em opulência.

Nunca aceitou ordens ou gritos como forma de coação.

Sabia pilotar aviões e era nas alturas que sentia-se senhor de si mesmo, o mais próximo que podia chegar daquilo que mais amava, a liberdade.

Com seu linguajar simples, mas reconhecido por todos e de um carisma extraordinário, tornou-se uma das mais importantes lideranças do PTB, partido político criado por Getúlio Vargas para unificar os movimentos trabalhistas.

Foi deputado estadual e governador do estado do Rio Grande do Sul nos difíceis anos 1961-1964, quando o país equilibrava-se entre a normalidade e o golpe.

Escreveu de forma heroica uma das páginas mais belas de nossa história, a “Campanha da Legalidade”, fazendo aquilo que todos queriam, mas que ninguém tinha coragem, enfrentar os militares e os golpistas que pregavam o golpe contra o presidente João Goulart.

Não há brasileiro vertebrado que não se identifique com imagem de Brizola acuado no bunker nos porões do Palácio Piratini, ameaçado de bombardeio, de prisão, de morte, falando nos microfones da Rádio Guaíba para o estado inteiro, conclamando pela resistência e desafiando todo o poder que lá fora, cercava a sede do governo gaúcho.

Foi Brizola que impediu o golpe em 1961 depois da renúncia de Jânio Quadros.

Foi de Brizola uma das poucas vozes a conclamar a resistência ao golpe em 1964.

Sozinho, com a desistência do próprio presidente, foi obrigado a se exilar no Uruguai e mais tarde nos Estados Unidos e em Portugal.

Teve que passar mais de 20 anos longe do Brasil, sem dúvida o maior sofrimento que poderia suportar.

Casado com a irmã de João Goulart ficou 10 anos, nesse período de exílio, sem conversar com o ex-presidente, indignado pela falta de luta do cunhado.

Mesmo no exílio, apoiou, fortaleceu e auxiliou como pode, os movimentos de resistência e de luta armada contra o regime militar.

Era o homem mais odiado pelos generais-presidentes e sua camarilha civil e militar. Jurado de morte e perseguido durante a “operação condor”.

Foi Presidente de Honra da Internacional Socialista e assistiu emocionado a Revolução dos Cravos em Portugal.

Ao retornar foi insistentemente prejudicado pelas associações Globo e filiadas.

Teve a sigla “PTB” sonegada pela Justiça Eleitoral e fundou o PDT.

Candidato ao governo do Rio de Janeiro teve que enfrentar a divulgação de pesquisas falsas e de uma tentativa de fraude nas contagens dos votos que tinha como executores a mídia golpista.

Foi o responsável por uma das maiores vergonhas da TV Globo, obrigada pela Justiça Eleitoral a divulgar, através da leitura de Cid Moreira em horário nobre do Jornal Nacional, uma nota em que Brizola relatava a fraude de que quase fora vítima e o papel nefasto da Globo contra ele.

Seu governo do Rio de Janeiro (foi o único político do Brasil a governar dois estados diferentes) foi boicotado diariamente, quando 80% do tempo do Jornal Nacional era de transmissão de notícias negativas, principalmente sobre a violência urbana, sendo a responsabilidade apontada sempre no governador.

Brizola foi candidato a presidência nas eleições de 1989 perdendo para a Lula a vaga para disputar o segundo turno contra Color por um fiapo de votos.

Foi ainda candidato a presidente em 1994 e a vice na chapa de Lula em 1998.

Leonel de Moura Brizola deveria ser eterno, mas a morte, inexorável, o atingiu em junho de 2004, vítima de problemas cardíacos.

De lá para cá deixou um vazio que não esteve nem perto de ser suprido por qualquer político.

Agora, uma liderança que nunca negou a enorme admiração por ele, e que o designa como um de seus ídolos, a Presidente Dilma Rousseff, sancionou seu nome para ser incluído no “Livro dos Heróis da Pátria”.

O livro, com páginas de aço, fica exposto no Panteão da Pátria, na Praça dos Três Poderes, em Brasília e contém, nomes como de Tiradentes, Zumbi dos Palmares, D. Pedro I, Duque de Caxias, Santos Dumont, Chico Mendes, Getúlio Vargas, Anita Garibaldi.

A lei sancionada por Dilma em 29/12/2015, também altera o tempo necessário para que uma personalidade possa ser homenageada no Livro dos Heróis da Pátria após sua morte, de 50 para 10 anos.

Mas, não serão os anos que contarão a validade do herói para o imaginário popular e a saudade nacional.

Itagiba que lutou para que nenhuma criança precisasse chegar no colégio carregando nas mãos os sapatos, e que foi o criador da primeira experiência de reforma agrária do país, agora pertence à história.

Já a sua alma, sobrevoa os espaços da liberdade, assim como quando pilotava aviões sobre o Rio Grande amado e sonhava liderar o país nos caminhos da igualdade.


Prof. Péricles