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sexta-feira, 29 de abril de 2016

DOS BANCOS QUE NÃO VEMOS



Minha querida colega Maria Alice é uma pessoa muito especial no nosso meio.

Amada por seus alunos, respeitada por seus colegas, preciosa para seus amigos.

Curiosidade de criança é capaz de fazer toda sala de professores rir, mesmo nos piores momentos, com uma simples pergunta.

Capaz de encurralar até um veterano professor de história como eu com questionamentos inéditos e impensados.

Mas, não se conhece todo um tesouro com apenas um olhar, e minha amiga Maria Alice desafia todos os olhares.

E num deles, mesmo que furtivo, somos capazes de descobrir riquezas escondidas nessa professora de português.

Mesmo que ela não aceite, mesmo que ela resmungue, tenha certeza... disfarçado naquele jeito de menina espavitada se esconde uma poetisa de talento e teimosia.

No texto abaixo, por exemplo, ela nos fala de algo muito comum e no qual esbarramos com frequência, mas, na pressa de levar os dias para frente, não damos o valor necessário, já que tudo é trivial nesse nosso andar de hoje em dia.

Os bancos das praças e das cidades, estão ali, e não vemos.

Silenciosas testemunhas de tantas juras e de tantos abandonos aceitam humildemente nossa ignorância.

Para eles basta estar ali, onde o teremos sempre que quisermos recostar nossas dores para tomar fôlego diante do caos.

Aos olhos do poeta, entretanto, eles são visíveis como o sol que nos anima.

Leiam o texto, e descubram a poetisa, Maria Alice Mendes, minha amiga.


DOS BANCOS QUE NÃO VEMOS


Os bancos me perseguem.

Aonde vou, eu os encontro. Até no pátio dos hospitais.

Parecem sinais! De que devo parar. E sentar. E pensar. Afinal, quanto tempo me resta?

Por mais que seja, é menos. Bem menos do que já foi. Do que fui. Então, que eu pare.

Que eu repare. Que eu preste atenção. Que eu escute mais uma vez aquela canção.

Que nada mais me passe (como já passou) sem que eu veja, sem que eu perceba que foi uma pena não ver o que eu não vi. E deixar de viver o que não vivi.

Que eu mantenha os meus olhos atentos, pois que ainda há tempo, sim! De reler Os Tambores de São Luiz, de fazer o que não fiz, de dizer o que eu não disse.

Claro que não será como seria, se eu tivesse dito (na hora de dizer).

Mas, e quem sabe?? E a hora não é agora?? Porque agora (e há muitas e muitas horas) eu já me desfiz dos falsos brilhantes, daqueles sonhos que sempre foram muito distantes.

Agora, eu tenho os bancos que vejo (e que fotografo) e tenho um novo retrato de mim.

Acho que vou, realmente, me sentar nesses bancos (e o farei sem culpa).

Se mais não fiz, não fiz porque não pude fazer. Então vou reler nem só Os Tambores de São Luiz, mas toda a obra de Machado de Assis.

E assim vou reinventando a vida, pois que "a vida só é possível, reinventada".

Isso não é um desencanto. É um novo canto, que canto, e me encanto de poder cantar (apesar dos pesares) e dos outros cantares que não deu para cantar.



Prof. Maria Alice Mendes

domingo, 24 de abril de 2016

É GOLPE SIM!


Por Mino Carta


Perdoem os leitores a exclamação, mas a arrogância e a desfaçatez dos conspiradores passaram da conta.

É golpe, é golpe sim. Verdade factual, diria Hannah Arendt, a verdade única, inegável.


A despeito das afirmações em contrário de pançudos alquimistas do engano, envoltos em prosopopeia. E dos editorialões dos jornalões e programões, e das colunas e reportagens dos sabujos midiáticos, de lida tão árdua com o vernáculo, mas de fantasia acesa.

E dos rentistas que se dizem empresários de um país que exporta commodities, de juizecos provincianos e advogados mafiosos que em cada lei enxergam a oportunidade de burlá-la. E de agentes ditos da ordem empenhados em semear a desordem e de funcionários do Estado dispostos a financiar no exterior campanhas a favor do golpe, como Furnas a patrocinar tertúlias lisboetas de Gilmar Mendes e José Serra.

Fato é que os argumentos aduzidos para justificar o impeachment não se prestam ao propósito. Quem diz: golpe não pode ser “algo que existe na Constituição” expõe apenas sua parvoíce.

Exatamente por ser previsto pela Carta, o impeachment no caso é impraticável, como aliás confirma o ministro Marco Aurélio Mello, consciente de sua função de magistrado. De todo modo, pedaladas fiscais são práticas comuns dos governos brasileiros.

Cabem, na exposição da verdade factual, comparações entre o presidencialismo à brasileira e o americano, ou o francês. Bush júnior foi calamitoso como presidente ao ponto de levar seu país a uma guerra precipitada pela mentira e pela hipocrisia, enfim,

inexoravelmente provadas.

Nem por isso deixou de governar até o fim. Barack Obama governou por boa parte do seu segundo mandato sem contar com maioria parlamentar, e nem por isso foi impedido.

François Hollande há dois anos não alcança nas pesquisas 20% de aprovação popular, e nem por isso deixa de governar. Será que o nosso presidencialismo está habilitado a dispensar o peso constitucional de uma eleição ganha em proveito dos números de um ibope qualquer?

A verdade factual oferece largo espaço à raiva que hoje medra na chamada classe média, ódio desvairado insuflado pela ofensiva midiática. Vale acrescentar um adjetivo: irracional. Fruto de ventos malignos e, de certa forma inexplicáveis, a soprar entre o fígado e a alma.

Aparentado com a raiva da pequena burguesia que gerou, por caminhos distintos, o fascismo e o nazismo, lembrança esta despida da pretensão de confrontar o estágio cultural das nossas classes A e B com a pequena burguesia de Alemanha e Itália dos começos do século passado.

Quem no Brasil se considera burguês, quando não aristocrata, não se expandiu muito além dos tempos da Pedra de Roseta. O ódio, entretanto, é parecido, eivado de recalques e preconceito. De todo modo, não será fascista ou nazista o desfecho da tragédia.

Hoje os EUA reatam com Cuba e certamente não enxergam no Brasil o seu quintal, graças à política exterior independente praticada por Lula e seu chanceler Celso Amorim. Sabem, porém, que significaria dar continuidade àquela política, como aconteceria se Lula voltasse ao poder. Resultaria no fortalecimento da aliança dos BRICS, que tende cada vez mais a tomar caminhos conflitantes em relação aos interesses norte-americanos.

Em 64, a casa-grande chamou os soldados para executar o trabalho sujo, desta vez os tanques são substituídos pelas togas de uma Justiça politizada, sequiosa por empolgar o poder em uma república justicialista.

Patética, emoldurada em ouro, a desculpa dirigida ao STF pelo juiz Moro por seus grampos ilegais e ilegalmente divulgados, a revelar uma vocação de humorista quando diz não ter agido com propósitos político-partidários. Pelo contrário, são estes exatamente os propósitos de futuro desta magistratura açodada, intérprete da Justiça desvendada.

O golpe de 64 gerou uma ditadura de 21 anos e de cujas consequências padecemos até hoje. Vale perguntar aos botões se o plano togado tem chances de êxito caso o impeachment premie os conspiradores de sempre. Impossível, respondem, à luz do que chamam de premissas da próxima, eventual, verdade factual.


Desta vez, os conspiradores estão divididos por divergências insanáveis e, se lograrem atingir o alvo comum, entrarão em conflito no dia seguinte. Dia nebuloso, caótico, de tensões espantosas. Chegassem ao governo, os cultores do poder pelo poder cuidariam de acabar de vez, como providência automática e imediata, com a Lava Jato.

Que é possível esperar de um governo Temer? Quem sabe José Serra na Fazenda. Que tal Rubens Barbosa chanceler e Miguel Reale Jr. na Justiça? Retorno ao afago norte-americano, leilão dos bens brasileiros a começar pelo pré-sal, distanciamento dos BRICS.

O progressivo galope decadência adentro. Súditos de Hillary ou de Trump? A esta altura, não consigo ver diferenças entre os dois, ao menos deste meu ponto de observação verde-amarelo.

As falhas do governo atual não se discutem, começam pelo estelionato eleitoral cometido pela presidenta Dilma ao convocar para a Fazenda um bancário neoliberal com o propósito transparente de acender um círio ao deus mercado.

Nada, porém, do que a acusam sustenta a conspirata e justifica o impedimento, assim como nada admite a pretensão de Sergio Moro de prender Lula. Houvesse provas cabais, já estaria preso. E esta é a verdade factual.

Certa agora, no País à deriva, é a falta de liderança. A presidenta Dilma encontrou finalmente o tom certo e a veemência necessária nos seus últimos pronunciamentos, mas perdeu a chance de assumir o comando do País e talvez jamais o tenha perseguido.

Ela parece satisfazer-se com a autoridade que lhe compete nas reuniões do ministério. De resto, o Brasil contou com poucos líderes populares autênticos, sem exclusão de Antônio Conselheiro, e dois se sobressaem, Getúlio Vargas e Luiz Inácio Lula da Silva. Getúlio repousa no panteão da memória, Lula está vivo.





Mino Carta, de CartaCapital

sábado, 23 de abril de 2016

O PODER DO VÁ SE FERRAR

O repertório de vocábulos utilizados na linguagem política é muito rico.

Essa riqueza varia em sua origem e fim. Pode ser rico em lustro intelectual, rico em significados, rico em oficialidade, etc.

O linguajar popular, por sua vez, também é rico. Pergunte a qualquer linguista ou professor de português.

Mas, geralmente não se mistura, a fala popular com a fala oficial.

Algumas expressões populares, porém, utilizadas por políticos deram vazão a uma enorme riqueza de significados e tornam-se inseparáveis do autor.

Muitos não lembram de Ronald Reagan, mas utilizam até hoje a expressão “Império do Mal” criada por ele para definir os “perigosos” à segurança dos Estados Unidos: União Soviética, Irã e Coréia do Norte.

No Brasil é o caso de “trabalhadores do Brasil” de Getúlio Vargas ou do “filhote da ditadura” de Leonel Brizola.

Brizola, aliás, possivelmente, era o mais profícuo nesse quesito, tendo tornado imortal os “interesses” com o primeiro “e” pronunciado com assento, ou ainda o “sapo barbudo” para definir Lula e a necessidade de engolir sapos na política.

Lula imortalizou o “nunca antes na história desse país”.

Algumas expressões, no entanto, são mais chulas, e nem por isso, menos imortais.

Possivelmente tenha faltado isso para a presidente Dilma.

Um eficiente assessor político (que falta fez para Dilma) deveria recomendar uma expressão que é cheia de significados populares e ao mesmo tempo rica em sua mensagem mais profunda. O “vai se ferrar”, variação educada do imortal “vai à merda”.

Quando a mídia censurou sua ida ao encontro de Lula após a ida “coercitiva” determinada pelo juiz paladino dos bons costumes, Dilma deveria ter dito simplesmente, “vai se ferrar” e mais nenhuma atenção ao fato.

Claro que a mídia cairia de pau censurando o uso de uma expressão tão grosseira na boca de uma presidente, mas, cá entre nós, isso faria alguma diferença? A mídia golpista alguma vez elogiou Dilma por ser “tão boazinha”?

Agora queriam impedi-la de uma viagem oficial até a ONU alegando que ela iria aproveitar o momento para criticar a política brasileira e “se fazer de vítima”.

O que Dilma deveria fazer era simplesmente mandar se ferrar e denunciar mesmo ao mundo, como já deveria ter feito antes, o golpe praticado no Brasil.

Imagine uma coletiva e diante de uma pergunta de repórter brasileira Dilma perguntasse “Você é da Globo? ” e diante do aceno positivo respondesse com um cheio, amplo, bem claro e sonoro “vai se ferrar”.

Dilma já deveria ter gritado ao mundo o golpe que estão aplicando nela. Já deveria ter pedido auxílio da Corte internacional de Haia sobre os desmandos jurídicos que se praticou no Brasil, e, embora muito tarde, faz muito bem em divulgar o golpe que está sendo aplicado aqui até para defender a democracia em outros pontos desse continente.

Você é golpista? Vai se ferrar.

Você votou “sim” em nome da mamãe, da esposa, da moral e dos bons costumes sem se ater à responsabilidade do fato? Vá se ferrar.

Vai se ferrar. Simples assim.

Vá se ferrar juiz que pensa que é Deus. Vá se ferrar eleitor mal perdedor.

Vão se ferrar todos os fascistas.

A esquerda do Brasil é muito bem-educada e observadora da etiqueta e da ética.

Está faltando a presidente Dilma um bom lado Leonel Brizola.

Ah, e bons assessores também.



Prof. Péricles



quarta-feira, 20 de abril de 2016

GESTOS QUE DIZEM TUDO


Gestos muitas vezes dizem mais do que mil palavras.

O sopro de mãe para tirar nossa dor é gesto que buscamos reencontrar pelo resto da vida em outras circunstâncias.

O braço erguido com a euforia da vitória, as mãos unidas em prece...

JK inventou a mão espalmada para lembrar que possuía plano de governo com 5 ênfases e também para representar a promessa de cinquenta anos de desenvolvimento em cinco de governo.

Getúlio sorridente com seu cachimbo e acenando com o braço acima da cabeça dizia para todos o “trabalhadores do Brasil” mesmo sem falar.

O capitão Beline da seleção brasileira de futebol inventou o gesto de erguer a taça com as duas mãos acima da cabeça em 1958 e é imitado até hoje.

E o gesto de Rosa Parks de, simplesmente permanecer sentada no banco do ônibus depois de um dia cansativo de trabalho em vez de dar o lugar a um branco? Quanta resistência sem palavras...

Nas Olimpíadas de 1968 na Cidade do México, os atletas negros norte-americanos Tommie Smith vencedor dos 200 metros rasos e John Carlos, medalha de bronze, no alto do pódio, após receberem as medalhas ergueram os punhos fechados, gesto símbolo dos Panteras Negras, movimento negro de luta contra a segregação racial nos Estados Unidos. Foram punidos e expulsos da cidade olímpica, mas o gesto nunca mais foi esquecido.

O V com os dedos das mãos hippies que lembrava o “paz e amor”, o braço estendido dos nazistas que lembrava o ódio...

Sim, gestos as vezes falam por si mesmos.

Os judeus cuspiam no chão sempre que passava por eles alguém considerado alienado de suas leis religiosas e civis, gesto que, segundo os evangelistas, foi censurado por Jesus.

Mas ao longo do tempo, Jesus que nos perdoe, o cuspe criou vida própria e se tornou símbolo universal de desprezo.

O cuspe do deputado Jean Willis no também deputado Jair Bolsonaro tem toda a força necessária para se tornar um gesto icônico.

Segundo palavras de Jean Willis, o mínimo que ele poderia fazer diante do olhar debochado de um fascista era isso mesmo, cuspir.

Não é o gesto que se espera ver num lugar que deveria representar o encontro civilizado de defensores de ideias as vezes radicalmente diferentes.

Não é algo de boa educação, que se ensine aos filhos.

Mas, sem dúvida, é aquilo que muitos gostariam de fazer para marcar de forma indubitável seu desprezo ao fascismo e aos fascistas.

Diante da vitória do conluio hipócrita de tantos lobos travestidos de cordeiros e da indignação diante da ousadia de alguém capaz de elogiar e dedicar seu voto a um torturador que, entre outras pérolas de crueldade, costumava inserir um rato nos orifícios fisiológicos de suas prisioneiras, talvez não restasse mesmo, ao deputado do PSOL, outra coisa para fazer.

Foi feio? Foi sim.

Foi deselegante? Sem dúvida.

Mas, com o perdão da etiqueta da tolerância, coisa aliás, rara entre os fascistas, foi merecido.

Mais uma vez um gesto sem palavras disse milhares de coisas.

Coisas que boa parte da população brasileira e muitos familiares de mortos e desaparecidos na Ditadura Militar gostariam de dizer.



Prof. Péricles



segunda-feira, 18 de abril de 2016

SOBRE GOLPES E CULPAS

Buscando entender melhor a crise brasileira em seus desdobramentos até o 18 de abril, data da aprovação do pedido de impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, o Blog ousa selecionar abaixo o que considera como os maiores responsáveis pela difícil situação a que chegou a democracia brasileira.  Além de apontar os fatos buscou-se também hierarquizar as responsabilidades do menor para o maior.


6º Lugar: A Cultura Golpista Brasileira

Temos uma tradição de golpismo em nossas veias históricas. Normalmente se prefere a extração do que a reparação. Nossa classe média mais uma vez demonstrou ser uma das mais preconceituosas do planeta, enquanto nossas elites (aquela mesma que se recusou abolir a escravidão por um século inteiro) demonstram seu lado mais reacionário e perverso. A cultura do golpismo presente nas campanhas anti-Lula e anti-Dilma, que dá vitória eleitoral para qualquer um que não seja candidato do PT em estados importantes, como o Rio Grande do Sul, se manifestou latente nos meios de comunicação e nas conversas de esquina, reforçada pela intolerância e pelo racismo tão vivo e tão negado entre nós.

5º Lugar: A Crise Financeira Internacional

O mundo do capital passa por uma de suas piores crises pós a Segunda Guerra Mundial. Essa crise começou em 2008, nos Estados Unidos, mas, graças às políticas de novas parcerias do presidente Lula, não nos atingiu como em outros tempos e por aqui passou como uma “marolinha”. Em 2010 a tsunami econômica chegou à Europa e ao Oriente, e, desde então, vem ameaçando desde economias de papel sustentadas pela União Europeia até gigantes como a Itália e a própria China que desacelerou o ritmo do crescimento depois de duas décadas frenéticas. Dessa vez a crise nos atingiu e atingiu nossos parceiros do BRICS e o efeito tem sido danoso. Se em 2008 a direita não tentou o impeachment de Lula quando do “Mensalão” porque, ela sabia bem, estava ganhando, agora se colocou contra Dilma e sua propalada ineficiência no combate a crise, tendo o impeachment aparecido como uma boa ideia, não meramente pela troca de nomes, mas porque os arquitetos do golpe estão comprometidos em aplicar novas medidas neoliberais, como a terceirização da mão-de-obra (na prática o fim da CLT). Para os donos do poder, o neoliberalismo aparece como a salvação imediata de seus problemas e Dilma e o PT são cartas fora do baralho.

4º Lugar: A Imprensa Golpista

O papel da mídia, especialmente da Rede Globo de Televisão, já havia sido assustador quando da eleição do primeiro presidente após a ditadura militar, Fernando Color, derrotando Lula e Brizola. Sabemos que a imprensa trabalhou arduamente pelo golpe de março de 1964 e é histórico que o império Globo nasceu sob os auspícios dos generais da ditadura, mas, dessa vez o golpismo se superou. Selecionando o que transmite e o que não transmite, escolhendo como transmite, que ângulos detalha ou esconde e que falas vão ao ar. Supervalorizando fatos negativos e contrários e sonegando informação sobre fatos positivos. O que a Rede Globo fez, juntamente com a já folclórica Revista Veja, mas não somente elas, mas todo o conjunto da mídia coorporativa, foi algo de criminoso. Tão devastador que a polícia federal, uma polícia de inteligência, tornou-se polícia ostensiva com seus agentes disputando o lugar ao lado dos detidos, em nome da fama. Tão corrosivo que é mais responsável pelo golpe do que a própria crise econômica que acabou se tornando uma de suas armas. É impossível pensar qualquer projeto de democracia daqui para a frente sem o enfrentamento do superpoder midiático e seu literal esfacelamento, fazendo com que deixe de ser um agente político e seja apenas o que tem concessão para ser: um veículo de divulgação de notícias, como é, não em Cuba ou na Rússia, mas na Inglaterra e nos Estados Unidos.

3º Lugar: O Sistema Judiciário Brasileiro

Sempre bem quisto pela população como sua última esperança contra os desmandos dos poderosos, o sistema jurídico brasileiro entrou em falência com os fatos. Tudo começou ainda no mensalão quando juízes se deixaram contaminar pela “síndrome de celebridade” e passaram a fazer evidente jogo de cena em busca dos holofotes. O Juiz deve ser como o árbitro de futebol, quanto menos aparecer melhor para o jogo. Porém, togados se tornaram “heróis” de capa e espada para certas fatias da sociedade, sempre levados pela mídia ao ponto de um juiz de 3ª instância de São Paulo ter tentado atravessar o processo e convocar o ex-presidente Lula para depor onde não tinha qualquer competência. Era o desejo infantil de aproveitar a onda e se tornar também, celebridade. Outro assumiu postura partidária e abandonou a imparcialidade chegando a convocar coercitivamente alguém que jamais fora convocado antes. Outro ainda tornou-se personagem televisivo no STF por representar o “clamor da oposição” de forma descarada. Da mesma forma que é impossível se pensar em democracia no Brasil daqui para a frente sem o enfrentamento da imprensa também o será a necessidade de humanizar o judiciário, fazendo os juízes deixarem de ser deuses e tornarem-se apenas cidadãos, funcionários públicos, que cumpram com seu papel institucional e que possam e devam ser punidos quando deixarem de cumprir.

2º Lugar: Dilma Rousseff

O primeiro dever de um presidente da república é defender a constituição e a soberania nacional. Infelizmente Dilma fracassou retumbantemente no primeiro dever. Dilma sempre acreditou que venceria o golpe com medidas institucionais. Jogou pérola aos porcos. Tentou ser querida pela direita escolhendo um Ministro da escola liberal que, logicamente a afastou do povo. Dilma, uma ex-guerrilheira destemida esqueceu as estratégias de guerra e marchou como um patinho para a panela. Não se enfrenta o fascismo com medidas suaves, pergunte para qualquer historiador ou velhinho da Itália, da Alemanha e da Espanha. A presidente evitou o confronto. Adulou a Globo. Afastou-se de Lula e dos organismos sociais, num primeiro momento. Se é verdade que é a primeira vítima pessoal do golpe, também é, em muito, responsável por tudo o que acabou acontecendo.

1º Lugar: O Governo do PT, incluindo setores políticos que o apoiam e também o ex-presidente Lula

O PT vendeu sua alma ao diabo para chegar ao poder. A esquerda histórica do partido dele se afastou desde esse momento. Mesmo assim deu início a vários programas sociais importantes e urgentes, responsáveis pela melhoria da situação dos mais pobres e por um surto consumista no país. Mas, da mesma forma que na Venezuela, no Paraguai, no Equador e, de certo modo, na Argentina, não avançou além das primeiras jardas. O PT acreditou que apenas os programas sociais poderiam garantir a manutenção do poder, mas, a história nos mostra que não é assim. Todo governo de esquerda que evita radicalizar seu projeto social, que vacila, acaba fracassando. No dizer de Leonel Brizola, o PT foi a esquerda que a direita queria. A direita aliás que muito se beneficiou dos governos do PT, mas que não hesitou em dar um pé na bunda quando perdeu a serventia. O governo petista guardou sua militância na gaveta e só pediu ajuda quando já fazia água. Da mesma forma cabe crítica aos movimentos que tradicionalmente têm a força das ruas para evitar o pior. Alguém sabe, por exemplo, por onde anda a UNE?

O texto acima reflete a opinião pessoal do autor do Blog. Gostaríamos imensamente de contar com opiniões e participação, tanto para concordar, como para discordar, de seus leitores.


Prof. Péricles
















domingo, 17 de abril de 2016

BANDIDOS AMEAÇAM O GIGANTE



Por Timothy Bancroft-Hinchey

Os procedimentos de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff do Brasil são ilegais, equivalentes a nada menos que tentativa de golpe de Estado, mecanismos dos quais se serve agora uma elite política endemicamente corrupta e em vários casos criminosa, dominada por Washington e hoje terrivelmente perturbada por quatro mandatos consecutivos de presidentes democraticamente eleitos, representantes do Partido dos Trabalhadores.


Depois de décadas de terrorismo social praticado por partidos políticos de direita, animados por bandos de criminosos, estupradores, assassinos e fraudadores que, em muitos casos controlaram postos chaves das instituições políticas do Brasil, afinal o Partido dos Trabalhadores chegou ao Palácio do Planalto, no raiar desse milênio, luz nova e limpa que marcou o verdadeiro despertar do Brasil, o gigante tradicionalmente adormecido.

Tido como motivo de piadas e chacota da comunidade internacional antes de Lula e Dilma, o Brasil converteu-se, a partir do início dos governos do PT, em ator respeitado e importante no cenário mundial, com ação e voz no plano internacional, ouvido com reverência e atenção, quando afinal começou a distender os próprios músculos. Esse o Brasil que tirou milhões de homens e mulheres da pobreza, lançou programas sociais e educacionais em escala jamais vista nem no país nem no mundo, alcançou os mercados que, antes, o país só conhecia como pontos no mapa mundi.

Lula, Dilma e o Partido dos Trabalhadores deram ao Brasil projeção muito mais ampla, e o país deixou afinal de ser destino turístico tropical, que só tinha a oferecer futebol, carnaval e cachaça.

Hoje, e graças a Lula e Dilma, o Brasil é respeitado do Japão à Jamaica, de Cape Town, no ponto sul extremo da África, a Casablanca no norte; nas Américas, do sul ao norte, dos Andes ao Alaska e no outro lado do mundo, na Oceania, na Ásia, no Oriente Médio.

Mas o país continua a ser destratado e desrespeitado em casa, por um bando corrupto e volátil de agitadores de rua, rasos e venais, os quais, se você tenta falar com eles e elas para saber o que pensam, não conseguem juntar duas frases que expliquem o que, afinal de contas, andam a berrar pela Avenida Paulista, em São Paulo.

Foram adestrados e mobilizados por uma gangue de criminosos traidores ambiciosos, que só fazem repetir que a presidenta Dilma seria culpada, porque teria manipulado estatísticas e burlado a lei fiscal. Mas o advogado geral diz, na Suprema Corte do país, que não há caso contra a presidenta; que a acusação é viciada do começo ao fim; que todo o processo é um golpe de Estado que os golpistas tentam diluir num oceano de 'judicialidades'.

Quem fizer uma viagem ao Inferno, lá verá muitos dos que hoje infestam a Câmara de Deputados do Brasil, gente que só trabalha a favor dos próprios interesses pessoais ou de grupos, sem vestígio de decência ou moral em muitos casos, sem noção do que sejam ética, moralidade e práticas democráticas. Gente daquele tipo que, se acontece de apertarem sua mão, você tem de conferir se ainda tem todos os dedos e a aliança.

Por causa de um punhados desses, supostos políticos, que manipularam a opinião pública para promover um caso-ficção construído por dois ou três diretamente interessados no golpe, auxiliados pelo tradicional lixo euro-gringo do sul – esses que se veem aos gritos pelos bairros mais ricos do Brasil –, o Brasil está voltando a ser, outra vez, a piada do dia, na comunidade internacional.

E será o fim do "sonho do Brasil", da democracia com características brasileiras. O Brasil terá sido apunhalado pelas costas, e pelo próprio Congresso Nacional, em Brasília.

Mas e os que estarão, nesse fim de semana, fazendo avançar o projeto de desgraçar o Brasil, por acaso perdem o sono? Claro que não, porque todos têm os bolsos gordos de dólares – dólares, não reais. Mas, e fiquem sabendo todos, o eleitorado brasileiro hoje traído e apunhalado pelas costas, tem o direito de conhecer quem votou ativamente pela desgraça do Brasil, e haverá de saber quem, eleito para representar o povo do Brasil, traiu-o tão miseravelmente.

Esperemos que fracasse a maioria de dois terços dos votos necessária para que o golpe do impeachment de presidenta sem crime e que o Brasil possa prosseguir nas suas políticas públicas para fazer do mundo um lugar melhor, resgatando os brasileiros mais sacrificados por décadas de miséria gerada pelos mesmos que, hoje, ainda conspiram para destruir a democracia brasileira.

Aconteça o que acontecer, haverá eleições dentro de dois anos. Que os brasileiros deem bom uso ao próprio voto.






* Timothy Bancroft-Hinchey trabalhou como correspondente, jornalista, subeditor, editor, editor-chefe, gerente de projeto, diretor executivo, sócio e proprietário de publicações diárias, semanais, mensais e anuais, estações de TV e grupos de mídia impressa e digital distribuídas em Angola, Brasil, Cabo Verde, Timor Leste, Guiné-Bissau, Portugal, Moçambique e ilhas de São Tomé e Príncipe; passou as duas últimas décadas em trabalhos humanitários, conectando comunidades, trabalhando em redes com comunidades LGBT, ajudando a organizar abrigos para vítimas abusadas ou traumatizadas. É diretor e editor-chefe da versão em português de Pravda.Ru.




sábado, 16 de abril de 2016

LIÇÕES DA MÚLTIPLA CRISE BRASILEIRA

Leonardo Boff

Por Leonardo Boff


Primeira lição: o tipo de sociedade que temos não pode mais continuar assim como é. As manifestações de 2013 e as atuais mostraram claramente: não queremos mais uma democracia de baixíssima intensidade, uma sociedade profundamente desigual e uma política de negociatas. Nas manifestações os políticos também os da oposição foram escorraçados. Igualmente movimentos sociais organizados. Queremos outro tipo de Brasil, diverso daquele que herdamos que seja democrático, includente, justo e sustentável.

Segunda lição: superar a vergonhosa desigualdade social impedindo que 5 mil famílias extensas controlem quase metade da riqueza nacional. Essa desigualdade se traduz por uma perversa concentração de terras, de capitais e de uma dominação iniqua do sistema financeiro, com bancos que extorquem o povo e o governo cobrando-lhe um superávit primário absurdo para pagar os juros da dívida pública. Enquanto não se taxarem as grandes fortunas e não submeterem os bancos a níveis razoáveis de lucro o Brasil será sempre desigual, injusto e pobre.

Terceira lição: prevalência do capital social sobre o capital individual. Quer dizer, o que faz o povo evoluir não é matar-lhe simplesmente e faze-lo um consumidor, mas fortalecer-lhe o capital social feito pela educação, pela saúde, pela cultura e pela busca do bem-viver, pré-condições de uma cidadania plena.

Quarta lição: cobrar uma democracia participativa, construída de baixo para cima com forte presença da sociedade organizada especialmente dos movimentos sociais que enriquecem a democracia representativa que, por causa de sua histórica corrupção, o povo sente que ela não mais o representa.

Quinta lição: a reinvenção do Estado nacional. Como foi montado historicamente, atendia as classes que detém o ter, o poder, o saber e a comunicação dentro de uma política de conciliação entre as oligarquias, deixando sempre o povo de fora. Ele está aí mais para garantir privilégios do que para realizar o bem geral da nação. O Estado tem que ser a representação da soberania popular e todos os seus aparelhos devem estar a serviço do bem comum, com especial atenção aos vulneráveis (seu caráter ético) e sob o severo controle social com as devidas instituições para isso. Para tal se faz necessária uma reforma política, com nova constituição, fruto da representação nacional e não apenas partidária.

Sexta lição: o dever ético-político de pagar a dívida às vítimas feitas no processo da constituição de nossa nacionalidade e que nunca foi paga: para com os indígenas quase exterminados, para com os afrodescendentes (mais da metade da população brasileira) feitos escravos, carvão para o processo produtivo; os pobres em geral sempre esquecidos pelas políticas públicas e desprezados e humilhados pelas classes dominantes. Urge políticas compensatórias e proativas para criar-lhes oportunidades de se autopromoverem e se inserirem nos benefícios da sociedade moderna.

Oitava lição: fim do presidencialismo de coalizão de partidos, feito à base de negócios e de tráfico de influência, de costas para o povo; é uma política de planalto desconectada da planície onde vive o povo. Com ou sem Dilma Rousseff à frente do governo, precisa-se, para sair da pluricrise atual, de uma nova concertação entre as forças existentes na nação. Não pode ser apenas entre os partidos que tenderiam a reproduzir a velha e desastrada política de conciliação ou de coalizão, mas uma concertação que acolha representantes da sociedade civil organizada, movimentos sociais de caráter nacional, representantes do empresariado, da intelectualidade, das artes, das mulheres, das igrejas e das religiões a fim de elaborar uma agenda mínima aceita por todos.

Nona lição: O caráter claramente republicano da democracia que vai além da neoliberal e privatista. Em outras palavras, o bem comum (res publica) deve ganhar centralidade e em seguida o bem privado. Isso se concretiza por política sociais que atendam as demandas mais gerais da população a partir dos necessitados e deixados para trás. As políticas sociais não se restringem apenas a ser distributivas mas importa serem redistributivas (diminuir de quem tem de mais para repassar para quem tem de menos), em vista da redução da desigualdade social.

Décima lição: inclusão da natureza com seus bens e serviços e da Mãe Terra com seus direitos na constituição de um novo tipo de democracia sócio-cósmica, à altura consciência ecológica que reconhece todos os seres como sujeitos de direitos formando um grande todo: Terra-natureza-ser humano. É a base de um novo tipo de civilização, biocentrada, capaz de garantir o futuro da vida e de nossa civilização.


Leonardo Boff, é articulista e escritor




sexta-feira, 15 de abril de 2016

A CULPA NÃO É DO DIABO


O ser humano adora culpar terceiros pelos seus infortúnios.

É mais agradável pensar que errou por culpa de alguém. Que bebeu porque o diabo “atentou”. Que sua vida está uma porcaria por causa do pai ou da mãe, ou da esposa, esposo, filhos, enfim, por culpa de alguém, não sua.

A culpa terceirizada é a salvação da lavoura de muitas consciências.

O que seria das Igrejas que se anunciam como a redenção das criaturas se não existisse o diabo para levar a culpa de tudo, desde unha encravada até por bater na esposa?

É bom e confortável se sentir vítima e não o responsável por suas dores.

Talvez, por isso, o exercício da democracia assuste tanta gente na mesma proporção que a ditadura agrade a outros.

O voto que escolhe diretamente seu representante tira boa parte da desculpa do “não tenho nada a ver com isso” e é sempre melhor ter um ditador que diga o que fazer do que construir com trabalho a própria cidadania.

Construir cansa, melhor receber já pronto, é mais confortável.

Foram raros os eleitores do Color depois do impeachment. Ninguém teve culpa, os votos brotaram nas urnas por mágica de Houdine, ou melhor, por efeito especial da Globo, sim, a Globo foi a única culpada, pronto.

A falta de conhecimento leva às pessoas a terceirizar suas dores, mas a falta de caráter esconde suas escolhas.

Se o golpe tiver sucesso e derrubar Dilma Rousseff, o Brasil em breve, mas bota breve nisso, entrará num círculo maluco de horrores.

Não, não haverá nada além do que já se conhece: neoliberalismo, entreguismo, desemprego, dívida, perda de direitos trabalhistas, proteção ao capital privado, desdém ao capital e ao patrimônio público.

Só que dessa vez a encrenca será maior. E isso porque o povo mais humilde, aquele que mais ganhou nesses 14 anos, não aceitará perder o que conquistou.

Dizia Buda que uma consciência que se expande nunca mais aceita retornar ao tamanho original.

As conquistas sociais e a ampliação da consciência de seus direitos políticos também.

Na década de 70 lutando contra a Ditadura, o PC do B (o verdadeiro) organizou sua Guerrilha no Araguaia justamente por ser um dos lugares mais miseráveis, abandonados e alienados do Brasil.

A Guerrilha foi derrotada e quase todos os guerrilheiros assassinados, mas desde então (e a Guerrilha se encerrou em 1972) até hoje o Araguaia é um centro permanente de tensões pois os sem-terra e os pequenos agricultores daquela região nunca mais aceitaram o cabresto como antes.

Quando começar o desmonte (que não será imediatamente, mas logo e por etapas) dos programas sociais o bicho vai pegar.

É provável que essa história não termine sem dores e corpos sem vida, não apenas por lutas mas também por desespero.

Mas, uma certeza podemos ter: ninguém terá culpa. Ninguém assumirá sua identidade coxinha. Foi a Globo e só a Globo, plim-plim.

Ninguém baterá no peito para exclamar “eu lutei contra a ordem democrática e vibrei no virtual e no real com a posse de Michel Temer”.

“Eu fui um dos milhões de Eduardo Cunha”.

Por que?

Porque é mais tolerável ocultar suas responsabilidades e apontar o dedo para outros.

Por isso ninguém aqui no Rio Grande do Sul ainda levantou a mão publicamente para se chamar de ameba por eleger um político sem propostas e sem ideias para governar o estado.

Ninguém disse num bate papo com os amigos, fazendo cara de intelectual “eu acreditei que o importante era tirar os petralhas”, "eu achei graça com a piada do Tumelero"

Enquanto os trabalhadores sofrem com salários parcelados a horda de eleitores anti-PT suspira e faz de conta que não vê pois, para muitos, quando não se vê o sofrimento dos outros ele não existe.

O problema não é a falta de conhecimento, é o conhecimento distorcido pelo ódio e pela vaidade.

A responsabilidade é mais profunda e coletiva.

É do caráter egoísta, mesquinho e invejoso das criaturas, especialmente das que não aceitam o crescimento daqueles que julgam inferiores.

"Onde já se viu negros, gays, lésbicas e índios nos olhando em pé de igualdade?"

É dos inconformados por pobre ter filhos no mesmo colégio de seus filhos e receberem 70, 80 reais de auxílio, que, pela revolta provocada, deve abalar profundamente a economia dos "revoltados".

Dos que odeiam que os mais esquecidos agora tenham médicos que os atendam e se preocupem com eles.

O motivo mais escondido de todo esse drama é que, o ser humano é patético quando permite que seu ódio por tudo aquilo que pode dar certo, justifique sua pequenez de pensamento e de atitudes.

Os mesmo seres patéticos que um dia dirão que "a culpa não foi minha... foi do diabo que tomou conta do Brasil" enquanto se postam, hipocritamente, a rezar para que todos sejam felizes.

Prof. Péricles















quinta-feira, 14 de abril de 2016

SOMBRAS QUE NOS PERSEGUEM



Com seu jeito simples mas, ao mesmo tempo, profundo de analisar a realidade, Leonardo Boff nos lembra as sombras de nosso passado que insistem em estar presente na crise atual.





Por Leonardo Boff


A primeira sombra é nosso passado colonial.

Todo processo colonialista é violento. Implica invadir terras, submeter os povos, obriga-los a falar a língua do invasor, assumir as formas políticas do outro e submeter-se totalmente a ele. A consequência no inconsciente coletivo do povo dominado: sempre baixar a cabeça e levado a pensar que somente o que é estrangeiro é bom.

A segunda sombra foi o genocídio indígena.

Eram mais de 4 milhões. Os massacres de Mem de Sá em 31 de maio de 1580 que liquidou com os Tupiniquim da Capitania de Ilhéus e pior ainda, a guerra declarada oficialmente por D.João VI em 13 de maio de 1808 que dizimou os Botocudos (Krenak) no vale do Rio Doce manchará para sempre a memória nacional. Consequência: temos dificuldade de conviver com o diferente, entendendo-o como desigual. O índio não é ainda considerado plenamente “gente”, por isso suas terras são tomadas, muitos são assassinados e para não morrerem, se suicidam. Há uma tradição de intolerância.

A terceira sombra, a mais nefasta de todas, foi a escravidão.

Entre 4-5 milhões foram trazidos de África como “peças” a serem negociadas no mercado para servirem nos engenhos ou nas cidades como escravos. Negamos-lhes humanidade e seus lamentos sob a chibata chegam ainda hoje ao céu. Criou-se a instituição da Casa Grande e da Senzala. Gilberto Freyre deixou claro que não se trata apenas de uma formação social patriarcal, mas de uma estrutura mental que penetrou nos comportamentos das classes senhoriais e depois dominantes. Consequência: não precisamos respeitar o outro; ela está aí para nos servir. Se lhe pagamos salario é caridade e não direito. Predominou o autoritarismo; o privilégio substitui o direito e criou-se um estado para servir os interesses dos poderosos e não ao bem de todos e uma complicada burocracia que afasta o povo.

Uma sociedade montada sobre a injustiça social nunca criará uma coesão interna que lhe permitirá um salto rumo a formas mais civilizadas de convivência. Aqui imperou sempre um capitalismo selvagem que nunca logrou-se civilizá-lo. Mas depois de muitas dificuldades e derrotas, conseguiu-se um avanço: a irrupção de todo tipo de movimentos sociais que se articularam entre si. Nasceu uma força social poderosa que desembocou numa força político-partidária. O Partido dos Trabalhadores e outros afins, nasceram deste esforço titânico, sempre vigiados, satanizados, perseguidos e alguns presos e mortos.

A coligação de partidos hegemonizados pelo PT conseguiu chegar ao poder central. Fez-se o que nunca foi pensado e feito antes: conferir centralidade ao pobre e ao marginalizado. Em função deles se organizaram, como cunhas no sistema dominante, políticas sociais que permitiram a milhões saírem da miséria e terem os benefícios mínimos da cidadania e da dignidade.

Mas uma quarta sombra obnubila uma realidade que parecia tão promissora: a corrupção.

Seria hipocrisia negar que corrupção sempre houve entre nós em todas as esferas. Basta lembrar os discursos contundentes e memoráveis de Ruy Barbosa no Parlamento. Setores importantes do PT se deixaram morder pela mosca azul do poder e se corromperam. Isso jamais poderia ter acontecido, dado os propósitos iniciais do partido. Devem ser julgados e punidos.

A justiça focou-se quase só neles e mostrou-se muitas vezes parcial e com clara vontade persecutória. Os vazamentos ilegais forneceram munição à imprensa oposicionista e aos grupos que sempre dominaram a cena política e que agora querem voltar ao poder com um projeto velhista, neoliberal e insensível à injustiça social. Estes conseguiram mobilizar multidões, conclamando o impedimento da Presidenta Dilma, mesmo sem suficiente fundamento legal como afirmam notáveis juristas.

Nunca fui filiado ao PT. Mas apesar de seus erros, a causa que defende será sempre válida: fazer uma política integradora dos excluídos e humanizar nossas relações sociais para tornar menos malvada a nossa sociedade.



Leonardo Boff escreveu: Que Brasil queremos, Vozes 2000.



terça-feira, 12 de abril de 2016

MACARTHISMO À BRASILEIRA


No início da década de 50 os Estados Unidos viviam à beira de um ataque dos nervos.

No final da década anterior a União Soviética testara com sucesso sua primeira bomba atômica, a China tornara-se comunista e a influência norte-americana no mundo parecia definhar.

Portanto, a Guerra Fria estava muito quente e os ânimos exaltados.

É nesse cenário que, em fevereiro de 1950, surge a figura sinistra de um senador.

Joseph Raymond McCarthy, senador do Wisconcin pelo Partido Republicano, era membro de uma praticante família católica e tinha 41 anos. Antes de se eleger senador exerceu, por sete anos a função de juiz de Direito.

De fevereiro de 1950 quando acusa o Departamento de Defesa norte-americano de estar infiltrado por agentes comunistas a maio de 1954 quando caiu em desgraça junto ao Presidente Eisenhower por atacar o secretário do Exército, Joseph MacCarthy seria figura diária na mídia norte-americana, tendo, ao que parece, adorado a notoriedade que adquiriu como presidente do Comitê de Atividades Antiamericanas (HUAC).

Acusou de praticar atividades antiamericanas e convocou para depor no Comitê que liderava centenas de pessoas, principalmente funcionários públicos, trabalhadores da indústria do entretenimento, educadores e sindicalistas.

Muitos foram demitidos, execrados, ridicularizados e humilhado mesmo sem haver qualquer materialidade nas acusações.

Esse período nefasto na história dos Estados Unidos é chamado de MacCarthismo e definido como um período de caça as bruxas pelo seu contexto de incentivar a delação, pois, alguém que se dizia simpatizante arrependido do comunismo só era perdoado se delatasse outros membros simpatizantes.

Entre muitos injustiçados por acusações levianas, destaca-se Charles Chaplin que acabaria se mudando para a Suiça, para nunca mais voltar.

O Macarthismo durou até 1957 mesmo ano em que o tenebroso senador senador morreu, aos 49 anos, em 2 de maior, vítima de cirrose.

Para ele, acostumado a brincar com a vida alheia e a se julgar Deus, a perda de notoriedade, a distância dos holofotes e sumiço dos puxa-sacos havia sido insuportável.

Seu nome tornou-se sinônimo de intolerância. Quase todos os processos que liderou tornaram-se nulos e o estado arcou com numerosos ressarcimentos.

Infelizmente para muitos que morreram antes ou prejudicaram definitivamente suas carreiras, nenhuma reparação seria realmente justa.

MacCarthy, para acalmar a consciência ou o ego ferido, entregou-se ao beber compulsivo que o levaria rapidamente a morte.

Na atualidade brasileira um autêntico MacCarthismo e caça as bruxas incentivada pelo brilho da ribalta promovido por câmeras platinadas está em curso.

Em vez do anti-comunismo o anti-petismo.

Não há comissões no Congresso, mas tribunais de exceção que escondem provas e criam fatos, que gravam e divulgam gravações.

Ao invés do respeito às urnas uma campanha difamatória acompanhada por uma onda de ódio.

Nesse contexto, a história de Joseph Raymond McCarthy deveria ser recitada nos lares de muitos juristas, policiais e cidadãos que se acham mais do que mera fagulha na fogueira das vaidades da política brasileira.



Prof. Péricles







segunda-feira, 11 de abril de 2016

É GOLPE



Por Tarso Cabral Violin


A última vez que passamos por um golpe foi em 1964, quando grandes empresários, os militares, a OAB, o governo estadunidense e demais setores oligárquicos da sociedade brasileira, com o apoio de uma classe média manipulável pelos jornais da época, implementaram a destituição do presidente João Goulart - Jango e a ditadura militar que durou até 1985.

Para Paulo Bonavides golpe "significa simplesmente a tomada do poder por meios ilegais", "seus protagonistas tanto podem ser um governo como uma assembleia, bem assim autoridades já alojadas no poder", "sempre a expensas da Constituição e se apresenta qual uma técnica específica de apoderar-se do governo, independente das causas e dos fins políticos que a motivam", onde se aliam "traição e medo" e "os autores do golpe com frequência se envergonham" (p. 454 e 455).

O jurista conclui dizendo que "o golpe é a prevalência do interesse egoístico de um grupo ou a satisfação de uma sede pessoal de poder" (p. 459).

Norberto Bobbio alerta que "o golpe de Estado é um ato realizado por órgãos do próprio Estado", mas deixa claro que esse golpe nem sempre é um golpe realizado por militares. O autor também cita Malaparte no sentido de que o primeiro objetivo para coroar de êxito o golpe de Estado é ocupar, controlar e neutralizar os centros de poder tecnológico do Estado, como as redes de telecomunicações, rádios e TVs, centrais elétricas e de transporte, o que "permitirá o controle dos órgãos do poder político" (Dicionário de Política, 12ª ed. Brasília: UNB, 2004, vol. I, p. 545-547).

Não há crime de responsabilidade da presidenta Dilma Rousseff (PT) e, portanto, não há fundamento jurídico para o Impeachment da nossa Chefe do Poder Executivo Federal.

Assim, caso o Congresso Nacional decida pelo Impeachment, sem interferência do Supremo Tribunal Federal, o Brasil sofrerá mais um golpe, como já ocorreu em 1889, 1937 e 1964.

1. Será a tomada do poder de forma traiçoeira e com o discurso do medo, pelo vice-presidente Michel Temer de forma ilegal e inconstitucional, com apoio do presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB), do PSDB, da OAB, da FIESP, da Rede Globo, da Revista Veja, da Folha de S. Paulo, do O Estado de S. Paulo, assim como outros setores da elite econômica e midiática de nosso país, e de governos de outros países e multinacionais contrários aos governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT, de 2003-2010), e de Dilma Rousseff (PT, de 2011 até os dias atuais). ATENDIDO O REQUISITO DE GOLPE DE BONAVIDES.

2. Os protagonistas do golpe seriam os senadores e deputados federais. ATENDIDO O REQUISITO DE GOLPE DE BONAVIDES.

3. Já antes de ocorrer o golpe os apoiadores do Impeachment, que na verdade é golpe, já estão envergonhados e desesperados com a pecha de golpistas que levarão para toda suas vidas pessoais, políticas e profissionais. ATENDIDO O REQUISITO DE GOLPE DE BONAVIDES.

4. O golpe está sendo arquitetado dentro dos jornais, rádios e TVs, chamados de "centro nervosos técnicos" ou "centros de poder tecnológico do Estado" por Malaparte. Matérias "jornalísticas" tendenciosas, propagandas pagas de movimentos golpistas, chamamento para manifestações pró-golpe e silêncio prévio e desconstrução posterior quanto às manifestações contra o golpe, falta de opiniões técnicas contrárias ao golpe na programação, etc. Há golpismo inclusive em meios de transporte (liberação do metrô em São Paulo para as manifestações contra o governo, greves de caminhoneiros determinadas pelos patrões, etc.). ATENDIDO O REQUISITO DE GOLPE DE MALAPARTE.

5. Pelo caráter elitista do golpe, prevalência dos interesses da velha mídia, dos industriários, grandes empresários e agronegócio, já com menções de projetos anti-trabalhadores, há a prevalência clara dos interesses egoísticos da classe dominante e da sede pessoal de poder de Michel Temer e todos os que o rodeiam sedentos por cargos e poder. ATENDIDO O REQUISITO DE GOLPE DE BONAVIDES.

6. A desnecessidade de que um golpe seja militar para fins do controle dos órgãos do poder político. ATENDIDO O REQUISITO DE GOLPE DE BOBBIO.

Ainda acredito que os deputados federais ou senadores podem barrar o Impeachment, que na verdade é golpe. Caso nossos parlamentares pratiquem o golpe, ainda é possível que o STF anule essa decisão contrária à Constituição. De qualquer forma, caso o golpe realmente ocorra, com Michel Temer presidente e, em suas ausências, Eduardo Cunha presidente, para todo o sempre as pessoas e instituições envolvidas no movimento golpista serão cobradas e responsabilizadas por mais esse momento triste de nossa história.

E nada que as urnas, em 2018, não possam recolocar nos trilhos a Democracia brasileira.




sábado, 9 de abril de 2016

A CARA DO GOLPE


  
Os fatos ou períodos históricos costumam ter uma “cara” que fica registrada no imaginário popular.

Por exemplo, impossível falar sobre o apartheid sem lembrar a cara de Mandela.

No Brasil, é impossível falar sobre a Era Vargas sem lembrar a cara do dito cujo.

Desde a Revolução de 30 até seu suicídio em 1954 a presença marcante é a cara do velho caudilho de São Borja, muitas vezes com seu charuto. Tudo bem, às vezes acompanhada da cara sorridente e otimista de JK ou os olhos esbugalhados de Jânio Quadros, mas aí já estamos no pós-Vargas.

Já a Ditadura Militar tem a cara de Médici.

Sei, muitos lembram de Castelo Branco e sua cabeça colada aos ombros quase sem pescoço, mas a cara mais marcante e sinistra é mesmo a de Médici, e para alguns de boa memória, fazendo balõezinhos com uma bola de futebol.

Na transição da ditadura militar para a redemocratização misturam-se caras como de Figueiredo e de Tancredo, ou mesmo de Sarney, o primeiro presidente civil já que Tancredo fez a sacanagem de morrer antes de assumir.

Já a crise criada no Brasil após as eleições de 2014 andava meio que “sem cara”.

São tantos os arquitetos do golpe que não aparecem... Como seria a cara de uma rede de televisão? Seu logotipo ou a cara de Willian Bonner?

Seria a cara do “japonês da federal” a cara do golpe? Ou o beiço de buldogue com caxumba do Gilmar Mendes?

Talvez o aspecto sinistro de mordomo de Drácula de Michel Temer?

Maior dúvida... Mais eis que, de repente, surge a mais fiel cara do golpe.

E não poderia deixar de ser esquisita como o seu tempo. Mas, faça-se justiça, uma cara cheia e rica em simbolismos do momento.

Janaína Conceição Paschoal é advogada e professora associada de direito penal na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Sendo coautora da ação que deu início ao processo de impeachment da Presidente Dilma Rousseff foi apelida de “Musa do Impeachment”.
Alguns lembram dela como a defensora de Mayara Petruso, a estudante que iniciou uma onda preconceituosa e violenta contra os nordestinos no Twitter logo após a vitória de Dilma nas eleições.

Mas, através de um vídeo que se tornou febre na internet, ao fazer a defesa do impedimento da presidenta, a moça mostrou para todos a cara do golpe. 

Os olhos esbugalhados, os cabelos revoltos em todas as direções retratam como ninguém o ódio fascista.

O andar, não para os lados, mas para frente e para trás, carregando uma bandeira nacional e esganiçando palavras às vezes incompreensíveis realçam a pirotecnia para convencer na falta de argumentos.

Chega lembra Hitler em seus discursos atraindo o olhar com movimentos histéricos na tentativa de, impressionando os sentidos, fazer esquecer a falta de lógica.

As ameaças proferidas com acentuação crescente parecem reviver Mussolini e suas ameaças de por fogo na Itália com seu blefe de uma hipotética “Marcha sobre Roma”.

O uso de expressões agressivas e figuradas no lugar de nomes, designando a presidente de “cobra” lembram as ordens esotéricas secretas tão ao gosto do führer.

A reação das pessoas ao vídeo vai do espanto ao sorriso.

Janaina vai do ridículo ao assustador.

Alguns, dizem não levar a sério seu surto que chega a ser definido como “engraçado”. Mas, é bom lembrar que quando Hitler apareceu no cenário político alemão com seus discursos teatrais, também foi definido como “coitado e possuído” ou de “engraçado”, porém, o “engraçado” poria fogo na Europa sendo o principal artífice da maior guerra que o mundo já viu.

Claro que a moça não tem tanto “talento”, mas, o que ela representa é bem conhecido.

É a cara do fascismo, e o fascismo, todos sabem ou deveriam saber... é muito feio.




Prof. Péricles

quarta-feira, 6 de abril de 2016

COISAS QUE O BRASIL PRECISA SABER SOBRE O GOLPE



Por Igor Fuser


É preciso avisar a todos os brasileiros, informar de um modo tão claro e objetivo que até as carrancas do Rio São Francisco tenham conhecimento de que:

O pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff não tem nada a ver com a Operação Lava Jato, nem com qualquer outra iniciativa de combate à corrupção.

Dilma não é acusada de roubar um único centavo. O pretexto usado pelos políticos da oposição para tentar afastá-la do governo, a chamada “pedalada fiscal”, é um procedimento de gestão do orçamento público de rotina em todos os níveis de governo, federal, estadual e municipal, e foi adotado nos mandatos de Fernando Henrique e de Lula sem qualquer problema. 

Ela, simplesmente, colocou dinheiro da Caixa Econômica Federal em programas sociais, para conseguir fechar as contas e, no ano seguinte, devolveu esse dinheiro à Caixa. Não obteve nenhum benefício pessoal e nem os seus piores inimigos conseguem acusá-la de qualquer ato de corrupção.

O impeachment é um golpe justamente por isso, porque a presidente só pode ser afastada se estiver comprovado que ela cometeu um crime – e esse crime não aconteceu, tanto que, até agora, o nome de Dilma tem ficado de fora de todas as investigações de corrupção, pois não existe, contra ela, nem mesmo a mínima suspeita.

Ao contrário da presidenta Dilma, os políticos que pedem o afastamento estão mais sujos que pau de galinheiro. Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que como presidente da Câmara é o responsável pelo processo do impeachment, recebeu mais de R$ 52 milhões só da corrupção na Petrobrás e é dono de depósitos milionários em contas secretas na Suíça e em outros paraísos fiscais.

Quem lidera a campanha pelo impeachment é o PSDB, partido oposicionista derrotado nas eleições presidenciais de 2014. Seu candidato, Aecio Neves, alcançar no tapetão o mesmo resultado político que não foi capaz de obter nas urnas, desrespeitando o voto de 54.499.901 brasileiros e brasileiras que votaram em Dilma (3,4% mais do que os eleitores de Aecio no segundo turno).

Se o golpe se consumar, a oposição colocará em prática todas as propostas elitistas e autoritárias que Aecio planejava implementar se tivesse ganho a eleição. O presidente golpista irá, com toda certeza, mudar as leis trabalhistas, em prejuízo dos assalariados; revogar a política de valorização do salário mínimo; implantar a terceirização irrestrita da mão-de-obra; entregar as reservas de petróleo do pré-sal às empresas transnacionais (como defende o senador José Serra); privatizar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal; introduzir o ensino pago nas universidades federais, como primeiro passo para a sua privatização; reprimir os movimentos sociais e a liberdade de expressão na Internet; expulsar os cubanos que trabalham no Programa Mais Médicos; dar sinal verde ao agronegócio para se apropriar das terras indígenas; eliminar a política externa independente, rebaixando o Brasil ao papel de serviçal dos Estados Unidos. 

É isso, muito mais do que o mandato da presidenta Dilma ou o futuro político de Lula, o que está em jogo na batalha do impeachment.

É um engano supor que a economia irá melhorar depois de uma eventual mudança na presidência da república. Todos os fatores que conduziram o país à atual crise continuarão presentes, com vários agravantes. A instabilidade política será a regra. 

Os líderes da atual campanha golpista passarão a se digladiar pelo poder, como piranhas ao redor de um pedaço de carne. E Dilma será substituída por um sujeito fraco, Michel Temer, mais interessado em garantir seu futuro (certamente uma cadeira no Supremo Tribunal Federal) e em se proteger das denúncias de corrupção do que em governar efetivamente. 

A inflação continuará aumentando, e o desemprego também.


No plano político, o Brasil mergulhará num período caótico, de forte instabilidade. A derrubada de uma presidenta eleita, sacramentada pelo voto, levará o país em que, pela primeira vez desde o fim do regime militar, estará à frente do Executivo um mandatário ilegítimo, contestado por uma enorme parcela da sociedade.


O conflito dará a tônica da vida social. As tendências fascistas, assanhadas com o golpe, vão se sentir liberadas para pôr em prática seus impulsos violentos, expressos, simbolicamente, nas imagens de bonecos enforcados exibindo o boné do MST ou a estrela do PT e, de uma forma mais concreta, nas invasões e atentados contra sindicatos e partidos políticos, nos ataques selvagens a pessoas cujo único crime é o de vestir uma camisa vermelha. 

O líder dessa corrente de extrema-direita, o deputado Jair Bolsonaro, já defendeu abertamente, num dos comícios pró-impeachment, que cada fazendeiro carregue consigo um fuzil para matar militantes do MST.

Mas isso não acontecerá. A mobilização da cidadania em defesa da legalidade e da democracia está crescendo, com a adesão de mais e mais pessoas e movimentos, independentemente de filiação partidária, de crença religiosa e de apoiar ou não as políticas oficiais. 

A opinião de cada um de nós a respeito do PT ou do governo Dilma já não é o que importa. Está em jogo a democracia, o respeito ao resultado das urnas e à norma constitucional que proíbe a aplicação de impeachment sem a existência de um crime que justifique essa medida extrema. 

Mais e mais brasileiros estão percebendo isso e saindo às ruas contra os golpistas. Neste dia 31 de março, a resistência democrática travará mais uma batalha decisiva.

É essencial a participação de todos, em cada canto do Brasil, Todos precisamos sair às ruas, em defesa da legalidade, da Constituição e dos direitos sociais. Todos juntos! O fascismo não passará! Não vai ter golpe!



Igor Fuser, é professor de relações internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC).

segunda-feira, 4 de abril de 2016

UM GOLPE EM BUSCA DE UM MOTIVO


Sábado, 26 de julho de 1930, o Presidente da Paraiba, João Pessoa, é alvejado por vários tiros no interior de uma Confeitaria na cidade de Recife vindo a falecer no mesmo dia. João Pessoa havia sido candidato a vice na chapa da Aliança Liberal encabeçada por Getúlio Vargas, nas eleições presidenciais de fevereiro daquele ano. 

A notícia de sua morte por motivos políticos, põem mais lenha na fogueira em que tinha se transformado a política nacional já que a Aliança, derrotada naquelas eleições alegava fraude nos resultados.

O assassinato acabou sendo um dos elementos de revolta presentes na Revolução de outubro daquele mesmo ano de 1930 e que poria fim à República Velha dando início a Era Vargas.

Mas tudo não passou de uma pequena mentirinha. Na verdade, João Pessoa foi assassinado por um homem chamado João Dantas, não por motivos políticos, mas por ser, Dantas, um inconformado marido traído.

Quinta-feira, 30 de setembro de 1937, é divulgado no programa radiofônico oficial “A Hora do Brasil” (mais tarde Voz do Brasil) trechos de um diabólico plano revolucionário tramado pelos comunistas, e capturado por agentes da inteligência, chamado “Plano Cohen”. Os comunistas pretendiam tomar o poder em algumas capitais, inclusive, no Rio de janeiro. O Presidente Vargas seria preso e provavelmente morto assim como alguns ministros e autoridades religiosas. A nação brasileira, ainda abalada com uma insurreição comunista em 1935, estremeceu de pavor.

Duas semanas depois, em 15 de outubro a união assume o controle de vários órgãos públicos estaduais e menos de um mês, em 10 de novembro, Vargas dá o Golpe do Estado Novo, assumindo poderes de ditador. O Plano Cohen foi uma das justificativas de uma “ação forte” do governo para manter a paz no país (dando o golpe).

O Plano Cohen, entretanto, foi uma enorme mentira. Anos mais tarde o General Góes Monteiro afirmaria que o Plano havia sido redigido no gabinete de Vargas pelo então capitão Olímpio Mourão Filho (aquele mesmo que daria início a movimentação militar em 31 de março de 1964).

São muitas as mentiras forjadas na história do Brasil e seus relatos exigiriam o espaço de uma enciclopédia. 

O assassinato de João Pessoa e o Plano Cohen são apenas dois dos mais, digamos, originais.

Não somos os únicos nessa “especialidade”.

Os nazistas de Hitler utilizavam muito esse recurso. 

Em 31 de agosto de 1939, por exemplo, capturaram, drogaram, enfiaram uma farda militar polonesa e depois mataram um pobre homem na fronteira com a Alemanha para acusar a Polônia de uma suposta “tentativa de invasão”. A indignação dos alemães foi canalizada no dia seguinte quando a Alemanha invadiu a Polônia.

Atualmente assistimos o desenrolar de outra dessas pilhérias que um dia causarão sorrisos nos historiadores.

A farsa de um Golpe que busca desesperadamente um motivo ou uma boa mentira e vai se desdobrando assim mesmo, enquanto não acha motivo nenhum.

A lorota de uma presidente ameaçada de impeachment sem cometer nenhum ato de improbidade ou ilícito que justifique a ação.

Um judiciário que se partidarizou juntamente com a Polícia Federal num “samba do crioulo doido” cuja sinfonia é interpretada pela maior rede de televisão do país.

Como no Brasil costumamos rir de nossa própria desgraça, resta o consolo de nos candidatarmos como o país mais experiente em mentiras e mentirinhas que viram verdades.

Um país do nunca onde nem sempre o “era uma vez” termina num final feliz.



Prof. Péricles

sábado, 2 de abril de 2016

JIHADISTAS, SALVE-SE QUEM PUDER


Por José Inácio Werneck


Como derrotar um inimigo que, para começo de conversa, já entra em cena para morrer?


Os americanos derrotaram os kamikazes japoneses.


Mas para tanto tiveram que soltar duas bomba atômicas.


Donald Trump e Ted Cruz soltariam bombas atômicas sobre o ISIS?


Onde?


É um alvo difuso e misturado a uma população civil que é também vítima deles, como a população na Europa e nos Estados Unidos.


O Ocidente está numa guerra que não terá fim ou ao menos não terá fim tão cedo.


É também uma guerra que não se iniciou ontem. Iniciou-se há muitos séculos.


É possível dizer que se iniciou ao tempo das Cruzadas.


Para não irmos tão longe, fiquemos no Sykes-Picot Agreement, de 1915, quando o Reino Unido e a França prometeram independência às nações árabes que eram ocupadas pelo Império Otomano, em troca do apoio deles na Primeira Guerra Mundial.


Basta assistir ao filme Lawrence of Arabia.


As promessas não foram cumpridas, regimes títeres foram instalados, fronteiras arbitrariamente estabelecidas, o petróleo em que a região era e é rica passou a fluir em benefício das grandes corporações ocidentais.


O problema foi agravado com a Questão Palestina, cuja solução parece cada vez mais distante. Seguiram-se a Guerra do Canal de Suez, a Guerra dos Seis Dias, a Guerra do Yom Kippur.


Israel é vista como uma ponta-de-lança ocidental a ocupar uma extensão cada vez maior de território muçulmano.


O Ocidente encontra-se também emaranhado entre os xiitas, liderados pelo Irã, e os sunitas, liderados pela Arábia Saudita.


A invasão do Iraque, país dividido entre xiitas e sunitas, por George W. Bush só fez piorar – e muito – as coisas.


Donald Trump e Ted Cruz acham que vão resolver este assunto na marra, com bombas atômicas?


Com jihadistas espalhados pelo Ocidente, dispostos a se explodirem?


Salve-se quem puder.



José Inácio Werneck, jornalista e escritor. É intérprete judicial em Bristol, no Connecticut, EUA, onde vive.