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quarta-feira, 29 de junho de 2016

EM DEFESA DO SUS


Por Fr. Marcos Sassatelli

No dia 16 de maio, o ministro da Saúde, Ricardo Barros (PP-PR), do governo do “golpista” Michel Temer, em entrevista à Folha de S. Paulo, afirmou que o país precisa rever o direito de acesso universal à saúde pública e a outros direitos constitucionais.

Diz o ministro: “Nós não vamos conseguir sustentar o nível de direitos que a Constituição determina”. E ainda: “Não adianta lutar por direitos que não poderão ser entregues pelo Estado. Temos que chegar ao ponto de equilíbrio entre o que o Estado tem condições de suprir e o que o cidadão tem direito de receber”. Que retrocesso!

Em outro ponto da entrevista, o ministro afirma: “Infelizmente, a capacidade financeira do governo para suprir todas essas garantias que tem o cidadão não são suficientes. Não estamos em um nível de desenvolvimento econômico que nos permita garantir esses direitos por conta do Estado”.

Ao invés de defender, como ocorre em outros países, um SUS de qualidade, público e gratuito para todos e todas, que acabe aos poucos com os planos particulares de saúde, o ministro se posiciona a favor de uma privatização cada vez maior da saúde, declarando: “Quanto mais gente puder ter planos (de saúde), melhor, porque vai ter atendimento patrocinado por eles mesmos, o que alivia o custo do governo em sustentar esta questão” (Folha de S. Paulo, 17 de maio de 2016, p. B1). Que vergonha para o Brasil!

O ministro deveria lembrar os altos tributos que os trabalhadores e trabalhadoras pagam. “Brasileiro trabalha 151 dias para pagar tributos, que comem 41,4% do salário”.

Só para pagar a contribuição previdenciária, o trabalhador ou trabalhadora com carteira assinada que ganha o salário mínimo (R$ 880,00), gasta por ano quase um mês de trabalho (R$ 844,80). Imaginem o dinheiro que entra nos cofres da Previdência!

Portanto, ministro Ricardo Barros, o atendimento na saúde pública já é muito bem “patrocinado” pelos trabalhadores e trabalhadoras. Não é um presente do Estado, mas um direito universal e inalienável de todo trabalhador e trabalhadora.

Quem sonega impostos, um verdadeiro crime contra a vida do povo, não são os trabalhadores e trabalhadoras, mas os ricos.

“No Brasil, o 1% mais rico da população controla uma renda equivalente à dos 50% mais pobres. Considerando o patrimônio, vê-se que 10% da população detém 75,4% de toda a riqueza nacional. A concentração de renda é agravada pelo sistema tributário, por baixos salários e pela falta de investimento em serviço público!

Ministro Ricardo Barros, para que o direito de acesso universal à saúde pública de qualidade e os outros direitos constitucionais sejam cumpridos, a solução é muito simples:

Acabar com a corrupção e a roubalheira generalizadas de políticos e governantes, colocando na cadeia todos os corruptos e ladrões de “colarinho branco” (hoje as cadeias estão cheias de “ladrões de galinhas”).

Exigir dos políticos e governantes corruptos e ladrões – verdadeiros assaltantes dos cofres públicos – a devolução do dinheiro roubado, com juro e correção monetária.

Acabar com a sonegação de impostos dos ricos e poderosos, cobrando – também com juro e correção monetária – todos os impostos atrasados.

Taxar as grandes fortunas, as fabulosas heranças e os lucros exorbitantes dos bancos.

Ministro, é esse o caminho para tornar o Brasil um país decente e merecedor de respeito.

Em teoria – todos e todas nós sabemos – o SUS é um dos melhores planos de saúde pública do mundo, mas, na prática, ele deixa muito a desejar. O atendimento é extremamente deficitário e, na maioria das vezes, de péssima qualidade.

Apesar de tantas deficiências, o SUS precisa ser sempre defendido, revisto e melhorado, no sentido de ampliar, em número e qualidade, suas ações, em favor de uma saúde pública gratuita e de qualidade.

Para que isso aconteça, precisamos acabar com a corrupção, muitas vezes legalizada, e banir da vida pública toda a cambada de políticos e governantes oportunistas e aproveitadores do povo, que, infelizmente, são hoje a maioria.

Um outro Brasil é possível e necessário! Lutemos por ele!


Marcos Sassatelli, Frade dominicano, Doutor em Filosofia (USP) e Professor aposentado de Filosofia da UFG.



terça-feira, 28 de junho de 2016

DARWIN ERA UM BABACA

A única Constituição brasileira que não diferenciou claramente o poder político do poder religioso foi a Constituição Monárquica de 1824 que através do padroado considerava o Imperador a máxima autoridade religiosa. Todas as outras Constituições brasileiras definem o país como laico e reconhece o direito de culto de todas as religiões.

Estado laico é o estado neutro no sentido religioso, ou seja, oposto ao estado eclesiástico e fundamentalista.

O Brasil se tornou um Estado laico desde o Decreto 119-A de 07 de janeiro de 1890 de autoria de Ruy Barbosa. A partir desse decreto o Brasil deixou de ter uma religião oficial, separando o poder político do Estado do poder religioso.

Nossa atual Constituição cidadã, promulgada em 05 de outubro de 1988, em seu Artigo 5º, inciso VI dispõe que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença”.

Até mesmo o direito ao ateísmo está previsto e garantido constitucionalmente.

Já no seu artigo 19 a Constituição proíbe aos governantes estabelecer com os representantes de qualquer culto, relações de dependência ou aliança, ressalvada a colaboração de interesse público.

Por tudo isso, é extremamente preocupante a denúncia publicada pela presidente da APEOESP (Associação dos Professores do Estado de São Paulo), professora Maria Izabel Noronha, referente aos os avanços da chamada bancada religiosa, na verdade, um bloco formado por representantes e aliados das igrejas evangélicas pentecostais, na área da educação formal no Brasil.

Segundo a professora, a bancada evangélica da Câmara dos Deputados está querendo incluir o criacionismo nos currículos escolares e ainda excluir todos os conteúdos relacionados às religiões de matriz africana e indígena da Base Nacional Comum Curricular.

Considerando que o criacionismo é dogma religioso judaico-cristão não havendo nele qualquer princípio científico e sim de fé, e ainda, em clara oposição aos estudos evolucionistas aceitos por todas as áreas do conhecimento científico e que, os conteúdos relacionados às religiões afro-brasileiras são de enorme importância cultural e histórica, as pretensões da citada bancada batem de frente com o laicismo e as garantias estabelecidas pela Constituição.

Voltando ao texto escrito pela professora Maria Izabel, temos que “a situação da educação brasileira se agrava a cada momento. Vivemos um quadro de retrocessos que não podemos tolerar e sobre os quais não podemos nos calar.

O governo interino e ilegítimo de Michel Temer, com Mendonça Filho (DEM) à frente do Ministério da Educação, não apenas quer asfixiar a educação pública cortando verbas com a volta da DRU, mudanças no regime de repartição dos royalties do petróleo e rendimentos do pré-sal (que deixariam de ir para educação e saúde), fim das vinculações constitucionais de recursos, fim da política de valorização do piso salarial profissional nacional e outras medidas investe contra a própria concepção de educação pública, gratuita, laica, inclusiva e de qualidade para todos e todas”.

Segue a denúncia “Isto é gravíssimo! O que está ocorrendo na educação brasileira neste momento é uma intolerável demonstração de autoritarismo típico de ditaduras, buscando impor um pensamento único com base em princípios
religiosos incompatíveis com a natureza e função social da educação”.

Parece alarmismo, mas, infelizmente não é.

Em tempos de golpes midiáticos-jurídicos-parlamentares e de preconceitos que lembram os tempos de ascensão do totalitarismo, não é de duvidar que uma marcha fundamentalista queira mesmo convencer nossas crianças e nossos jovens de que Deus realmente fez o homem a sua imagem e semelhança há pouco mais de 3 mil anos, Eva de uma mísera costela do homem e que Darwin era um babaca. 

Que o paraiso foi perdido por causa da tentação de Eva (sempre a mulher) e se não fosse por ela ainda estaríamos lá.

E da mesma forma que que os judeus foram utilizados para alimentar ódios, não sejam os negros, os umbandistas, seguidores de cultos afro e seus estudiosos, também utilizados como estopim para a discórdia.

Se não estivermos atentos o Talibã será aqui e Galileu finalmente será queimado na fogueira.




Prof. Péricles

sábado, 25 de junho de 2016

OPERAÇÃO CONDOR, JUSTIÇA E INVEJA


A Operação condor foi uma aliança secreta feita entre as ditaduras do Chile, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia e Paraguai. 

A iniciativa da criação da aliança assassina foi da ditadura sangrenta de Augusto Pinochet, do Chile.

A partir de sua formalização, a Operação Condor permitiu a ação de agentes da repressão além de suas fronteiras. Dessa forma, exilados políticos distantes de seus países de origem foram atacados, presos e mortos.

Os atos ilegais e covardes praticados pelos agentes dessas ditaduras foram supervisionados e auxiliados pela CIA.

Durante as décadas de 70 e 80, a Operação Condor (condor é um abutre gigante dos Andes que se alimenta de carniça) sequestrou, torturou e matou, um número até hoje não determinado de opositores dessas ditaduras.

Entre nós, brasileiros, os casos mais citados são a prisão de um casal uruguaio no centro de Porto Alegre e que depois apareceram em prisões do Uruguai.

A morte de João Goulart e o estranho acidente fatal de JK também são lembrados como prováveis ações da Operação Condor.

Poucas autoridades daqueles anos negros reconheceram a existência dessa trama maquiavélica, mas sua história sangrenta é de largo conhecimento público internacional e reconhecida pelos Estados Unidos.

O Brasil, infelizmente, preferiu esquecer suas mazelas e colocar esparadrapos por cima das feridas como se nada tivesse acontecido e, por isso, a Operação Condor entre tantos outros crimes praticados foram para a triste área do esquecimento.

Mas outros povos têm mais coragem e buscam recontar aqueles tempos, sem medo de enfrentar seu próprio passado e nisso, destacam-se os argentinos.

Recentemente a Argentina condenou 15 ex-militares a penas de prisão que variam de 8 a 25 anos por participarem da chamada Operação Condor, entre eles o último ditador do regime militar.

Os principais condenados foram o ex-presidente Reynaldo Bignone e o ex-comandante Santiago Omar Riveros, a 20 e 25 anos de prisão, respectivamente, pelo desaparecimento de 105 pessoas durante a sangrenta ditadura entre 1976 e 1983. O veredicto foi proferido depois de 16 anos de tramitação do processo.

Bignone foi o último dos chamados presidentes de facto do regime militar da Argentina, de julho de 1982 até dezembro de 1983, quando transferiu o poder para Raúl Alfonsín, que havia vencido eleições democráticas. Em 2011, ele foi condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade.

O julgamento e a condenação dos réus não trarão de volta à vida os 150 desaparecidos diretamente por ações da Operação Condor, nem os mais de 30 mil torturados e mortos pela ditadura argentina. Mas, se a aplicação da justiça exigisse o milagre da ressurreição ela jamais seria feita.

Para os parentes é um alento saber que os responsáveis pelo martírio de seus amados estão sendo punidos, não importa o tempo que passou.

Justiça é o mínimo que as vítimas merecem, assim como a própria história do país.

Aos brasileiros vertebrados, sobra apenas a inveja pela coragem dos vizinhos e a indignação diante da covardia tupiniquim.



Prof. Péricles

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O DEDO DE LULA


Por EMIR SADER

Dois ídolos do ódio racista que a direita promoveu no Brasil, Bolsonaro e Moro, usaram o dedo do Lula para expressar seus valores.

Bolsonaro imprimiu e difundiu camisetas em que aparece a mão do Lula com quatro dedos, explorando o defeito físico do maior líder popular que o Brasil já teve. Moro, conversando com seus comparsas, se refere ao maior dirigente político que o país tem como "nine", uma forma depreciativa de mencionar Lula.

São duas formas de expressão em que se revelam personalidades desprezíveis, odiosas execráveis, de preconceito e de tentativa de desqualificação de um líder popular, de um operário, de um imigrante nordestino.

Expressam bem o que é a elite branca brasileira do centro sul, que se considera dona do país e sempre tratou de tratar aos outros – os de origem popular, os do nordeste, os trabalhadores – como bárbaros, selvagens, "mal informados", como disse o outrora líder dessa gente, o FHC.

A sociedade brasileira teve sempre a discriminação como um dos seus pilares. A escravidão, que desqualificava, ao mesmo tempo, os negros e o trabalho – atividade de uma raça considerada inferior – foi constitutiva do Brasil, como economia, como estratificação social e como ideologia.

Uma sociedade que nunca foi majoritariamente branca teve sempre como ideologia dominante a da elite branca. Sempre presidiram o país, ocuparam os cargos mais importantes nas FFAA, nos bancos, nos ministérios, na direção das grandes empresas, na mídia, na direção dos clubes, nas universidades, nos governos – em todos os lugares em que se concentra o poder na sociedade, estiveram sempre os brancos.

A elite paulista e do sul do país representa, melhor do que qualquer outro setor, esse ranço racista. Nunca assimilaram a Revolução de 30, menos ainda o governo de Getúlio.

A ideologia separatista de 1932 – que considerava São Paulo "a locomotiva da nação", o setor dinâmico e trabalhador, que arrastava os vagões preguiçosos e atrasados dos outros estados – nunca deixou de ser o sentimento dominante da elite paulista em relação ao resto do Brasil.

Os trabalhadores imigrantes, que construíram a riqueza de São Paulo, eram todos "baianos" ou "cabeças chatas", trabalhadores que sobreviviam morando nas construções – como o personagem que comia gilete, da música do Vinicius e do Carlos Lira, cantada pelo Ari Toledo, com o sugestivo nome de pau-de-arara, outra denominação para os imigrantes nordestinos em São Paulo.

A elite paulista foi protagonista essencial nas marchas das senhoras com a igreja e a mídia, que prepararam o clima para o golpe militar e o apoiaram, incluindo o mesmo tipo de campanha de 1932, com doações de joias e outros bens para a "salvação do Brasil"- de que os militares da ditadura eram os agentes salvadores.

Terminada a ditadura, tiveram que conviver com Lula como líder popular e o Partido dos Trabalhadores, para quem canalizaram seu ódio de classe e seu racismo. Lula é o personagem preferencial desses sentimentos, porque sintetiza os aspectos que a elite paulista mais detesta: nordestino, não branco, operário, esquerdista, líder popular.

Não bastasse sua imagem de nordestino, de trabalhador, sua linguagem, seu caráter, está sua mão: Lula perdeu um dedo não em um jet-sky, mas na máquina, como operário metalúrgico, em um dos tantos acidentes de trabalho cotidianos, produto da super exploração dos trabalhadores. Está inscrito no corpo do Lula, nos seus gestos, nas suas mãos, sua origem de classe. É insuportável para o racismo da elite branca brasileira.

Essa elite racista teve que conviver com o sucesso dos governos Lula, depois do fracasso do seu queridinho – FHC, que saiu enxotado da presidência – e da sua sucessora, a Dilma. Teve que conviver com a ascensão social dos trabalhadores, dos nordestinos, dos não brancos, da vitória da esquerda, do PT, do Lula, do povo.

O ódio a Lula é um ódio de classe, vem do profundo da burguesia paulista e do centro sul do país e de setores de classe média que assumem os valores dessa burguesia. O anti-petismo é expressão disso. Os tucanos foram sua representação política e a mídia privada, seu porta-voz.

Na crise atual, a burguesia e setores da classe média do centro sul protagonizaram algumas das cenas mais vergonhosas da história brasileira, nas manifestações contra a democracia, a favor do golpe e da ditadura militar, exibindo suas dimensões mais fascistas e discriminatórias.

Colocavam pra fora o ódio contra os que tinham regulamentado o trabalho das empregadas domésticas, que já não serviriam à opressão e à exploração indiscriminada das patroas. Contra os que tinham transformado o Nordeste, que tinham aberto as universidades para os jovens pobres, contra os que tinham permitido aos pobres de viajar para ver seus parentes ou para fazer turismo. Contra os que fizeram do Brasil um país menos injusto, menos desigual, contra os que tiraram o país do Mapa da Fome, a que as elites brancas tinham condenado o povo para sempre.

E Lula sempre foi e continua sendo a expressão mais alta desse movimento de democratização social do Brasil.

Gente como Bolsonaro e Moro ofendem a Lula porque sabem que assim ofendem ao povo, aos trabalhadores, aos nordestinos. Tentam desconhecer que a indústria brasileira foi construída com as mãos de operários como o Lula, que os carros em que eles passeiam foram construídos por trabalhadores como o Lula. Que o dedo que Lula perdeu são os muitos dedos que os acidentes diários de trabalho provocam nos trabalhadores, para sobreviver com baixos salários e produzir as riquezas do Brasil.

Bolsonaro e Moro são os herdeiros do político do sul que disse que "iam acabar com essa raça por décadas". Deveriam ser processados por racismo, ao exibir essas camisetas com Lula sem um dedo e ao falar de Lula como "nine". São seres desprezíveis, odiosos, execráveis, do pior que o Brasil tem, pelo ódio de classe ao povo, aos trabalhadores, aos nordestinos, pelo ódio ao Brasil.

Nós nos orgulhamos de Lula como eles não podem se orgulhar de seus ídolos, promotores do estupro de mulheres e agentes fascistas contra os partidos e líderes de esquerda, contra a própria democracia, que é e será fatal para eles.



Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O RISCO É HILLARY PERDER


Por José Inácio Werneck


Há pouco mais de um ano era quase certo que a disputa pela presidência dos Estados Unidos seria entre membros de duas ilustres dinastias: Jeb Bush, pelos republicanos, e Hillary Clinton, pelos democratas.

Jeb Bush cedo sucumbiu, esmagado pelo terrível legado da Guerra do Iraque, deixado por seu irmão George, e pelo apelido de “Low Energy Jeb” que lhe foi dado por Donald Trump.

Hillary Clinton porém está próxima de conquistar a indicação pelo Partido Democrático.

Seu adversário será exatamente Donald Trump que, ao anunciar sua candidatura, era considerado pouco mais do que uma figura cômica, quase um palhaço, famoso por sua insaciável sede de publicidade, por seu programa The Apprentice e pela ridícula campanha em que insistia que o presidente Barack Obama tinha nascido no Quênia.

A escolha de Hillary Clinton era considerada quase uma “coroação”, pois não haveria entre os democratas um candidato que pudesse superá-la.

Mas o senador por Vermont, Bernie Sanders, que não pertence ao Partido Democrático, apresentou-se como independente em suas primárias e conseguiu o que parecia impossível, pois lutava contra a máquina do partido: endureceu a campanha contra Hillary Clinton.

Hillary ganhará a escolha na convenção, mas sua eleição à presidência, que parecia certa, é agora uma grande dúvida: as pesquisas de opinião apontam um empate virtual entre ela e Donald Trump e a tendência é para o crescimento deste.

A eleição de Trump, boquirroto, demagogo, irresponsável e fascitóide, seria ou será uma tragédia para os Estados Unidos e para o mundo: todas as suas promessas (ou ameaças), como uma guerra comercial contra a China, o muro na fronteira mexicana (com a conta enviada ao governo do país vizinho), a proibição da entrada de muçulmanos no país, a promessa de reativar as poluentes minas de carvão, a ameaça de usar bombas atômicas, são irresponsáveis – além de provavelmente irrealizáveis.

É difícil acreditar que um país adiantado como os Estados Unidos possa eleger uma pessoa como Trump, mas Hitler e Mussolini, em suas épocas, também conquistaram imensa popularidade na Alemanha e na Itália.

O problema de Hillary Clinton, porém não é Trump, é ela mesma, Hillary.

A cada dia que passa as pesquisas de opinião revelam que mais e mais eleitores desconfiam de seu caráter.

Hillary é cada vez mais uma pessoa vista como pouco confiável, capaz de mentiras e tergiversações que vão desde negócios duvidosos ao tempo em que seu marido Bill era governador de Arkansas e depois presidente dos Estados Unidos, até os tempos atuais, com suas palestras secretas para os banqueiros de Wall Street, em troca de 11 milhões de dólares, aos e-mails em seu provedor particular enquanto foi Secretária de Estado de Barack Obama.

Mesmo o eleitorado feminino confia pouco em Hillary Clinton, achando que ela sempre foi conivente, omissa e até cúmplice (pelo menos cúmplice a posteriori), encobrindo as conhecidas aventuras extraconjugais de seu marido e culpando as parceiras.

Em suma, como ela demonstrou ao apoiar George W. Bush em sua decisão de invadir o Iraque (enquanto Bernie Sanders e Barack Obama se opunham), a impressão geral é de que Hillary toma posições com base em um único critério: o que ela julga mais conveniente para sua carreira.

No caso da invasão do Iraque, ela não queria ficar fora do que achava seria uma “marcha triunfal” dos americanos no país.

A história provou que foi um erro colossal.

Por isto muita gente não votará em favor de Hillary Clinton no próximo mês de novembro: sufragará o nome de Hillary Clinton como único jeito de votar contra Donald Trump.

Assim está a eleição no país mais rico do mundo: entre um pilantra e uma oportunista.

Dos males, o menor.

Resta saber se será o suficiente para dar a vitória aos democratas.



José Inácio Werneck, jornalista e escritor é intérprete judicial em Bristol, no Connecticut, EUA, onde vive.



sábado, 18 de junho de 2016

O ACABA BAILE


Uma das figuras mais conhecidas das histórias que se contam nos pagos do Rio Grande é do “Acaba Baile”.

O “Acaba Baile” era o índio guapo barbaridade, que se achegava nos bares para tomar uma canha, já olhando com o canto do olho para a assistência e, em dia de festa, já chegava no baile armado de facão.

Bastava um olhar atravessado que o cuera já se atacava e o buchichim estava feito.

Érico Veríssimo descreveu em “Um Certo Capitão Rodrigo” o seu personagem principal como um autêntico “Acaba Baile”.

Quando o Capitão Rodrigo chega em Santa Fé vai direto para o bolicho e ao entrar solta a pérola: “"Buenas e me espalho, nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!".

Como todo bom fanfarrão o Capitão Rodrigo está se apresentando e dizendo que nos mais fracos bate pouco (nos pequenos dou de prancha, isso é, com o lado do facão) mas nos grandes bate muito (nos grandes dou de talho, ou, com o fio do facão).

Claro, criaturas assim fazem parte das lendas pampeanas e são assunto para causos e risos em roda de chimarrão.

Eles existem a séculos no imaginário que moldou a lenda do gaúcho corajoso e desafiador que não teme a nada sendo figuras queridas do folclore gaúcho.

Mas não é que pros lados dos esteites, um lugar exemplar para muitos, apareceu um acaba baile, pior, muito pior do que qualquer Capitão Rodrigo?

Trata-se de Omar Mateen, um jovem de 29 anos, homofóbico e simpatizante do radicalismo islâmico representado pelo Exército Islâmico (EI).

Armado com um rifle de repetição um revólver e um "aparelho suspeito", que teve uma explosão controlada, que não foi mais detalhado pela polícia, o rapaz conseguiu entrar numa boate de público majoritariamente gay e passou a disparar a torto e a direito, matando indiscriminadamente ao seu redor.

Foram 49 vítimas fatais e mais de 50 feridos.

Longe de ser fruto de uma lenda urbana ou alimentar causos e risos Omar é bem real.

Suas origens não estão no folclore, mas na intransigência do ocidente para com os de orientação sexual diferente da sua.

Estão na competição avassaladora dessa sociedade que rotula cada um como vencedor ou derrotado desde a mais jovem idade.

Estão na exclusão e na solidão que acompanha os que se sentem menores mesmo que cercado por milhões.

Na hipocrisia de uma sociedade que em nome dos lucros imensos da indústria da bala, permite que armas e munição sejam vendidos por atacado ou a varejo nos balaios de liquidação.

O Acaba Baile norte-americano não acabou apenas com o baile em que pessoas se divertiam e gastavam o seu dinheiro arduamente conquistado, mas com as vidas dessas pessoas que ele sequer conhecia.

O pior nem é a existência de um “Acaba Baile” que não conseguiu controlar suas próprias carências e instintos e num misto de moralismo e religiosidade extrapolou suas emoções e partiu para a ação enlouquecida.

O pior é que muitos outros “Omares” permanecem silenciosos nas mentes reacionárias de muitos homens de bem e de poder, capazes de esconder seu ódio.

São esses "Omares" que se divertem com as piadas racistas, o comportamento homofóbico e impedem que qualquer lei que dificulte o acesso às armas nos Estados Unidos seja aprovada.

O Capitão Rodrigo, se estivesse por aqui, bateria de prancha numa pessoa como Omar Mateen, psicótico e vítima de si mesmo, e de talho numa sociedade que discrimina, marginaliza e não suporta a felicidade de quem considera inferior.



Prof. Péricles



quinta-feira, 16 de junho de 2016

RUÍNA DE UMA TRAIÇÃO


Por Max Cavalera


Esfacela-se, miseravelmente, toda a rede conspiratória que culminou em uma das mais vergonhosas e indecentes traições da nossa breve e frágil história democrática.


Sob à luz dos fatos, desmantela-se uma quadrilha de hipócritas que se utilizou da intolerância e do preconceito de uma sociedade branca, elitista e machista para se locupletarem num ciclo de corrupção, impunidade, poder e dinheiro.


A sequência dos fatos é estarrecedora tanto do ponto de vista prático quanto simbólico.


Uma vez afastada a presidenta Dilma, vimos, num misto de espanto e horror, surgir um ministério de velhos burgueses onde a diversidade de gênero, de raça e de ideias se fez tão escasso quanto a dignidade dos que protagonizaram a verdadeira falência desse tão celebrado Estado Democrático de Direito.


A partir desse monstro criado da mentira e da desonra, pôs-se em prática a retomada de um Status Quo que em certo dia um metalúrgico ousou subverter.


Com o cínico discurso da moralidade, tudo a que se referia social foi revisto, diminuído ou simplesmente extinto. Assim manda o capital.


A questão é que não importa o quão dissimulado esse governo interino possa ser, a marca de sua ilegalidade é gritante. E logo fez suas primeiras vítimas.


Como num câncer que corrói de dentro pra fora, os primeiros sinais de podridão foram sentidos já nos primeiros dias. Temer se viu obrigado a cortar na carne para salvar as aparências.


Como a metástase de sua delinquência moral é incontornável, assumiu de vez o caráter puramente corruptor e corruptível de sua equipe e já não se constrange em manter ao seu lado a leva de denunciados que se somam a cada dia.


No caminho percorrido que levou à completa desmoralização de todos aqueles que apoiaram o golpe, chegamos ao dia em que é solicitada a prisão da nata dos golpistas. Jucá, Sarney, Renan e Cunha na cadeia criam um retrato fiel do que representa Michel Temer na presidência da República.


Que jamais esqueçam, cada lágrima derramada pela traição regará a força e a razão necessárias para impor a ruína dos traidores.




Max Cavalera, nome artístico de Massimiliano Antônio Cavalera, é um cantor e guitarrista brasileiro. Formou a banda de thrash metal Sepultura juntamente com seu irmão, Igor Cavalera.

terça-feira, 14 de junho de 2016

AMANHÃ HÁ DE SER OUTRO DIA


Por André Roberto de A. Machado

Logo depois da votação do impeachment de Dilma Roussef na Câmara dos Deputados, cheguei em casa e peguei o único Hemingway da prateleira. Não sou um grande conhecedor de Hemingway, nem mesmo um profundo admirador da sua literatura. Mas foi um ato imediato, impensado. Larguei inacabado o romance do português Lobo Antunes que tinha me acompanhado na viagem, uma história engenhosa de um homem velho entre o delírio e a vida em seus dias finais, e agarrei uma narrativa solar. Mas não era a literatura que eu buscava.

Afinal, nós somos a exceção da história da humanidade: excetuando os anos finais da Ditadura começada em 1964

Depois de algum tempo, entendi que eu buscava mesmo era a companhia de Hemingway, como a de um amigo mais velho que talvez me explicasse o que estava acontecendo.

A verdade é que nos últimos dias tenho pensado muito na vida de Hemingway que, na verdade, é muito parecida com a maior parte da história dos homens de todos os tempos: um indivíduo que saltou de uma guerra para outra, de um desastre para outro até desembocar em um suicídio, ironicamente repetindo a atitude do pai. Exceção mesmo só foi o sucesso literário e o fato de que, no meio tempo entre tudo isso, até teve a chance de viver em uma Paris que faz inveja a todos nós.

Acredito que para nenhum outro grupo o Golpe de Estado que está acontecendo é pior do que para a geração que, como eu, está chegando hoje aos 40 anos. Não tenho dúvidas de que é algo terrível para aqueles que viveram a repressão da última ditatura e conheço relatos muito tristes de pessoas que começam a ter reminiscências desse tempo. No entanto, para aqueles que estão próximos dos 40 e não tiveram pais ou pessoas próximas diretamente atingidos pela repressão, encarar o avanço assustador do conservadorismo, aqui coroado com um golpe parlamentar muito semelhante a de outras partes da América Latina, é difícil de assimilar por falta de repertório.

Afinal, nós somos a exceção da história da humanidade: excetuando os anos finais da Ditadura começada em 1964, quando éramos muito novos para compreender o que estava acontecendo, a nossa vida foi toda percorrida em um regime democrático. Não aconteceu nada parecido como esta tentativa de inversão de um resultado eleitoral, quando o programa de governo derrotado está prestes a ser implementado por via de uma espécie de “indiretas já”.

Ao contrário disso, os resultados eleitorais, ao menos no plano nacional, foram não só respeitados, como é inegável uma melhoria do país e avanços à esquerda em quase todas as áreas, mesmo que sempre insuficientes para o nosso gosto. Da mesma forma, nunca vivenciamos pessoalmente uma guerra, a não ser nas redes sociais. Não choramos a dizimação do país por uma peste ou desastre natural de enormes proporções.

Mas parece que agora as coisas mudaram e talvez tenhamos que cada vez mais pensar naqueles que admiramos e passaram por adversidades como as que estão nos obrigando a viver agora.

De relatos de amigos a resumos que li sobre a recente entrevista do ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, para a imprensa alternativa em São Paulo, o que mais me chamou a atenção foi a incompreensão dele ao nosso sentimento de “fim da história”. Apoiado em tantas lutas, Mujica só lembrava a todos nós que nenhuma vitória ou derrota é definitiva. Por isso, venho insistindo aos meus companheiros de geração: vamos lutar até o fim, mas, se o golpe prevalecer, vamos ter que encarar as consequências que virão de frente, como fizeram os que vieram antes de nós. Essa será a nossa vida.

A miséria política brasileira não é um discurso só de ódio ao PT, mas à política em geral.

Logo após a votação do impedimento de Dilma Roussef, muitos se perguntaram: é possível resistir? Como resistir? Vladmir Saflate poucos dias antes, na Folha de São Paulo, indicou uma direção: a desobediência civil.

Vários outros escreveram nos dias seguintes sobre o direito histórico de resistir a governos considerados ilegítimos. Isso acontecerá nestes termos? Não sei. A desobediência civil parece um ato simples, mas não é por acaso que é rara na história e, via de regra, mortal para os regimes políticos. Na falta de um Gandhi ou de um Luther King, fica a pergunta do que traduzirá para os demais esse sentimento difuso de que está tudo fora dos seus lugares.

Além disso, não se trata apenas do mandato de Dilma Roussef. É preciso resistir a uma onda conservadora, dessas que se espalham pelo Brasil afora. 

Na contramão do mundo, não bastavam as antigas pautas como leis homofóbicas, contra o aborto e o uso de drogas que já são legais em boa parte dos países tão admiradas por nossas mentes colonizadas.

sábado, 11 de junho de 2016

CHAMA PELA MÃE


Toda criança sabe que quando a coisa estiver preta, não houver mais esperanças, estiver perdido... resta a opção mágica que é gritar com toda a força dos pulmões pela mãe.

Funciona.

Mãe é super-heroína e, mesmo sem a gente saber como, aparece em qualquer lugar naquele pior momento de aflição.

O brasileiro sempre teve uma mãezona que aprendeu a confiar e esperar nos piores momento e, talvez, o mais triste dessa crise que nos tirou tantas coisas, foi perder essa última esperança.

Os tribunais de justiça, seus rituais sempre alimentaram o mito da justiça cega e do juiz imparcial, que não olha a quem dar razão e a concede aquele que verdadeiramente merece.

O mito de que todos somos iguais perante a Lei faz parte da inocência de acreditar num país igual para todos.

Numa cadeia de esperanças dá para dizer que o supremo do supremo, isso é o STF sempre foi a verdadeira mãe pela qual se grita e confia na intervenção segura quando em perigo.

As atitudes parciais e partidárias do supremo trazem um peso muito maior para nossa história já que a justiça deixou de ser cega para se tornar vesga.

De certa forma o brasileiro perdeu a mãe pela qual sempre gritava quando tinha medo. O medo agora é da própria mãe, ou seja, da própria Lei.

Por isso, o pior do pior, em toda essa crise moral que o país passa, foi perder a fé na justiça.

Mesmo não conhecendo os meandros processuais o povo se pergunta como pode um ministro ficar mais de cinco meses de posse de um processo contra alguém que era chave na aceitação do impeachment da presidente, sem se pronunciar.

Obviamente responde de si para si ele queria o afastamento da presidente e por isso não fez seu trabalho.

No popular, Dilma gritou pela mãe quando se sentiu cercada de criminosos... mas a mãe não ouviu.

O que aconteceu para que um juiz federal estadual abandonasse a discrição e o anonimato que eles fazem questão de criar sobre si e sua vida privada para virar protagonista, aparecer na televisão, ganhar prêmio, ver a esposa postar vídeo enaltecendo suas qualidades?

Como acreditar novamente?

Tem coisas que ninguém deveria ter o direito de tirar das pessoas.

Uma delas é a ingênua idéia de que a justiça é soberana e está acima de qualquer outro interesse.

Outra e acreditar que mãe nunca falha.

MÃEEEEE....




Prof. Péricles

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A ÓPERA BUFA DO GOLPE

Maria Fernanda Arruda

Por Maria Fernanda Arruda

Como é constante na História do Brasil, o grande derrotado é o povo. Mas, nesse momento trágico-cômico, todos estamos entregues às mãos de bandidos primatas.

Quem eles representam? Representam a Máfia que quer dominar a educação, a saúde, as terras e os recursos naturais, hoje em especial a Máfia do Petróleo. Nesse momento, não são os banqueiros e alguns segmentos das velhas elites nacionais. Esses tiveram sempre a boa-educação recebida: dos Setúbal aos Mesquita.

Já tivemos a fala de Miguel Reale: proferindo palavras com dificuldade dolorosa, ele não consegue expor ideias que não formula, perde-se no vazio das mentes afetadas pelos malefícios de uma saúde precária. Foi seguido de Janaína, a histérica carente e que vive a crise incalculável de abstinência, aquela a quem falta tudo, mas especialmente o juízo que lhe permitiria fosse um ser racional.

São várias as certezas que poderão ser antecipadas e que correspondem aos anseios maiores dos donos do poder, desejosos de completar a obra-prima parida por Fernando Henrique Cardoso.

Haja espaço para lamentarmos, além das figuras nojentas, Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Jose Sarney e mais alguns tantos. Caiado de Castro não é Carlos Lacerda. As bancadas do PMDB e do PSDB não fazem uma velha banda de música, aquela que era regida por Afonso Arinos. A derrota nos está sendo imposta pela incompetência dos que foram líderes.

A enumeração dos erros faz uma listagem muito grande que foram tolerados em razão daquilo que excepcionalmente de bom foi feito: a inclusão social de milhões de brasileiros.

O Partido dos Trabalhadores, é preciso reconhecer e entender, acomodou-se no pantanal da política brasileira e os seus comandantes devem ser responsabilizados.

Não vale para coisa alguma o sofisma paupérrimo do “ruim com eles, pior sem eles”.

Possivelmente, a menor das culpas caiba a Dilma Rousseff. A ela não se atribua corrupção.

A crítica do Partido dos Trabalhadores precisa ser feita, associada a uma proposta e um programa de ação. Não cabe fazer crítica baseada no sentimento justo de frustração. E não dispensa a contestação dura e firme do Golpe de Estado e o que resulte dele.

Greves? Greve geral é utopia, totalmente teórica e inviável. Greve dos petroleiros: perfeito. Greve dos transportes públicos: altamente desgastante junto ao povo. Greve dos estudantes? Ótimo, desde que não termine com todos indo para a praia: ocupem os estabelecimentos e usem o espaço para atividades de discussão, esclarecimento, diálogo com a sociedade. Fazer passeatas de protesto contra a Globo? Repetir o que já foi feito e está sendo repetido? Seria viável obter o apoio efetivo de atores e atrizes que vendem seus serviços.

Não tenhamos ilusões, como as que foram alimentadas diante da ditadura de 1964, imaginando-se que teria duração curta, jamais supondo-se 20 anos de chumbo.

Teremos que enfrentar um parto difícil e dolorido, pois não nos preparamos para ele, embalados pelos sucessos obtidos, mas que cegaram para os problemas que foram se acumulando.

O que fazer então? O que faltou?

1. Aceitou-se e justificou-se a política econômica neoliberal, que era programa do PSDB, e não do PT. Cometeu-se o erro grosseiro, aceitando a atuação de um Ministro empregado de um banco privado. Tivemos meses de justificativas equivocadas. Não será possível a repetição do erro e o povo precisa ser esclarecido, o que não se fez, tentando-se a validação da mentira.

2. A regulamentação da “mídia” é condição para que se realize a desintoxicação ideológica promovida pela televisão.

3. Os programas sociais precisam ser mantidos e aperfeiçoados. Precisam ser divulgados de forma eficiente, sem a conotação simplória que se usou com frequência. Organizados e fiscalizados.

4. A omissão diante do problema indígena é inaceitável, e muito menos ainda a prática de desrespeito sistemático aos camponeses, contando-se para isso com o apoio do MST.

5. O modelo agroexportador, justificando a ocupação ilegal de terras, o uso indiscriminado de agrotóxicos e a disseminação das sementes transgênicas, precisa passar por reformas radicais.

6. O desenvolvimentismo, que justifica a desumanização brutal, tem que ser substituído pelo planejamento de um desenvolvimento econômico e social.

7. A reforma política é condição para as demais reformas. Não se confunde com medidas paliativas e só será possível com uma nova Constituição.

Essa é uma listagem preliminar, incompleta e enunciada de maneira muito pouco refletida. Mas pode ser um ponto de partida. É preciso substituir a superficialidade e o dogmatismo dos slogans que, por mais que sejam repetidos, não se fazem realidade.

Maria Fernanda Arruda é escritora, midiativista e colunista do Correio do Brasil.



terça-feira, 7 de junho de 2016

SOBRE MITOS, PODER E MENTIRAS


Eram duas irmãs que disputavam o poder na Terra: Democracia e Ditadura.

Democracia era bela, modos elegantes, tratava a todos da mesma maneira.

Ditadura era uma ordinária, só gostava de cafajestes e tratava as pessoas de acordo com seus próprios e íntimos interesses.

Democracia nasceu na Grécia, passou muitos anos afastada de todos e voltou só no fim da Era dos Feudos, infelizmente, muito mal acompanhada por um tal de capitalismo, que a promoveu como estrela de seu show de ilusionismo.

Ditadura era mais velha, inclusive ninguém sabia sua real idade pois sempre fora vista junto com os homens desde os tempos mais remotos.

Na verdade, Ditadura era meio revoltada já que, injustamente, diziam que ela só andava com socialistas e comunistas, quando na verdade sempre fora a preferida do capitalismo, aquele infiel.

Isso mesmo, o capitalismo fazia as maiores sacanagens com ditadura, mas, andava com democracia só para manter as aparências.

Ditadura gostava muito do Brasil.

Esteve em nosso país desde o nascimento da nação.

Era a melhor amiga de “Café com Leite”, brilhou no Estado Novo da Era Vargas e chegou a seu momento apoteótico com os militares (Ditadura adora os homens de farda, é um fetiche).

Democracia, coitadinha, nunca foi bem aceita em nossas terras.

Quando tentou se impor um presidente se suicidou em pleno mandato, outro renunciou e outro foi derrubado.

Democracia é assim mesmo, incompreendida entre os brasileiros.

Depois que sua irmã feiosa foi embora em 1985, Democracia ficou se achando. Inspirou a Constituição de 1988 e incentivou avanços sociais.

Pensou que agora sim, promoveria a diminuição das diferenças entre ricos e pobres, igualdades raciais e de gênero, enfim, Democracia ficou assanhada e fresca.

Ah... Dona Democracia, não aqui em terras tupiniquins... pensou uma velha inimiga sua, uma tal de Classe Média.

Classe Média era uma recalcada que ficava na janela invejando o progresso dos outros e torcendo para que sua janela fosse o centro do mundo.

Então, resolveu usar uma velha arma de sua querida amiga ditadura, a corrupção, para expulsar Democracia do país.

Quais das irmãs vencerá e permanecerá em nossas terras?

Bem isso dependerá de uma outra deusa pouco frequente nessas terras, mas decisiva nos momentos de crise - a Vontade, prima-irmã da dignidade, melhor amiga da Vergonha na Cara....

Mas esse... já é um outro mito.





Prof. Péricles

domingo, 5 de junho de 2016

GOLPE DE MESTRE

Por Tarcísio Lage


Michel Temer está de parabéns. Ele conseguiu dar o golpe de mestre, sonho máximo de partidos fisiológicos, sem ideologia.

No Brasil o PMDB ocupa o pódio. Golpe sim!

Se o Brasil fosse um regime parlamentarista a destituição de Dilma – vá lá, o eufemismo é afastamento – teria sido a coisa mais normal do mundo. Nesse sistema quem não tem maioria no Parlamento cai sem apelação. Mas o Brasil é presidencialista, os cargos executivos com mandatos de quatro anos, todo mundo sabe, até criança de escola primária.

Claro, sempre há a possibilidade de impedimento desde que dentro de normas previstas na Constituição, mas que não foram observadas.

Durante a aprovação pela Câmara, dia 17 se abril, assistimos ao espetáculo grotesco de ver a maioria da Casa sem ter a mínima ideia do motivo jurídico do pedido do impedimento e deputados dedicando seus votos a filhos, vovozinhas e até sogrinhas.

No Senado, pelo menos, a farsa foi menos grotesca.

No entanto, Michel Temer, o mestre golpista, nem de longe agiu só encastelado no Jaburu. Teve cúmplices em praticamente todas as instituições, do STF a traidores nos ministérios, na Lava a Jato, no diabo a quatro. 

Prometeu corte drástico nos ministérios, desistiu ao ver diminuído o poder de barganha de cargos e vacila ainda como comerciante sem escrúpulos ou de alguém que começou sua carreira política com Ademar de Barros.

É mais do que possível que soubesse da queda de Cunha depois do espetáculo deprimente da sessão do dia 17 e que o ministro Gilmar (acrescente o adjetivo mais apropriado) Mendes ia abrir processo contra Aécio Neves sobre graves suspeitas de falcatruas em Furnas. Toma lá, dá cá.

Mestre incontestável do golpe, da cartada decisiva, do xeque mate, Michel Temer é também não mais do que um instrumento de grupos nacionais e multinacionais interessados na mudança radical da política econômica brasileira.

O primeiro e mais urgente relaciona-se ao assédio constante das petroleiras pela privatização da Petrobras desde de que foi fundada em 1953 no bojo do movimento que tomou as ruas sob o lema “o petróleo é nosso”.

Não foi por nada que Temer nomeou Serra para o Ministério do Exterior, um sujeito que destoa até de seu próprio partido de tão entreguista que é. E não duvide: é bem provável que o preço do petróleo suba a medida que a privatização da Petrobrás se torne real. Certamente a Exxon e a Arábia Saudita vão deixar de segurar o barril a preço de banana.

O outro objetivo desse golpe é recolocar o Brasil total e cabalmente na área de influência dos Estados Unidos e do dito Ocidente.

Nesse caso, o Brasil é pouco mais do que um peão no jogo de xadrez dos países ocidentais contra os BRICS. É bom lembrar que o novo Banco de Desenvolvimento criado pela China. Rússia, India, Brasil e África do Sul tem o objetivo declarado de concorrer com o Banco Mundial, instrumento de dominação econômica comandadopelos EUA desde do fim da Segunda Guerra.

O golpe no Brasil ou o impedimento inconstitucional, se quiserem, pode ser uma revisão tática do grande capital em relação ao Brasil. Nesse sentido, é preciso deixar bem claro que a primeira eleição de Lula, em 2002, só foi possível porque o programa original do PT foi rasgado e substituído por outro social democrata e até certo ponto nacionalista.

Durante seu governo, Lula fez acordos com banqueiros e com parte do agronegócio para o desenvolvimento do etanol. Um risco calculado de perder (como perdeu) militantes mais à esquerda. Nasceu aí ressentimentos de muitas organizações de luta, como o MST, mas não suficientes para quebrar a aliança popular que sustentou o governo.

E, talvez, mais importante: beneficiado pelo avanço econômico (o Brasil chegou à posição de sexta economia do Planeta) o PT deu início à grande cartada de seu governo: a melhor distribuição da renda. Sair da vergonha onde grandes executivos ganhavam (e ganham ainda) salários equivalentes aos de seus colegas em Nova Iorque ou Paris, enquanto competia com o Haiti o primeiro lugar da pior distribuição da renda no mundo.

O bolsa família para tirar de imediato milhões da miséria e o aumento real do salário mínimo foram os grandes instrumentos. O capital financeiro ao calcular um bom aumento do mercado consumidor apoiou, mas sempre com um pé atrás, fiel a sua ideologia neoliberal do Estado mínimo.

Enfim, contornadas as arestas, dado o encaminhamento da contenção da miséria absoluta com as migalhas do bolsa família, tudo indica que o grande capital financeiro quebrou a aliança tática com o PT e agora está com Michel Temer do partido que faz qualquer jogada por mais suja que seja.

É o Brasil escancarando as portas para o neoliberalismo.



Tarcísio Lage, jornalista, escritor. As Tranças do Poder é seu último livro.



sexta-feira, 3 de junho de 2016

TRAIÇÃO, UMA TRADIÇÃO BRASILEIRA


O Brasil é um país que tem tradição em traição.

Um dos mais clássicos dos traidores é Domingos Fernandes Calabar.

Homem aventureiro e de muitos recursos provindos da experiência com contrabando, lutou ao lado dos brasileiros liderados por Mathias de Albuquerque contra os holandeses quando esses invadiram Pernambuco, em 1630.

Porém, por razões desconhecidas, o homem endoidou e em abril de 1632 procurou as autoridades militares batavas. Entregou tudo. Número de combatentes, caminhos escolhidos e até a posição do Arraial de Bom Jesus, sede da resistência brasileira.

Para uma luta de guerrilha, o segredo é fundamental e por isso, as informações de Calabar foram fatais e os holandeses tomaram Bom Jesus prenderam e expulsaram Mathias Albuquerque e seus homens.

Derrotado e em retirada, Mathias de Albuquerque por um desses golpes do destino, conseguiu capturar Calabar que foi garroteado e esquartejado em 1635.

Sem dúvida Calabar traiu, pelo menos, seus amigos da resistência, embora não se possa falar de traição a um Brasil que ainda não existia.

Outro traíra clássico é Joaquim Silvério dos Reis.

Em troca do perdão de suas dívidas entregou os bons meninos que sonhavam libertar Minas Gerais da tirania lusitana, especialmente, da cobrança da derrama.

Todos presos, muitos torturados, um suicidado na prisão e uma execução exemplar, a de Tiradentes, tudo por causa do trairão Silvério dos Reis.

Há muitos outros, comprovados e suspeitos de trairagem.

O pai de Pedro Ivo, líder da Revolta Praieira de 1848 em Pernambuco, Clemente Malcher na Cabanagem, Costa e Silva que traiu Jango, Gregório Fortunato que teria traído Getúlio Vargas, Getúlio Vargas que teria traído Borges de Medeiros, Bento Manoel e principalmente David Canabarro que traiu os negros e a Revolução Farroupilha, entre outros.

Fulgura até um traidor responsável por inúmeras prisões, torturas e mortes (inclusive da própria namorada que estava grávida) na ditadura militar... o sinistro Cabo Anselmo.

Enfim, temos vários tipos e características de traidores e traições. Clássicos, militares, civis. Traidores ao gosto nesse Brasil varonil.

Agora testemunhamos um caso de traição acompanhada pela nação, passo a passo.

A traição aberrante de um vice-presidente de olho no cargo de Presidente e de olho nos interesses em jogo.

O processo de impeachment não passaria na Câmara dos Deputados sem a traição do PMDB e o mais irônico é que o PT sempre suportou a presença desse partido no governo, em nome da tal governabilidade, que implicava, exatamente, a defesa desse aliado em caso de necessidade.

A traição de Temer pode ser vista de vários ângulos, todos eles nefastos.

Tendo a imagem de televisão, minutos após encerrada a contagem oficial dos votos, mostrando uma Dilma emocionada ao lado de um Temer, teoricamente também emocionado, lembra a traição de Calabar a seus companheiros de luta.

Sabendo que o principal motivo do golpe é proteger parcelas importantes de golpistas envolvidas em corrupção, lembra Silvério dos Reis para se livrar da derrama.

Entendendo que na verdade, as classes médias conservadoras, apoiam e exigem o golpe para manter distante as classes mais pobres favorecidas pelo governo que cai, nos fazem recordar Malcher, um homem das classes mais abastadas, traindo os miseráveis cabanos.

O aliado traiu a aliada. O vice traiu a titular. O homem traiu a mulher.

Talvez o garboso vice, agora presidente interino, devesse atentar para o seguinte detalhe: assim como a traição é constante na história brasileira, o desprezo pelo traidor também é e o povo costuma execrar sua memória.

E o rótulo virtual de traidor não se apagará da testa e dos olhos do personagem.

Assim como os apoiadores da ditadura militar negavam que apoiassem uma ditadura, chamando o golpe de “revolução”, os atuais golpistas também rejeitam o título de golpe e de traição ao ato perpetrado por Temer e seus aliados.

Porém, apesar belos discursos exibidos com o lustre da mídia tentem justificar sua infâmia, a história, essa fofoqueira, sempre usará a definição exata de sua ação: traição.

E traição é um ato repugnante, e sempre será.



Prof. Péricles