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domingo, 19 de novembro de 2017

OBRIGADO A TER VERGONHA NA CARA



Por Cezar Britto

A nova legislação trabalhista brasileira, agora rebatizada de Consolidação das Lesões Trabalhistas, tornou-se uma das mais perversas do mundo, pois está centrada na compreensão de que o trabalho é “mero” custo de produção, uma “coisa” a ser apropriada pelo menor preço.


Ela nada mais é do que a cria nefasta do grupo patrimonialista que manda na política brasileira desde tempos imemoriais. Ou, em termos mais precisos e atuais, a legislação trabalhista é o produto final da “relação amorosa” do Congresso Nacional com o poder econômico financiador da imensa maioria dos parlamentares.


Não é preciso grande esforço reflexivo para se chegar a esta triste e óbvia compreensão, basta que se observe a composição do atual parlamento, como tem votado cada parlamentar e o seu relacionamento íntimo com as propostas impostas pelo governo representante dos patos amarelos, dos ruralistas desbotados e do capital multicolor.


Crueldade, compromisso ou caridade – conforme o credo abraçado – é do Congresso Nacional a competência de cada parlamentar federal fazer nascer um direito para o trabalhador ou determinar a morte de outro considerado mais injusto. É dele a iniciativa ou aprovação final de todo projeto de lei destinado a criar, regulamentar ou disciplinar o direito ao trabalho digno, assumindo a política que André Rebouças definiu como Aviltar e minimizar o salário é reescravizar, ou o conceito de trabalho como honra em que, se ela, no dizer de Gonzaguinha, Se morre, se mata, não dá pra ser feliz.


Foram os parlamentares quem estabeleceram, por exemplo, a permissão de se demitir o trabalhador por justa causa quando comentem crimes, faltam ao trabalho, maculam a imagem da empresa ou desrespeitam o superior hierárquico. Também autorizaram a demissão imotivada, a quitação anual de direitos não pagos, a possibilidade de mulheres grávidas trabalharem em ambientes insalubres, a supressão de direitos fixados em lei, o não pagamento de horas extras trabalhadas, a quebra da isonomia, dentre outras lesões.


Enfim, tem sido o parlamento um dos protagonistas da política de retrocesso de direitos sociais, fazendo certeira, infelizmente, a constatação de José Lins do Rego: “O pior não é morrer de fome num deserto: é não ter o que comer na Terra Prometida”.


O Congresso Nacional apenas “esqueceu” de aplicar estas regras aos próprios parlamentares, praticando o vergonhoso lema do faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Neste sentido, paradoxalmente, manteve intacto o “contrato de trabalho”, sem afastamento ou demissão por justa causa, do senador que o STF apontou como praticante de falta grave, no mesmo compasso em que se recusou suspender o contrato do dirigente presidencial acusado de chefe de quadrilha e obstrução à Justiça.


Continua-se pagando os vencimentos de parlamentares afastados, além de horas extras, diárias, liberações de emenda milionárias e mimos indenizatórios de esdrúxulas definições. E permanecem sem abrir processo disciplinar contra o “empregado do público” que, sem remorso, se apropria do patrimônio público. Quebram, assim, a regra simples tão bem sintetizada por Salvador Allende: Não basta que todos sejam iguais perante a lei. É preciso que a lei seja igual perante todos.


Talvez seja esta a grande oportunidade para se estabelecer uma nova regra de direito do trabalho ou direito administrativo, condição essencial para a tramitação de qualquer projeto de lei: direito à reciprocidade de tratamento. Destinar ao parlamentar o mesmo tratamento por ele fornecido ao cidadão, aos trabalhadores e aos servidores públicos. Aplicar no parlamento o que Gandhi chamou de o melhor argumento: o exemplo. Ou, na ausência, aprovar a proposta de Capistrano de Abreu para assim inscrever: Constituição Brasileira, artigo único: todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara.



sábado, 18 de novembro de 2017

O CINISMO DA GLOBO


Por Kiko Nogueira



O empresário Alejandro Burzaco, um dos delatores do caso Fifa, acusou a Globo de ter pago propina por direitos de transmissão de competições ligadas à Conmebol, como Copa América, Libertadores e Sul-Americana.



Burzaco, que se entregou em 2015, disse que, por meio de sua empresa de marketing esportivo, subornava autoridades.



Segundo ele, Marcelo Campos Pinto, então diretor da área esportiva da Globo, se reuniu em 2012 num restaurante de Buenos Aires chamado Tomo Uno com Julio Grondona, presidente da AFA, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero. No encontro, falaram de pagar 600 mil reais aos dois últimos.



Campos Pinto foi afastado da Globo três anos depois. Estava na casa desde 1994. Dava expediente na CBF e conduzia pessoalmente os contratos de mídia com as equipes nacionais.



Em 2011, com a implosão do Clube dos 13, conseguiu manter o futebol na Globo. A TV passou a ser a principal fonte de receita dos times.



No ano passado, segundo estudo do Itaú BBA, Globo e seus canais pagos injetaram R$ 1,210 bilhão nos 23 maiores deles, que arrecadaram R$ 3,113 bilhões no total.



A demissão foi em consequência do caso Fifa, que já despontava no horizonte. Em nota divulgada na terça, no entanto, a Globo garante que “se surpreende com o relato envolvendo o ex-diretor Marcelo Campos Pinto”.



“A ser verdadeira a situação descrita, o Grupo Globo deseja esclarecer que Marcelo Campos Pinto, em apuração interna, assegurou que jamais negociou ou pagou propinas a quaisquer pessoas”.



Ah, tá! Resolvida a questão.



O cinismo do comunicado é digno do grupo. A relação promíscua de Campos Pinto com os ladrões era absolutamente desavergonhada e conhecida. Quando tornou-se insustentável - graças à Justiça americana -, ele dançou.



Em 2015, Campos Pinto fez um discurso na festa de encerramento do campeonato paulista.



É uma elegia à picaretagem, sem qualquer meio tom, orgulhosa. Foi proferido no início de maio, alguns dias antes de Marin ser preso na Suíça a mando do FBI.



No palco, foi introduzido por Tiago Leifert. Reinaldo Carneiro Bastos, sucessor de Marco Polo Del Nero como presidente da FPF, mereceu lágrimas e voz embargada.



A Justiça americana investiga 24 anos de roubalheira. A Copa do Mundo é transmitida pela TV Globo desde 1970.



domingo, 12 de novembro de 2017

O CORNO DA RUA



Por Mario Santayana​


Se, como dizia Von Klausewitz, a guerra é a continuação da política por outros meios, a missão do jornalismo deveria ser a de escrever a história enquanto ocorre e acontece. Isso se a mídia não estivesse, na maioria das vezes, a serviço de seus próprios interesses e de projetos de poder mendazes, hipócritas e manipuladores.

Só os ingênuos acreditam em imprensa isenta em uma sociedade capitalista – na qual ela defende o interesse de seus donos e anunciantes. E mais ainda em um país como o Brasil, em que praticamente inexistem meios de comunicação públicos, tampouco democráticos e de qualidade, como em outros lugares do mundo.

A “história oficial” que tenta contar a mídia brasileira hoje é a de que vivemos em um país subitamente assaltado, nos últimos 15 anos, por “quadrilhas” e governos populistas e incompetentes. E que tenta, por meio de uma justiça corajosa e impoluta, livrar-se desse flagelo “limpando” a ferro e fogo a nação. Enquanto isso, um governo, coitado, que não é perfeito, alçado ao poder pelas “circunstâncias”, tenta modernizar o Brasil com reformas inadiáveis para tirá-lo de uma terrível bancarrota em que o governo anterior o enfiou.

Mas a história real que ficará registrada nos livros do futuro falará de um Brasil que, no início do Século 21, chegou a sair da 14ª economia do mundo para sexta nos últimos 15 anos – e que ainda ocupa nono lugar entre as nações mais importantes do mundo. De uma nação que mais que triplicou seu PIB nesse período – sem aumentar a sua dívida pública, seus débitos com principais credores internacionais e quadruplicou sua renda per capita, além de economizar mais de US$ 340 bilhões em reservas internacionais.

Um país que cortou o número de pobres pela metade, quadruplicou o número de escolas técnicas federais, construiu quase 2 milhões de casas populares, com qualidade suficiente para atrair até mesmo o interesse de altos funcionários do Estado, como procuradores da República. Um país que tinha voltado a construir refinarias, navios, grandes usinas hidrelétricas, gigantescas plataformas de petróleo e descoberto, com tecnologia própria, abaixo do fundo do mar, a maior província petrolífera do mundo nos últimos 50 anos.

Que expandiu o crédito e o consumo, duplicou sua safra agrícola, projetou-se internacionalmente e forjou uma aliança geopolítica com potências espaciais e atômicas, como Índia, China e Rússia, montando um banco com a missão de transformar-se no embrião de uma alternativa ao sistema financeiro internacional.

Que estava construindo submersíveis – entre eles, o seu primeiro submarino nuclear – tanques, navios de patrulha, cargueiros aéreos, caças-bombardeiros, radares, novos mísseis ar-ar, sistemas de mísseis de saturação, uma nova família de rifles de assalto, para suas forças armadas, por meio de forte apoio governamental a grandes empresas de engenharia de capital majoritariamente nacional, integrando esses esforços com outros países, também do próprio continente, para fortalecer a defesa e a soberania regional contra eventuais agressões externas.

Um Brasil que, por estar fazendo isso, sofreu, nos últimos quatro anos, um ataque coordenado, ideológico e canalha, de inimigos internos e externos. Primeiro, com a revelação do escândalo de espionagem do país, do governo e de empresas, que seriam “coincidentemente” acusados de corrupção por parte de governos estrangeiros.

Depois, por meio de um golpe iniciado com manifestações financiadas de fora do país, desde a época da Copa do Mundo, e de uma ampla campanha de sabotagem midiática e de operações de contrainformação permanentes, com o deslocamento para cá de embaixadores que estavam presentes quando do desfecho de golpes semelhantes e recentes em outros países sul-americanos, como o Paraguai, por exemplo.

Um golpe que, iniciado no ano de 2013, foi finalmente desfechado em 2016 para gáudio do que existe de pior na política brasileira e de nossos concorrentes internacionais. Concorrentes que, como vimos, pretendiam não apenas parar o Brasil no caminho que estava seguindo, de seu fortalecimento econômico, social e geopolítico, mas destruir a economia brasileira, para se apossar, por meio de uma segunda onda de destruição e de desnacionalização de nossas empresas, de nosso mercado interno e de nossos mais importantes ativos públicos e privados a preço de banana, colocando no poder “governos” de ocasião, entreguistas e dóceis às suas determinações e desejos.

Para fazer isso, os inimigos do Brasil agiram e continuam agindo na frente política e na econômica, sustentados por paradigmas tão falsos quanto mendazes. O principal deles, é o que reza que a corrupção é o maior problema brasileiro, e que trata-se, ela, de um fenômeno recente em nossa história, ou que alcançou supostamente “gigantescas” proporções a partir de chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder em janeiro de 2003.

Na economia, por outro lado, era e é preciso vender o peixe de que o país está quebrado, quando no grupo das 10 principais economias do mundo, pelo menos seis países – EUA, Japão, Reino Unido, França, Itália, Canadá – têm uma dívida pública maior que a nossa.

Precisam justificar um teto para os gastos do governo para os próximos 20 anos, dizendo que o Estado é superdimensionado e perdulário, quando os EUA, por exemplo, apenas na área de defesa, tem mais funcionários públicos do que o Brasil; quando eles se endividaram para se desenvolver e continuarão a se endividar – e a se armar – livremente, no futuro; enquanto nós estaremos sendo governados por imbecis ou espertalhões a serviço de terceiros, vide os mais de R$ 200 milhões recebidos pelo ministro da Fazenda no exterior nos últimos três anos – como se fôssemos uma mercearia, preocupados não com geopolítica, mas apenas, supostamente, com receitas e despesas, sendo condenados a subir no ringue da disputa em um mundo cada vez mais complexo e competitivo com um olho vendado e um braço e uma perna amarrados nas costas, com nações sem limite real de endividamento, que privilegiam a sua própria estratégia nacional no lugar dessa estúpida modalidade de austericídio.

Finalmente, precisam dizer que diante da supostamente calamitosa situação que o país vive, não há outra saída a não ser privatizar tudo – quando não entregar de mãos beijadas até mesmo a empresas estatais estrangeiras – nossas próprias estatais e seus ativos, na bacia das almas e a toque de caixa, porque elas trabalham mal, dão prejuízo; e servem como cabides de emprego – como se empresas privadas não fossem useiras e vezeiras em tráfico de influência e o genro do rei da Espanha, por exemplo – um ex-jogador de handebol – não tivesse ganhado milhares de euros por reunião, em escândalo conhecido, “pendurado” como membro do conselho de empresas “privatizadas” para capitais espanhóis por estas bandas.

Como seria possível para o governo Temer entregar o pré-sal por menos de R$ 20 bilhões, o controle da Eletrobras, a empresa líder de nossos sistema elétrico, por R$ 13 bilhões, e até a Casa da Moeda – país que repassa a terceiros o direito de imprimir o seu dinheiro não merece ser chamado de nação – se ele admitisse que tem, deixados pelo PT – que acusa de ter quebrado o país – mais de um trilhão de reais em caixa, à disposição do Banco Central, além de uma quantia superior ao que está querendo arrecadar com privatizações apenas nos cofres do BNDES?

A doutrina da viralatice, do mais abjeto e abnegado entreguismo, tomou conta das redes sociais e de sujeitos que desgraçadamente – para a nação – nasceram em solo brasileiro, e não tem pejo de pedir na internet ao governo Temer que entregue tudo, nosso petróleo, nossos minerais, nossas terras, nosso mercado, nossas empresas estatais aos gringos.

Já não basta o desprezo pelo PT e o Nordeste, ou – como se viu nas reações à morte da turista espanhola morta por um bloqueio da PM no Rio de Janeiro – a tudo que esteja ligado à periferia das grandes cidades. É preciso bradar, cinicamente, vestido de verde e amarelo, o ódio que ficou por tanto tempo represado, dentro dos pulmões de uma gente tão calhorda quanto desprezível, contra o próprio país e tudo que lembre nacionalismo, brasilidade, soberania, nestes tempos imbecis e vergonhosos que estamos vivendo.

A desculpa é sempre a mesma. As empresas estatais seriam – contradizendo o próprio discurso anticorrupção que está acabando com dezenas de empresas e grupos econômicos privados nacionais – mais “corruptas” e propícias à criação de “cabides de empregos” que as empresas privadas ou privatizadas, embora sujeitos que participaram diretamente da privatização da Telebras tenham pendurado depois durante anos seu paletó na cadeira de presidente de grandes grupos estrangeiros que retalharam entre si o mercado brasileiro de telefonia móvel e até mesmo o genro do Rei da Espanha, especialista em handebol, tenha participado da farra, ganhando milhares de euros para participar de reuniões do Conselho dessa mesma empresa na América Latina.



sábado, 4 de novembro de 2017

A ESPERANÇA QUE MORRE

Por Maria Fernanda Arruda

Diz a voz popular que ‘de médico e louco cada uma tem um pouco’… E não posso deixar de dar minha opinião sobre a patologia que atingiu nosso país. Infelizmente estou tentando achar outros informes para amenizar os sintomas e pensar que pode haver salvação. Mas não consigo ver essa esperança.


Como esperar recuperação de um organismo atingido por falência múltipla de funções? A verminose é uma perigosa moléstia que por sua solércia faz pensar que tem cura fácil, mas não. Age pela via mais subreptícia, que é por meio dos intestinos e sabota organismos aparentemente fortes.


Como se fosse uma teníase que ganha dimensão dentro do campo intestinal e mesmo eliminada aparentemente volta a ressurgir e prejudicar o portador. Não há como ver nosso Brasil brasileiro senão com os efeitos dessa verminose perigosa que se mostra até letal! Em nossa sociedade os vermes estão tão numerosos que nem se podem disfarçar.


Há togados de diversos tamanhos (gordos, muito gordos, cabeludos e velhos), mas todos contribuindo dentro de sua natureza nefasta para deprimir, violentar e fustigar a saúde social. O que não fazem por si, fazem por seus criminosos protegidos, endinheirados como lhes convém, ainda que estupradores e exploradores sociopatas.


Como vermes que são, deram o golpe covarde valendo-se de ter abrigo intestino nas esferas governamentais. Valeram-se covardemente de suas funções para se vender a um país cúpido que nos quer como sempre quis, nos dominar.


Se a esfera judicial está podre e já deveria ser extirpada como um apêndice que de nada serve e ainda contamina com sua corrupção, as outras reservas vitais apresentam iguais sinais da patologia que atinge o todo. As fardas que se mostraram ineptas para ser vistas como defesa ou anticorpos úteis, continuam em sua inércia doentia.


Com essa situação somática, como esperar reação do todo social? Se não há força confiável, como se erguer um braço ou dar um passo? Estamos como confinados em uma UTI como enfermo que não mostra sinais vitais e fica aguardando óbito! Aproveitando-se da já fragilidade do organismo, mais males vem como sangue sugas a ganharem seus dividendos. E vemos empoleirados nos ministérios as figuras mais sórdidas da política de todos os tempos…


A impressão é de que nem um enfermeiro/a se abala em dar um banho que ao menos alivie o odor nauseabundo de tantos vermes. A situação da moléstia -tudo indica – se deu por indução criminosa de arma química ($$$) produzida nos EUA com o exato propósito de minar corpos que não tivessem defesa orgânica.


Viram que era bem esse caso quando experimentaram essa eventual resistência em 1964. Depois disso, com a tranquilidade de quem triunfou em suas experimentações foi fácil, muito fácil, tomar conta do bem desejado. Temos um Brasil já devorado pelos vermes antes de ser sepultado…


Que pena! Que angústia!



Maria Fernanda Arruda é escritora

terça-feira, 31 de outubro de 2017

OS MENINOS DA LAGOA


Então, o menino voltou-se para o velho médico que a vida inteira estudara as doenças e perguntou “tio, o que o senhor tem contra o câncer?”. O velho médico, suspirou e com toda a paciência explicou o quanto o câncer limitava a qualidade e o tempo de vida das pessoas.



Mas, o menino que tudo ouvia com olhar de esperto, não acreditava no que estudara o velho homem (pois a televisão dizia que câncer era bom) tornou a falar “Mas, tio, eu sou a favor do câncer”.



Diante da insistência burra e inocente, o médico suspirou e deu de ombros.



E o câncer tomou conta da pequena aldeia, que se chamava Hipocrisia, e só então o menino entendeu o quanto fora tolo, mas já era tarde. Mas não culpou a televisão, afinal, ele era esperto.



Resolveu então seguir a vida, sem pensar muito, afinal, havia outros meninos, os que moravam na beira da lagoa que viviam situações piores e com mais doenças para lhe servir de consolo.



O importante não era ter saúde, era ter menos chagas que seus vizinhos.



Um dos seus vizinhos, que habitava a Lagoa havia chegado ao poder e isso sim, era intolerável.



Em Hipocrisia as pessoas poderiam se alimentar bem, mas como até os meninos da lagoa comeriam bem, muitos preferiam comer capim, e diziam ser gostoso comer capim, pois ao menos haviam tirado um menino da lagoa do poder.



Em Hipocrisia as pessoas poderiam ter orgulho de sua aldeia e de seu destino, mas, como isso poderia parecer obra de um menino da lagoa, preferiam viver como servos e vender suas riquezas aos esquisitos do norte, mais ricos, a quem invejavam e tentavam agradar.



Enquanto isso, o velho médico continuava lutando para acreditar nas velhas terapias.



O pior de tudo para ele e os outros que a tudo viam com o coração apertado, não era perder a esperança em hipocrisia.



Era perder a fé em seus meninos.




Prof. Péricles





sábado, 28 de outubro de 2017

O BRASIL DOS NAZISTAS

Por Kiko Nogueira



O jornal "O Tempo", de Minas Gerais, achou por bem dar espaço a um nazista defender suas “teorias”. Um bom espaço.


Faz sentido?


Faz, no novo normal brasileiro. Do repórter ao editor, passando pelos donos, ninguém questionou e a coisa simplesmente foi publicada.


Afinal, estamos em tempos de MBLs, Frotas, Bolsonaros e Felicianos evacuando um discurso fascista numa boa diariamente. Kataguiri, até ontem, era colunista da Folha de S.Paulo.


Hoje sua milícia ataca a “mídia de extrema esquerda”, que inclui a publicação dos Frias. Assim se legitimam as barbaridades.


A Lei 7.716/89 prevê no seu artigo 20: “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”.


O parágrafo 1º prevê o crime de divulgação do nazismo, com 2 a 5 anos e multa. O Tempo deveria ser acionado e responder por isso.


Na matéria, ficamos conhecendo um tal Harryson Almeida Marson, de 29 anos. Ele participou de manifestações em favor do impeachment de Dilma e “é bastante ativo” nas redes sociais.


O Facebook censura fotos de mães amamentando e de quadros com nu, mas Marson pode postar suásticas à vontade.


Provavelmente assessorado por um advogado, a conversa dele é articulada. O que não significa nada - Goebbels também falava de maneira clara e calma quando queria.


Marson jamais vai admitir, por exemplo, que quer se livrar de gays, judeus, negros e quem não for ariano.


Prefere a distinção entre “um homossexual que faz influência nas pessoas com sua arte que jamais será esquecida e um homossexual que ilude a população com vitimismos utópicos e tenta influenciar o jovem a ser como ele”.


O Holocausto é um “holoconto” (“Não houve informação sobre extermínios maciços em Auschwitz”) e Hitler foi “um homem que trouxe prosperidade a um Estado amante de seu povo”. Ah, bom!


Em julho, ele já havia brilhado na Folha com uma camiseta do Pink Floyd, gente fina, revelando que é religioso, membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.


Embora disfarçado, é ódio em estado puro, do tipo que nos transformou nessa cloaca. Os idiotas saíram do sofá, encontraram outros iguais a eles e estão nas ruas, nas escolas e nas portas dos museus.


O filósofo Karl Popper é autor da famoso paradoxo: a “tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância”. Na Alemanha, por razões óbvias, esses monstros não têm vez.


Em agosto, dois turistas chineses foram presos quando faziam a saudação nazi em frente ao Reichstag, em Berlim.


Semanas mais tarde, um americano de 41 anos fez a mesma coisa em Dresden. Tomou um soco na cara de um pedestre e acabou respondendo a um processo por violar as leis locais.


No Brasil, eles ganham as páginas da imprensa.





sexta-feira, 27 de outubro de 2017

VITÓRIA DAS MULHERES


Por Railídia Carvalho


A ex-ministra da secretaria de políticas para mulheres no governo da presidenta Dilma Rousseff, Eleonora Menicucci não terá mais que pagar indenização de 10 mil reais ao ator Alexandre Frota. A decisão favorável à Eleonora foi divulgada nesta terça-feira (24) em São Paulo. “Essa vitória é das mulheres brasileiras porque foi com elas que eu aprendi a lutar”, declarou emocionada na saída do Fórum.


Durante a audiência, ocorreu ato na praça João Mendes em solidariedade à ex-ministra. Ao chegar ao Fórum, Frota se envolveu em discussão com as manifestantes e tentou agredi-las fisicamente, segundo relatos nas redes sociais.


A condenação em primeira instância de Eleonora se baseou em crítica feita pela ex-ministra que condenou relato de Frota em programa de televisão em que o ator narra ter estuprado uma mãe de santo desmaiada.


Na ocasião, a ex-ministra criticou o conteúdo do relato e também o encontro entre Frota e o ministro da Educação, Mendonça Filho. "É um absurdo que uma pessoa que fez apologia ao estupro fosse ao ministro da Educação sugerir políticas para a nossa juventude", reiterou seu ponto de vista à TVT após saber da decisão da juíza que a condenava por danos morais.


De acordo com Eleonora, a decisão desta terça-feira condenou o estupro e absolveu as mulheres brasileiras. "Essa luta saiu de mim. É da sociedade brasileira, das mulheres brasileiras. É uma luta pela democracia, em favor da justiça social, dos direitos humanos das mulheres”, enfatizou em vídeo nas redes sociais.


Ela se declarou honrada de aos 73 anos ter enfrentado dois golpes em nome do compromisso com a luta das mulheres brasileiras.


“Aqui vai o meu mais profundo agradecimento a todas as mulheres, de todas as raças, de todas as matrizes religiosas, de todas as idades. Essa vitória é das mulheres brasileiras porque foi com elas que eu aprendi a lutar”, completou Eleonora.


A ex-ministra afirmou que se sentiu gratificada pelo ato de apoio que recebeu das mulheres durante a audiência. “Me senti reconhecida e mais comprometida ainda com a luta pela democracia, pelo retorno do estado de direito no nosso país”.


Segundo ela, a decisão impulsiona a luta contra o golpe que “tirou a primeira mulher presidenta eleita e reeleita do nosso pais e contra o crime de ódio que os golpistas instalaram no nosso pais”.


Na opinião da presidenta da União Brasileira de Mulheres (UBM), Vanja Santos, a decisão é a vitória da esperança considerando a postura do judiciário, que tem sido negativa em relação aos direitos das mulheres.


“O retrocesso não está só no quadro político nacional mas o retrocesso também está presente nas casas legislativas e, sobretudo, no judiciário”, argumentou Vanja.


Segundo a dirigente, a decisão que favoreceu a ex-ministra deixa uma esperança. “Quando vê uma vitória como essa da Eleonora a gente passa a acreditar que pode mudar, que tem jeito e que se esforçando cada vez mais e colocando as bandeiras na rua é possível combater esse quadro que está posto de retrocesso”.


Ela lembrou que o movimento não pode parar porque existem outros casos de misoginia ignorados pelo judiciário. Vanja citou o caso do ajudante de serviços gerais Diego Ferreira de Novais que após ejacular em uma mulher dentro de um ônibus em São Paulo foi solto pela justiça. Dias depois foi preso novamente por atacar outra passageira.


“Precisamos indicar a esses juízes que eles não podem legislar nas letras mortas. Existem convenções, tratados que não só a sociedade precisa estar inteirada mas também os juízes para julgar casos como esses”, cobrou Vanja.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

TUDO SOBRE CESARE BATTISTI - 2ª PARTE

Já no final de seu mandato (31/12/2010), o presidente Lula assinou um decreto recusando a extradição exigida pela Itália. Esse decreto foi aprovado pelo STF, por 6 votos a favor e apenas 3 contrários.



Solto em 2011, Cesare adquiriu o direito de ser residente permanente no Brasil, recebendo documentos normais de validade ilimitada. Até o dia de hoje, Cesare tem vivido dos direitos autorais de seus livros, especialmente dos que provém da França, eleva uma vida totalmente normal. Ele não registra qualquer irregularidade em território brasileiro, salvo uma multa por estacionamento incorreto (mas não por excesso de velocidade).



Tem um filho, Raul Battisti, com quatro anos de idade. Ele nem sempre pode vê-lo, pois no interior da São Paulo, onde a criança vive com sua mãe, Cesare sempre é provocado pela mídia local, por elementos da classe alta, por militantes de partidos de direita (como os tucanos) e, em alguns casos, pela polícia daquele município.



Cesare precisa tratamento médico regular por causa de sua hepatite, mas tem sofrido discriminação no hospital público de São José do Rio Preto.



A perseguição a Battisti é o que se chama uma vendeta. E ninguém deve ser preso, perseguido nem morto por causa de uma vingança. Isso é uma forma primitiva e bárbara de lidar com os problemas.



Cesare tem um filho brasileiro, menor de idade, de mãe brasileira. De acordo com o Estatuto do Estrangeiro, nenhuma pessoa que tenha um filho no Brasil pode ser expulsa, deportada ou extraditada. Nem mesmo a ditadura militar violou este princípio. Lembremos o caso de assaltante do trem-correio de Londres, Ronald Biggs, que aqui permaneceu a salvo quanto tempo quis e só saiu quando quis.



O decreto assinado por Lula no último dia do seu mandato está em plena vigência. Alguns decretos podem ser modificados, mas só durante os cinco anos seguintes; o decreto do Lula, contudo, está prestes a completar sete anos.



Além disto, de tal decreto decorreram direitos adquiridos. Portanto, ele não pode ser revogado, anulado nem modificado. Não poderia ser anulado nem mesmo pelo próprio Lula!



O que o governo brasileiro pretende fazer, de forma tortuosa e recorrendo a tratativas sigilosas, é ilegal: Cesare não é refugiado. Esta é uma mentira usada pela mídia, pelo governo e por alguns juízes. O refúgio de Cesare foi anulado pelo Supremo Tribunal Federal. Desde junho de 2011, Cesare é um residente permanente, ou seja, imigrante. Ele é um estrangeiro com os mesmos direitos que tiveram os pais de Temer, de Dilma e de vários milhões de pais e avós de brasileiros.



A viagem a Bolívia não quebrou nenhuma relação de confiança, pois o Cesare tinha total direito de sair e entrar do país quantas vezes quisesse. É algo que todos nós, estrangeiros de nascença, sempre fizemos e fazemos. Aliás, os valores em dinheiro que os três amigos portavam, na casa de R$ 25 mil, eram inferiores ao teto permitido (R$ 10 mil cada).



Caso fosse aprovada, a extradição de Battisti arranharia profundamente nossa soberania. Pensem nisto: seria violar a vontade do ex-presidente e do plenário do STF, que referendou o decreto de Lula. E para quê? Apenas para obedecer ao embaixador italiano e às forças políticas que ele representa.



Devemos difundir estes pontos entre todas as pessoas conhecidas, grupos políticos, comunicadores, representantes populares, movimentos sociais, etc., tornando-os o mais conhecidos possível nas redes sociais e outros meios ao nosso alcance.





Carlos Lungarzo, professor, jurista, escritor, autor do livro Os Cenários Ocultos do Caso Battisti



domingo, 22 de outubro de 2017

TUDO SOBRE CESARE BATTISTI - 1ª PARTE

Durante a década de 1970, com cerca de 20 anos de idade, Cesare Battisti entrou nos grupos de esquerda que lutavam contra o fascismo em toda a Itália.



Depois do final da 2ª Guerra Mundial, os fascistas perderam o direito de usar seus símbolos, bandeira, escudos e a denominação Partido Fascista, mas eles continuaram tendo poder e fundaram novos partidos políticos nos quais não aparecia o nome fascista.



Seu escudo e outros símbolos foram levemente alterados, para evitar críticas. Porém, sua ideologia e suas tradições continuavam sendo tão fascistas como antes. Aliás, sua ação foi igual ou pior que a de antes da guerra.



Os novos fascistas (chamados neofascistas) queriam evitar o avanço da esquerda, que se tornou muito forte depois da guerra. Tinham o apoio dos grandes magnatas, dos altos escalões da polícia, dos chefes militares e da Igreja. Dispondo, ademais, de muito dinheiro, foram os que produziram os atuais partidos da direita italiana.



Durante algum tempo, os fascistas tiveram poucos representantes entre os juízes, mas, a partir de 1974, os velhos juízes conservadores e fascistas ficaram donos do espaço jurídico.



A política fascista consistia em atacar grupos de esquerda, trabalhadores, intelectuais, estudantes, favelados, etc., mas também realizaram numerosos atos terroristas. Esses atos foram chamados de estragos. Num prazo de 12 anos, os estragos fascistas deixaram centenas de mortos e milhares de feridos.



Os grupos de jovens que lutavam contra o fascismo eram muitos. Houve na Itália dos anos 70 mais de 100 grupos de esquerda (refiro-me aos grupos que lutavam pelos direitos dos trabalhadores, não àqueles que queriam tomar o poder político, como as Brigadas Vermelhas).



Battisti entrou num grupo chamado Proletários Armados para o Comunismo, que atuava na região norte da Itália. Apesar de estarem armados, os PAC somente atuavam em defesa própria.



Os PAC pertenciam a uma tendência ampla, chamada Autonomia, que lutava contra a opressão do Estado. Tal tendência reuniu muitos jovens independentes, além de antigos militantes do Partido Comunista Italiano, que abandonam esta agremiação quando ela guinou à direita, após 1974, na esperança de compartilhar o poder com a Democracia Cristã.



Os PAC tinham um compromisso de não usar violência letal, mas apenas a necessária para neutralizar torturadores, terroristas de Estado e semelhantes. No entanto, em 1978, um grupo de cerca de 20 militantes dos PAC decidiu mudar de filosofia, executando um torturador da polícia (Santoro), e dois membros de grupos terroristas fascistas (Sabbadin e Torregiani). Também mataram um motorista da polícia, sobre cuja participação em tortura não havia nenhuma prova. Essas são as quatro vítimas das que falam os italianos. 



Battisti e vários outros membros do PAC se manifestaram contra esta política, e foram se afastando do grupo. No entanto, Cesare era muito conhecido pelos juízes, promotores e policiais, por tratar-se de um dos mais ativos na denúncia de torturas, do papel da máfia, e dos crimes cometidos pela polícia contra cidadãos pobres (pancadas, estupros, fuzilamentos sumáriso, etc.)



As quatro mortes atribuídas a Battisti tiveram como autores outros membros dos PAC, que foram condenados e cumpriram suas penas há alguns anos. Cesare foi alvo de delatores premiados, que o acusaram de participação e até de ter planejado os quatro crimes. O principal deles, Pietro Mutti (que os juízes chamavam carinhosamente de Pierino) parece ter tido toda sua pena perdoada.



Cesare foi condenado a duas penas de prisão perpétua em julgamentos marcados por todo tipo de ilegalidades:

1. Ele não estava presente no julgamento. Encontrava-se exilado, e havia casado com uma moça francesa, da qual tem hoje duas filhas adultas;

2. Ele não teve advogados verdadeiros. Os advogados foram impostos pelos juízes;

3. Não houve provas nem testemunhas reais que declarassem contra ele. Os autos mencionam depoentes quaisquer, apenas pelo sobrenome. É como se, no Brasil, falassem que elas são Silva, Barbosa, Almeida, etc.;

4. As únicas denúncias contra ele provieram de delatores premiados, que obtiveram grandes reduções de suas penas;5. Duas procurações usadas no julgamento como se fossem de Battisti não passavam de falsificações.


Durante seu exílio na França, Cesare trabalhou como zelador de prédios e restaurantes, bem como em diversos empregos, todos legais. No final dos anos 80 começou a ter sucesso como romancista, tendo hoje publicados cerca de 20 títulos, deles, três no Brasil, além de um novo em via de publicação, sobre a região de Cananeia, no litoral Sul paulista.



Cesare chegou ao Brasil em 2005, e foi capturado pela polícia em 2007, por ordem da Itália. Esteve quatro anos na prisão da Papuda, em Brasília, sendo alvo dos ataques da mídia, dos partidos de direita e de pessoas pagas pela Itália. Seu julgamento foi influenciado pela embaixada italiana e ao menos quatro dos juízes mantinham relações amistosas com os diplomatas.



A petição por sua liberdade em 2009 conseguiu milhares de assinaturas. Cesare teve muito apoio de sindicatos, partidos de esquerda e de centro-esquerda, ONGs de direitos humanos, de advogados e jornalistas, bem como de todos os movimentos sociais. O PT aprovou uma moção oficial apoiando sua libertação em 2009.



Já no final de seu mandato (31/12/2010), o presidente Lula assinou um decreto recusando a extradição exigida pela Itália. Esse decreto foi aprovado pelo STF, por 6 votos a favor e apenas 3 contrários.



Por Carlos Lungarzo, professor, jurista, escritor, autor do livro Os Cenários Ocultos do Caso Battisti



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

NOSTALGIA DA LUZ




por Cláudia Versiani



Na estrada para San Pedro de Atacama, Manuel, o motorista, fez questão de desviar da rota para mostrar o memorial construído no local onde foram enterradas vítimas da ditadura. “Em 19 de outubro de 1973, tiraram 26 prisioneiros da cadeia de Calama, onde fica o aeroporto, mataram e enterraram aqui. A maioria trabalhava nas minas”, conta. A região é rica em cobre e famosa internacionalmente desde que, em 2010, um grupo de mineiros ficou soterrado durante mais de dois meses a quase 700 metros de profundidade.


Atacama é um dos principais destinos turísticos do Chile. É o deserto mais alto do mundo, o mais seco. San Pedro, ponto de partida para os passeios pela região, é uma pequena cidade com chão de terra, como se poderia imaginar a Macondo de Cem Anos de Solidão. Entre as paisagens “lunares” de vulcões, gêiseres e lagoas estão até hoje os restos mortais de ativistas assassinados.


Em 2010, o documentarista chileno Patricio Guzmán produziu Nostalgia da Luz. A película estabelece uma sensível relação entre dois aspectos do Deserto de Atacama: o fato de, pelo clima seco, ser um dos melhores locais para observação do céu (a região abriga o mais potente complexo astronômico do mundo) e o fato de ter sido usado como cemitério clandestino de presos políticos.


Guzmán mostra que os astrônomos, amparados pela transparência do ar, exploram galáxias longínquas e perscrutam o passado por meio dos telescópios e dos anos-luz que separam a Terra dos corpos celestes.


Ao mesmo tempo, outros indivíduos fazem investigação análoga e procuram vestígios de parentes mortos há mais de 40 anos, aproveitando a secura do solo que conserva os restos de seres vivos.


No deserto de 105 mil quilômetros quadrados, mulheres cavam a areia em busca de fragmentos de ossos. Procuram o que quer que seja de familiares desaparecidos. E o resultado não é improvável: durante a filmagem, encontraram mais um corpo, mumificado pelo solo árido.


Dias depois do golpe, Pinochet criou uma comissão para “acelerar os processos, padronizar critérios na administração da Justiça e instruir militares provinciais sobre como tratar os opositores”, eufemismo que significava executar oponentes do regime.


Essa comissão, posteriormente chamada Caravana da Morte, percorreu o país. No norte, onde ficam Calama e Atacama, 71 presos políticos foram executados com especial crueldade, para que morressem lentamente, e enterrados em covas coletivas, sem identificação.


No lugar de uma dessas covas, de onde os cadáveres haviam sido exumados com escavadeiras e jogados no mar ou enterrados alhures, para nunca serem encontrados, ergueu-se em 2004 o memorial mostrado por Manuel. O monumento, evidentemente, não integra os roteiros turísticos.


O memorial é uma construção circular no meio da paisagem árida do deserto. Tem 34 colunas, cada uma a representar uma vítima da cidade. Concebido pela Associação de Familiares de Executados Políticos e Presos Desaparecidos de Calama, foi inaugurado em 19 de outubro de 2004, exatamente 31 anos depois do assassinato coletivo. É dedicado a todos os perseguidos da região. Flores e inscrições em mármore, inclusive um texto de Pablo Neruda, lembram os desaparecidos.


Em destaque, uma placa de metal com as seguintes palavras, em tradução livre:


Parque para preservação da memória histórica



Neste lugar, nesta sepultura, sob o solo seco do Deserto de Atacama, foram enterrados durante o governo militar os corpos de 26 homens executados em 19 de outubro de 1973 por uma comitiva do Exército do Chile denominada “Caravana da Morte”.


Depois dos assassinatos, os familiares iniciamos no deserto uma busca que ainda não terminou. Os corpos foram removidos deste sítio em data desconhecida, e o destino final deles é incerto. Porém, em julho de 1990, foi encontrada esta sepultura, onde foram resgatados pequenos fragmentos ósseos que permitiram identificar alguns dos nossos. As 34 colunas representam as vítimas desaparecidas nesta cidade durante a ditadura.


Este parque foi erigido em memória daqueles a quem foram arrebatadas as vidas na luta por seus ideais, e para que o legado de seus espíritos e a lembrança imorredoura de seu sacrifício permaneçam na consciência coletiva de Calama.





A ditadura de Pinochet durou de 1973 a 1990, e oficialmente reprimiu mais de 30 mil opositores, entre mortos, desaparecidos e torturados. O número pode ser maior, pois é possível que muitos, por medo ou desinformação, não tenham se manifestado na comissão que investigou os crimes.



quarta-feira, 11 de outubro de 2017

BURROS E PERVERSOS


O planeta Terra possui mais de 7 bilhões de habitantes. Muita gente, mas, não se iluda, não é de todos.


Analisando sua história dá pra ver claramente que os donos do planeta são de dois tipos: os burros e os perversos.


Burros e perversos, eis os donos do orbe.


Os burros dividem-se em vários subgrupos, mas, em geral são aqueles que não pensam exatamente no todo, mas em tudo que possa ser seu. São de natureza oportunista e egoísta.


Esforçados, os burros sabem que por luz própria não chegarão a patamares mais elevados, por isso, invejam os talentosos enquanto trabalham em dobro contra os que pensam, a quem, realmente temem.


Pensar é algo subversivo no mundo dos burros.


Enquanto isso o pessoal do talento achando que ao natural chegará um dia ao seu lugar ao sol, invariavelmente perdem tempo e espaços, declinam e terminam a vida rancorosos, se achando injustiçados por se perceberem melhores do que os que governam suas vidas.


Tipo Stálin e Trotsky. Stálin era burro, sem luz ideológica própria, Trotsky, genial. Trotsky ficou esperando a história lhe fazer justiça enquanto Stálin fazia alianças na calada da noite, no partido. No fim, veja quem comandou a Rússia por 30 anos e escreveu as páginas da revolução (o stalinismo, burro e violento, claro).


Os perversos também se dividem em vários subgrupos, mas o que predomina em todos eles é a esperteza.


Buscam o alto da pirâmide e não importando os obstáculos, invariavelmente atingem seus objetivos. Usam os burros que contentam-se com pouco e a preguiça dos talentosos. Dissimulam sentimentos e ideais que não possuem, mentem, enganam, iludem, manipulam, mas, sim, chegam lá.


Assim, por exemplo, os perversos não permitem qualquer alteração da estrutura fundiária injusta e imoral e os burros, que não possuem nem um grão de terra os apoiam. Os perversos são contra programas sociais, pois querem todos os recursos para seus fins, e os burros batem panelas. Os perversos são corruptos históricos, mas usam a corrupção para atacar seus inimigos, e os burros aplaudem golpes.


A Terra é governada por eles, os burros e os perversos.


Se você não é burro, nem perverso, é um viajante. Está aqui de visita e nada mais.


Nem tente mudar a casa que não é sua. Burros e perversos não permitirão arrumações. Irão te rotular ideologicamente e ridicularizar tuas utopias.


Em terra de burros e perversos sonhar é perigoso, tome cuidado. Eles irão ferir seus sonhos.


Alguns visitantes iluminados tentaram arrumar a casa e despossui-la dos burros e perversos.


Sócrates, Jesus, Gandhi, Martin Luther King, Mandela, Giordano Bruno e outros, ousaram desafiar o poder constituído, mas, nem é preciso dizer como reagiram os burros e os perversos, não é mesmo?


Por isso, não estressa. Sabemos que a verdadeira partida ainda está para ser jogada. Mas não aqui.


Siga seu rumo e espalhe o amor, procure fazer o bem e ser feliz. Mas, sem ilusões.


A não ser que você seja um burro ou um perverso.


Nesse caso, sinta-se em casa.




Prof. Péricles

terça-feira, 10 de outubro de 2017

ALLENDE, EL PIJE

De acordo com seus amigos, "El Pije" (elegante), como Allende era conhecido, já
discutia política aos 15 anos com a malícia de um veterano. Seus primeiros
contatos com essa atividade aconteceram no colégio, quando conheceu o anarquista italiano Juan Demarchi, que lhe indicava leituras.


Allende estudou medicina na Universidade do Chile e, em 1927, foi eleito
presidente do Centro de Alunos. Em 1933, foi um dos fundadores do Partido
Socialista Chileno, dele fazendo parte até 1946. Em 1937, foi eleito deputado e, dois anos depois, nomeado ministro da Saúde, função que exerceu até 1942. No ano seguinte, assumiu a direção do partido. Em 1945, foi eleito senador, cargo que ocupou durante 25 anos.


Salvador Allende perdeu por três vezes as eleições presidenciais, em 1952, 1958 e 1964, mas conseguiu eleger-se presidente do Chile em 1970, como candidato de uma coligação de esquerda, a Unidade Popular. Assim, entrou para a história da política mundial como o primeiro marxista a chegar ao poder através das urnas.


Allende assumiu a presidência no dia 3 de novembro de 1970 e durante seu governo nacionalizou as minas de cobre, a principal riqueza do país. Além disso, passou as minas de carvão e os serviços de telefonia para o controle do Estado, aumentou a intervenção nos bancos e fez a reforma agrária, desapropriando grandes extensões de terras improdutivas e entregando-as aos camponeses.


Desde que assumiu o poder, Allende tinha em mente o projeto de construir um "caminho chileno para o socialismo". A adoção dessa linha socialista por Allende, implementada durante seus três anos de permanência no poder, além de gerar a oposição dos democrata-cristãos direitistas, de causar um verdadeiro pânico na maioria da classe média chilena,
que passou a sabotar sua economia, paralisando-a, quase totalmente, em 1973, provocou sua indisposição com a esquerda radical chilena, como o MIR, que pugnava pela tomada do poder pela força, e criou antipatia com uma parte
importante do efetivo militar chileno, cujos chefes sempre foram treinados e doutrinados nas academias militares dos Estados Unidos. Allende denunciou em vão, nas Nações Unidas, as tentativas norte-americanas de desestabilização do Chile.


A situação econômica tornou-se catastrófica. Os investimentos privados do Chile caíram e o desemprego aumentou velozmente. A população se revoltou e passou a protestar em manifestações turbulentas com a paralisação dos transportes e do comércio e com inúmeros atentados, que provocaram apagões e danificaram pontes e oleodutos.


Apesar das graves dificuldades econômicas, a Unidade Popular obteve 43% dos votos nas eleições de 1973. Em junho desse mesmo ano, porém, ocorreu uma frustrada tentativa de golpe de Estado. Três meses depois, no dia 11 de
setembro, o governo de Allende foi derrubado pelo exército, liderado pelo general Augusto Pinochet.


Allende faleceu resistindo ao ataque, às 14:15 desse dia.


Aos 65 anos, Allende tornou-se uma das primeiras vítimas da ditadura militar chilena, que durou 17 anos e deixou pelo menos trinta mil mortos ou desaparecidos.


VÁRIOS AUTORES

sábado, 7 de outubro de 2017

O JORNALISTA ERA ESPIÃO


Por Sheila Sacks

Nascido na Alemanha do após guerra, Wilhelm Dietl era um jornalista experiente e respeitado, com vários livros no currículo, quando em 2005 descobriu-se que ele havia sido um agente do Serviço de Inteligência Federal (BDN, na sigla em alemão) por mais de uma década.


Especialista em geopolítica do Oriente Médio, autor de reportagens investigativas em zonas de conflito, notadamente em países como Irã, Iraque, Afeganistão, Paquistão, Líbia, Líbano, Israel, Egito e Síria, Dietl contava com espaços preciosos para as sua matérias em importantes veículos de comunicação, como os semanários “Stern” e “Focus”.


Mas tudo mudou quando seu nome apareceu em um relatório do BDN como sendo o de um espião remunerado de codinome “Dali” que exerceu a função de informante do órgão no período de 1982 a 1993.


Dietl sempre negou que espionava ou fornecia informações contra os seus colegas de profissão, apesar de admitir que por onze anos foi um agente pago do serviço secreto alemão. Ganhava mil marcos (cerca de 500 euros) por relatório de dez páginas, além de ter as suas passagens aéreas e as diárias de hotéis pagas a cada missão, que podia ser em Paris, entrevistando o presidente deposto da Argélia, Ahmed Ben Bella (1918-2012), ou em Damasco, conversando com o ministro de Defesa da Síria, Mustafa Tlass, que exerceu o cargo de 1972 a 2004.


Ele afirma que no início hesitou, mas que depois concordou com a proposta, imaginando que estaria servindo ao país.


O trabalho como jornalista funcionou como excelente cobertura, segundo Dietl, facilitando o seu acesso às informações e às pessoas, como no caso do jornalista sírio Louis Fares, amigo pessoal do presidente Hafez al-Assad (1930-2000). O político sírio que governou o país por quase 30 anos, pai do atual presidente Bashar al-Assad, enviou Fares em missões clandestinas à França e Dietl dá a entender que essa amizade e de outras fontes sírias lhe renderam importantes documentos sigilosos, os quais enviava para seus contatos na Alemanha.


Durante o período em que foi agente secreto, Dietl amealhou o equivalente a 600 mil marcos. Quando se desligou do BDN por divergências com o órgão, ele conta que até sentiu alívio, pois admite que estava com os “nervos em frangalhos”. Ele se reunia com terroristas, comandantes militares, representantes de serviços de inteligência e políticos na condição de correspondente, com a incumbência de escrever reportagens sobre os acontecimentos no Oriente Médio.


No início de 1982, chegou a ser detido pelas forças de segurança sírias na cidade de Hama, ao norte de Damasco, durante os sangrentos confrontos com o grupo da Irmandade Muçulmana, que se rebelou contra o governo central. Mas conseguiu escapar mostrando a seus interrogadores a gravação da entrevista que teve com o ministro de Informações do país e mentindo acerca de um suposto encontro agendado com o presidente Hafez Assad (que não pode ser checado porque o serviço de telefonia estava interrompido).


“Estou orgulhoso do que fiz”, declara Dietl. “Não tenho que pedir desculpas. Eu agi acreditando em valores e ideais; denunciei terroristas perigosos, abortando operações e salvando vidas humanas.”


No Brasil, o jornalista Claudio Tognolli, diretor-fundador da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), professor da USP e autor de livros polêmicos (‘Mídia, Máfia e Rock and Roll – 50 anos a mil’; ‘Assassinato de reputações’, entre outros) é incisivo ao traduzir o envolvimento do jornalismo com o ambiente da inteligência e espionagem. “Todo mundo que cobre inteligência tem algum amigo que trabalhou ou trabalha para a CIA ou para a KGB.”


Ano passado, “O Globo” publicou uma reportagem investigativa do jornalista José Casado acerca da conexão islâmica no Cone Sul que prima pelos detalhes das informações. A matéria reconta os preparativos para os atentados à embaixada de Israel em Buenos Aires e ao prédio da Amia (Associação Mutual Israelita da Argentina), em 1992 e 1994. Casado expõe a fragilidade de atuação dos órgãos governamentais na Tríplice Fronteira e “a relutância dos governos da América do Sul em admitir a possibilidade de conexão regional com a novidade do terrorismo político-religioso em escala global” (“A Conexão Brasil no Extremismo Islâmico”, em 13/07/2014).


Um texto extraordinário, de leitura imperdível, melhor do que qualquer relatório “confidencial” da CIA, reforçando a sensação de que a linha de demarcação entre o jornalismo e a espionagem é uma questão de opinião.



Sheila Sacks, jornalista formada pela PUC-RJ tem artigos publicados nos sites Observatório da Imprensa e Rio Total. Desde 2009 mantém o blog “Viajantes do tempo”.

domingo, 1 de outubro de 2017

SILÊNCIO, MUXOXO E GAGUEJOS



O domingo de sol, ao menos aqui no Rio, pode ser a desculpa.


Mas a grande maioria dos comentaristas políticos da grande mídia está em silêncio, depois de uma quinzena em que decretou que “agora, Lula acabou”.


E vem o Datafolha e mostra o “defunto” não apenas vivo como esbanjando saúde, com taxas de crescimento eleitoral mais do que vigorosas.


Os demais candidatos, candidatos a candidato e factoides pararam ou até retrocederam um pouquinho.


Não apenas isso: a tão brandida como intransponível rejeição a Lula cai seguidamente e, nas simulações de 2° turno.


Os poucos que falam algo – aquele site que, por uma questão sanitária evito citar o nome – chama de “esquizofrênica” a pesquisa da Folha, enquanto os datafolhistas oficiais culpam os pobres pelo favoritismo do “monstro”.


Os partidos convencionais – ou o que resta deles – estão baratinados.


Como estão baratinados os dois partidos mais importantes do Brasil: a mídia e o PC, Partido de Curitiba.


A semana é de arranjar novas revelações “sensacionais” que tentam a, ao menos na aparência, evitar que o “duro de matar” do Lula seja o assunto de botequim.


Vão, como se vê, insistir na tática que levou a estre quadro, para eles, apavorante.


E Lula vai, ao contrário, retomar sua programação de viagens, apostando no contato direto com a população, que é o canal que não lhe podem – ainda – fechar. E passa a uma fase mais propositiva, dentro em pouco, com a apresentação de projetos e metas para arrancar o Brasil da crise.


Ao contrário da pancadaria, que seguirá sendo a pauta burra da direita, que visivelmente já enjoou a população e perdeu grande parte da credibilidade.


Enquanto isso, o país segue sua trilha de lama, com a revelação continuada das podridões de Moro e os esquemas sujíssimos do Ministério Público na montagem das delações seletivas.


E, distantes dos nossos olhos, prepara-se no Tribunal Regional Federal a “eleição” de quem não pode ser presidente do Brasil.


Como no retorno de Getúlio, só pensam na máxima de Carlos Lacerda de que Lula não pode ser candidato, porque se for, vencerá e se vencer governará.



Por Fernando Brito


sábado, 30 de setembro de 2017

D. PEDRO II E O QUADRO MALDITO


Sacanearam o jovem D. Pedro II.


Agentes políticos brasileiros, encarregados de achar uma noiva para o imperador, enviaram pra ele uma pintura de uma morena gatíssima, com uma linda paisagem de Nápoles ao fundo. O guri se apaixonou.


Depois de inúmeros preparativos oficiais para o casamento, a noiva, finalmente chegou no Brasil.


Pobre D. Pedro, só então percebeu que a bela da foto não tinha muito a ver com a original de carne e osso. Uma mulher relativamente, feia.


Bateu até depressão, mas, compromissos de estado não podiam ser cancelados assim, e teve que encarar o casamento com Teresa Cristina.


D. Pedro II jamais gostou realmente da esposa. Deve ter passado o resto da vida amaldiçoando a inspiração de pintores de retratos.


Entretanto ele se apaixonou cegamente por uma mulher que, apesar de nobre, jamais poderia ser sua imperatriz: Luísa Margarida Portugal e Barros, a condessa de Barral.


Foram 34 anos de intensa paixão.


Luisinha era magra, elegante, refinadamente educada, não era exatamente, bonita, mas era encantadora e sensual.


Conheceram-se na Bahia quando ela se aproximou das duas filhas do imperador, Isabel e Leopoldina. Foi aia das meninas ensinando um pouco de francês e etiqueta.


Com ela ele podia conversar sobre qualquer assunto, principalmente sobre artes, livros, teatro e ciências já que a moça foi criada na França, era bem informada e curtia os prazeres do conhecimento.


Mas não apenas esses prazeres.


Ao que parece D. Pedro II sentia ciúmes de Luísa, uma faceta totalmente desconhecida do homem que governou o Brasil por mais tempo.


Morreram no mesmo ano, 1891. Ela em janeiro, ele em dezembro. Ambos moravam em Paris e, ao que parece, o caso sobreviveu ao exílio e ao tempo. Ela morreu com 74 anos e ele com 65.


O Imperador do Brasil teve uma vida pública, discreta e sem escândalos, mas, uma vida amorosa, totalmente clandestina.


De onde podemos concluir que até mesmo os mais espertos quebram a cara quando se deixam levar pelas aparências.


Maldito quadro!




Prof. Péricles

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

MINHA AMIGA IMPERATRIZ


Ela chamava atenção não apenas por seu porte físico avantajado, mulher alta e farta, como também pela forma de caminhar, de pés descalços como se calçasse um sapato de salto muito alto.


Moradora de rua, eu a chamava de Imperatriz.


Dizia ser neta do imperador D. Pedro II do Brasil e, quando em surto, agitava uma amassada folha de papel em branco, dizendo ser sua certidão de nascimento como prova de sua origem imperial.


Aproximava-me sempre que possível isso é, quando não estava alucinada ou embriagada. Conversamos muito, lado a lado na calçada.


Queria entender por que, na mente enlouquecida de uma pessoa, aparentemente tão simples, a fantasia era ser neta de D. Pedro II.


Não tinha conhecimentos de história muito maiores do que a média das pessoas mas revelava conhecimento incomum sobre a família imperial.


Jamais morou no Rio de Janeiro, mas dizia ter nascido em Petrópolis.


Numa de nossas primeiras conversas eu sorri e disse “claro, você é filha da Princesa Isabel não é?”.


Para meu espanto, serenamente ela respondeu não, da outra filha, a Leopoldina.


Leopoldina Teresa Francisca de Bragança e Bourbon foi a segunda filha de D. Pedro II e a segunda na linha de sucessão ao trono. Morreu prematuramente com apenas 23 anos, em 1871 e, que se saiba, teve apenas dois filhos homens.


Conversamos muito tempo, por muitos anos espaçados.


Dizia ter tido uma infância de princesa e perdido seus títulos quando foi proclamada a “maldita” república (ela sempre cuspia quando falava república).


Contava de suas viagens por todo o país que nunca lhe fez uma só reverência. Não frequentou salões da corte, nem viajou ao exterior embora quisesse muito conhecer Nápoles, terra de sua vó D. Teresa Cristina (informação absolutamente correta).


“Minha vó era uma mulher silenciosa porque sofria. Ela sabia que meu avô D. Pedro não a amava e gostava de outra”.


Sempre senti uma profunda admiração por sua loucura e jamais consegui compreender sua origem.


Se imaginar bela, rica ou esposa de um artista famoso é para as comuns.


Minha amiga sonhava ser neta de um imperador deposto e esquecido e filha de uma princesa que sequer era herdeira ao trono.


Quando soube de sua morte, senti a profunda tristeza de um súdito abandonado.


Até hoje, me pego imaginando se lá pelas estrelas mais afastadas do firmamento, aquelas exiladas do lado nobre do céu, ela não estará com seus trajes de gala do século XIX, finalmente calçando sapatos altos que sempre imaginou calçar, dançando, feliz, uma valsa de Strauss, num salão repleto de luz e reconhecimento.


Fecho os olhos e a imagino imponente, com um sorriso discreto, permitido à nobreza.


Descanse em paz Sua Alteza.


A Imperatriz das calçadas, finalmente chegou aos céus.



Prof. Péricles

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

TECNOLOGIA


Por Luis Fernando Veríssimo



Para começar, ele nos olha nos olha na cara. Não é como a máquina de escrever, que a gente olha de cima, com superioridade.


Com ele é olho no olho ou tela no olho.


Ele nos desafia. Parece estar dizendo: vamos lá, seu desprezível pré-eletrônico, mostre o que você sabe fazer.


A máquina de escrever faz tudo que você manda, mesmo que seja a tapa.


Com o computador é diferente. Você faz tudo que ele manda. Ou precisa fazer tudo ao modo dele, senão ele não aceita. Simplesmente ignora você. Mas se apenas ignorasse ainda seria suportável.


Ele responde. Repreende. Corrige. Uma tela vazia, muda, nenhuma reação aos nossos comandos digitais, tudo bem. Quer dizer, você se sente como aquele cara que cantou a secretária eletrônica. É um vexame privado. Mas quando você o manda fazer alguma coisa, mas manda errado, ele diz “Errado”. Não diz “Burro”, mas está implícito. É pior, muito pior.


Às vezes, quando a gente erra, ele faz “bip”. Assim, para todo mundo ouvir.


Comecei a usar o computador na redação do jornal e volta e meia errava. E lá vinha ele: “Bip!” “Olha aqui, pessoal: ele errou.” “O burro errou!”


Outra coisa: ele é mais inteligente que você. Sabe muito mais coisa e não tem nenhum pudor em dizer que sabe.


Esse negócio de que qualquer máquina só é tão inteligente quanto quem a usa não vale com ele. Está subentendido, nas suas relações com o computador, que você jamais aproveitará metade das coisas que ele tem para oferecer. Que ele só desenvolverá todo o seu potencial quando outro igual a ele o estiver programando.


A máquina de escrever podia ter recursos que você nunca usaria, mas não tinha a mesma empáfia, o mesmo ar de quem só agüentava os humanos por falta de coisa melhor, no momento.


E a máquina, mesmo nos seus instantes de maior impaciência conosco, jamais faria “bip” em público.


Dito isto, é preciso dizer também que quem provou pela primeira vez suas letrinhas dificilmente voltará à máquina de escrever sem a sensação de que está desembarcando de uma Mercedes e voltando à carroça.


Está certo, jamais teremos com ele a mesma confortável cumplicidade que tínhamos com a velha máquina. É outro tipo de relacionamento, mais formal e exigente. Mas é fascinante.


Agora compreendo o entusiasmo de gente como Millôr Fernandes e Fernando Sabino, que dividem a sua vida profissional em antes dele e depois dele.


Sinto falta do papel e da fiel Bic, sempre pronta a inserir entre uma linha e outra a palavra que faltou na hora, e que nele foi substituída por um botão, que, além de mais rápido, jamais nos sujará os dedos, mas acho que estou sucumbindo.


Sei que nunca seremos íntimos, mesmo porque ele não ia querer se rebaixar a ser meu amigo, mas retiro tudo o que pensei sobre ele.


Claro que você pode concluir que eu só estou querendo agradá-lo, precavidamente, mas juro que é sincero.


Quando saí da redação do jornal depois de usar o computador pela primeira vez, cheguei em casa e bati na minha máquina. Sabendo que ela agüentaria sem reclamar, como sempre, a pobrezinha.




Luis Fernando Verissimo, jornalista e escritor gaúcho.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O ITINERÁRIO DE UM DESASTRE



Em 1995 o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu uma amostra pública do seu compromisso com o capital financeiro, o inesquecível Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer).



Nenhum governo teve mídia tão favorável quanto o de FHC, o que não deixa de ser surpreendente, visto que em seus dois mandatos ele realizou uma extraordinária obra de demolição, de fazer inveja a Átila e a Gêngis Khan.



Vale a pena relembrar algumas das passagens de um governo que deixou uma pesada herança para seu sucessor.



1994 e 1998



O dinheiro secreto das campanhas: Denúncias que não puderam ser apuradas, graças à providenciais operações “abafa”, apontaram que tanto em 1994 como em 1998 as campanhas de Fernando Henrique Cardoso foram abastecidas por um caudaloso esquema de caixa-dois.



Em 1994, pelo menos R$ 5 milhões não apareceram na prestação de contas entregue ao TSE. E em 1998, teriam passado pela contabilidade paralela nada menos que R$ 10,1 milhões.



A farra do Proer?


Na calada de uma madrugada de um sábado de novembro, assinou uma medida provisória instituindo o Proer.



Um programa de salvação dos bancos que injetou 1% do PIB no sistema financeiro. Um dinheiro que abandonou o sofrido Tesouro Nacional, para abastecer cofres privados. A começar pelo Banco Nacional, então pertencente a família Magalhães Pinto, da qual um de seus filhos era agregado. Não é mesmo FHC?



Cepal



O Proer demonstrou em 1996, como seriam as relações do governo FHC com o sistema financeiro. Para FHC, o custo do programa ao Tesouro Nacional foi de 1% do PIB. Para os ex-presidentes do BC, Gustavo Loyola e Gustavo Franco, atingiu 3% do PIB.



Mas para economistas da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), os gastos chegaram a 12,3% do PIB, ou R$ 111,3 bilhões, incluindo a recapitalização do Banco do Brasil, da CEF e o socorro aos bancos estaduais.



E agora, FHC, você ainda vem aqui querendo dizer o que…?



Por Maria Fernanda Arruda,  escritora e colunista do Jornal Correio do Brasil.



domingo, 24 de setembro de 2017

PREMINIÇÕES E VISÕES EXTRAORDINÁRIAS



O maravilhoso e o sobrenatural, sempre exerceram fascínio sobre o Homem. Quer na intimidade dos templos romanos na companhia das vestais, quer ao lado das sensitivas egípcias, ou através da boca profética dos filhos de Israel, o mundo desconhecido do além-túmulo sempre atraiu a curiosidade e a satisfação dos interesses humanos.


São sonhos premonitórios, visões à distância, curas, comunicações entre mortos e vivos, enfim, toda uma gama de implicações fenomênicas que estiveram e estão presentes em diferentes épocas e culturas.


Segundo o orador romano, Cícero, "não há um povo tão sofisticado e educado, ou tão bruto e bárbaro, que não acredite que o futuro possa ser revelado, entendido e previsto por certos indivíduos".


Na antiga Grécia, uma fonte murmurante ou, simplesmente, o balançar das folhas das árvores pela força dos ventos, já seriam suficientes para a interpretação ou previsão de fatos que viriam do futuro.


Também, os oráculos manifestados pelas vozes de sacerdotisas jovens e virgens, e que, apenas a castidade já seria um sinal de garantia para conduzir a credulidade dos leigos à originalidade do fenômeno, e desta forma trouxeram à tona grandes lições que tanto homens do povo, quanto reis e rainhas jamais esqueceram.


Em torno de Aníbal, o cartaginês, reza uma tradição de que ele era especialista em interpretar as entranhas dos animais. Antes de se tornar o temível general, fora consultor militar de Prussias de Bitínia. Quando Aníbal consultou as entranhas, sugeriu a Prussias que não participasse da guerra, pois perderia, ao que o rei retrucou, sentindo-se ofendido: "quer dizer que você confia mais em uma porção de carne de bezerro do que em um general experiente?" Cícero narra que Prussias perdeu a guerra. Não se sabe, ao certo, as condições da guerra em que Prussias se envolveu, porém, haveria outros motivos que pudessem explicar a precisão de sua derrota, levando em conta inclusive que Aníbal era um excelente estrategista em combate.


No que diz respeito aos fenômenos de cura, a história romana, através de Tácito, o historiador, relata que o próprio imperador Vespasiano chegou a curar um homem cego que lhe pediu que cuspisse em seus olhos, e também, curou outro que lhe rogou que pisasse em sua mão atrofiada. Segundo Tácito, os dois doentes foram curados de suas mazelas.


Práticas estranhas de curandeirismo foram muito comuns entre os hassidim galileus e Jesus viveu na época deles, chegando também a adotar a cura, usando o cuspe, conforme narra o evangelho atribuído a Marcos.


O sobrenatural toma proporções assustadoras, quando se trata de sondar os mistérios que envolvem as aparições dos espíritos.


Os relatos dos que já presenciaram fenômenos provocados pelos mortos, que ao que tudo indica estão bem vivos, variam desde a movimentação de objetos, os chamados Poltergeist, passando pelos raps, ou pancadas, chegando mesmo aos fenômenos de tangibilidade, quando aqueles que acreditávamos ter desaparecido da Terra, voltam para dar testemunho de que a vida não foi interrompida pela morte.


Há várias casas antigas na Inglaterra que os moradores quando as alugam, colocam uma cláusula no contrato, resguardando seus direitos de terem restituído o investimento financeiro, caso a residência apresente fenômenos de Poltergeist.


Em pesquisas que tenho feito sobre a presença romana na Inglaterra, deparei-me com fatos extraordinários de aparições espirituais que cercam o centro da cidade de Londres e que, ainda hoje, movimentam a opinião dos que transitam pelo local.


Na frente do London Museum, é possível visualizar ruínas de um forte romano do século II d.C que foram descobertas após os ataques alemães da Segunda Grande Guerra.


Em um antigo jornal da cidade que consultei, há um depoimento que conta que um homem que voltava tarde do trabalho, e passando diante das ruínas, viu um espectro trajando roupas de soldado romano que saiu da parede do forte, esticando o braço, impedindo que o cidadão avançasse. O homem, ao olhar para a enorme parede feita de pequenas pedras, viu, nitidamente, o Espírito fundindo-se na imagem gasta, pelo tempo, das ruínas.


Enquanto estive presente no local, várias pessoas confirmaram este e outros fatos, envolvendo, não apenas, o soldado romano, mas também, as aparições das vítimas da peste negra que foram sepultadas nas proximidades daquelas ruínas.


Caso você queira visitar o espírito romano, vale salientar que o local já faz parte do roteiro turístico de Londres.




Por Liszt Rangel



sábado, 23 de setembro de 2017

AS 100 VIDAS DE LULA


Se dependesse dos adversários, Lula estaria morto. Se possível, teria morrido várias vezes. Tantas quantas as “balas de prata”, os “golpes fatais” e as “bombas atômicas” que acharam que o atingiram.

Semana passada, com as delações de Antônio Palocci, reencenaram o espetáculo da morte de Lula. O script foi rigorosamente cumprido: primeiro, o anúncio de “grandes revelações”; segundo, um interrogatório encenado; depois, a divulgação espalhafatosa, acompanhada da promessa de que o delator ainda tinha “muito a dizer”. No outro dia, o coro dos comentaristas, repetindo que, dessa, Lula não escapava.

Tudo velho. Perdemos a conta de com quantos desses espetáculos o País foi brindado de 2015 para cá.

Na variante adotada com Palocci, o roteiro envolve uma desmesurada prisão arbitrária, mantida até que se quebre a resistência do prisioneiro e ele “confesse”. Os mais sujeitos a ceder e concordar em dizer aquilo que os carcereiros determinam são os de poucas convicções e muito a perder. Quantos milionários já se prestaram ao papel de Palocci? Topam tudo para preservar a riqueza.

Existe outra variante, em que as teatralizações são personificadas diretamente por juízes, promotores e delegados. Vimos muitas, desde os interrogatórios a que o ex-presidente foi submetido à recente sessão de promulgação de sentença. Mas nenhuma superou o ridículo da mise-en-scène do PowerPoint.

Até agora, nenhuma dessas pantomimas foi eficaz. Lula sobreviveu às incontáveis acusações que sofreu da imprensa corporativa, às horas de denúncias do Sistema Globo, às capas de revistas e manchetes afirmando sua culpa. Não morreu a cada prisioneiro que tiraram da cela para recitar a “colaboração premiada”.

Está vivo depois de ser coercitivamente conduzido a depor e de ser objeto dos jogos de cena de promotores. Resistiu à condenação de Sérgio Moro.

Todas as pesquisas mostram que Lula fez mais do que sobreviver. Do ano passado para cá, sua imagem melhorou e cresceram suas intenções de voto. O silêncio da mídia corporativa sugere que seus institutos apontam o mesmo. Terá sido a delação de Palocci a primeira a mudar esse panorama? Os antilulistas têm motivos para comemorar a lastimável exibição a que o ex-ministro se prestou?

Podemos repetir o que afirmamos em julho, logo após a sentença de Moro: “O mais provável é que, no fundamental, as intenções de voto para as próximas eleições tenham mudado pouco: quem se dizia propenso a votar no ex-presidente deve manter a opção. O que significa que o favoritismo de Lula deve permanecer”.

Para o antilulismo, grave não é somente constatar que não consegue erodir o apoio que Lula sempre teve em uma vasta parcela da opinião pública. Pior é perceber que só lhe resta seu próprio “núcleo duro”, a minoria mais conservadora e reacionária da sociedade.

A melhora de Lula em todos os indicadores revela que as pessoas menos politizadas e com menor definição partidária estão sendo a cada dia menos afetadas pelas encenações que lhes são apresentadas. Elas pararam de prestar atenção e de acreditar na cantilena que ouvem.

Uma das razões para isso é a incapacidade do antilulismo no Judiciário, na mídia e no sistema político de comprovar qualquer malfeito do ex-presidente. Falam em milhões e bilhões, mas o máximo que conseguem de concreto é insistir em um apartamento que não é dele e um sítio com churrasqueira e pedalinho. Enquanto isso, são malas de dinheiro correndo de cá para lá, empilhadas em apartamentos.

Lula está bem nas pesquisas e lidera com folga a corrida para a eleição de 2018 porque, para uma proporção majoritária do País, é bom e é melhor do que os outros políticos. A maioria gosta dele e o admira, de muito a alguma coisa, restando 30% que antipatizam com ele. Ao contrário de quase todos os políticos, o saldo entre o que fez de bom e de errado é visto como largamente positivo.

Apenas uma minoria supõe que enriqueceu e se afastou das pessoas comuns. A maioria sabe (ou sente) que sua vida desmente as acusações que os inimigos fazem e, a cada vez que restabelece o contato direto com o povo, como agora na caravana pelo Nordeste, volta a percebê-lo como seu igual.

Para a maioria da população, Lula continua a ser o velho Lula de sempre. Não há espetáculo de juízes e promotores, não há carnaval midiático que mude algo tão simples.



Por Marcos Coimbra

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

RUÍNA E BANDIDOS


POR Fernando Brito



Não há dúvida possível de que havia lama em imensa quantidade na política.



Havia, não. Há, como nunca, vê-se pelos geddéis acumulados no apartamento de Salvador.



Nunca deixou de haver, desde as capitanias.



Mas ocorreu com o Brasil algo parecido à mecânica quântica, onde de um fenômeno quântico existe só pelo simples fato de observá-lo e a forma com que se observa.



A lama só vaza onde os donos do MP e do Judiciário desejam. Literalmente, vazamento seletivo.



O processo de destruição da esquerda por suas concessões à “politica como ela é”, sem a qual não teria governado, acabou por ter rachaduras laterais, por onde foram se aprofundando fissuras que levaram aos “efeitos colaterais” sobre o PSDB (onde se encarregam de por o “cola-tudo” da omissão e do esquecimento) e do PMDB, onde a deterioração moral de seus líderes, reduzidos a um “quadrilhão” aproxima tudo de uma catástrofe.



O dramático para o povo brasileiro é que estre processo moralista não é um processo saneador, mas devastador.



Nossa economia soterrou-se sob a avalanche, destruíram-se empresas, empregos, riquezas. O que resistiu, vende-se como carros velhos, cobertos de sujeira, ao valor da bacia das almas.



Mas há algo ainda pior: fizeram a lama salpicar sobre os nossos olhos, de tal forma que tudo o que olhamos, mesmos as melhores lembranças, nos aparece enlameado, sujo, sem valor.



Pretendem, assim, eliminar todas as referências que o povo brasileiro construiu e os tolos e ingênuos começam a falar em “novas políticas”, como se tudo o que se apresentou, nos últimos anos, como algo assim tenha se mostrado dócil ao status quo e, não raro, praticante dos mesmos pecados que diz condenar à fogueira.



Os personagens mais importantes da vida brasileira, hoje, são os bandidos e os carrascos.



Nem eu, nem ninguém que o perceba, quer entregar a sua vida, a vida dos seus filhos, o futuro de todos nem a bandidos, nem a carrascos.



Na lama não se funda coisa alguma, mas quase tudo se afunda.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O MP VAI NOS SALVAR DA PEDOFILIA


É curioso.


Quando, nos anos 80 e 90, gente de esquerda, essencialmente, criticava a erotização precoce e a violência nos programas de TV infantis, nas roupinhas fetichistas da Xuxa, nos concursos de “boquinha da garrafa” para crianças do Raul Gil, era chamada de “careta”, stalinista, retrógrado e que quem determinava o topo de programas a ser exibidos era “o gosto do público”, porque o Ibope era a bíblia e as vontade das emissoras, especialmente a Globo, era a lei.


E ainda são.


Agora, depois do ataque dos imbecilóides do MBL à exposição de Porto Alegre, aparecem os “kim concursados”.


Diante do fato de que o promotor de da Infância e da Juventude de Porto Alegre Júlio Almeida, dizer que não há casos de crime de pedofilia na mostra, dois promotores criminais gaúchos, Alexandre Lipp e Sílvio Munhoz, resolveram fazer uma “missão extraoficial” sobre a exposição, para divulgarem uma nota dizendo que ela possuía “o nítido propósito de erotizar o público alvo e induzi-lo a tolerar condutas como orgias, zoofilia e vilipêndio a símbolos religiosos” :


“O evento tinha como finalidade a doutrinação amoral do público infanto-juvenil, e os pais que agora tomaram conhecimento disso podem procurar o Ministério Público para a adoção de providências, sobretudo se descobrirem que os filhos participaram de alguma dinâmica sensorial sugerida no evento, o que pode caracterizar crime contra a dignidade sexual.”


Só mesmo na mente de um tarado pode passar a ideia de que professores, em concluio com o Santander e os artistas que participam da mostra, uniram-se para formar, desde a mais tenra idade, uma geração de pedófilos, zoófilos, orgiásticos e vilipendiadores de ícones religiosos.


Quem sabe não prefiram a solução mais simples da “fera de Deodoro”, sugerindo logo “fuzilar” os responsáveis pela exposição? E levar as criancinhas para ver como se deve tratar quem pensa diferente? E castigar, a fio de ferro e a tosa de cabelo à força, os que acharem que isso é fascismo?


Estou preocupado em ter feito meu filho de 12 anos “a tolerar condutas” dos outros, mesmo aquelas com que não concorde, desde que isso não interfira na maneira em que escolheu viver. Será que mereço um indiciamento criminal, doutores?


Soltaram as feras e já começam a ser tragados por ela, O jornalista e blogueiro gaúcho Políbio Braga, um dos maiores incentivadores desta “caça às bruxas” sexual acaba de ser condenado a pagar R$ 24 mil a dois promotores de Novo Hamburgo, sobre os quais levantou suspeitas de terem feito escutas e negócios.


Cria Cuervos, não é?


PS. A propósito, na minha infância não tinha exposição fechada, mas tinha revistinhas do Carlos Zéfiro correndo escondidas de mão em mão no fundo da sala, cinema “poeira” para entrar com carteirinha falsificada e ver os seios da Florinda Bolkan, e até anúncio pedófilo exibido nas revistas e farmácias, como este famoso no mundo inteiro, de bronzeador, que vinha desde os anos 50 e que reproduzo acima.




Por Fernando Brito

domingo, 17 de setembro de 2017

PELO MENOS TIRAMOS O PT


“Pelo menos tiramos o PT”.


Para grande parcela da população brasileira, esse é seu mais valioso mantra.


Repetem com facilidade a frase que tenta justificar seus erros ou ratificar suas convicções que ameaçam ruir a cada novo escândalo que envolve seus heróis de pés de barro.


Para muitos, tirar o PT do poder era o objetivo mais importante e inegociável da vida.


Incompreensível é que esse objetivo tenha suas bases não na análise e perspectiva sobre o que fizeram ou deixaram de fazer os governos petistas, mas no sentimento irracional de anti-esquerda.


Lula tornou-se para essas pessoas o ícone do PT e o PT o ícone da esquerda.


Tirar Lula/Dilma do Poder era tirar o PT, consequentemente, tirar a esquerda do poder mesmo tendo sido esse poder conquistado nas urnas.


Para essa gente deve-se defender democracia (isso é, tirar o PT) mesmo com ações antidemocráticas.


Assim agiram movidos pelo antismo, e esse antismo é basicamente cultural e não político pois não resiste ao mínimo debate racional.


A anti-esquerda cresceu no Brasil com o fermento do ódio anticomunista, criado pela direita mais retrógrada que, para justificar seus golpes, jamais teve moralismos em qualificar seus adversários como comunistas, mesmo sabidamente não sendo.


Getúlio Vargas foi acusado de comunismo, mesmo tendo sido o governante que fechou a Aliança Nacional Libertadora, baniu o PCB e prendeu suas lideranças, inclusive Luís Carlos Prestes. Vargas não teve pudores nem para entregar numa bandeja à Gestapo, para ser morta, Olga Benário, agente comunista internacional e mulher de Prestes.


Da mesma forma João Goulart, fazendeiro gaúcho e discípulo de Vargas, foi taxado de comunista para ser apeado do poder. Suas propostas de reformas do sistema de ensino, planejamento urbano e agrário foram rotuladas de propostas comunistas e contra elas se organizaram marchas da Família com Deus e pela Liberdade.


No Brasil, a elite esperta sempre usou o preconceito para dirigir a classe média burra.


Dessa forma, se Lula é PT, o PT é esquerda e esquerda é comunista, o que vale é tirar o PT do poder, perseguir e aniquilar a figura de Lula para fazer sangrar a esquerda brasileira.


Pior ainda é que esse anticomunismo virulento e radical não nasce do debate ideológico e da defesa das coisas boas do capitalismo contra os erros do comunismo real, mas do medo de ver os mais “miseráveis” ascender à patamares sociais (que julgam ser a bandeira da esquerda) vedados aos “miseráveis”.


Hoje, o mantra se repete entre uma população mais ou menos arrependida.


Diante das barbaridades cometidas e anunciadas pelo governo Temer, parte da população antista começa a perceber que caiu numa armadilha, mas, para justificar seus erros repete que “o importante foi tirar o PT”.


Não entende essa parcela da população que tirar o PT do poder em cima de uma conspiração da mídia e do judiciário foi fácil, difícil será pagar o preço. E o preço é a desnacionalização do país com à venda do seu patrimônio em leilão, pago em suaves prestações.


O preço poderá será a perda de seus direitos trabalhistas e previdenciários.


Perdemos, mas, o importante foi tirar o PT.


Tirar o governo mais pacífico da história, incapaz de qualquer ato de força e persuasão foi mais fácil que tirar um Brizola (também rotulado de comunista) capaz de botar fogo no circo. Difícil é reconhecer que junto tirou a esperança de milhões de brasileiros que ousaram sonhar.


Junto com tirar uma presidente legitimamente eleita do poder, sem cometimento de qualquer ilícito, tirou-se também o Brasil do clube dos países modernos e em desenvolvimento, respeitado lá fora como nunca fora antes em sua história.


“Pelo menos tiramos o PT”, mais do que um mantra, ameaça se tornar, num futuro imediato, o título do mais triste e bizarro capítulo da história brasileira.



Prof. Péricles

sábado, 16 de setembro de 2017

NÓS GÓRDIOS


O Brasil está amarrado a quatro nós górdios que ninguém conseguiu ainda desatá-los e assim libertá-lo para se auto-construir como país soberano e livre.

O nó górdio vem de uma lenda da mais longínqua província romana, a Frígia, para onde eram levados condenados políticos sediciosos e na era cristã, os herejes. Era uma espécie de Sibéria, lugar de punição a opositores ou defensores de doutrinas heterodoxas.

A lenda diz que tendo ficado vacante o trono, foi escolhido como rei um camponês de nome Górdio. Veio com seu carro de bois. E para honrar Zeus e mostrar a humildade de sua origem, colocou a carroça dentro do templo. Amarrou-a com grossa corda com infindáveis nós de sorte que ninguém conseguia desatá-la. E assim ficou por muito tempo. Até que no ano 334 a.C. passou por lá Alexandre, o Grande. Curioso, foi ver os nós. Circulou ao redor. Não ficou refém dos nós da corda. Teve uma iluminação. Desembanhou a espada. Num golpe cortou a corda. Daí se derivou a conclusão de que uma ideia fora dos quadros convencionais – os nós – pode facilmente desatar os nós e resolver o problema.

O Brasil está amarrado a quatro nós górdios, sem que até hoje chegasse alguém que num corte libertasse o Brasil deles. Mas um dia ele irromperá.

O primeiro nó górdio é o etnocídio indígena. Eram cerca de 4 milhões. O extermínio os reduziu a 800 mil de hoje. O mais vergonhoso extermínio foi a decisão de Dom João VI em 13 de maio de 1808 de declarar uma guerra de exermínio contra os krenak (botocudos) do Vale do Rio Doce. Eram tidos indomesticáveis e por isso deveriam ser exterminados. Quase o foram. Alguns fugiram para dentro da mata. Eles se refizeram e hoje Ailton Krenak é um dos líderes maiores dos povos sobreviventes. A consequência: esses povos originários até hoje são discriminados como inferiores e suas terras com dificuldade são demarcadas e muitos deles são ainda assassinados.

O segundo nó górdio é o nosso passado colonial. Todo processo colonialista é violento: implica invadir terras, impor a língua, a política, a religião e desestruturar a cultura dos colonizados. A colônia criou duas instituições que se transformaram em estruturas mentais: a Casa Grande do senhor que tem o poder de vida e morte sobre os subordinados e a Senzala onde vivem os escravos e os peões sem qualquer direito. A consequência: sempre dependemos de fora, consideramos o que é estrangeiro melhor do que o nosso próprio produto. Deixamos surgir o sentimento de “vira-lata” sem autovalorização.

O terceiro nó górdio foi a escravidão. 4-5 milhões de africanos foram trazidos de África como escravos. Eram postos no pelourinho para serem vendidos como “peças” para servirem como trabalhadores no engenho ou serviçais nas cidades. Eram proibidos de constituir família. Os filhos logo que cresciam eram vendidos para longe e assim romper o laço de afeto entre a mãe e os filhos e filhas. Foram tratados com crueldade como a animais. Consequência: a falta de respeito aos outros, a discriminação e o ódio que grassa na sociedade contra os negros e a seus descendentes. Isso perdura até os dias de hoje. Jessé Souza em sua obra sociológica enfatiza que os descendentes da Casa Grande não apenas os mantém nas periferias mas os humilham e desprezam. Apenas o Governo Lula-Dilma fez alguma reparação para com eles, criando cotas nas universidades e nas escolas técnicas e uma universidade UNILAB em Redenção no Ceará.

O quarto nó górdio que obnubila a realidade brasileira é o patrimonialismo associado à corrupção. O patrimonialismo significa que as oligarquias consideram como privado o bem público, ocupam altos postos do aparelho do Estado, controlam as políticas públicas, entram em consórcio com empresas privadas para realizarem projetos do Estado, ganhando propinas pela mediação ou pelo superfaturamento das obras. Aí corre solta a corrupção que foi naturalizada. Somente nos últimos tempos pela Lava Jato os donos das grandes empresas e políticos dos mais altos escalões foram desmascarados e muitos deles postos na prisão. Esse nó górdio é o mais difícil de ser desatado pois se infiltrou em toda a sociedade como pertencendo ao negócio e ao nosso ser brasileiro.

Se o Brasil quiser construir seu próprio caminho, ganhar autonomia e contribuir para o devenir da nova fase planetária da Terra, deverá cortar estes quatro nós. Um governo com forte liderança e coragem e com sentido de nacionalidade poderá cortar esses nós, como condição de realizarmos o sonho brasileiro.

Não perdemos a esperança de que esse dia chegará.

Energias ponderosas estão impulsionando nesta direção.



Por Leonardo Boff, teólogo, escritor e professor universitário