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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O SEGREDO DE LULA



O segredo da força de Sansão, conforme as antigas escrituras, estava em seus cabelos. Num belo dia, sua guria, Dalila, indignada zaaap... cortou seus cabelos e o pobre Sansão virou Sansinho.

A força do deus nórdico Thor estava em seu martelo, do Popeye no espinafre e do He-Man na sua espada mágica.

Parece que todos os fortes possuem um ponto específio, algo mágico em que resida sua força. Pelo menos é assim que se costuma pensar quando não se entende a força alheia.

Lula é um forte. Mas que isso, Luis Inácio é um campeão de carisma e votos, e parece que a turma da "Ponte para o Futuro", por não entender sua força, se pergunta onde afinal está o seu segredo.

Como entender que depois do maior massacre público já organizado contra a figura política de alguém, após centenas e centenas e centenas de capas de revistas e reportagens "bombásticas" dirigidas e francamente contrárias e milhares de horas televisivas, além de  incontáveis boatos e acusações sem provas, Lula ainda apareça na liderança da intenção de votos em todas as pesquisas eleitorais?

Isso supera qualquer lógica. Onde está afinal  força desse homem que já deveria estar execrado e coma prisão pedida pelo próprio povo, que, ao contrário, impede sua prisão?

Parece que não é nos cabelos, nem no espinafre ou em qualquer espada mágica.

Uma boa dica para o entendimento desse mistério pela turma da "Ponte do Futuro" é a origem do objeto.

Martelo, espinafre, espada, são, digamos assim, objetos exteriores ao indivíduo. Despojado o indivíduo dessas exterioridades ele enfraquece.

Mas, a força do sindicalista pernambucano que se tornou presidente não está na exteriorização, e se assim o fosse já estaria despojado pelo STF.

A força de Lula está em algo além dele mesmo, anterior e interior à sua personagem.

Vem dos ideais de fraternidade e na crença da construção de uma sociedade mais justa e esses ideais não são propriedade ou exclusividade dele, ao contrário, são utopias acalentadas por milhões.

Quando algo reside no exterior é mais fácil, afasta-se o indivíduo desse algo e acabou, mas, como afastar Lula do imaginário de igualdade de milhões de miseráveis que com ele descobriram que também são cidadãos e que seus filhos também merecem e podem estudar?

Era nisso que residia a força de Getúlio Vargas, de Jango, de Brizola, de Fidel Castro, de Hugo Chaves, de Mandela.

O segredo de Lula está no povo, e, infelizmente para os autoritários que precisam manter as aparências de uma democracia, é o povo que decide uma eleição presidencial.

Parece que depois de tantas esforços a galera golpista começa a entender isso e é justamente isso que faz que aumente sensivelmente o perigo em torno de Lula, pois, geralmente os donos do poder se equivocam achando que eliminando a pessoa conseguirão eliminar as idéias.


Prof. Péricles

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O MINISTRO MORTO E O AVISO


Assassinatos políticos são muito complicados, e perigosos.

O atentado que não dá certo pode denunciar seus autores e não apenas destrui quem o organizou mas afetar diretamente os interesses políticos e econômicos que lhe deram causa.

Por isso, apesar das teorias da conspiração, o assassinato político, é um recurso extremo, usado apenas por grupos que têm tanto a perder com a atuação de seus alvo que até vale à pena arriscar e isso, em política, onde inúmeros são os corredores que podem ligar amanhã os que hoje são rivais, é relativamente raro.

O suicídio de Vargas até hoje tem crentes em um assassinato.

Mas, politicamente isso seria totalmente improvável.

Vargas estava isolado, sem apoios significativos, sofrendo até ultimato dos militares para renunciar. Matar Vargas seria como gastar pólvora em caça morta. Arriscar tudo num jogo que já estava ganho.

Já o assassinato por briga na prisão de seu secretário e amigo particular, Gregório Fortunato, alguns anos depois, sim, tem as cores fortes de uma queima de arquivo, já que sua delação poderia arruinar muita gente que havia participado da farsa da Rua Toneleros e não tinha outra maneira de impedir o “Anjo Negro” de falar.

O assassinato político não é um assassinato de bandidos que brigam no botequim. Não é um ato impulsivo.

Interessante mesmo é a morte de João Goulart no exterior.

Jango estava numa situação complexo que justificaria um assassinato assim como não justificaria o risco.

Os donos do Brasil preparavam-se para escancarar o projeto inevitável de abertura política pondo fim à execrável ditadura militar. Jango, voltando, seria uma pedra no sapato dos que buscavam controlar essa abertura, mas, na ocasião não se poderia arriscar até onde essa pedra no sapato poderia ferir ou ser insignificante.

Mistério.

Agora, com a morte do ministro do STF novamente se discute se o acidente fatal foi mesmo um acidente ou se foi um atentado premeditado.

Além de fazer força para levar a sério as investigações que virão as perguntas que se devem formular é: havia algo que o ministro pudesse fazer que atingisse o interesse direto de grupos e que esses grupos não pudessem evitar de outra maneira?

Quem, no meio político poderia se sentir ameaçado pelo ministro? Havia nos processos de que era relator potencial para atingir interesses maiores, digamos mesmo, internacionais? Quais? Ele poderia levar adiante esse potencial ou era “negociável”?

No caso da morte do Ministro, a sociedade deve exigir uma investigação rigorosa, pois há elementos de potência para um crime político.

E se toda a aparência for de um acidente comum é bom lembrar Marx quando dizia “Se a aparência e a essência das coisas coincidissem, a ciência seria desnecessária”.

Para inviabilizar um governo e derrubar uma presidenta eleita, forças poderosas usaram de recursos imensos que prejudicaram até aliados, arruinaram grupos econômicos poderosos como o das construtoras e fabricaram uma crise econômica que teve a colaboração de muita gente.

Talvez o acidente seja apenas e tão somente, um aviso.

Correntes silenciosas movem-se no mar de lama que a política brasileira tem se transformado e vozes silenciosas as vezes gritam, mas é preciso ouvidos apurados para ouvi-las.

Ressentidas por 14 anos sem o poder, que consideraam uma propriedade sua, elas nos avisam: Não esqueçam de quem manda nessa maloca.





Prof. Péricles



sábado, 28 de janeiro de 2017

A PIOR DAS DROGAS


O primeiro sintoma foi quase imperceptível... uma risadinha, meio de lado e escondida. Mas, ele percebeu e se preocupou. Fora uma piada infame e racista, porque aquela risadinha?

Mas, no segundo sinal ele se assustou de verdade. Foi quando numa noite qualquer ele se percebeu assistindo uma partida de basquete da NBA. Ele nunca gostou de basquete... o que estaria acontecendo?

Depois disso ele teve a primeira crise. Foi num domingo que ele jamais esquecerá.

Assistiu à partida de futebol e mergulhou direto no programa do âncora gordo e sem graça. Até hoje se arrepia ao lembrar sua passividade em permanecer sentado na poltrona enquanto seus olhos, e, pior, sua audição, eram agredidas de maneira tão desumana.

Teve que se arrastar para chegar até o controle remoto em cima da estante para impedir que o programa do final de domingo concluísse a tragédia.

Passou a sentir um misto de vergonha e de medo.

Pensou em pedir ajuda, mas temia os olhares de compaixão que poderia receber.

Um médico, talvez um médico pudesse auxilia-lo. Ele não sabia.

Enquanto temia ser descoberto, uma segunda crise quase acabou com sua sanidade. Num dia da semana que sua memória se recusa a detalhar ele assistiu todo o jornal noturno, que ele lembra bem, ficava entre novelas... oh Deus!.

Tentando evitar o pânico, encheu-se de coragem e, num rompante que lhe custou toneladas de suor, contou tudo para a namorada, uma estudante de psicologia da PUC.

A moça ouviu tudo de boca aberta, nem Freud, nem Jung a prepararam para aquele relato, mas, quando ele terminou, tentou mostrar calma e lucidez. Disse que deveria existir alguma terapia, uma simpatia ou uma boa mãe de santo que pudesse ajudar. O importante era ele assumir que precisava de ajuda e ela, sua namorada, não iria lhe faltar.

Ele nunca mais a viu.

Mas não a culpa, não é qualquer amor que sobrevive às expiações desse tipo.

Porém, ele lutaria, e muito, por sua vida.

Buscou grupos de autoajuda. Confessou entre lágrimas que fazia duas semanas que começara a acreditar no que aquele canal televiso dizia. Foi abraçado pelos companheiros emocionados e voltou pra casa se sentindo melhor.

Hoje ele já está há dois meses “limpo”. Não assistiu mais, nesse período, aquele canal, nem mesmo uma espiadinha. Mas teme as sequelas. As vezes se surpreende chamando alguém de viadinho e sabe que isso talvez nunca saia de sua mente.

Voltou a ler bons livros, discutir sobre política, voltou a conversar com amigos de esquerda e até a namorada tentou voltar, mas ele, achou melhor deixar assim, pois time que está ganhando não se mexe.

Ele sabe que não está curado. A midiotia não tem cura. Mas tem controle, ô se tem.

Toda vez que lembra da intolerância que repetiu sem perceber, dos preconceitos e da homofobia subliminares que disseminou, sente-se infeliz. Mas, já fez uma listinha de todos com quem conversou naquela fase e prejudicou com as besteiras que disse e prometeu pra si mesmo procurar um a um para pedir perdão.

Para os mais jovens que o procuram para saber de sua experiência, ele não nega que foi e está sendo difícil retornar ao mundo dos que pensam por si mesmos e geralmente termina suas horripilantes narrativas com uma frase que se tornou seu mantra:

A alienação enferruja o coração, meninos, enferruja sim, e concluiu com um olhar de que muito sofreu: não experimentem... evitem as olhadinhas ligeiras quando atravessa a sala. A midioia é a pior das drogas, ela mata os neurônios, polui os ideais e atinge nosso sistema imunológico contra a estupidez.


Prof. Péricles









quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O AVC MAIS LETAL

Nunca na história desse país, um ex-presidente foi tão perseguido, como se governar o país tivesse sido um ato criminoso, imperdoável.

Nunca, na história desse país, um ex-presidente foi tão odiado e tratado como nem mesmo bandidos o são nas esferas do poder.

Houve um presidente, Prudente de Moraes, que ordenou uma ação militar que matou 25 mil brasileiros no Arraial de Canudos, mas esse presidente, era advogado, doutor, jamais foi tão odiado.

Teve um outro que prometeu no exterior pagar a dívida externa, criou um plano econômico chamado “funding Loan” (língua da metrópole, claro) e promoveu um arrocho insuportável aos brasileiros mais pobres, mas esse, Campos Sales, também era advogado, representante da elite cafeeira e, claro, nunca foi odiado além de um apelido irritadiço, Campos Selos.

Depois dele teve mais um advogado, Nilo Peçanha, que criou um órgão de terror chamado SPI (Serviço de Proteção ao Índio) que exterminou quem deveria proteger além de roubar suas terras, mas Nilo, oras, jamais foi odiado por ninguém além dos mortos.

Já seu sucessor, Hermes da Fonseca, perseguiu os sertanejos do Padre “santo” Cícero Romão Batista, criou uma estrada de ferro às custas da morte de dezenas de trabalhadores que ligava o nada para lugar nenhum, mas, era marechal, e ninguém odeia um militar no Brasil.

No nosso país, teve um governador da elite paulista cujo slogan era “esse rouba mas faz”, um ministro da ditadura militar famoso no exterior por contrabandear pedras preciosas nativas para lá, um outro governador da elite paulista cuja fortuna em seu nome ele apenas dizia não lhe pertencer, um presidente eleito pela mídia que pagava até gastos domésticos com “sobras de campanha”, mas nunca se percebeu a existência da corrupção como agora, simplesmente para perseguir pessoas.

O uso da corrupção como arma política é abjeto na medida em que quem a usa posa de moralista impoluto, no meio do pântano da corrupção.

Um dos grandes enigmas da humanidade é entender esse ódio.

Por que tanto ódio contra alguém que mesmo depois de dois mandatos não tem apartamento em Paris, Iate, ou qualquer ato corrupto comprovado?

Será que é por que é nordestino? Por que não é doutor? Ou por que é tão parecido com aqueles que o odeiam e se sentem covardes diante de sua coragem diante dos poderosos?

Ironia ainda maior é saber que apenas aqui, na terra brasilis esse homem é tão odiado.

Vejam, por exemplo, a notícia de rodapé do “Estadão On-line” de 20/01/2017, que com certeza não se ouvirá na mídia que manda no Brasil:

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva receberá o prêmio de Estadista Global do Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), no dia 29 desse mês de janeiro). Esta é a primeira edição da homenagem, criada para marcar o aniversário de 40 anos do Fórum.

Conforme a organização do evento, o prêmio tem o objetivo de destacar um líder político que tenha usado o mandato para melhorar a situação do mundo.

“O presidente do Brasil tem demonstrado verdadeiro compromisso com todas as áreas da sociedade”, disse o fundador e presidente do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, em nota à Agência Estado.

Segundo ele, esse compromisso tem seguido de mãos dadas com o objetivo de integrar crescimento econômico e justiça social. “O presidente Lula é um exemplo a ser seguido para a liderança global. ”

A entrega do prêmio será feita pelo ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e está prevista para às 11h30 [horário local; 8h30 de Brasília] do dia 29, quando o presidente brasileiro fará um discurso. Em seguida, terá início um painel de discussão sobre o Brasil. O objetivo é debater os atuais condutores do crescimento do País e os desafios à frente”.

Esse tipo de acontecimento deveria ser aplaudido, reconhecido e comemorado como um fato histórico de relevância num país tão carente de reconhecimento internacional, como o nosso. Mas é escondido como se fosse algo degradante.

Nunca na história desse país, alguém foi tão invejado e odiado assim.

Que mal fez esse homem para o brasileiro médio, trabalhador assalariado, despossuído de latifúndios e de interesses coorporativos?

Esse ódio é de difícil explicação epistemológica, sociológica, racional.

Sua esposa, Marisa Letícia, ex-primeira dama (a mídia costuma não citar essa expressão dedicada às esposas dos doutores) provavelmente desgastada por tanta sordidez, agora padece vítima de um AVC.

A mulher que um dia ganhou a vida fazendo faxina e combatendo a sujeira, não está mais resistindo à sujeira que não pode ser extirpada por uma boa faxina... a sujeira moral.

Provavelmente o homem mais odiado do Brasil esteja para se tornar também, o mais solitário.

Talvez faça bem a esquerda brasileira em geral e o PT em particular, em se preparar para viver sem a presença física desse grande líder agonizante, vítima de um ódio patológico crônico e inexplicável.

O AVC da mágoa costuma ser mais letal que o AVC hemorrágico.




Prof. Péricles

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

FIDEL VIVE NA REVOLUÇÃO VITORIOSA



Por Sergio Nogueira Lopes

A morte do comandante Fidel Castro, líder de uma revolução heroica e vitoriosa, simboliza o desaparecimento de parcela da Humanidade. Morrem com ele, símbolo de luta sem trégua contra o fascismo e o imperialismo que ora se impõem, no Ocidente, os sonhos de todos aqueles que, até o último suspiro, lançaram-se no enfrentamento à miséria e à exploração do homem pelo homem.

Nesse ciclo da vida, não há outro de sua estatura.

Fidel mostrou ao mundo que a arma mais quente dos idealistas não é aquela carregada de pólvora e chumbo. Mas com o respeito à fragilidade humana.

O líder de uma Nação tratada como quintal, bordel, pocilga de corruptos e entreguistas, pegou em armas. Sua coragem e a de tantos companheiros, a exemplo de Camilo Cienfuegos e Ernesto Che Guevara, expulsaram das fronteiras cubanas a potência imperialista da vez.

A vitória no campo militar, por mais relevante e significativa, no entanto, equilibra-se com as conquistas sociais. Ao longo de quase um século, Cuba tornou-se exemplo de solidariedade e humanismo.

Os vizinhos do Norte exportam armas e guerras. Mas os cubanos enviam os médicos e o modelo de Educação que curam do analfabetismo e do descaso os pobres, os desvalidos.

“Milhares de crianças estão passando fome no mundo hoje. Nenhuma delas é cubana” disse Fidel, em pronunciamento histórico. Enquanto os poderosos tentavam assassiná-lo — e falharam por mais de uma centena de vezes — Fidel devotava sua vida à resistência. Enfrentou o pior embargo já imposto a um país, desde a existência das Nações Unidas.

Como nenhum outro líder político, na face da Terra, Fidel elegeu a Saúde e a Educação como forma de consolidar uma nova realidade.

Cuba, hoje, é um exemplo para as futuras gerações de que um outro mundo é possível. Uma aliada de todas as outras nações que lutam contra o imperialismo e a opressão. Perdeu, com a morte de Fidel, o seu filho mais querido. Ainda assim, o legado que fica de uma vida exemplar será a inspiração para que nenhum povo se submeta ao egoísmo.

Que jamais um país seja anexado aos interesses de qualquer outro, por mais poderoso que possa parecer. Que não ceda um milímetro sequer na autodeterminação de se manter digna e honrada.

Quando tudo parecia dominado pela potência distante 140 quilômetros de Havana, que submetia seus desafetos aos desígnios do capitalismo mais selvagem, Fidel lidera a revolução que liberta a Ilha das garras da miséria. Promove o fim da exploração pelos Estados Unidos, sob a gerência de mafiosos, traficantes e bandidos de toda ordem. Mesmo sob a mais intensa pressão internacional, cria um Estado igualitário. Resgata da fome e da corrupção um contingente humano que, hoje, alcança Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) semelhante ao dos países nórdicos.

Cercada por todos os lados pela mediocridade que se alastra, nesses tempos perigosos, a Ilha de Fidel é um ponto de referência. Em pleno Caribe, estende-se um farol para aqueles que vivem os mesmos ideais um dia defendidos por um jovem judeu. Ele que, hoje, é representado na Terra por um homem bom, chamado Francisco. Talvez seja este a derradeira voz das pessoas bem que vagam por essa existência.

Desde que visitei Cuba pela primeira vez, ainda na década de 90, guardo comigo a leveza dos passos da minha filha. A luminosidade nas aulas de balé da professora Alícia Alonso, uma referência mundial que somente a Revolução Cubana poderia gerar.

Preferimos a aconchegante habanera e os seus tons calientes, às frias, comportadas e entediantes classes estabelecidas em Londres, Nova York e Paris.

Hasta Siempre, comandante!





Sergio Nogueira Lopes é sociólogo e embaixador da SPB/Brasil.

sábado, 21 de janeiro de 2017

DE QUASE NÃO SE VIVE



Existem países que quase chegaram lá. Alguns chutaram no gol, a bola bateu nas duas traves e saiu. Não entrou. Não foi gol, mas foi quase.


O Paraguai, por exemplo.


Seu modelo de país independente após deixar a condição de colônia, foi inédito.


Sem grande dívida externa e em marcha acelerada visando à industrialização, o Paraguai, no século XIX foi o sonho da América Latina. Governado por ditadores populares, aboliu o analfabetismo, promoveu uma reforma agrária corajosa e tinha índices de mortalidade infantis menores do que a maioria dos países europeus.


Quase. Mas não concretizou seu modelo, já que foi destruído, num genocídio sem precedentes praticado pelo Brasil, que alguns chamam de ‘Guerra do Paraguai”.


Tornou-se um pária, um molambento país claudicante e condenado.


O Haiti também.


Primeiro país latino-americano a se tornar independente após um processo único em que a metrópole (França) se despiu de qualquer intenção de manter a colonização já que estava envolvida em sua própria revolução, o Haiti teve a chance única de fazer suas opções sem interferência externa e sem uma elite pra atrapalhar e manter a desigualdade como norma, já que essa elite composta por brancos livres e mulatos (10% da população) foi perseguida e massacrada pelos 90% de escravos que compunham o povão.


Mas, a própria violência do massacre isolou o país diante do resto do mundo e isolado, o Haiti sucumbiu.


Na Europa também teve país que quase.


Portugal, por exemplo.


Grande líder das grandes navegações Portugal alcançou de forma pioneira o “novo mundo” e o rico comércio do oriente que poderia fazer dele, Portugal, a maior potência do mundo. Era só questão de detalhes diplomáticos e comerciais para coroar seus esforços exploratórios com a dominação econômica indiscutível de seu tempo.


Mas, Portugal teve um rei que se meteu numa guerra religiosa estúpida, morreu sem deixar herdeiros  e o trono de Portugal foi ocupado por um rei espanhol. Para recuperar a independência o país teve que vender a alma para a Inglaterra a quem perdeu quase toda sua vantagem como país metropolitano.


A História relata esses e outros exemplos de quase lá.


O Brasil  teve momentos em que poderia ter alçado voos mais altos.


Quando proclamou a independência e a República os brasileiros tiveram a folha em branco nas mãos para escrever que país queriam. Em ambas as oportunidades a escolha se fez por sua elite que assim, manteve o país que já existia, que pelo menos para eles, estava bom. Uma economia primário-exportadora que enriquecia poucos e empobrecia o resto.


Quando optou pela busca da industrialização de fato, com Getúlio Vargas, novamente tivemos a chance de reescrever nossa história, e mais uma vez, as elites fizeram dessa experiência apenas um rascunho, não um trabalho final, fazendo morrer a esperança e o próprio presidente


Atualmente, após três mandatos da esquerda, o Brasil ameaçou caminhar na direção de ser um país de todos, uma pátria educadora e menos desigual.


Pagou suas dívidas, fez crescer o PIB e pela primeira vez o crescimento foi acompanhado pela diminuição das misérias e desigualdades.


Parecia, mas não foi... O lado oculto da força se organizou dirigido e patrocinado por interesses outros e a presidente que não cometeu nem um crime caiu, a dívida voltou, a esperança sumiu.


A bola bateu nas duas traves, correu pela linha do gol, e saiu para fora.


Dá até pra desconfiar que o problema, então, não seja o time, mas a torcida.


Quem sabe, para essa torcida que apenas torce e xinga o juiz, já não tenha chegado a hora de uma boa invasão de campo para mostrar que cansou de esperar pelo cumprimento do tal destino de gigante, prometido, mas sempre amordaçado, pelos que sempre ganham com a miséria alheia?


Ou então, sejamos sempre, apenas um, quase.



Prof. Péricles





quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

CRISE ENTRE OS PODERES


Por Luciano Martins Costa



O Brasil corre o risco de acordar com as instituições irremediavelmente fragmentadas.

Esse é o resultado da operação que rompeu a ordem democrática ao desfazer a decisão tomada nas urnas em 2014 pela maioria dos brasileiros.

Os últimos dias registraram um embate inglório entre o Congresso Nacional e os integrantes da força-tarefa que tocam a Operação Lava-Jato.

Inglório, porque ambos os lados têm razão ao acusar os desafetos de desonestidade – e neste caso nenhum deles está com a verdade.

Embora a causa matriz da desavença seja absolutamente defensável, por se tratar de uma necessária atualização da lei de 1965 que coíbe o abuso de autoridade, há nessa iniciativa apressada um indisfarçado objetivo de blindar certas autoridades que estão na mira das investigações.

As mais reluzentes delas são o presidente do Senado e o presidente transitório da República.

Por outro lado, não se justifica que também sejam blindados os operadores da Justiça: nenhum juiz, procurador ou integrante da Polícia Federal pode se colocar acima das demais instituições em sua missão de apurar crimes de corrupção.

Acontece que os abusos nunca foram denunciados ou sequer considerados como tais enquanto a ousadia dos agentes públicos ajudava a derrubar o governo eleito nas urnas.

Apenas quatro meses depois de tomar posse, com a promessa de “resgatar a força da economia e recolocar o Brasil nos trilhos”, o inquilino do Planalto se vê sitiado pelos antigos aliados e vai sendo arrastado pela sucessão de escândalos rumo ao seu lugar na História: a “cesta” seção.

A mídia tradicional lança combustível na fogueira das vaidades, de olho na chance de trocar Michel Temer por alguém mais palatável e mais confiável: um prócer do PSDB paulista, por exemplo, ou, num caso extremo, o senador cearense Tasso Ribeiro Jereissati.

Pode-se afirmar que grande parte das opiniões divulgadas nasce enviesada pelo processo de criminalização da política, que cresce como um tsunami no rastro das denúncias de corrupção.

A leitura do projeto recomenda cautela: não há sinais de incoerência no texto que prevê punições para magistrados e integrantes do Ministério Público quando suas condutas forem incompatíveis com o cargo.

Porém, pode-se interpretar a letra da proposta como uma ameaça a juízes e procuradores que extrapolam de suas funções e usam dois pesos e duas medidas conforme a ideologia ou a posição político-partidária do acusado.

Pode-se apostar que 9 entre dez leitores de jornais e telespectadores dos noticiários da TV opinam sem ter lido o texto, mas é certo que muitos deles sairão às ruas de verde e amarelo.

Até mesmo advogados, que sofrem o risco de se tornarem irrelevantes diante das alianças entre promotoria e magistratura, têm aderido aos protestos.

O caos está instalado.

À sombra do edifício da Fiesp, na Avenida Paulista, os defensores da volta da ditadura tomam carona outra vez no carro de som dos indignados.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A CONSTRUÇÃO DA INTOLERÂNCIA


A intolerância não se adquire pronta e acabada.

Na verdade, a melhor imagem que se faz não é a de um produto que já vem pronto e embalado, mas uma pequena planta irrigada desde os tempos de semente até tornar-se frondosa árvore.

O intolerante não nasce intolerante, é feito, embora depois trate de se aprimorar.

Quando os pais ensinam seus filhos que o coleguinha negro do colégio é diferente e que, em certas ocasiões, como o aniversário em casa com os amiguinhos, deve ser evitado, se está regrando a plantinha.

Quando o professor permite o bulling ao menino com trejeitos que segundo a regra da maioria da turma, e dele mesmo, são efeminados, está também, dando sua contribuição.

Além dos pais e mestres existem ainda os plantadores oficiais de intolerância.

A mídia, por exemplo, ao apresentar programações que separam e rivalizam meninas e meninos ou quando desfilam filmes e programas que cultuam a violência e o machismo, faz a sua parte com maestria.

Em geral, o preconceito se enraiza junto com convicções precipitadas mas póstas como verdades incontenstáveis.

Nesse processo de construção de ódios algumas nuances são tão sutis que nem os agentes diretos no processo o percebe.

Exemplo são as muitas mães que cultuam um machismo desacerbado e imprudente cujas origens estão na própria educação que recebeu e que que transmite sem parar para pensar. 

O pessoal que coleciona piadas homofóbicas, também participam e até mesmo o culto à mulher virgem e frágil cujo valor está na beleza e que muitos acham ser elegante tem sua dose forte na desigualdade nos tratamentos.

Depois da cobra criada falta apenas o aprimoramento e aí, a personalidade de cada um faz o resto, mas o caminho foi previamente construído.

Então a barra pesa, pois, a intolerância nunca anda sozinha e tem uma família unida. Ela é filha do ódio, irmã do orgulho e do preconceito, mãe da hipocrisia.

Dificilmente alguém anda acompanhado de apenas um desses pares.

Quem caminha com essa turma carrega o ódio escondido no bolso já que a hipocrisia exige um comportamento dissimulado, mas que sempre se trai quando algum tipo de valor está em julgamento.

Os que andam com essas companhias participam da violência da qual se julgam vítimas, defendendo a violência do estado e bradando que bandido bom é bandido morto.

Com a visão tapada por tanta coisa ruim são instrumentos úteis para aqueles que buscam manter a sociedade desigual e excludente como a conhecemos. É a maneira de fazer crer que a exclusão é natural e, de certa forma, uma opção do excluído.

Assim, a desconstrução dessas anomalias passa, não apenas pela necessária transformação social, mas antes de tudo, na transformação da própria cidadania.

Não será por decreto nem por atos revolucionários, pois a Lei sem a vivência nas criaturas é efêmera, como o demonstra a Lei Maria da penha.

É dever de todos lutar pela desmistificação da intolerância como coisa natural entre as pessoas.

Enquanto isso, jovens pais, procurem saber exatamente, que tipo de semente está sendo plantada no terreno fértil da personalidade de seus filhos.




Prof. Péricles

sábado, 14 de janeiro de 2017

A ERA DO PÓS-RIDÍCULO


Por Kiko Nogueira


Eu vi a formulação na conta dos Fatos Nacionais no Twitter. A foto de João Dória e Regina Duarte fingindo que varriam ruas em São Paulo tinha a seguinte legenda: o “ano do pós-ridículo”.

É uma definição feliz.

Dória, Regina e Janaína Paschoal são luminares da era do pós-ridículo. Seguidos de perto por Crivella, Alexandre de Moraes, Michel Temer e a mulher Marcela.

O pós-ridículo é uma ampliação do conceito que foi eleito palavra do ano em 2016 pela Universidade de Oxford. “Pós-verdade” (post-truth) foi devidamente dicionarizada.

É um adjetivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

Dois acontecimentos políticos foram citados como exemplares no emprego dessa prática: a campanha de Trump e o Brexit. As mentiras tiveram papel crucial em ambos os casos. Ainda que desmascaradas, isso não mudou o voto da maioria.

Nada seria possível sem as redes sociais. O Facebook, atualmente, tenta se livrar das notícias falsas fazendo com que sites que as compartilhem não usem sua rede de anúncios e não ganhem dinheiro com isso.

O pós-ridículo também deve muito de sua ascensão a essas mídias.

Nelson Rodrigues, gênio absoluto, já tinha avisado que os cretinos perderam a modéstia. O que ocorre é que, hoje, eles publicam suas cretinices e são seguidos por outros cretinos, formando um bolo que adquire um tamanho impressionante.

O superego foi eliminado. A tibieza intelectual de Janaína Paschoal não era novidade e ficou conhecida com o processo do impeachment. Seu vexame nos arcos do Largo de São Francisco, quando encarnou uma pomba gira gritando sobre uma tal república da cobra, deveria ser suficiente para sua aposentadoria precoce ou seu retorno ao anonimato.

Não. No pós-ridículo, ela ganha empuxo.

Sua conta no Twitter é uma calamidade intelectual e, de quebra, uma mancha na reputação da faculdade em que leciona. A vírgula, usada ao bel prazer, enfeita estupidezes como a invasão do Brasil.

“Com uma base militar na Venezuela, Putin estará a um passo de atacar o Brasil. Estão rindo? Pois eu estou falando sério”, escreveu na primeira sentença de uma série.

Recentemente, prontificou-se a atuar como “inspetora de banheiro” do Ibirapuera. Virou piada, novamente.

Menos para os demais surfistas do pós-ridículo, como João Dória, que lhe telefonou porque viu nela uma igual. Janaína contou que o prefeito “falou brincando sobre fazer uma nomeação, eu agradeci, mas eu não gosto dessas formalidades e o meu trabalho será de cidadã para mostrar que os cargos não são tão essenciais assim”.

As aparições de Dória como gari são triunfos do pós-ridículo. Na primeira, mandou atirar moradores de rua para debaixo de um viaduto, cobriu com tela, e fingiu que limpava o chão que já tinha sido limpado. Tudo diante das câmeras.

Na segunda incursão, Dória contou com a mão de outra musa do pós-ridículo, Regina Duarte. A atriz inventou que integrava uma “associação que batalha por uma cidade mais digna, mais humana” e por isso estava no local. Totalmente por acaso.

“É nois! O importante é lutar por uma São Paulo mais limpa, por dentro, na alma”, afirmou. “Não quero ser política, mas acho que todos os moradores de São Paulo devem se engajar”. (Onde estão os filhos ou familiares responsáveis por esse pessoal??)

Napoleão um dia observou, após uma derrota no Egito, que do sublime ao ridículo é apenas um passo. Nós demos esse passo coletivamente e estamos enterrados até o pescoço numa indigência mental que parece ser a regra.



quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

COLAVAM NAS PROVAS E SE JULGAM PROFESSORES



Havia um personagem num programa humorístico, se não me engano, no “Viva o Gordo” que, diante de um questionamento sobre qualquer bobagem que dizem, repetia o refrão “não discuto com leigos, não discuto com leigos”.

Quando se é leigo sobre determinado assunto e saímos por aí a falar francamente sobre o que não entendemos bem, facilmente cometemos erros bizarros, e, até mesmo, ridículos.

Claro que ter opinião é um direito de todos nós, mas, o perigo é, precipitadamente, se formar convicção sobre qualquer coisa sem ter uma gama mínima de informação de quem entende melhor do assunto, para balizar nossa opinião.

Se mesmo assim, insistimos em expor o que pensamos, ao mesmo tempo em que exercemos um direito assumimos riscos e por isso, é necessário estarmos abastecidos de humildade para reconhecer que sabíamos pouco daquilo que ora expúnhamos e que, falamos bobagem.

Por isso é tão superficial analisar o procedimento alheio, já que, geralmente, ao fazer isso, estamos trazendo os nossos valores, as nossas impressões sobre algo e não as impressões e vivências do alheio.

Certa vez, em 2003, um político nordestino, num evento festivo de recepção ao recém-empossado presidente Lula, fez um inflamado discurso contra os paulistas e sua pretensa arrogância em relação ao restante do Brasil, em especial, ao nordeste. Pobre homem imprudente. Ao responder ao discurso Lula não só discordou dos termos agressivos utilizados com ainda defendeu o povo paulistano que o recebeu quando migrou de Pernambuco para a Paulicéia desvairada, enquanto o político nordestino, no outro lado do palanque não sabia onde se enfiar.

Isso que dá, geralmente, quando se mete a impor os seus valores a outro sem conhecer o que lhe vai no íntimo.

Isso é particularmente conflitante quando pessoas defendem suas simpatias ou antipatias políticas pessoais usando argumentos pretensamente históricos.

É muito importante ressaltar que história é ciência, não é opinião.

A história possuí método científico e exige provas para suas conclusões, mesmo não sendo essas provas empíricas que alguns julgam serem as únicas provas válidas.

Os diferentes narradores dos fatos históricos, não devem, mas podem enfatizar, conforme suas paixões determinados aspectos dos fatos narrados, mas jamais deturpa-los conforme suas próprias ideias, isso porque, história não é estória, é ciência.

Por exemplo, quando alguém antipetista, tenta esconder seus preconceitos contra esse partido, afirma categoricamente que nunca se viu corrupção igual aos dos tempos do PT, ou que na Ditadura Militar não havia corrupção, esse alguém comete um patético erro de julgamento histórico.

Um indignado leitor do Blog, dia desses, para contrariar a opinião exposta em alguns artigos afirmou que não se rotula algo de direita e esquerda pelos princípios ideológicos ou de práxis, mas pelo “tamanho e poder” do governo, sendo esquerda quem defende o estado interventor na economia e direita o governante que é contra (?).

Disse mais, o leitor indignado. Disse que o golpe de 1964 não foi um golpe já que a Constituição permitia a “intervenção militar” (??) e, na sequência de seu surto, que já havia grupos de guerrilha no Brasil, antes mesmo de 1964 (certamente referia-se aos grupos de defesa organizados pelas ligas camponesas de Francisco Julião, desconhecendo completamente as enormes diferenças entre esses grupos de defesa e seus objetivos com os objetivos de grupos de guerrilha).

As redes sociais tornaram-se, nesse aspecto, armas de tortura ao professor de história e a todo aquele que a estuda e quer bem à veracidade dos fatos.

Expandem-se convicções aos borbotões sem a menor preocupação com a honestidade.

Defendem-se pontos de vistas a partir de citações que jamais foram citadas, estatísticas que jamais foram realizadas ou conceitos que nunca foram emitidos, com o propósito de fazer valer o seu ponto de vista.

E isso, não é apenas errado, é capcioso.

Parafraseando Churchil, nunca tantos que odiavam tanto estudar história opinaram tanto sobre algo que não estudaram direito, mas tornaram-se doutores.

Faríamos bem, todos nós, se respeitássemos um pouco mais a ciência dos fatos e a veracidade das conclusões históricas.

Quanto ao indignado leitor do Blog lhe foi dado uma visão mais coerente daquilo que ele defendia e, certamente ainda defende porque, quem quer se recusar a entender, simplesmente, não entende.

E por aí ficamos, sem impor nada, já que, como dizia o grande Jô Soares, “não se discute com leigos”, e, embora jamais nos furtemos de colaborar com os que querem saber mais, nos incomodam os que sabem menos, colavem nas provas, e hoje se julgam professores.



Prof. Péricles

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

EM MEMÓRIA DE PAULO EVARISTO ARNS


Por Celso Lungaretti


Quando o entrevistei longamente em 2003, dom Paulo já era um homem combalido, que caminhava com dificuldade e tinha problemas de audição — decorrentes, esclareceu-me, de ferimentos sofridos quando de uma tentativa de sequestro num país latino-americano (pretendiam obter, em troca, a liberdade de um chefão do narcotráfico).

Tal entrevista permanece bem atual, daí eu estar reproduzindo aqui seus principais trechos, sem alterações na forma como então a redigi.

No final, apesar de sua dificuldade de locomoção, fez questão de percorrer comigo o longo caminho até a saída. E se despediu com uma frase marcante: “Precisamos contar essas histórias [do que aconteceu neste país durante a ditadura militar] às novas gerações. É importante que elas saibam de tudo isso!”

Muitos programas pioneiros, na linha da inserção social, foram introduzidos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo entre novembro/1970 e maio/1998, período em que, como arcebispo metropolitano de São Paulo, dom Paulo foi Grão Chanceler da instituição.

Logo que se tornou o principal responsável pelos rumos desta universidade, dom Paulo fez a primeira visita ao Conselho da PUC. E disse: “Não quero uma escola de 2º grau melhorada. O que me interessa é que vocês façam uma pós que dê bons professores para todos os lugares do Brasil; e que todas as teses e tudo o que vocês discutirem além da escola se refira ao povo e ajude o povo. Que isso seja a norma daqui para a frente”.

Os resultados não tardaram, diz dom Paulo. “A Arquidiocese se organizou em pastorais diferentes – p. ex., a Operária, a da Terra, a do Trabalhador –, então eu consegui que a Faculdade de Direito se interessasse em ir, durante a semana ou no sábado, à periferia e ver como se poderia ajudar essa população e quais os problemas reais da periferia. A mesma coisa aconteceu com a assistência social, que, aliás, está trabalhando nessa linha até hoje, com métodos sempre novos e recebendo apoio da Europa e de outros lugares, com uma eficiência muito grande.”

Hoje, essas iniciativas pioneiras da PUC/SP encontraram muitos seguidores e há um sem-número de empresas e instituições esforçando-se para dar uma contribuição positiva à sociedade.

“Os estudantes da USP me procuraram em 1973 quando um colega [Alexandre Vannucchi Leme] foi assassinado pelos órgãos de segurança. Os estudantes se reuniram, uns 10 mil, e mandaram representantes à minha casa, à noite, para que eu fosse lá falar aos alunos.

“Eu disse que era melhor reunir os estudantes, mas não dava para fazer no campus da universidade, porque ele estava cercado por policiais e oficiais do Exército.

“Então, decidi fazer na catedral. Eu disse: ‘Na catedral, nós falamos o que queremos, e nós falaremos aos estudantes. Encham a catedral de estudantes e de povo, que nós diremos a verdade’. E foi o que eles fizeram. Às 15h, eu fui lá, fiz aquele ato solene em favor do estudante e celebrei a missa para o falecido. Fiz o sermão sobre o não matarás!, o mandamento central dos 10 mandamentos. Foi sobre isso que eu falei para eles, e eles participaram, vivamente, da missa e de toda manifestação religiosa posterior.

“Depois, em 75, foi a vez do Herzog; em 76, a do Manuel Fiel Filho; e em 79, a do Santo Dias, quando recebemos de 150 mil a 200 mil pessoas, que andaram desde a igreja de Nossa Sra. da Consolação. A multidão foi engrossando. Ao chegar na Catedral da Sé, não cabia nem na igreja nem na praça, então nós fizemos uma cerimônia mais curta, mas muito mais participada por todos os operários.“

“Quando o Herzog foi assassinado – lembra D. Paulo –, em 1975, os jornalistas me pediram que houvesse um ato ecumênico na catedral. Os judeus fazendo o ato deles em hebraico, portanto, não na língua que compreendêssemos. Foi impressionante e muito bonito.“

Modesto, D. Paulo evitou comentar que sua decisão foi um ato de enorme coragem. Primeiramente, porque a alta hierarquia católica não viu com simpatia sua iniciativa de oficiar missa ao lado de um rabino e de um reverendo. Depois, por ser um desafio frontal ao regime militar, que o ditador Geisel engoliu, pedindo apenas a D. Paulo que segurasse seus radicais, “enquanto eu seguro os meus”.

Finalmente, por ter, em nome de ideal de justiça e solidariedade cristãs, corrido o risco da ocorrência de tumultos e mortes que teriam um peso devastador em sua consciência de religioso.

Graças a ele, foi viabilizado o ato que acabou se tornando um divisor de águas: a partir desta vitória sobre a intimidação, a ditadura começou sua lenta, mas irreversível, marcha para o fim.

Sobre o Governo Lula, antes mesmo da crise do mensalão, D. Paulo já mostrava uma ponta de apreensão, ao se dizer esperançoso de que “o Brasil não perca esta ocasião e não afunde o barco em vez de conduzi-lo a uma margem da terra onde haja outra terra e outro céu, como diria a Sagrada Escritura; onde haja outra possibilidade de sonhar e outra possibilidade de viver com dignidade, mas para todas as pessoas e não só para uma parte”.

E, inquirido sobre o menor engajamento atual da Igreja às causas sociais, ele finalizou com uma mensagem de esperança: “A Igreja é o povo. Se o povo se mobiliza bem, a Igreja também se mobiliza. Então, é preciso unir esses dois conceitos, o povo de Deus e o povo, simplesmente. Nós precisamos caminhar para a fraternidade, para uma possibilidade de todos serem respeitados como filhos de Deus e irmãos uns dos outros”.

Não há como retratarmos a grandeza de um D. Paulo Evaristo Arns numa única entrevista. O principal, no entanto, é que suas gestões junto às autoridades salvaram a vida e evitaram a tortura de resistentes, no pior momento da ditadura.

Fiel ao espírito da igreja das catacumbas, foi o pastor que tudo fez para que seu rebanho sobrevivesse a um tempo de lobos. Um imprescindível, enfim.



Celso Lungaretti, jornalista e escritor, foi resistente à ditadura militar e participou da Vanguarda Popular Revolucionária. Escreveu o livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial).



sábado, 7 de janeiro de 2017

VERA RUBIN, A MULHER QUE CONVERSAVA COM AS ESTRELAS


Ela sempre foi fascinada pelo céu. Nada, absolutamente nada, era mais interessante para ela do que a observação do céu noturno. Ficava imaginando como seria cada estrela vista de ângulos diferentes e o que significava o bailado dos astros.


Coerente com sua paixão dizia a todos que um dia seria uma astrônoma para poder ver o céu mais de perto, as estrelas em suas múltiplas formas e mal percebia os sorrisos irônicos dos que duvidavam.


Estudou com afinco focada nesse objetivo. Passou pelo Instituto Carnegie, em Washington e quando se candidatou à Universidade de Princeton para a pós-graduação, ouviu que “Princeton não aceita mulheres”.


Não se abalou e fez então, doutorado na Universidade de Georgetown. Conforme prometido, era enfim, uma astrônoma.


E que astrônoma.


Inquieta, inovadora, curiosa, desde cedo chamou a atenção de seus colegas, infelizmente não só por seu talento, mas pelo fato de ser mulher.


Objeto de piadinhas machistas e comportamentos hostis, num ambiente quase que exclusivamente masculino.


Um professor chegou a dizer que ela deveria se afastar desse campo de estudo tão complexo e “próprio para homens”.


Outra vez um professor se ofereceu para apresentar o trabalho dela, imaginando que ela não fosse aguentar tanta pressão dos “colegas”.


Mas ela prosseguiu, apresentou seus trabalhos, venceu. Mais importante que os preconceitos era seu amor pelas estrelas.


Tornou-se uma modelo de pesquisadora séria que tinha alegria em compartilhar seus conhecimentos, não deixando jamais de auxiliar os que estavam começando.


Não ganhou respeito, mas conquistou-o quando observando os céus como no seu tempo de criança, conseguiu provar, de forma científica, a existência da matéria escura, teorizada pelo astrônomo Fritz Zwicky, em 1933, mas que só com ela deixou de ser uma hipótese para se tornar um preceito científico.


Brilhante. Como são as estrelas.


Hoje, a composição, função e origem dessa matéria não luminosa que existe além da galáxia ótica e compreende cerca de quatro quintos da matéria do universo, é o assunto mais instigante e pesquisado nos meios astronômicos.


E foi ela, Vera Rubin, que “trouxe” esse mistério fabuloso da criação, para o conhecimento científico.


A menina que adorava observar as estrelas morreu em 25 de dezembro último, aos 88 anos.


Segundo muitos cientistas proeminentes como Lawrence M. Krauss e Katie Mack, Vera Rubin deverá ser sempre lembrada como uma das cientistas mais brilhantes e injustiçadas de seu tempo, visto não ter recebido aquilo que lhe seria de direito, e que, certamente, um homem receberia, o Prêmio Nobel de Física.


Vera Rubin, a mulher que nos convenceu que a matéria escura existe.


E por que essa mulher genial não recebeu o prêmio?


Melhor perguntar para os colegas machistas, ou então, para as estrelas.



Prof. Péricles

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

COLÉGIO ELEITORAL, A LOUCURA AMERICANA



Por José Inácio Werneck



Os americanos gostam de proclamar que seu país é “excepcional”. Pode ser verdade, mas é necessário acrescentar que exceções podem ser boas ou ruins.

Uma exceção ruim dos Estados Unidos é o aloprado sistema do Colégio Eleitoral.

Pela segunda vez em 16 anos teremos um cidadão que recebeu menos votos assumindo a Presidência da República.

O primeiro caso foi com Al Gore, no ano 2000. Ele ganhou a eleição no voto popular mas perdeu no Colégio Eleitoral para George W. Bush.

O que é o Colégio Eleitoral? É um sistema em que, quando um candidato ganha mais votos em um Estado (por exemplo, Flórida) os “electors” daquele Estado mais tarde (semanas mais tarde) dão a ele os seus votos.

O número de votos varia de Estado para Estado e na verdade começou como um pérfido sistema para dar aos estados do Sul (os da antiga Confederação, estados escravocratas) um número grande de votos no Colégio Eleitoral.

Para isto, os negros residindo naqueles estados, mesmo os escravos que não tinham direito a voto, eram computados como “3/5 de um homem”. Não eram um ser humano completo, apenas 3/5, para efeito eleitoral.

Na eleição perdida por Al Gore o resultado foi ainda mais escandaloso porque tudo indica que, na verdade, Al Gore ganhou a eleição na Flórida, mas, no tapetão da Suprema Corte, onde havia mais juízes republicados do que democratas, George W. Bush foi considerado o vencedor.

Agora, na eleição do mês de novembro passado, Hillary Clinton teve 2,8 milhões de votos mais do que Donald Trump, mas, por causa do pérfido sistema do Colégio Eleitoral, Donald Trump foi oficialmente indicado como o novo presidente dos Estados Unidos (tomará posse em 20 de janeiro).

Quem é Donald Trump? Um vigarista, mentiroso, racista, xenófobo, misógino e demagogo.

A péssima impressão que se tinha dele antes da eleição só fez aumentar nos últimos dias, pois vem indicando pessoas absolutamente desqualificadas para os postos importantes de sua administração.

Para o Departamento de Energia, vai nomear Rick Perry, antigo candidato presidencial que havia prometido… fechar o Departamento de Energia, mas, num debate em primária presidencial, em 2008, não conseguiu sequer lembrar seu nome.

Para o Departamento de Proteção ao Meio-Ambiente, Trump nomeará Scott Pruitt, um político de Oklahoma que é famoso como testa de ferro de empresas petrolíferas e quer romper o Acordo Climático de Paris.

Para a Secretaria de Defesa vai um general da reserva apelidado “cachorro louco”.

Como embaixador em Israel, um cidadão que considera os judeus favoráveis a um acordo com os palestinos “nazistas”.

Para a Secretaria de Estado, o “chairman” e executivo chefe da Exxon Mobil, Rex Tillerson, cujo interesse maior é negociar acordos petrolíferos com a Rússia, onde sua empresa tem direitos de exploração em 64 milhões de acres.

Para a Secretaria do Trabalho, Andrew Puzder, inimigo declarado da legislação trabalhista e dos sindicatos.

Trump continua a dar declarações totalmente insensatas e parece a caminho de um choque frontal com a China, por dizer que vai restabelecer relações diplomáticas com Taiwan.

É este homem, Donald Trump, que o Colégio Eleitoral consagrou Presidente dos Estados Unidos, embora tenha perdido por larga margem a votação popular.




José Inácio Werneck, jornalista e escritor, é intérprete judicial em Bristol, no Connecticut, EUA, onde vive.



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O IMPÉRIO DAS ELITES


O maior império da antiguidade, o Império Romano, agonizou antes da queda final. Uma agonia que durou cerca de três séculos.

Apesar de ter o mundo inteiro interessado em sua queda, não foi nenhum inimigo externo que o derrubou. Não foram os povos “bárbaros” como eles chamavam os germânicos, uma nova arma ou um gênio militar. O que derrubou o maior de todos os impérios foram suas próprias contradições.

Roma adotou uma religião alienígena, do oriente, que fazia sucesso entre seu povo, a religião cristã. Negociou com lideranças inimigas. Subornou generais estrangeiros. Fortaleceu os limes com aliados de última hora e até mesmo dividiu o próprio império acreditando que seria mais fácil defender e preservar dois impérios menores.

Os políticos romanos fizeram tudo o que acharam possível fazer. Só esqueceram de olhar para dentro do próprio Império. Se assim o fizessem talvez percebessem que a causa de sua decadência estava na sua própria estrutura escravagista e na imensidão de miseráveis que construía em torno de um pequeno núcleo de privilegiados.

Ao não enfrentar suas mazelas tentou deter uma avalanche com meias-medidas.

Outros grandes impérios deram o mesmo exemplo.

A falta de humildade somada à fome insaciável de poder e manutenção de privilégios, construíram ao longo da história, sepulturas de povos e de líderes que só olhavam para fora, para o inimigo externo, nunca para suas próprias deficiências.

A história deveria ser a conselheira dos governantes, mas não é.

No Brasil, o núcleo de privilegiados que tomaram o estado como sua propriedade encastelam-se dentro de um mundo surreal.

Quando Getúlio Vargas aproximou-se das causas operárias reagiram com a soberba de quem não aceita vizinhos pobres em sua esfera mítica. Tanto infernizaram a vida do líder populista que acabou com o suicídio do presidente.

Antes mesmo de retornar a segurança de suas muradas de privilégios, porém, um novo “ataque” externo tirou o sono da casta de bem-nascidos do Brasil, com o fenômeno João Goulart e suas reformas de base.

Ao invés de olhar para si mesma e perceber as enormes contradições num país que cada vez mais se industrializava e se politizava, a casta reagiu novamente com a força do império. Chamou os militares e o golpe de 1964 desbancou Jango, o “bárbaro” e trouxe mais 20 anos de calmaria aparente para esses eleitos da fortuna.

Mas o fim da ditadura traria com forças redobradas as esperanças dos mais humildes, principalmente depois da enorme popularidade da Campanha Diretas-Já e da promulgação da Constituição Cidadã de 1988.

O império dos eleitos temia por sua sobrevivência e usando sua mais potente arma, a mídia, que fora tão útil na deposição/morte de Getúlio e de Jango, criou uma mentira e elegeu um presidente amigo em 1989.

Outros mitos viriam, como um presidente sociólogo, teórico esquerdista nos velhos tempos e o Plano Real.

O que o império não entendeu e continua não entendendo é que esses mitos televisivos são eficientes para empurrar as crises para debaixo do tapete, mas são ineficazes para trazer a paz que almejam, sendo que a paz que almejam é manter seus privilégios sem que a esquerda e seus molambos ameaçem tomar o poder.

Lula deveria ser o choque de realidade, fosse nossas elites minimamente capazes de ler nas massas populares o desejo de mudanças.

Os programas sociais, os estímulos a distribuição de renda soaram para essas elites como o grito dos Hunos deve ter soado aos ouvidos romanos. O início do fim. Do cataclismo. E isso, simplesmente porque a elite brasileira, uma das mais reacionárias do mundo continua vendo pobre e melhorias sociais como algo inimigo, contrário ao seu mundo.

O golpe parlamentar contra Dilma não demonstra que a guerra acabou, ao contrário, deixa claro que a paz está cada vez mais distante.

Tomar o poder do qual sentiam tanta saudade não resolve seus problemas. O uso da truculência tem prazo de validade

O que fazer com um presidente pífio que não consegue obter uma popularidade que chegue a dois dígitos? Como angariar popularidade com medidas neoliberais?

Como enganar a população trazendo notícias de desenvolvimento econômico se a crise, a mesma que já era difícil nos tempos de Dilma, ameaça ficar pior a partir do protecionismo republicano de Trump?

A elite brasileira faria melhor se olhasse para si mesma, mas parece que, humildade é algo que os poderosos do Brasil continuam desconhecendo, assim como desconheceram que a causa da instabilidade da monarquia era, que ironia, a manutenção das estruturas escravagistas.



Prof. Péricles







domingo, 1 de janeiro de 2017

DO BRASIL E SEUS HERÓIS


Por Alberto Dines



Enquanto um via suborno e aviltamento, o outro ironizava sobre a ” doçura” do

Diplomata Calero que não entendeu o espírito de como se faz política em Brasília.



Calero negou-se a aceitar o projeto estapafúrdio da vaquejada como cultura e da maracutaia como forma de fazer política. Na suíte do caso, Temer teria enquadrado Calero, o caso acabou respingando no presidente, mas Calero saiu, Geddel ficou — só não aguentou a pressão, agora da população inteira, e uma semana depois pediu “exoneração do honroso cargo”. Tarde. Na mesma denúncia de propina nas páginas que destrincham a falência do Rio, vem a explicação de uma simples “oxigenação “.



Na mesma revolta da população inteira que inclui canto de servidores revoltados com trechos de Carmina Burana de Carl Orff e Carmen de Bizet diante da Assembléia Legislativa do Rio, a declaração de Sergio Cabral, “estou com a consciência limpa, indignado com acusações “. Neste Brasil grande cabe tudo, Caixa Dois por um lado e pressa para descriminalizar o que é crime.



Esta semana Temer montou o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social alegando que assumiu um Brasil com déficits de verdade e muito ilusionismo contábil. Garantiu “entramos na era da lucidez”. Na mesma edição, Temer qualificava então o escândalo Calero-Geddel de “um acidente” menor.



O mesmo ex-governador do Rio, Antônio Garotinho, que ia levar ”um bombom Garoto” para Sérgio Cabral quando o desafeto fosse preso, acabou em Bangu, junto com Cabral. Antes, tentou oferecer R$ 5 milhões para não ser preso e apresentou um diploma universitário duvidoso para escapar do xilindró.



Um bombom, um acarajé, um kibe, bacalhau, propina não. ” Fumar um charuto”, “tomar um vinho”, assim o ex-diretor de Serviços da Petrobrás, Renato Duque, marcava encontros com os operadores para receber contratos malocados.



O ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto cunhou como ”pixuleco” aquilo que Carlinhos Cachoeira preferia denominar ”assistência social”. Luís Rogério Gonçalves Magalhães em conversa com Wagner Garcia, preso em Bangu, preferiu noticiar três dias antes a prisão de Cabral assim, “entregou a rapadura com raspas de limão”. Já Cabral preferia negociar propinas com a Andrade Gutierrez utilizando nome de mulher, Nelma de Sá Saraca, em alusão à histórica secretária d’O Pasquim, tabloide fundado entre outros pelo Sergio Cabral pai, criador do musical Sassaricando.



A era é a do esquecimento, Sergio Cabral não sabe como pagou as joias da mulher em dinheiro vivo, algumas no valor de R$100 mil. Sua mulher não sabe como R$ 10 milhões foram parar na sua conta. A era é a do deslumbramento, da ostentação, do triplex em Guarujá que é de ninguém, de mais uma delação premiada do senador cassado Delcídio Amaral dizendo que o ex-presidente Lula, que não sabia de nada, tinha ” conhecimento absoluto “. E todo Congresso, que diz não temer nada, tremendo diante do acordo de delação dos 80 executivos da Odebrecht, empreiteira que mantinha um departamento de propina para suprir as demandas e agora pode atingir 130 políticos.



A era é a da pós-verdade, do virtual que não é real, da anti-humanidade de Donald Trump respingando temores nos ilegais brasileiros. A era é a do nacionalismo, da ultradireita antissemita, racista, xenófoba, homofóbica, neonazista ganhando espaço no mundo. A era é a da pós Petrobrás, empresa das mais poderosas do mundo, transformada na mais endividada do planeta com 132 bilhões de dólares. E é ainda o pré-sal, os royalties do pré sal que vão saldar parte do endividamento dos estados.



Na era da “lucidez ” que é a dos reality shows, devem se suceder as operações Calicut, My Way, Nessum Dorma, Caça-Fantasma, Resta Um e uma nação que segue atônita com verdades partidas, em busca de seus heróis– ou pelo menos de políticos éticos –, e de um espelho que não reflita a face de uma pós-verdade tão mentirosa.



Alberto Dines é jornalista, escritor e cofundador do Observatório da Imprensa.