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segunda-feira, 31 de julho de 2017

A LIÇÃO DO GENERAL


Por Humberto Soares



As Forças Armadas, o Exército particularmente, parecem reativas ao uso dos quartéis para o costumeiro objetivo de botar a tropa nas ruas. Ao longo dos últimos 30 anos, essa saída, perigosa obediência militar à mentira política, tem conduzido os presidentes da República e os governadores, todos eles, para o caminho do fracasso. Botar as tropas na rua é uma expressão que, em passado não muito distante, amedrontava os civis. Mas a história agora é outra.


Apoiado na falência econômica do estado e no aumento da criminalidade, o governador Luiz Fernando Pezão seguiu a rotina. Buscou a ajuda do governo federal, que, mais uma vez, ofereceu o uso das tropas. Na sexta-feira 28, militares passaram a atuar no estado. Um contingente de 10 mil homens, sendo 8,5 mil das Forças Armadas, iniciou a patrulha na região metropolitana da cidade.


Em um primeiro momento, no entanto, não se falou do contingente a ser mobilizado nem quando o seria. Algo aconteceu. Para tapar o sol com a peneira foi preciso, então, usar a balela.


Os militares encarregaram como porta-voz o civil bom de papo Raul Jungmann, ministro da Defesa.


Ele inventou uma historinha. Tirou da manga a explicação de que as Forças Armadas agiriam a qualquer momento “de surpresa”.


Para sustentar a afirmação, Jungmann olhou pelo retrovisor. Segundo disse, as ações realizadas anteriormente “só baixavam a febre e não resolviam o problema”


Os militares têm sido usados, ilegalmente, pelo princípio constitucional de que são responsáveis pela garantia da lei e da ordem. Não cabe, entretanto, às Forças Armadas enfrentar problemas policiais. Quando isso ocorre, tornam-se força auxiliar das polícias militares. Uma inversão grotesca do preceito constitucional previsto no artigo 144.


Jungmann, espetado, tentou construir saída para um problema extremamente complicado. Disse ele: “Estamos mudando a cultura. As operações serão feitas sobre três pilares: inteligência, integração e surpresa. Surpresa, surpresa”. Diante dessa surpresa, é possível contrapor a mentira.


Pouco se vaza do que ocorre nos quartéis. Juntando, porém, uma coisa à outra é possível construir um vazamento. Durante audiência pública no Senado, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, afirmou que o uso de militares em atividades de segurança pública é “desgastante, perigoso, inócuo”.


A sagácia do general, cantada no Senado, favorece um episódio narrado por ele durante a ocupação da Favela da Maré, no Rio de Janeiro, em 2016: “Estamos aqui apontando arma para a população brasileira. Nós estamos numa sociedade doente”.


O general Villas Bôas travou a mentira, imaginada por Jungmann, ao se contrapor quanto ao uso das Forças Armadas como capitães-do-mato: “Nós não gostamos desse tipo de emprego. Não gostamos”.


Em sendo assim, viva o general!

sábado, 29 de julho de 2017

MEDÍOCRES E FEROZES MANDAM NO BRASIL



Por Mino Carta


Pobre país, entregue aos caprichos de Michel Temer e de Sergio Moro, mas a mediocridade e a ferocidade destas personagens não são delas somente, e sim de uma larga fatia da sociedade nativa.


Temer e Moro conseguem ser altamente representativos de milhões e milhões de péssimos intérpretes da cidadania, ignorantes e prepotentes, primários e primitivos, trogloditas intelectuais e morais. O Brasil é samba de uma nota só.


A situação em que precipitamos é a “consequência inevitável”, como diria a letra da canção de Jobim, de cinco séculos de história, o resultado da colonização predadora sem a mais pálida intenção de escapar à pauta da terra arrasada. Acrescente-se três séculos e meio de escravidão para manter de pé até hoje casa-grande e senzala.


Uma independência despercebida pela nação inexistente, toda uma tradição de golpes sem conflito, raros momentos de sensatez em busca de democracia, igualdade, justa distribuição de renda. Quantos, em determinadas passagens desta história, saíram da miséria original, transformaram-se em uma espécie de pequena burguesia, sequiosa de acesso à casa-grande, de sorte a assumir as benesses e os comportamentos dos donos da mansão senhorial, a começar pelo ódio de classe.


Se os governos de Dilma Rousseff foram em boa medida incompetentes, e se a presidenta reeleita cometeu estelionato eleitoral ao formar o novo gabinete, a crise econômica a enfraqueceu ainda mais. Pronta a pagar qualquer preço e a aceitar qualquer saída desde que a favorecesse, a casa-grande, titulares e aspirantes, autorizou e sustentou o golpe de 2016. Topou Temer na Presidência e Moro tornou-se seu herói. Inútil comentar o resultado, caos apocalíptico. Nítido o projeto dos golpistas: condenar Lula e devolver o País aos tempos da colônia.


Os Poderes da República estão envolvidos em uma guerra de máfias, vende-se o Brasil, a Globo governa.


Nunca foi tão claro que o Brasil carece, em primeiro lugar, de uma Corte Suprema guiada pelo dever de garantir o respeito da lei. A única em vigor é a do mais forte.


Insisto na ideia da “consequência inevitável”, a partir do momento em que a ditadura se vai de livre vontade pela porta dos fundos e a dita redemocratização de um país que nunca praticou a democracia cai nas mãos do oligarca maranhense, o mesmo que conseguira evitar as eleições Diretas Já em 1984.


O primeiro pleito direto elege Collor, que, pela mão de PC Farias, cobrava pedágios altos demais. Os achacados, que o tinham apoiado como caçador de marajás, acharam oportuno dar eco às denúncias da revista IstoÉ e se livrar do dono da Casa da Dinda. A cancela do poder escancarou-se para o tucanato, preparado, como se dizia de José Serra, a assumir o papel de bastião da pior reação.

A Globo, engrandecida durante a ditadura, continuou a mandar de forma cada vez mais ostensiva e foi decisiva na reeleição do príncipe dos sociólogos. O qual cuidou de quebrar o Brasil três vezes e comandar a bandalheira da privatização das comunicações. Só não conseguiu realizar o sonho de privatizar a Petrobras. Em compensação, deixou as burras do Estado vazias.


Os dois governos de Lula representam um parêntese feliz neste enredo lamentável. Encheu o cofre, pagou as dívidas, deu passos significativos no campo social, praticou uma exemplar política exterior independente, em proveito de um país que sempre preferira ser súdito, e volta agora a preferir. Infelizmente, a Globo ficou intocada na sua função determinante. No entrecho há uma lógica inexorável, a queda de Dilma precipita a retomada do caminho interrompido. Para pior, sempre para pior.


Ao cabo destes anos tormentosos, a solução inteligente estaria na convocação de eleições antecipadas, para entregar a última palavra ao próprio povo. Mas como apelar para a razão em meio a esse espetáculo de demência? As quadrilhas digladiam-se para impor a saída que mais lhes convém e desgovernar até 2018. Justifica- -se, porém, a dúvida: haverá eleições? Me vem à mente o verbo conscientizar.


Foi muito usado logo após a posse de João Goulart na acidentada substituição de Jânio Quadros, aquele que via na sua renúncia o estopim da revolta popular. Entendiam alguns autênticos esquerdistas que secundavam Jango a urgência de “conscientizar” o povo para tirá-lo do limbo da miséria e da ignorância. Passaram-se mais de 50 anos e a urgência foi esquecida. No entanto, só um forte abalo social muda os rumos. Mas isso hoje soa como quimera.



quinta-feira, 27 de julho de 2017

UM POVO QUE NÃO LUTA


Por Bepe Damasco


Desde que uma quadrilha assaltou o governo há pouco mais de um ano, a rapinagem das riquezas nacionais, a roubalheira mais escrachada, a destruição de direitos históricos do povo, o fim dos programas sociais, a volta da fome e dos sinais mais aviltantes da miséria, além da humilhação internacional do país, têm sido a tônica do nosso pesaroso dia a dia.


Motivos existem de sobra para que uma população revoltada ocupe permanentemente as ruas, elevando gradativamente os níveis de radicalização dos protestos até que seja posto abaixo o governo ilegítimo e usurpador. Mas, por que será que isso não acontece entre nós, se até a Organização das Nações Unidas reconhece o direito à rebelião popular diante de governos opressores?


Antes de entrar no exame propriamente dito dessa pasmaceira coletiva, é importante assinalar que tem havido resistência. Desde que o golpe se tornou uma ameaça concreta até hoje, centenas de milhares de pessoas atenderam aos chamados das centrais sindicais, movimentos sociais e partidos de esquerda e compareceram a manifestações marcantes em todos os estados do país.


Não custa lembrar que em 28 de abril passado registrou-se a maior greve da história e que, mesmo com o boicote e a sabotagem da mídia velhaca, multidões se moveram contra as contrarreformas do governo golpista, pelo Fora Temer e por Diretas Já. Contudo, o nó da questão é a presença insuficiente nos protestos de contingentes maiores da classe operária e de moradores de favelas e bairros periféricos. Em síntese, tem faltado povão.


Múltiplos fatores combinados vêm sendo levantados pelos que buscam entender a inação justamente dos mais atingidos pelas medidas antipovo do governo golpista, tais como: ceticismo com a política e os políticos; desânimo e fadiga em relação à eficácia dos protestos, já que o governo e o Congresso teimam em seguir na direção oposta; forte campanha do monopólio midiático em defesa das reformas, confundindo as pessoas; déficit de consciência política e cidadã do povo brasileiro; desgaste de entidades e partidos do campo progressista.


Na minha visão, em maior ou menor grau, esse elenco de causas joga luz na difícil missão de clarear esse intrincado fenômeno político e sociológico. No entanto, como não sou e jamais serei candidato a nada, acrescentaria outros. Começa pela constatação de que o mito do brasileiro cordial do gigante Sérgio Buarque de Holanda há muito fez água por todos os poros.


Hoje, expressiva parcela das classes média e alta cultiva valores racistas, homofóbicos, sexistas e xenófobos. Em geral iletrados e ignorantes até a medula, em que pese o acesso à educação formal, esses bem-nascidos detestam os pobres. Daí o ódio que sentem pelos que fazem da política uma trincheira de lutas para reduzir a nossa vergonhosa desigualdade social.


O problema é que o mau-caratismo dos privilegiados contaminou parte considerável da base da pirâmide social. Li em algum lugar, e lamento não lembrar o autor para citá-lo, uma frase genial segundo a qual a obra mais acabada do capitalismo é o pobre de direita. E, a julgar pelo que ouvimos nas ruas, botecos e transportes públicos, ele existe em profusão e não para de se multiplicar entre nós. Tristeza!



sábado, 22 de julho de 2017

A MALDIÇÃO DOS CASAMENTOS NO COPACABANA


Por Ruben Berta



Praticamente quatro anos depois de ter sido realizada, uma festa de casamento volta à memória dos cariocas.

Na virada de 13 para 14 de julho de 2013, mais de mil convidados foram ao Copacabana Palace para uma celebração que tinha tudo para ser inesquecível – e foi. Champanhe Veuve Clicquot, uísque Black Label e um bolo que, como descreveu a colunista Hildegard Angel, "era um acontecimento". Com direito até a show do cantor Latino (era a época de “Festa no apê”), não teria saído por menos de R$ 1 milhão a união em matrimônio Beatriz Barata e Francisco Feitosa Filho. O azar dos noivos é que, naquele julho de 2013, ainda vivíamos uma onda de protestos que tiveram como um dos principais motes as mazelas do sistema de transporte público.

Naquela madrugada, a magia do momento foi quebrada por gritos que vinham do calçadão da Avenida Atlântica. “Ah, ah, ah, o noivo vai brochar!” e “Uh, uh, uh, todo mundo para Bangu” eram alguns dos cantos entoados por um grupo bem-humorado de ativistas.

Na segunda-feira, 3 de julho de 2017, parece que as preces dos manifestantes finalmente foram atendidas: o pai da noiva, o empresário de ônibus Jacob Barata Filho, foi preso pela Polícia Federal, acusado de participação num esquema de propinas a políticos e servidores do estado que pode ter passado da casa de R$ 200 milhões.

Para rebater aquele incômodo que vinha de fora, alguns convidados lançaram objetos – até um cinzeiro! – na direção dos manifestantes. Notas de 20 reais também foram arremessadas. Por volta de 3h, o Batalhão de Choque chegou e, com a delicadeza de sempre, acabou com a festa na calçada.

Por causa daquele protesto, o “casamento da Dona Baratinha”, como foi apelidado, ficou famoso fora das rodas do high society carioca e, com a prisão do pai Barata, as fotos das festas (a de dentro e a de fora) voltaram a ser lembradas.

Mas o que mais será que os salões do Copacabana Palace teriam a revelar? Uma lição fica: é sempre bom desconfiar de casamentos nababescos que tiveram como palco um dos hotéis mais luxuosos do país. Vamos, então, recordar.


2004, Cabral & Adriana


Em abril de 2004, o então senador Sérgio Cabral Filho reuniu cerca de 900 pessoas nos salões do hotel para celebrar a união com a advogada Adriana Ancelmo. O evento, que teve direito à cobertura da revista “Casamento”, teve luxos como 4 mil dúzias de rosas vermelhas na decoração. Não é nem preciso lembrar que fim levou o casal. O noivo está preso numa cadeia em Benfica, Zona Norte do Rio, graças a investigações decorrentes da Lava Jato, réu em 11 processos. A noiva teve um pouco mais de sorte e aguarda as sentenças em prisão domiciliar, num apartamento a alguns metros da praia do Leblon, na Zona Sul.


2011, Danielle Cunha & Ariel Doctorovich


Um casamento de 2011 envolvendo outro figurão da política que agora está atrás das grades foi até parar nos documentos da própria Operação Lava Jato. Em 25 de junho daquele ano, Danielle Cunha, filha do então deputado Eduardo Cunha, ocupou os salões do Copacabana Palace para celebrar seu momento de felicidade com o economista Ariel Doctorovich. No pedido de prisão do parlamentar, de outubro do ano passado, os procuradores colocaram sob suspeita gastos de R$ 267,3 mil com a festa, após quebra de sigilo fiscal realizada pela Polícia Federal.

“Embora a questão ainda mereça maior aprofundamento, resta claro que o dinheiro usado para o pagamento do casamento de Danielle Dytz da Cunha era proveniente de crimes contra a administração pública praticados pelo seu pai, o ex-deputado federal Eduardo Cunha”, afirmou a Força-Tarefa da Lava Jato.


2013, Ângelo Goulart Villela & Ana Luiza Zorzenon


Em 2013, mesmo ano em que a “Dona Baratinha” se casou no Copacabana Palace, outro personagem que ficou conhecido recentemente graças às investigações da Lava Jato também usou os salões do hotel. No dia 7 de setembro, o procurador Ângelo Goulart Villela fez ali a festa de celebração da união com a também procuradora Ana Luiza Zorzenon, com direito a shows de MC Marcinho e da bateria da Mangueira.

Ângelo foi denunciado no mês passado pela Procuradoria Regional da República da 3ª Região pelos crimes de corrupção, violação de sigilo funcional e obstrução de Justiça. As investigações da Operação Patmos apontaram que ele teria recebido uma mesada do empresário Joesley Batista, do grupo JBS, para mantê-lo informado sobre os passos de outra operação, a Greenfield, que apura fraudes em fundos de pensão.


Famílias unidas no amor e nos negócios


O famoso casamento de Beatriz Barata fez parte de mais um capítulo de união no mundo dos ônibus. Seu noivo era Francisco Feitosa Filho, que herdou o nome do pai, um conhecido empresário de transporte rodoviário no Ceará. As duas famílias já possuíam negócios juntas desde 2008, fazendo com que o amor tenha sido apenas mais um laço entre elas. O evento também serviu para reunir diversas autoridades, como o atual ministro do STF Gilmar Mendes, que foi um dos padrinhos.

Há quem possa levantar a lebre de que Beatriz seria apenas uma filha que, ingenuamente, usufruiu do dinheiro do pai para realizar seu sonho. Mas a noiva do Copa também tem sua participação nos negócios da família. Uma ata de assembléia de 2015 da empresa União Transporte Interestadual de Luxo (Útil) mostra, por exemplo, que Beatriz Barata Feitosa assumira, em outubro daquele ano, o cargo de diretora da firma. O mandato era de dois anos. Um detalhe revelou como a união dela preservou os feudos de cada família: foi descrito no documento que ela se casou com Francisco Feitosa Filho sob o regime de separação total de bens.

Com uma movimentação intensa de casamentos, é bem possível que a Lava Jato atinja num futuro próximo outros personagens que já passaram pelo Copa e outros luxuosos salões do país. O talvez mais famoso presidiário do Rio atingido pela operação, o ex-governador Sérgio Cabral, já esteve pelo menos em mais um evento por lá, além do seu próprio matrimônio.

No dia 27 de abril de 2014, ele participou do festão do desembargador Luiz Zveiter, ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio. Naquela noite, para não perder o hábito, fez algo que não devia:estacionou o carro irregularmente na Avenida Atlântica e foi multado. Mas o que são uns R$ 50 a menos na conta e uns pontos na carteira diante de um festão no Copa?








sexta-feira, 21 de julho de 2017

CULPA É DO MORDOMO?


Se a ideia fosse promover uma caça as bruxas, a primeira pergunta a ser respondida seria justamente “De quem é a culpa? ”

De quem é a culpa desse mergulho cego do país do grupo seleto dos emergentes para país indigente? Do povo que comprava carro e viajava de avião para o povo a pé, mais uma vez?

Quem é o responsável pelo otimismo ter sido sufocado miseravelmente pelo pessimismo e dar lugar a esse jeito de filme já visto, e que, sabemos, não tem final feliz?

Não vale a resposta simplista de crise econômica internacional pois, apesar de que dessa vez não era só uma marolinha também não era lá, um tsunami.

Que culpa tem a crise lá fora da redução paulatina dos programas sociais, rumo à extinção completa?

Pelos Deuses, quem roubou a esperança e levou junto o sorriso mais cheio de dentes que a pátria mãe já viu?

Quem foi que esqueceu de nos avisar que no final das marchas do pato o pato seríamos nós?

Não adianta botar a culpa no Temer já que é muito cômoda essa solução de que o culpado é sempre o mordomo.

Na verdade, por mais que se esprema o cérebro não se chegará a um culpado individual, já que a culpa é mesmo coletiva.

É de todos nós, de cada um, mesmo daquele que jura que não tem nada a ver com isso.

Enquanto nos dizíamos “cansados disso tudo” eles persistiram e levaram a cabo um bem-sucedido processo de impeachment.

Enquanto duvidávamos que eles ousassem eles ousavam.

Lembra daquele dia que rimos achando que esses frágeis movimentos de direita de internet não conseguiria meia dúzia de gente gritando contra o governo? Pois é... botaram milhares enquanto ríamos.

E quando se dizia que o jogo deveria ser jogado, com todas as armas e maneiras éramos rotulados de radicais e exagerados. Lembra?

O mordomo é a face mais aparente da culpa, claro.

Afinal ou é mordomo ou é vampiro, mas não é o único, ao menos, dessa vez.

Entramos num túnel do tempo virado para trás. Estamos retrocedendo, e, acredite, o retrocesso não será pouco, nem sanado com uma simples vitória da esquerda (se houver eleições).

E isso porque o retrocesso não é apenas político e econômico, é moral.

A moral da inocência de um país de todos, embalado pelo ideal sagrado da igualdade, se esfacelou, como o último prato de porcelana da vovó.

Não será fácil juntar os cacos.

E os cacos talvez nos tragam as respostas certas.

Foi por medo de junta-los quando acabou a última ditadura que os golpistas cresceram e se uniram na certeza da impunidade.

Foi por não querer fazer sangrar que agora nosso país sangra e continuará sangrando, por muito tempo ainda.

Que ao menos, da próxima vez, se junte os cacos, se punam os culpados, se faça justiça e se crie uma Lei que impeça os abusos midiáticos.



Prof. Péricles







quarta-feira, 19 de julho de 2017

O DESCANSO DO SEU RUI


Seu Rui já deveria estar em casa, descansando.


Setenta e poucos anos de idade, trabalhou a vida inteira. Bem, na verdade seu Rui já havia se aposentado, mas não podia ficar em casa com valores tão baixos pagos como aposentadoria, e por isso, todos os dias lá estava ele, na entrada do cursinho que, fraternalmente, lhe permitia a presença, vendendo sanduiches, pastéis e cafezinho.


Certa vez, rimos juntos quando distraído passei pela entrada e, não fosse ele, continuaria andando com a cabeça nas nuvens.


Figura frágil, encurvada, mesmo na soleira da porta já demonstrava certas dificuldades de movimento. Não deveria estar trabalhando, murmuravam os alunos e funcionários.


Então, não se sabe bem porque, naquela tarde ele resolveu subir as escadas do prédio onde guardava a porta. Ficou tonto ou simplesmente escorregou, ninguém sabe, e caiu. Queda feia até para guri novo.


Foi levado pela SAMU pra emergência. Foi hospitalizado, UTI. Traumatismo craniano.


Sexta-feira, 14 de julho, seu Rui morreu.


Foi enterrado no sábado.


Provavelmente a ausência de sua figura na porta do prédio, será sentida por todos. Com certeza a dor entre os familiares será prolongada.


Nada importa. Nada faz muita diferença, agora que tudo acabou.


Apenas mais um brasileiro que por mérito de seu trabalho deveria estar usufruindo merecido descanso, morreu, na ativa, trabalhando, aos setenta e poucos anos.


A aposentadoria que é paga ao trabalhador brasileiro é um escândalo. Um deboche.


Valor tão reduzido que a grande maioria se obriga à atividade, mesmo sobre o risco de vertigens e de quedas.


Quem não tem a sorte de ser filho da elite, sabe, ou deveria saber disso.


E para o cúmulo do sarcasmo, uma reforma ameaça diminuir o já ridículo provento.


Definitivamente, há algo de muito doente no Brasil.


Quem aplaude governo entreguista e da elite, que suborna a ordem constitucional para dar golpes, não vale o pastel que seu Rui vendia.


Esse país é um país de muita falsidade, excesso de hipocrisia e de tombos para todos que não podem pagar planos privados.


Ou estaremos exagerando?


Não sei. As vezes, diante da dor, a gente conclui não saber de mais nada.


Só sei que seu Rui já deveria estar em casa, descansando.



Prof. Péricles

domingo, 16 de julho de 2017

ESPÓLIO



POR FERNANDO BRITO


A sentença de Sérgio Moro, embora tão previsível, abriu um portão para todos os apetites, de todas as tendências, pela disputa de 2018.

De todos os lados, disputa-se o espólio do líder que, embora vivo, quase todas as camadas dominantes da política brasileira querem morto.

O primeiro personagem é Jair Bolsonaro, que já ganhou musculatura e que precisa, agora, de apoio político que lhe garanta estrutura – e tempo de televisão – para existir eleitoralmente.

Por isso, quase dois meses depois do surgimento das malas de Loures, o homem do “bang-bang” se mantém calado, sem ataques a Temer, com quem estão ainda muitos dos quais conta atrair para a sua candidatura. Um mínimo de espaço na TV e um vice evangélico são os objetivos militares, as colinas que o ex-capitão precisa dominar para ocupar outros territórios, além daquele que o ódio e a histeria com a violência criminosa já lhe deram.

Atrás do mastim, vem o poodle, com seu latido esganiçado. João Dória, não duvidem, deseja ardentemente que Lula seja candidato.

Sabe que é isso o que pode unir em torno dele a classe média furiosa, com um vago discurso de “gestão” e de “solidariedade social” dos empresários, discurso “bacaninha” que as picaretagens promocionais – com bom financiamento, claro – o acostumaram a fazer com seu “Lide”.

Sem Lula, perde seu alvo (nacional e social) e fica meramente paulistano, o que o deixa prisioneiro da máquina tucana, onde é importante apenas como promessa de livrar o partido do desastre eleitoral, mas não um membro da família. Aliás, é o que fica claro hoje, com a leitura do editorial da Folha onde se diz que Dória não foi “muito além da divisa municipal, embora seja obviamente cedo para descartar possibilidades no pleito de 2018”.

Alckmin, ao contrário, é de novo o candidato-chuchu, que pretende crescer pela falta de outros e fora da polêmica, com o apoio do empresariado e do tucanato que não o pode renegar e do uso da “solução Dória” para garantir a sucessão paulista e, portanto, seu reduto eleitoral em São Paulo, um quarto do eleitorado do país.

Marina, que como certas aves, aparece quando há carniça, confirmou, neste episódio, sua opção preferencial pela direita e pela histeria moralista. Poderia ter desancado o processo de erosão dos valores morais dentro do PT ressalvando Lula, a quem deve tanto. Preferiu, como sempre, guinchar platitudes sobre a justiça ser para todos e elogiar Sérgio Moro.

A alma microbiana de Marina Silva não consegue alcançar que, para o establishment escravocrata, ela é algo assemelhada a uma criada, cuja função é dividir para ajudá-lo a reinar, servindo na bandeja uma parte do eleitorado popular.

Só consegue ver as possibilidades de, com a exclusão de Lula, ganhar alguma parcela do eleitorado por conta de sua origem – distante, tão distante… – pobre.

Ciro Gomes, homem decente, foi exceção e, com todas as críticas que faz, não cedeu à demagogia falsa. Suas possibilidades eleitorais, embora pequenas, não o fazem um canalha à procura de oportunidades. Não ganha, à primeira vista, votos, mas continua crescendo em respeitabilidade como político outsider.

O problema essencial da utilização do espólio político de Lula, “decretada” sua morte pela “intelligentsia” nacional que se arrojou aos pés de um juiz medíocre e messiânico (gostaria que seus áulicos de alto saber o que viria a ser aquela página “Eu MORO com ele”, produzida dentro de sua casa senão a mais barata demagogia), é “apenas” um fato: o morto está vivíssimo.

Deixá-lo disputar as eleições é um risco.

Tirá-lo delas, a garantia de instabilidade de quem vier a ser eleito.

O Aroeira, que desenhando pensa com mais lucidez que todos eles, pegou no ar o espírito da coisa.

Matar Lula na fogueira é por fogo no Brasil.



sábado, 15 de julho de 2017

HORA DECISIVA DA REVOLUÇÃO VENEZUELANA


Por Igor Fuser


O conflito na Venezuela ingressou num período decisivo, com todo um conjunto de sinais de que a oposição direitista optou por uma tática de “tudo ou nada” na tentativa de inviabilizar a eleição da Assembleia Constituinte, marcada para o dia 30 de julho. O objetivo da ofensiva política em curso é derrubar, por qualquer meio, o governo legítimo do presidente Nicolás Maduro.


Atos violentos que em qualquer outro lugar do mundo mereceriam a definição unânime de terrorismo foram cometidos na semana passada por milícias fascistas opositoras, sob o silêncio condescendente dos jornalistas estrangeiros. A ação mais chocante foi a destruição de um depósito da rede estatal de abastecimento Mercal, com a queima de 50 toneladas de alimentos que seriam distribuídos em comunidades pobres do estado de Anzoátegui. A suprema ironia foi uma pichação pintada numa parede pelos fascistas: “No más hambre” (“Chega de fome”).

Em outra ação terrorista, na mesma semana, um grupo liderado por um ex-policial que se passou para o lado da oposição jogou granadas e disparou tiros contra a sede do Supremo Tribunal de Justiça, em Caracas, a partir de um helicóptero roubado. Só por pura sorte o episódio ficou restrito ao susto, sem vítimas. O agressor, elogiado por políticos da oposição e festejado como “herói” nas redes sociais antichavistas, ostentava na janela do helicóptero um pano com o número 350, em alusão ao dispositivo constitucional que permite – em tese – a rebelião contra qualquer governo que pratique violações aos direitos humanos.

A atual ofensiva da burguesia venezuelana, apoiada ostensivamente pelo governo e por setores da cena política dos Estados Unidos, já completou três meses, e está muito longe de alcançar seus objetivos. A violência é empregada, em intensidade crescente, por opositores organizados em grupos armados, com treinamento militar e hierarquia de comando. Já não é simplesmente uma situação em que protestos pacíficos degeneram em confronto com policiais. É algo muito mais grave. Todos os dias, ocorrem ataques a escolas infantis, hospitais e edifícios públicos em geral, com o uso de bombas e de armas de fogo.

A escalada do terror causou até o final de junho 92 mortes, das quais apenas 13 podem ser atribuídas às forças estatais de segurança, enquanto ao menos 24 ocorreram comprovadamente em consequência da violência opositora. Há um alto número de vítimas fatais nos ataques a estabelecimentos de comércio, quando grupos organizados incitam a população ao saque, gerando a reação dos proprietários.

O atual ciclo de instabilidade política na Venezuela teve início em janeiro de 2016, quando se instalou a nova composição da Assembleia Nacional, em que os deputados opositores, reunidos na Mesa de Unidade Democrática (MUD), formavam uma ampla maioria. Mas logo se criou um impasse, causado pela recusa da MUD em aceitar a impugnação de três de seus parlamentares, cuja eleição foi invalidada devido ao uso de fraude. Esses três deputados tomaram posse em desafio a uma ordem do Judiciário, o que deixou o Legislativo em situação irregular, conforme interpretação do Tribunal Superior de Justiça.

A bancada da MUD, majoritária na Assembleia Nacional, declararou guerra ao Poder Executivo. Em lugar de elaborar propostas de enfrentamento da crise econômica, concentrou suas energias em sucessivas tentativas de depor Maduro por meio do impeachment, sem sucesso. Fracassou também sua campanha para convocar um referendo revogatório em que a continuidade do mandato presidencial seria submetida ao voto popular. A iniciativa naufragou diante da comprovação de que boa parte das assinaturas apresentadas à Justiça Eleitoral nas petições pelo referendo tinha sido obtida por meio de fraude.

Sem paciência para aguardar as eleições presidenciais de 2019, a oposição escolheu então o caminho do golpismo. Intensificou a sabotagem econômica, valendo-se do fato de que a maior parte da distribuição de produtos está nas mãos do empresariado, maciçamente alinhado com a direita política. Por meio da escassez artificial, do aumento dos preços e da manipulação do mercado de câmbio para desvalorizar a moeda nacional (o bolívar), os opositores têm conseguido levar adiante sua estratégia de “quanto pior, melhor”, jogando nas costas do governo a culpa pelas dificuldades da economia, já abalada pela queda dos preços do petróleo.

Em paralelo, os líderes da oposição se articularam com as autoridades estadunidenses e com setores da direita em diversos países (governos, empresas, ONGs) para aplicar o cerco político e o boicote econômico à Venezuela. Uma lei aprovada recentemente no Congresso dos EUA destina US$ 9,5 milhões para financiar os grupos contrários ao governo venezuelano, sem contar o dinheiro que é encaminhado diretamente por ONGs, empresas privadas e por atores ilegais, como as milícias paramilitares da extrema-direita colombiana.

Para reforçar o apoio externo à sua causa, líderes da oposição venezuelana chegaram a se reunir com autoridades e congressistas em Washington, pedindo o envio de tropas para depor o governo do seu próprio país. Imaginem, só por hipótese, o que aconteceria se deputados estadunidenses viajassem a um país estrangeiro para pedir o uso de força militar a fim de expulsar Donald Trump da Casa Branca. Na Venezuela, chamada de “ditadura” pela mídia burguesa brasileira e internacional, os parlamentares que defendem a intervenção externa circulam em liberdade, continuam a exercer seus mandatos e se expressam diariamente pela televisão, rádio e internet.

Os golpistas brasileiros e o governo neoliberal argentino se engajaram até o pescoço nessa estratégia conspirativa, logrando que a Venezuela fosse suspensa do Mercosul. Mas a cartada mais importante, no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA), fracassou. O plano da diplomacia estadunidense e da direita regional era aprovar na OEA uma condenação ao governo de Maduro que significaria, na prática, o sinal verde a sanções econômicas contra a Venezuela e até mesmo a uma intervenção militar sob pretexto “humanitário”. A resistência de pequenos países do Caribe, solidários à Venezuela, e de integrantes da Alba, a Aliança Bolivariana para as Américas (Bolívia, Equador, Nicarágua, Cuba), barrou essa tentativa ao negar aos EUA e seus aliados a maioria qualificada necessária à aprovação da proposta (nesse processo, a Venezuela se retirou da OEA).

Até agora, o governo Maduro, as organizações populares e os partidos comprometidos com a Revolução Bolivariana se mantêm firmes no rumo das transformações sociais iniciadas na gestão de Hugo Chávez. Mesmo sob o assédio político, o contexto econômico internacional desfavorável e a sabotagem da burguesia local, os herdeiros políticos de Chávez dão andamento aos projetos sociais em benefício da maioria desprivilegiada. Nos últimos seis anos, a Misión Vivienda entregou 1,4 milhões de novas moradias (casas e apartamentos de qualidade) a famílias de baixa renda. Os programas de saúde, educação e aposentadoria seguem em plena vigência, sem cortes. Para fazer frente à escassez, foram criados os Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAPs), que fornecem alimentos subsidiados para grande parte da população.

O tempo político na Venezuela se acelera e tudo pode acontecer nas próximas semanas. Cada momento é crucial. Ou a Revolução Bolivariana supera a paralisia burocrática dos primeiros anos após a morte de Chávez e alcança um novo patamar de radicalidade política, impondo uma derrota decisiva à burguesia e ao imperialismo, ou será esmagada de forma sangrenta, com consequências terríveis para o povo venezuelano.


Igor Fuser é doutor em ciência política pela USP e professor de relações internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Bernardo do Campo (SP).





quinta-feira, 13 de julho de 2017

A GUERRA SEM GUERRA NO BRASIL

Muitos brasileiros tinham esperança, ou ao menos expectativas, na atuação da Justiça. Mesmo sabendo que os tribunais brasileiros são lentos, formais e que se expressam num leguleio que poucos entendem – mesmo assim! – esses brasileiros tinham esperanças. Não podíamos crer, materializar, o dito antigo de que a Justiça no Brasil é feita – e com dureza! – apenas para ladrão de galinhas. “Para os amigos tudo, para os inimigos a Lei!”.

Muito menos podíamos imaginar que seria através de tribunais brasileiros que interesses estrangeiros declarariam guerra ao Brasil.

Uma guerra de novo tipo: uma guerra sem guerra, ou seja, uma guerra que usa meios não-bélicos para destruir, solapar, aniquilar a capacidade do adversário. Assim, utilizando-se de modernos meios tecnológicos – mídias digitais, propaganda massiva, formação de quadros de elite em universidades estrangerias, sistemas de estágios e bolsas de estudos em centros de treinamentos, etc… arma-se uma elite para atuar a serviço, consciente ou inconscientemente, desse poder estrangeiro.

O Brasil não seria o primeiro alvo. Na verdade Ucrânia, Líbia, Egito, Tunísia, Síria, Geórgia e Turquia foram alvos anteriores desse modelo novo de guerra – uma guerra que não precisava recorrer aos custosos meios tradicionais de luta com canhões, bombardeios e destruição de cidades.

Para funcionar a “guerra sem guerra”, precisa-se conhecer bem o ponto fraco do inimigo.

No caso brasileiro foi fácil: homens do talho de Victor Nunes Leal e Raymundo Faoro já apontavam para a chaga aberta do país – o caráter patrimonial do Estado brasileiro. O patrimonialismo, no perfeito conceito de Max Weber, permitiu que uma elite parasitária colonizasse o Estado e cooptasse tudo e todos que se apresentem como “o novo”, “o transformador”, “o renovador”. Trata-se do velho “transformismo” das elites, e de seu poder de cooptação, tão bem descrito por Jorge Amado em seu personagem “Doutor Mundinho”, de “Gabriela, Cravo e Canela”.

Cabia,assim, utilizar-se dos males propiciados pela elite corrompida do país como brecha para iniciar o ataque à soberania nacional. O interessante é que tal ataque a nossa soberania seria feita pela parcela, aparentemente, não corrompida dessa mesma elite. A elite “renovadora”, capacitada em centros estrangeiros,em nome de uma pureza que só o “outro perfeito”, “o estrangeiro”, “o espelho” em que devemos nos mirar e, assim, deixar de ser o que somos para ser a cópia mascarada do “Outro” colonizador, renega sua própria gente, sua história e suas tradições.

Com tudo isso destrói as bases da própria soberania nacional.

A Operação Lava-Jato abriu, sim, para muitos, a esperança de que as coisas mudariam: o patrimonialismo de mais de quatro séculos seria arrancado pelas raízes e o país seria “passado a limpo” – mas, infelizmente, só miravam no espelho do Outro, do estrangeiro.

Depois de seus cursos e estágios no exterior se sentiam prontos para a hercúlea tarefa de “limpar” o Estado brasileiro, tomando-a como “missão”. De qualquer ponto que puxassem o fio viria o novelo de pecados da história-pátria: propinas, sinecuras, prebendas, filhotismo, estelionato, favoritismo, peculato, e tanto mais… Contra uma “história feia”, a nossa, a da própria pátria, considerada viciosa, antepunham a história virtuosa do outro”, sem saber que a história desse “Outro” é uma pura construção mítica, ideológica, benzida na pia da religião.

Incultos na sua erudição, tomaram o mito d´Outro como história.

Iniciaram-se, então, os procedimentos jurídicos, o flanco da “guerra sem guerra”, a primavera do Brasil: afinal poderosos iriam para prisão. E realmente foram. Foram mesmo? Bem, Eduardo Cunha – uma unanimidade nacional, uma espécie de “meu malvado predileto” da Nação – mas, só depois que cumpriu seu papel, o de defenestrar Dilma Rousseff do seu cargo via acusações que seriam nos meses seguintes “fichinha”, “crime” de freira de colégio interno, face ao chorume a vazar do Congresso Nacional nos meses seguintes ao seu impeachment.

Bom, prendeu-se Cunha com seu aspecto melífluo, sua voz dissimulada, suas mãos felinas e seu cabelo oleoso e com aparência de caspa severa – está lá! Condenado a 15 anos de prisão! No entanto, sua esposa – uma jornalista de grande experiência foi considerada inocente, pois não sabia de onde caía o dinheiro no seu generoso cartão de crédito… Há quem mais? Ah, não… Esse está livre; este outro… Fez delação e foi solto; aquele… hum, foi liberado e…. acolá outrem está em prisão domiciliar.

O próprio Cunha é personagem central de tramas noturnas da República e continua sendo personagem central no “esquema” (ou será “organização”, um sinônimo talvez de “quadrilha”) que sustenta com propinas e malas cheias o presidente em exercício. Portanto, é, em verdade, um homem mais livre que a maioria dos 204 milhões de brasileiros que não escolheram seu presidente e com passes de equilibrista esticam seus salários até o mês seguinte!

Ah, temos sim um prisioneiro da Lava-Jato: o Almirante Othon Silva, condenado a 43 anos de reclusão. Um homem que prestou inúmeros serviços à Pátria, que enfrentou terríveis forças internacionais para dotar o país de uma tecnologia única e avançada, resistindo heroicamente às pressões ocultas de grandes potências. Envergonhado, após a prisão, tentou o suicídio. Mostra caráter! Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, qual outro político escreveu sequer uma linha de arrependimento? Nada!

Muito pelo contrário continuam, com recursos escusos, conspirando contra a ordem constitucional da República. No entanto o tribunal entendeu que o homem que dotou o país de alta e exclusiva tecnologia de ponta, um saber estratégico para a Nação, merecia uma pena 3.7 vezes superior ao mago do mal que presidiu o Congresso Nacional, o senhor Eduardo Cunha.

Temos, contudo, como explicar mais esse paradoxo: como permitir que um país com tantas riquezas como o Brasil pudesse se dotar de uma tecnologia nuclear autônoma? Tinha-se que exemplificar em alguém o castigo para parar, deter e nunca mais permitir a ousadia de uma mera colônia neo-extrativista de ser, de fato, um país verdadeiramente soberano.

Como se não bastasse, o mesmo tribunal, aliado a governos estrangeiros, condenam as empresas brasileiras. Isso mesmo, as empresas. Não condenam apenas os executivos responsáveis pelos atos de corrupção, condenam as empresas. Ou seja, em vez de julgar “CPFs”, o tribunal julga “CNPJs”. Condenando as empresas com multas bilionárias a serem pagas a governos estrangeiros, conseguem gerar desemprego massivo, destruição de postos de trabalho, extinção de modernas tecnologias, subdesenvolvimento e a retirada do Brasil de mercados duramente conquistados.

E os executivos? Bem, esses são “premiados” e vão para casa! Uma tornozeleira aqui, outra ali; uma retenção de passaporte de um e de outro não… e para outros nenhuma punição! Ou seja, as empresas, os “CNPJs”, são condenadas, caminham para extinção, o desemprego campeia, os trabalhadores sofrem e os executivos – “CEOs”, gostam de dizer! – vivem feliz o resto da história!

Nem as empresas que colaboraram, e mesmo colocaram em funcionamento o Holocausto durante o Terceiro Reich, foram punidas desta forma. A punição recai sobre seus proprietários e executivos e hoje são orgulho da nova Alemanha.

Enquanto isso, outros produtores/fornecedores internacionais, concorrentes do Brasil, ocupam fatias crescentes de mercados tradicionalmente do país. A capacidade de agregação de valor despenca e cada vez mais nos aproximamos de uma situação de colônia neo-extrativista.

Trava-se, assim, uma “guerra sem guerra” na qual o futuro da soberania nacional está em jogo. E o mais triste de tudo é que o povo brasileiro nada sabe sobre guerras.


Por Francisco Carlos Teixeira da Silva professor titular de História Moderna e Contemporânea da UFRJ e do departamento de História da UCAM. Professor-Emérito de Estratégia Internacional da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro


domingo, 9 de julho de 2017

O PAÍS DAS FARSAS


O descobrimento do Brasil foi uma farsa. Oficialmente foi um descobrimento casual, na prática foi um “achamento” proposital e organizado. Imagina Cabral com cara de tacho dizendo “Oh! Jesus! O que acabo de descobrir” e depois dando risada com os amigos dizendo “zoei de todo mundo o pá”!


A nossa “independência” também foi farsa. Vendida como um fato heroico que culminou com a romântica imagem de D. Pedro erguendo a espada contra todos e contra tudo, foi, na verdade, um grande acordo internacional, promovido pela Inglaterra e por nossas elites.


Só quem pagou mico, embora não fosse burro, foi D. João VI, que teve que deixar todo o conforto em Portugal para se mudar para o fim do mundo, que era aqui, abrir os portos rompendo o monopólio.


No Brasil Império as farsas foram abundantes.


A Guerra da Cisplatina que foi feita para ser perdida, a posse de um novo monarca de apenas cinco anos, assim como as leias abolicionistas que eram feitas para manter a escravidão, entre outras mentiras.


Já no nascimento da República tivemos um voto que se dizia universal, mas que excluía mulheres e pobres, ou seja, quase todo mundo e trinta anos de uma democracia mentirosa cujos votos eram tão direcionados que foram apelidados de voto de cabresto.


Já em 1930 a República Velha chega ao fim com uma revolução que não foi revolução e colocou no poder Getúlio Vargas que, por sua vez introduziu o Brasil no mundo industrial, porém, criando uma política sindical que castrava os próprios sindicatos.


O próprio Getúlio seria levado ao suicídio em agosto de 1954 vitimado por uma das maiores farsas de nossa história, o “Atentado da Rua Toneleros” onde se organizou um teatro que visava derrubar o presidente, mas que deu errado e acabou matando um aliado e deixando seu mentor, Carlos Lacerda, sem ter como explicar um tiro na perna com calibre diverso do agressor.


Mas, tudo bem, no país das farsas a verdade não vem ao caso.


No período militar enquanto o país mergulhava numa ditadura que rasgava a Constituição, governava por decreto, prendia, torturava e matava, os governantes e seus aliados divulgavam a ideia de que vivíamos em plena democracia. Brasil, Ame-o ou Deixe-o, como se as dificuldades fossem por culpa dos governados ou dos presos que, por sacanagem morriam durante as torturas só para deixar mal os governos dos generais.


O Brasil, portanto, tem largo know-how em criar mentiras. E viver farsas. Nosso povo já se acostumou.


Por isso, não deveria ser de surpreender ver um impeachment que teve êxito sem nenhum ilícito praticado pela autoridade. Ou um juiz que é visto aos abraços com políticos envolvidos e, mesmo assim, é levado à sério.


Deveria, mas felizmente ainda somos capazes de nos surpreender e indignar.


Esse país é o país das farsas.



Prof. Péricles

sábado, 8 de julho de 2017

O PAPELÃO DE AÉCIO


Nada do que aconteceu no Brasil, nos últimos dois anos e meio, estaria acontecendo se o candidato das elites e da militância cheirosa tivesse vencido as eleições.



Não haveria golpe, não haveria crise política, o Judiciário continuaria escondido sob o manto da falsa neutralidade, a imprensa noticiaria, dia após dia, incessantemente, o sucesso da grande virada ‘democrática’ que enterrava de vez a abominável era PT.



Não haveria sangria para estancar. As instituições estariam ‘funcionando’ a todo o vapor para restabelecer o engavetamento geral da república e, ao mesmo tempo, desencavar podres da administração petista, legitimando, por conseguinte, o mais completo desmonte do estado brasileiro.



Dilma não seria vítima de um golpe, mas apenas uma derrotada nas urnas. E é impossível imaginar a ‘ex-terrorista’ vindo a público para dizer que faria de tudo para que o Brasil fosse parado à força.



E, enquanto os direitos dos trabalhadores estivessem sendo surrupiados, enquanto o patrimônio nacional estivesse sendo entregue e, por fim, quando a redução do estado chegasse ao tamanho que só cabem banqueiros e rentistas, a mídia estamparia em suas capas de jornais e revistas: ‘Este É Um País Que Vai Pra Frente’



Que crise não há e que a ‘liberdade’, antes negada pela ditadura bolivariana-petista, estava de volta ao país.



Aécio seria reeleito, em 2018, no primeiro turno, assim como foi FHC. (a história se repetiria).



Mas Aécio não se elegeu. Faltou muito pouco: Dilma 51,64% – Aécio 48,36.



E a votação fantástica que a direita conquistou, depois de tudo que os governos do PT fizeram desde 2003 só foi possível pela idiotização da opinião pública e pelo apoio de famosos que ilustram as telas da TV, dia sim, dia não, em horários bem nobres nos mais longínquos e modestos lares da população brasileira.



Associar a imagem de um artista famoso a uma campanha sempre deu certo, não?



No caso do Aécio, mesmo com o governo desastroso que ele fez em Minas, mesmo sendo oposição a um dos projetos mais eficazes contra a fome, a miséria e a desigualdade, mesmo contra todas as possibilidades reais, ele quase venceu, e nas urnas.



Quase venceu com o apoio da elite, da mídia e de artistas – roqueiros universitários e sertanejos ensino médio – que testemunharam em seu favor: “Quem conhece Aécio, confia”. Como quem diz: se eu, um rico e famoso confio, por que tu, pobre trabalhador, não iria confiar?



Isso, sem falar, é claro, que teríamos evitado a invasão dos médicos cubanos, da marinha boliviana e das tropas bolivarianas de Maduro.



Os símbolos são capazes de alterar a realidade e criar, no senso comum, uma ilusão coletiva a ponto de esquecerem a realidade de sua própria vida, que mudou pra melhor, em troca de um mundo de fantasias com direito a trama e roteiro escritos por quem sequer mora no Brasil.



Desconsiderar que essa simbologia nos agride diretamente é desconsiderar a luta histórica de classes. Como foi escrito, nalgum tempo remoto, por algum alemão incomodado com a exploração do capital.



PS: Enquanto escrevia este texto, ainda não havia sido noticiada a decisão de Marco Aurélio Mello sobre a volta de Aécio Neves ao Senado.



Por Fernando Brito 

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O PIOR LUGAR DO MUNDO PARA SE VIVER

Por Flávio Gomes



Lasciate ogni speranza voi ch'entrate.


O Brasil acabou de vez com a decisão do STF de reconduzir o criminoso Aécio Neves ao Senado. Assim como a de soltar o criminoso Não Sei o Quê Loures. Assim como a de não abrir imediatamente um processo contra o criminoso Michel Temer no momento em que apareceram as gravações dele negociando crimes com o pilantra Joesley, outro criminoso vagabundo, milionário vagabundo, exemplo mais bem acabado da elite econômica e industrial brasileira, composta por vagabundos -- para encontrá-los, todos, é só ir à Fiesp e ficar olhando quem entra no prédio pela garagem.

Dilma Rousseff foi expulsa da presidência por alocar verbas federais para programas sociais, tirando dinheiro do próprio governo daqui e colocando ali para entregar a quem mais precisava. Uma manobra fiscal, cujo único beneficiário era aquele coitado que recebe Bolsa Família. A isso se deu o nome de "pedalada". E foi o bastante para derrubá-la.

Movida pelo ódio aos pobres, a classe média brasileira atendeu de imediato ao chamado da mídia -- Veja, Folha, Estadão, Globo, O Globo e seus satélites, incluindo as patéticas emissoras de rádio -- e se vestiu de amarelo para ir às ruas louvar um pato inflável.

A isso chamou-se de movimento popular. "O povo resolveu tirar o PT do poder". Não foi o povo. Foi a classe média turbinada pelos desejos e ordens daqueles que, no fim das contas, são seus porta-vozes e grandes prejudicados por governos que distribuem renda -- sempre tiveram, e sempre quererão ter a maior fatia do bolo, se possível o bolo inteiro.

A classe média brasileira, composta pela pior espécie de gente que se possa imaginar, bateu panelas a cada pronunciamento de Dilma. Mandou-a tomar no cu aos gritos num estádio, vociferou palavras de ódio e misoginia. Pôde, sob o olhar deliciado de gente como ela -- os donos da mídia --, finalmente expressar sem pudor seu ódio de classes que faz escorrer baba pela boca.

Fora PT!, gritavam. Luladrão!, Dilmanta!, corruPTos!, berravam, urravam, relinchavam, e depois tiravam selfies ao lado de soldados do pelotão de choque da PM. E pediam a volta dos militares. E seus semelhantes, como Lobão, Danilo Gentili, Otávio Mesquita, Roger, Regina Duarte, alguns atores, muitos colunistas e radialistas, jornalistas globais, subiam em carros de som para repetir o mantra: Fora PT. Apareceram movimentos como Revoltados On Line e MBL e coisas do tipo. Deu-se voz a esses animais de sela relinchantes.

E o Brasil mostrou sua cara verdadeira. Um país de merda dirigido por uma elite de merda que, no fundo, é idêntica aos deputados que tiraram Dilma da presidência, é idêntica ao Aécio e sua mala de dinheiro, é idêntica aos ministros do STF que negam habeas corpus a uma mulher que furtou um ovo de Páscoa para dar ao seu filho, mas fazem elogios rasgados ao senador flagrado em gravação pedindo propina, indicando o primo para pegar uma mala de dinheiro, um filho da puta sem tamanho que, no fim das contas, fica livre porque é julgado por filhos da puta iguais a ele.

E você, que cada vez que o Lula aparecia na TV, ou a Dilma, ou um petista qualquer, batia panela na varanda gourmet do seu apartamento, ou buzinava na rua, é um filho da puta igual, porque você é um igual. Não se iluda: você que bateu panela é igual, idêntico ao Aécio, você colocaria 500 paus numa mala e entraria correndo num táxi, você ligaria para um juiz para armar alguma putaria se pudesse, você mandaria matar seu primo otário se ele fosse pego, você armaria uma conversa no porão da sua casa para tramar alguma roubalheira, você já deve ter feito coisa parecida, portanto não se revolte, não fique indignado, você pensa igual, age igual, é um bosta igual.

Hoje o copo d'água transbordou. Não se sabe mais o que é preciso fazer para ser preso no Brasil. Ou para perder a vergonha e renunciar a um cargo público quando se é flagrado cometendo crimes hediondos como desviar dinheiro que poderia estar melhorando a vida de miseráveis num país miserável. Essa elite brasileira que chutou o PT do governo não tem vergonha de ser o que é. Você, paneleiro, não tem vergonha de ser esse merda que é. Você gosta de ser assim, admira quem é assim, se orgulha de ser assim.

Se você não é preto, nem pobre, nem petista, fique tranquilo. Não será processado por nada, não será preso, sempre haverá alguém para bater panela por você. São tantos os absurdos, as decisões amorais, abjetas, obscenas, que partem do Judiciário e salvam gente do Legislativo, que é quase impossível listá-los.

São esses criminosos que legislam, e que estão arrebentando com os direitos dos trabalhadores e estuprando os mais frágeis na questão da Previdência. Esses filhos da puta nem cogitam mexer nas suas aposentadorias, nos "direitos adquiridos" de magistrados e militares, querem que se foda todo mundo.

Claro que tem gente que aplaude. O projeto era tirar o PT, seguir ganhando dinheiro fácil com especulação, voltar à posição de superioridade sobre pobres diabos que trabalham de sol a sol e são escravizados por empresários milionários, sonegadores, vagabundos.

O Brasil é imoral demais, e aqueles que ainda têm algum resto de vontade de lutar por algo melhor estão cansados.

O povo, aquele que mais sofre, que está sendo atirado de volta ao lugar onde sempre esteve, à miséria, ao descaso, ao desalento, não tem forças para brigar e já nem compreende mais o que está acontecendo.

Isso aqui virou o pior lugar do mundo para se viver.



Flávio Gomes é jornalista do Fox Sports

quarta-feira, 5 de julho de 2017

PERSPECTIVAS DA INFÂNCIA BRASILEIRA


Por Heloisa Helena de Oliveira


Quando se pergunta o que a infância brasileira pode esperar para os próximos 15 anos, buscamos a resposta em 2012, na Rio+20, quando começaram as discussões para o acordo de metas da Organização das Nações Unidas, que iria suceder aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e cujo prazo de implementação termina agora em 2015.


Nesse período, houve um longo processo de negociações entre os países que, finalmente, culminou no recente anúncio na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, dos novos desafios mundiais para os próximos 15 anos, chamados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), abrangendo países desenvolvidos e em desenvolvimento.


Partimos de uma bem-sucedida experiência brasileira no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), sendo reconhecidos como referência mundial em políticas de redução da fome e da miséria e da redução da mortalidade infantil, entre outras. Em 2007, o Brasil havia alcançado a meta do primeiro objetivo, reduzindo a pobreza extrema a um quarto do nível de 1990 –sendo que em 2012 havia 3,5% da população vivendo com menos de US$ 1,25 por dia– e erradicando a fome.


Já a meta de redução da mortalidade na infância (crianças de até 5 anos de idade) foi alcançada em 2011, atingindo a taxa de 17,7 óbitos por mil nascidos vivos. Para efeitos de comparação, em 1990 eram 53,7 óbitos por mil nascidos vivos. A ampliação do acesso à educação básica obrigatória e a ampliação da taxa de escolarização da população também apontam sucessos no cumprimento das metas dos ODM.


Apesar disso, o acesso à educação infantil para crianças de 0 a 3 anos de idade ainda precisa ser priorizado nas políticas públicas, considerando que a taxa de cobertura por creche é de apenas 22,6%, segundo os últimos dados disponíveis, de 2012. A proposta é que esse percentual chegue a 50% de cobertura até 2024, de acordo com o Plano Nacional de Educação.


Em resumo, o Brasil cumpriu 6 dos 7 Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Somente não cumprirá a meta de redução da mortalidade materna, que permanece sendo um desafio a ser enfrentado em nosso país, no período futuro.


Olhando para o que está acordado com a ONU para os próximos 15 anos, chegamos, então, aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que entram em vigor a partir de 01 de janeiro de 2016, com a proposta de ambiciosos 17 objetivos e 169 metas que devem ser alcançadas até 2030. É a renovação da esperança e do compromisso de consolidar e avançar nos progressos alcançados pelos ODM e superar os desafios que persistem na realidade dos diferentes países.


Desses objetivos, 10 deles estão relacionados com crianças e adolescentes. E, para que possamos responsabilizar o governo brasileiro a implementar as políticas e realizar os investimentos necessários até 2030, precisamos estar preparados para monitorar e acompanhar os avanços.

Nesse sentido, dispomos agora de um novo recurso que reúne informações de diversas fontes sobre a infância, organizadas por temas em um único espaço virtual, o Observatório da Criança e do Adolescente. O portal vai permitir o acesso a diversos dados sobre a criança e adolescência que podem ser acompanhados, compartilhados e colocados na pauta política como desafios relacionados à infância.


É importante lembrar que não é possível falar em desenvolvimento e futuro de uma nação sem enfatizar para quem é esse futuro, ou seja, voltado às crianças e aos adolescentes.


Desafios a serem enfrentados pelo Brasil para o cumprimento dos ODS


• Violência contra crianças e adolescentes

18% das mortes por homicídios vitimaram pessoas entre 0 e 19 anos.
Em 2013, o Disque 100 recebeu mais de 252 mil denúncias de violações de direitos contra crianças e adolescentes em todo o País.


• Educação

As taxas de distorção série-idade no Brasil ocorrem, principalmente, no Ensino Médio (29,5%), contra a taxa de 21% no Ensino Fundamental.


• Moradia e a questão urbana

No Brasil há mais de 3,2 milhões de domicílios localizados em favelas, com aproximadamente 11,4 milhões de pessoas vivendo nessas condições, sendo que dessas, 3,9 milhões estão na faixa etária entre 0 e 17 anos.

• Desigualdade

A região Norte é a que apresenta o maior percentual da população de crianças e adolescentes. É também a região com os piores índices de saneamento básico e esgotamento sanitário.







domingo, 2 de julho de 2017

A MISSA, O PADRE E A FAMÍLIA


Por Maria Lúcia Dahl,

Fui a missa outro dia, perto da minha casa, e um padre que eu nunca tinha visto antes, me perguntou se eu era a Maria Lucia Dahl. Fiquei espantada, respondi que sim, e ele, o padre principal da igreja, começou a contar para um outro padre mais moço, que tinha visto todos os meus filmes e novelas.


Fiquei pasma e ele me disse que era uma alegria enorme que eu estivesse ali na sua paróquia.


Senti-me super-feliz, achando que poderia ser uma mensagem de Deus, e no final da missa, o padre pediu pras pessoas esperarem que ele queria apresentar uma pessoa que ele muito estimava e que estava contente por ela ter escolhido a sua igreja entre tantas outras. Então, fui até perto do altar onde ele estava junto com o padre jovem e ele me apresentou como uma ótima atriz, escritora e jornalista.


Fiquei impressionada com o que estava acontecendo por que não sou nenhuma estrela da capa de Caras e por isso agradeci a Deus como se estivesse sendo abençoada.


Agradeci a todos e fui pra casa muito feliz , me sentindo menos sozinha, pois minha filha e meu neto caçula foram para S. Paulo e o meu neto mais velho, de quinze anos, alem de estar indo morar em Los Angeles, passa as 24 horas que deveria estar na minha casa, no apartamento da namorada ou com uma turma de vários amigos.


Sabia que chegava uma hora em que filhos e netos nos abandonam para viver suas próprias vidas, mas não que hoje em dia isso começasse quando eles têm 15 anos. E tem mais: quando ele fica comigo sozinho, (o que é uma raridade), se tranca no quarto jogando no computador ou vendo televisão.


Papo comigo, não existe mais. Quando vou visita-lo nos seus aposentos, está sempre ocupado com centenas de mensagens em toda parte e de todo jeito o que o faz me dizer sobre a nossa conversa combinada: “Vó, agora estou ocupado. Espera só um instantinho”.


Instantinho esse, que depois que as férias começaram nunca mais voltou, esperando as corridas de bicicleta, o futebol na TV, a praia no Arpoador e outras que tiram completamente o tempo do pobre instantinho que esperava pra voltar.


Então me dei conta de que não era mais aquela pessoa que convivia com netos, filha e que apesar dos amigos e do companheiro, graças a Deus, não me reconhecia nesse novo papel de atriz solitária, pois família faz parte da nossa alma, então compreendi por que fiquei tão feliz quando o padre percebeu que essa pessoa triste de agora ainda era eu.



Maria Lúcia Dahl , atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa e29 peças teatrais. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil.

sábado, 1 de julho de 2017

MILHO PARA AS GALINHAS


Talvez o melhor mesmo, fosse esquecer.


Esquecer daquela mulher fantástica que você deixou passar por sua vida e ir embora para algum ponto distante deixando apenas o suor e o desejo.


Esquecer da última trovoada que te pegou sem guarda-chuva e do dia ensolarado que te surpreendeu de mau humor.


Deixar pra lá as incoerências do teu sentir e do teu agir que normalmente te deixam sem jeito, embora ninguém perceba.


Talvez o melhor fosse olhar aqueles olhos intensos e apenas observar o jeito malicioso de ajeitar os cabelos. E só isso já bastaria pelo resto do tempo que se perde por não observar direito.


Ou, quem sabe, sufocar o riso que teimoso incomoda quando percebe a ironia de quem te chama para o amor com um simples sorriso.


Sei lá, ultimamente não tem valido à pena as coisas mais sérias, aquelas que um dia foram catalogadas como ideais.


A descrença em seu próprio povo dói mais do que martelada no dedo.


Traído por sua gente, traição que expos a fragilidade de teus raciocínios.


É o que deve ter sentido o povo judeu ao perceber que seus vizinhos, aqueles mesmos que conversavam na fila do pão, apoiavam os abusos do nazismo.


Ou silenciavam.


As vezes o silêncio pode doer mais do que uma punhalada.


Até é possível continuar vivendo junto, mas nunca mais será a mesma coisa.


Deixa pra lá. Toma mais um mate que de amargo basta a vida.


Estende teus olhos sobre as gotas geladas do último sereno.


Não importa o que se diga, ou o que se faça num país dominado por mugidos.


Os golpes já foram dados e todos eles te acertaram em cheio.


Acertaram tuas utopias, tuas fantasias, tuas inocências.


O Brasil nunca mais será o mesmo nos teus planos.


Que planos?


Toma mais um mate e esquece.


Ou faça como o passarinho diante do vento forte, que se encolhe e se prende ao galho pois sabe que o vento forte vai passar um dia. E passa, toda tempestade termina.


Puxa um banco e senta na soleira de tua porta, e espera.


Enquanto joga o milho para as galinhas, o tempo passa e a gente envelhece.


Assim como toda verdade cabe na palma da tua mão.



Prof. Péricles



É NECESSÁRIA NOVA ABOLIÇÃO


Por Francisco Carlos Teixeira

Já não se trata de ser PT ou tucano, de centro, de direita ou de esquerda, muito menos do humor, ou da ofensa, de dizer esse ou aquele “coxinha” versus “mortadela”!

Trata-se, isso sim, da honra da República e da dignidade maior do cargo, da simbologia e dos ritos que envolvem a Presidência da República de um país como o Brasil. Trata-se do orgulho da gente brasileira. Somos um país de 204 milhões de pessoas que, na sua maciça maioria, trabalha duro – excluindo não mais de 100 mil, isso mesmo, parasitas!, esses cem mil que vivem para explorar os outros 203.900.000 brasileiros, dos quais a maioria com duas jornadas para poder pagar suas contas, trabalhando quatro meses por ano só para pagar impostos, que ao final são roubados.

No caso das mulheres, a carga pula automaticamente para três jornadas, quase sempre esta terceira não remunerada, enquanto as outras duas, com certeza, remuneradas abaixo da média do salário masculino. Isso! Somos um país de trabalhadores. De gente de bem, digna. Que corre à Caixa Econômica Federal para retirar seus minguados trocados do FGTS para pagar dívidas.

Até quando essa gente ficará calada? Aceitaremos viver sob um governo que em tudo só nos envergonha? Do despreparo internacional, até a relação de compadrio, misoginia escalando a pura e simples organização para delinquir no interior das mansões republicanas. Lembremo-nos do que o poeta em epígrafe diz sob viver em vergonha:

“Auriverde pendão de minha terra, /Que a brisa do Brasil beija e balança, […] Antes te houvessem roto na batalha, /Que servires a um povo de mortalha”.

Hoje a República tornou-se algoz da gente brasileira. Essa gente assiste agora a uma “máfia”, no dizer da Procuradoria-Geral da República, em denúncia contra o mais alto funcionário da União, o mesmo senhor que deveria servir ao povo, unido aos seus “comparsas” (sic, conforme a PGR).

Acoitado pelas armas e brasões da República, protegido pela segurança do cargo, entendia-se, na calada da noite, nos palácios do governo, pagos pelos meses de trabalho do povo, com criminosos notórios para receber propina, que deveria sustentá-lo e também a seus “ministros-comparsas”. Propina que paga um trem de vida que a maioria absoluta dos 203,9 milhões de brasileiros nem sequer pode imaginar.

Nas grandes cidades do país trava-se uma guerra surda – aos ouvidos dos poderosos trancados em seus palácios e locomovendo-se em helicópteros e carros blindados –, na qual mais de 60 mil jovens, na maioria negros e pardos, morrem anualmente. Milhares de mulheres são espancadas e estupradas no caminho do trabalho. Crianças ficam sem escolas ou as escolas não conseguem ensinar e, por vezes, essas mesmas crianças são alcançadas pela guerra larval dentro de suas salas de aula. Os hospitais são fechados dia após dia. Os velhos morrem nas filas de consultas médicas que jamais ocorrem. As universidades perigam e fecham seus laboratórios, enquanto os pesquisadores abandonam o país.

Mas lá, no fundo escuro dos seus palácios, “ele” e seus “ministros comparsas” se declaram “indestrutíveis” como o Drácula, de Bram Stoker, ou outros personagens que assumem formas sinistras de sugadores de energia, saídos talvez de contos de Edgar Allan Poe.

De tudo isso emerge uma Nação exangue: jovens descrentes, dentre os quais os que podem emigram e vão buscar melhor futuro em míticos “canadás do mundo”. A maioria da população se diz “envergonhada de ser brasileira”.

Quanta ironia de um povo que já acreditou que Deus era brasileiro. Que deus seria esse, senão o deus do poeta da Nacionalidade, aquele chamado de o “deus dos desgraçados”, aquele que, por punição, se afasta e deixa o destino de todo um povo ser desviado por uma chusma de vampiresca, que rouba do povo o próprio futuro:

“Senhor Deus dos desgraçados! /Dizei-me vós, Senhor Deus, /Se eu deliro… ou se é verdade /Tanto horror perante os céus?!…”

Contudo, mesmo o “deus dos desgraçados” apiedou-se dos andrajosos, dos famintos e desesperançosos e rasgou no céu um raio de luz: como na literatura, e o cinema repetiu, o personagem vampiresco de Bran Stoker, que se queria “indestrutível”, incinera-se e vira cinzas ao menor toque da luz!

Que o deus dos desgraçados faça a luz sobre a República e incinere todos que sugam o sangue da Nação.

Ante tamanha infâmia, cabe mais uma vez dirigir à gente brasileira o brado do poeta maior, Castro Alves:

Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga

Levantai-vos heróis do Novo Mundo!



Francisco Carlos Teixeira é historiador e cientista político, com mestrado em História na UFF e na Universidade Livre de Berlim, doutorado em Ciências da História, Univeridade de Berlim, fundador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente, UFRJ, autor de livros sobre conflitos e mudanças sociais, entre eles “Atlântico, a história de um oceano” (com colaboração), Prêmio Jabuti de melhor livro do ano de 2014.