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terça-feira, 29 de agosto de 2017

ESTADOS UNIDOS É AQUI

Tem coisas que, geralmente não podemos escolher.


Uma delas é vizinho.


Às vezes está tudo maravilhoso e de repente o vizinho do lado, sujeito gente fina, se muda e para seu lugar chega um chato ao quadrado.


Fazer o que? São coisas da vida.


Agora, o que aconteceu com os moradores do bairro Passo d’Areia, em Porto Alegre (entre eles, eu), é algo de cruel.


Já tivemos muitos vizinhos, ao longo de muitos anos nessas paragens, quase todos amigos.


Pouquíssimas broncas.


Mas, eis que, sem aviso prévio, se instala no bairro, com pompa, bandeira e águia... o consulado dos Estados Unidos da América do Norte.


Sério! Deve ser castigo.


Logo no meu bairro?


Se engana quem pensa que é implicância com os irmãos do norte e que eles chegaram na boa.


Negativo.


Chegaram no velho estilo, somos o melhor do mundo e sai da bando de índios...


Compraram um velho prédio de um supermercado e construíram tudo novo.


Interessante é que na construção abocanharam metade de duas ruas. Pode isso produção? Cadê o prefeito? Ah... deixa pra lá prefeito em Porto Alegre só existe para defender dono de empresa de ônibus.


Pelo menos eles foram fiéis a tradição. Digo, a tradição de invadir a terra dos outros. No caso, metade de duas ruas. Um pedaço do Brasil.


Além disso expulsaram a banca de revistas do seu Manuel que a mais de trinta anos estava no mesmo lugar, na frente do supermercado.


A segurança na área chega a ser intimidadora. Guardas armadas com cara de agentes de filmes de espionagem.


Até abandonei a ideia de ir vestido de muçulmano e carregando uma sacola no dia da inauguração.


Tudo bem.


Nos tempos atuais pós golpe eles mandam, compram, sem pedir.


Só o que falta é ter que conviver com procissões de coxinhas que pensam que devem ao menos uma vez na vida conhecer seu templo.


Eu que guarde minha fantasia de homem bomba.


Estados Unidos é aqui.




Prof. Péricles

domingo, 27 de agosto de 2017

COPACABANA ME ENGANA




Por Maria Lúcia Dahl

Descobri que meu senso de direção não era essas maravilhas, quando meu ex-marido, desesperado com minhas idas e vindas a bordo do querido fusca, implorava ao meu lado: “não seja insegura, meu bem, quando você achar que é pra esquerda, vá pra direita! ”


Então, quando vi as novas placas espalhadas pela cidade implorando-nos por tudo o que é mais sagrado, que “acredite na sinalização”, como se fosse um dogma de fé, espécie de mantra que se vai repetindo pelo caminho até incorporá-lo ao nosso inconsciente, deixei meu marido de lado, e passei a acreditar piamente nelas, quando saí de Correias para o Rio, junto com minha amiga e minha irmã.


Dirigindo o fusca, segui­a religiosamente, como uma crente diante de um Pai de Santo famoso, e por causa disso, fui parar na Penha, Irajá e Guadalupe.


Dez horas da noite. Ninguém na rua. Então, diante da impossibilidade de alguma troca de informação com algum ser vivo, continuamos, já exaustas, a viagem por um deserto de Saara, até sermos surpreendidas, de repente, por um motel.


Salto, aliviada, do carro, diante de uma remota possibilidade de informação e toco a campainha de uma portaria vazia. Esperamos na porta, as três, até que esta se abriu, fechando­-se imediatamente, em seguida, e por de traz dela: ninguém.


E agora? O que faremos, três senhoras distintas presas num motel em Guadalupe?


Tocamos novamente a campainha e um novo “abre­-te Sésamo” nos liberou de volta à estrada vazia.


Num acesso de fúria, descontrolado, minha irmã começou a gritar: “táxi! Táxi! ” e o eco a remedou, debochado: “táxi! Táxi! ”


Assim como uma miragem no deserto um homem surgiu da escuridão. Fitei-­o determinada, o que o fez fugir, apavorado, temendo um assalto. Então abri a janela do carro e gritei ao volante: “Moço! Pelo amor de Deus, onde fica Copacabana? ” Em disparada, ele gritou de longe, com o dedo indicador, apontando uma abstração:


“Tem que fazer o retorno! ” em meio ao eco que respondeu: ”ôrno, ôrno!”


Mais alguns quilômetros de desconfiança até me deparar com a prova dos nove à minha frente, escrito: “Campo Grande”, e como por milagre, um novo retorno, à direita, indicava a palavra mágica: Copacabana


Como um filho pródigo que, finalmente retorna ao lar depois de um longo período ausente, desembarco, feliz, diante de uma das minhas primeiras e mais belas referências da minha vida: a Princesinha do Mar!



Maria Lúcia Dahl, atriz, escritora e roteirista.

sábado, 26 de agosto de 2017

ÁLBUM DE DECEPÇÕES



Todo aquele brasileiro que possuí algum comprometimento com o país e a democracia, anda estocando em casa farto depósito de decepções.

Nos últimos tempos as decepções, se diversificaram de tal modo que, decidi lançar um álbum de figurinhas, para que se possa colecionar esse “tesouro”.

Sou do tempo que se curtia muito álbum. Figuras eram disputadas no jogo do bafo ou trocadas em comércio intenso de pátio de colégio.

Pois vou aproveitar minha experiência no “produto” e lançar um Álbum de Decepções. Desconfio que será o maior sucesso.

Claro, não faltarão aquelas figurinhas trazendo decepções mais raras como aquela com a foto de um ex-defensor da educação e governador do Distrito Federal apoiando o impeachment.

Muitas serão mais comuns e repetidas, como a que mostrará congressistas vendendo seus votos como quem negocia bananas.

Algumas figurinhas não terão imagem, só frases coloridas, como as “por minha mãe, por meu marido, meus filhos, voto sim”. Ou “pauta bomba” ou outra idiotice qualquer.

Com o tempo surgirão os debates sobre qual seria a decepção preferida. Essas escolhas de preferências sempre foram muito divertidas.

Por exemplo, a turma da preferência pelas decepções com o judiciário trocará figurinhas com o pessoal que acreditava que a Polícia Federal era imparcial e impessoal, incapaz de permitir uma filmagem no meio de uma ação policial.

Claro que coisas assim as vezes provocam discussões apaixonadas.

Meu temor apenas é que, as decepções se vulgarizem, entendem?

Sabe a Lei da oferta e da procura? Pois é, quando um produto se banaliza, se torna muito farto, superando até mesmo a demanda, ele perde valor.

No caso das decepções em excesso o perigo é que elas desvalorizem o escândalo, as pessoas se anestesiem e deixem de dar qualquer importância.

Em todo caso já iniciei meu processo de criação para fabricar a primeiras figurinhas.

Tem as que trazem o rosto de juízes que viraram pop, onde aquela do juiz que sempre tem uma expressão de pouco caso com os outros será a mais procurada.

Tem uma página só daquele outro que rotulou que crimes do PSDB não vem ao caso e uma foto especial, daquelas grandonas no meio da página dele sorrindo e trocando confidencias com um dos maiores corruptos do pais.

Ah... tem duas páginas de meio, especiais, reservadas à mídia, com figurinhas estampando fotos de ancoras televisivos com expressão indignada e capas de revistas que fizeram a diversão da turma mais alienada.

Não poderia faltar a promoção para aqueles que derem a sorte de adquirir uma figurinha premiada, tipo assim, um símbolo fascista de intolerância. Para esses felizardos o prêmio será uma cópia do grampo criminoso contra a presidente.

Bem, está tudo ainda muito no começo, e devo me apressar antes que alguém tenha a ideia de fazer um filme de humor tipo pastelão e torne meu álbum algo superado.

Mas, eu já tenho minha decepção preferida. E está bem na primeira página, no início do álbum. Uma sequência de três ou cinco figuras que mostram a esquerda acreditando em papal Noel e se deixando derrubar como uma fadinha virgem.

E você qual é sua decepção favorita?





Prof. Péricles

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O SILÊNCIO


Por Vladimir Safatle


Há algo de instrutivo no ritual que o Congresso Nacional ofereceu ao país na última quarta-feira, quando um ocupante do cargo da Presidência, gravado em situação flagrante de prevaricação e corrupção passiva, formalmente denunciado pela Procuradoria Geral da União, foi poupado.

É difícil imaginar algum país no mundo que chegaria a um espetáculo tamanho de degradação comandado por uma casta de políticos dignos de filmes de gângsteres série B. Ao menos, depois dessa confissão de desprezo oligárquico pela opinião pública, quem sabe agora parem de falar que estamos em uma “democracia”.

Enquanto o país assiste a universidades públicas suspenderem as aulas por se encontrarem em situação falimentar, serviços públicos entrarem em deterioração, agências de pesquisa decretarem estado de calamidade e 3,6 milhões de pessoas saírem da classe média baixa em direção à pobreza, o ocupante do trono da Presidência, único presidente da história brasileira a ser denunciado pela Justiça no cargo, gastava milhões de reais em suborno explícito de deputados, uso de cargos públicos para aliciamento de votos e liberação de emendas escusas a fim de garantir sua sobrevida.

Ou seja, bem-vindos a uma cleptocracia que agora não faz nem sequer questão de conservar as aparências.

Há algo de terminal quando até mesmo as aparências já não são mais conservadas. Tudo isso com o beneplácito daqueles que dizem que o país precisa, afinal, de “estabilidade”.

Como se vê, há algo de muito interessante no conceito de “estabilidade” que circula atualmente. Uma estabilidade da pauperização, da precarização do emprego, do desmonte dos serviços públicos e da redução final da república brasileira a uma farsa macabra.

Contra isso, há aqueles que falam que receberam uma “herança maldita” do governo anterior. Alguém deveria explicar essa repetição compulsiva que nos acomete. Vivemos em um país onde todo governo usa o expediente de culpar a herança maldita do anterior para mascarar sua própria impotência. O cômico é que eles sempre encontram alguém a continuar a vociferar a mesma estratégia surrada de sempre.

Mas o que pode realmente impressionar alguns é o silêncio com que este momento foi recebido por setores da sociedade brasileira ou, antes, os expedientes que vemos para justificar a passividade. Por que as ruas não queimam, perguntam?

Ao menos três fatores deveriam ser levados em conta aqui.

Primeiro, porque estamos falando de um governo que atira em manifestantes em toda impunidade, como vimos na última manifestação de greve na Esplanada dos Ministérios. Ele usa seu braço armado para cegar estudantes com bala de borracha, atemorizar a população nas ruas com sua polícia gestora da desordem, ameaçar com punições os que entram em greve e ridicularizar o fato de 35 milhões de pessoas pararem o país (como na última greve geral). Ou seja, boa parte das pessoas não sai às ruas porque elas têm medo da violência do Estado, já que elas tacitamente sabem que não têm mais garantias alguma de integridade.

Segundo, porque há um setor da sociedade brasileira que nunca teve problemas com corrupção, mesmo que tenham saído às ruas em 2015 falando o contrário. Eles sempre votaram em corruptos notórios e continuarão fazendo isto. O único problema deles era com o governo anterior. Derrubado o governo, todos eles voltaram para casa e continuarão lá para todo o sempre.

Por fim, não há ninguém nas ruas porque a esquerda brasileira entrou em colapso. Presa entre a tentativa de ressuscitar o que morreu e a incapacidade de encontrar outra forma de incorporação genérica de sua multiplicidade de demandas em um ator político unificado, ela encontra-se paralisada e sem capacidade de dizer claramente o que quer, qual seu horizonte.

Queremos simplesmente retornar ao passado recente, conservar o que está sendo desmontado, ou temos algo a mais a propor? Conseguiremos fazer a maioria da população brasileira sonhar e acreditar em sua própria força de transformação e luta ou empurraremos todos a um horizonte desinflacionado de mudanças, como se isso fosse a expressão de um realismo duro, porém pretensamente necessário?

Sem clareza acerca desses pontos, ninguém avançará um passo.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

JOÃO SALDANHA - FINAL


Em 1959, comentou, pela Rádio Nacional, o campeonato sul-americano disputado em Buenos Aires. Gostou da experiência e resolveu dedicar-se exclusivamente à função de comentarista.

“Saldanha revolucionou o comentário sobre futebol. Raspou o ouro parnasiano, de porta da Colombo (confeitaria tradicional do Rio de Janeiro), que caracterizava o gênero, e impregnou-o com o clima de porta de botequim.”

A popularidade do futebol subia pelo elevador. O Brasil ganhara também a Copa de 1962 no Chile e o jornalismo esportivo se especializava. Surgiu, nesse período, a Grande Revista Esportiva Facit, transmitida pela TV Rio, canal 13, a primeira mesa-redonda futebol exibida pela televisão ao vivo. Saldanha integrou a equipe do programa, que logo caiu nas graças das torcidas.

No rádio e na TV Saldanha ia consagrando palavras e pensamentos muito reais do cotidiano das pessoas. Para analisar os motivos de uma renda baixa, por exemplo, ele dizia: “Sacumé, fim de mês, a moçada tá dura.”

Ao mesmo tempo, escrevia, com o mesmo talento, comentários no jornal Última Hora.

Durante a Copa de 1966, na Inglaterra, que comentou pela Rádio Nacional, Saldanha concedeu várias entrevistas para emissoras estrangeiras com a mesma franqueza com que falava aos brasileiros. Em uma delas, o entrevistador perguntou o que ele tinha a dizer sobre a matança de índios no Brasil.

“Nosso país tem 470 anos de história. Nesses 470 anos, foram mortos menos índios do que em dez minutos de uma guerra provocada por vocês. Os selvagens são vocês”, tascou.

A perda da Copa de 1966 desencadeou uma crise no comando da seleção brasileira. Para surpresa geral do país, o presidente da CBD, João Havelange, convidou Saldanha para assumir o cargo.

Siqueira diz que ele pretendia continuar denunciando, agora com mais repercussão, o que estava acontecendo no país. O novo técnico montou um time de “feras” e o sucesso da seleção fez o regime se levantar contra ele. A CBD era uma entidade ligada ao Ministério da Educação e Cultura, ocupada por Jarbas Passarinho, e uma eventual conquista da Copa com Saldanha à frente do selecionado seria um constrangimento para os generais golpistas. Nelson Rodrigues, em sua famosa crônica “João Sem Medo” no jornal O Globo, resumiu a questão:

“Um amigo meu, bem-pensante, veio me perguntar: ‘Você acha que o João tem as qualidades necessárias?’ Respondi: ‘Não sei se tem as qualidades necessárias. Mas afirmo que tem os defeitos necessários.’ E, realmente, o querido Saldanha possui defeitos luminosíssimos.”

Um desses “defeitos” era que ele fechava espaços para a ditadura capitalizar a provável conquista do tri. E a mídia, servil ao regime, começou a fustigá-lo. O complô estava armado. Daí para a queda, foi um passo. Depois da turbulenta passagem pelo comando técnico da seleção brasileira, Saldanha continuou escrevendo para o jornal O Globo e comentando na Rádio Globo.  Passou por outras emissoras, festejou a volta dos seus camaradas com a anistia, mas nunca deixou o futebol.

Em sua crônica intitulada “Pelo Cano”, publicada dia 23 de março de 1982 no Jornal do Brasil, escreveu: “Nosso único produto interno bruto que dá é o futebol. Falam no carnaval. Nada disto. Faça um desfile de escolas por semana e no fim de um mês a sociedade brasileira pedirá por amor de Deus para pararem.”

Apesar da “teimosia siderúrgica” do técnico Telê Santana, vibrou com a seleção de 1982. Voltou à militância política, foi candidato a vice-prefeito da cidade do Rio de Janeiro pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1985 e participou ativamente da redemocratização do país.

Morreu na Itália, participando da cobertura da Copa de 1990 pela Rede Manchete de Televisão.

Saldanha viveu a vida como ela deve ser vivida. Brigou, namorou, casou várias vezes, escreveu muito e deixou uma bela história para o futebol brasileiro. Jogou com a vida. E ganhou.



Osvaldo Bertolino é jornalista e escritor.

domingo, 20 de agosto de 2017

JOÃO SALDANHA - O FUTEBOL E O JOGO DA VIDA


Por Osvaldo Bertolino

A explosão de popularidade do futebol no Brasil nas primeiras décadas do século XX despertou análises como as de Gilberto Freyre que já em 1936, no livro Sobrados e Mucambos, mencionou “a ascensão do mulato não só mais claro como mais escuro entre os atletas, os nadadores, os jogadores de futebol, que são hoje, no Brasil, quase todos mestiços”. No artigo A propósito de Pelé, publicado na Folha de S. Paulo em 3 de setembro de 1977, Freyre comparou o rei a Machado de Assis, Euclides da Cunha, Heitor Villa-Lobos e Oscar Niemeyer. O que os une? A genialidade.

Um personagem que sintetiza o potencial do universo futebolístico é João Saldanha. 

Como jornalista, técnico e dirigente ele traduziu, mais do que ninguém, o que a crônica esportiva chama de “magia do futebol” - história brilhantemente reconstituída pelo jornalista André Iki Siqueira no livro João Saldanha, uma vida em jogo, publicado pela Companhia Editora Nacional. Em 550 páginas, Siqueira conta os 73 anos de vida do jornalista - dos quais a maioria vivida também como militante do Partido Comunista.

Saldanha chegou ao posto mais alto do futebol brasileiro em fevereiro de 1969, quando assumiu o cargo de técnico da seleção. Dirigiu o time brilhantemente em pleno governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, o general que comandou o período mais violento da ditadura imposta pelo golpe de 1964. Para ele, Médici era o maior assassino da história do Brasil. 

O paradoxo terminou treze meses depois, em 17 de março de 1970, quando Saldanha foi demitido depois de um turbulento período de interferência do presidente na seleção. Em uma “Carta aberta ao futebol brasileiro”, publicada pela revista Placar de 27 de março de 1970, o já ex-técnico da seleção puxou o fio da meada e explicou como o regime colocou verdadeiros cães de guarda para vigiar seus passos.

Foi uma trama urdida pelo presidente da então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), João Havelange, e o ministro da Educação, o coronel Jarbas Passarinho. O ministro nega, no livro de Siqueira, que Médici tenha dado ordem para demitir Saldanha. Mas, em entrevista publicada pela Fundação Getúlio Vargas, o general e também ex-presidente da República Ernesto Geisel afirma que:

“Médici teve um papel importante nessa vitória (da Copa de 1970), porque influiu na nossa representação, inclusive na escalação da delegação brasileira e na escolha dos técnicos".

A crise começou quando surgiu o boato de que Médici queria a convocação de Dario, centroavante do Atlético Mineiro, sem o perfil das “feras do Saldanha” - como era chamada a seleção.

"O senhor organiza o seu ministério, e eu organizo o meu time”, respondeu o técnico por meio dos jornalistas".

Dias antes, em janeiro de 1970, ele esteve no México para acompanhar o sorteio das chaves da Copa do Mundo de 1970 e disse que havia terríveis torturas no Brasil.

“Levei para o México uma pilha de documentos sobre 3 mil e poucos presos, trezentos e tantos mortos e não sei quantos torturados”, afirmou.

O clima ficou pesado. Convidado para um jantar com Médici em Porto Alegre, Saldanha respondeu:

“Não vou. O cara matou amigos meus. Tenho um nome a zelar".

O caso terminou com duas sentenças sumárias.

“Está dissolvida a comissão técnica”, disse Havelange.

“Não sou sorvete para ser dissolvido”, rebateu Saldanha.

Franco, ele imediatamente foi ao microfone da Rádio Globo, onde trabalhava, e desancou:

“O futebol brasileiro tem tanta força que passará por cima desses homens, covardes e pusilânimes.”

A personalidade forte era uma herança dos pais. Gaspar Saldanha, o pai, além de renomado advogado foi maragato e participou das batalhas contra os chimangos no extremo Sul do Brasil. Era bisneto de Rodriguez Chávez, conhecido como Arredondo, nome de peso na independência do Uruguai. No Acre, o gaúcho que comandou a reconquista daquele espaço, José Plácido de Castro Jobim, era tio-avô materno de João Saldanha - sua mãe chamava-se Jenny Jobim Saldanha.

(CONTINUA)


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O PREÇO DO DEBOCHE


De acordo com matéria do jornal Valor Econômico publicada na semana passada, a Lojas Marisa, a mesma que debochou de Lula e da Dona Marisa em campanha publicitária, em 2016, registrou um prejuízo líquido de R$ 24,4 milhões no segundo trimestre de 2017, o que representa um aumento de 32,4% em relação ao resultado negativo do mesmo período de 2016, de R$ 18,4 milhões.



Em 2016, comercial da empresa fez piada com Marisa Letícia, a esposa falecida do ex-presidente Lula, protagonizando uma das maiores bizarrices do marketing, extremamente criticado por especialistas em publicidade e propaganda.



Em postagem no Instagram, uma imagem com "A culpa não é da Marisa", foi usada como comercial do Dia das Mães. Na época da postagem, notícias falsas de que o ex-presidente Lula teria culpado sua esposa falecida de envolvimento em irregularidades foram bastante difundidas.



Nas redes sociais, milhares de internautas iniciaram uma campanha para boicotar a companhia. A maioria dos clientes da Lojas Marisa pertencem à classe C, a chamada "nova classe média", justamente as pessoas que demonstraram total indignação contra o desrespeito da empresa. Novas ações de boicote estão sendo lançadas.



A Lojas Riachuelo, que apoiou abertamente o impeachment da Presidenta Eleita Dilma Rousseff, sofreu um boicote e também viu seus lucros despencarem.



Nos Estados Unidos, ações de boicote são realizadas com muita frequência e funcionam. O Brasil ainda está engatinhando nesse aspecto, mas já demonstra grande potencial. Recentemente, o jornalista Sidney Rezende divulgou em seu site que um grupo de empresas estavam preocupadas com os inúmeros protestos contra o jornalismo da TV Globo e contrataram uma empresa especializada para monitorar as redes sociais. Os empresários estavam com receio de que os telespectadores associassem suas empresas à TV Globo e realizassem um boicote.



Segundo a companhia, o resultado foi afetado pela manutenção da fraca demanda no varejo e pelo acirramento da disputa por preços em lojas de rua e em shoppings.



Além disso, um número relevante de varejistas em shoppings optou por antecipar a liquidação de inverno já na segunda quinzena de julho — movimento não seguido pela Marisa.



A Lojas Marisa encerrou o trimestre com endividamento líquido de R$ 526,8 milhões, valor 1,5% abaixo do registrado entre abril e junho de 2016.




Por Revista Fórum

terça-feira, 15 de agosto de 2017

RACISTAS AMADORES


Eles são tipicamente americanos. A extrema-direita americana se juntou e saiu em furiosa passeata, para revolta mundial. Não faltaram vozes que gritaram forte contra aqueles racistas agrupados e os males terríveis que representam. Foi tão cruento que ele, ninguém menos do que ele, Donald Trump, saiu a dar declarações, dizendo ser desprezível o movimento; justo ele, ícone do racismo, ninguém acreditou em um por cento da sinceridade de suas palavras, mas vá lá, falou institucionalmente, como Presidente dos Estados Unidos da América. 
Eles são os supremacistas, neologismo não reconhecido, ao menos, no dicionário que acabo de consultar.
Eles, aqueles porcos racistas americanos devem morrer de inveja porque não-racistas brasileiros têm, faz quase quinhentos anos, suas babás negras, em uniformes brancos, para cuidar de seus rebentos, sem que houvesse necessidade de formalizar-se esse vínculo de emprego, porque não era emprego, era apenas trabalho.
Ah, aqueles racistas sórdidos americanos devem sonhar com uma escola exclusiva, privada e cara, em que o negro seja, no máximo, o tio da cantina, jamais um professor ou mesmo um aluno. Pois, chorem, americanos racistas idiotas, temos isso aqui, em nossa democracia mega-racial, escolas privadas e não precisamos por isso mesmo nos preocupar com a escola pública, já que essa gentinha não vai estudar muito mesmo na vida.
Seria um sonho para aqueles nazis americanos que a polícia de lá prendesse ou matasse mesmo os negros inconvenientes. Pois bem, já fazemos isso aqui há tempos, sem que ninguém mais se escandalize. Aliás, a palavra de policial, aqui, sorry, Racist America, é suficiente para condenar os pretos abordados na rua, sem qualquer motivação, apenas por atitude suspeita.
Tudo que lhes preencheria o domingo era ver pretos miseráveis serem atingidos por jatos d’água gelada, numa madrugada de inverno. Se isso lhes aquecesse a alma, bastaria que viessem a São Paulo e assistissem a esse espetáculo, patrocinado pela Prefeitura e sua operosa Guarda Civil, com direito a uma performance extra de nosso alcaide, que derrubou paredes de casa ocupada por gente que mal tinha o que comer.
Racistas Americanos! Deve ser horrendo a eles ver a grana dos impostos brancos, direcionada a comprar comida para a criançada filha dos pretos que insistem em ter direitos. Mal sabem eles que, nesse Brasil verde-amarelo, nosso prefeito mandou cortar fundo a merenda na creche, de um jeito que provocaria risadinhas entre os racistas americanos: para prevenir a obesidade infantil, ele disse. Ele não é engraçadinho? Nós aqui, já estamos tão acostumados com esse seu senso humor, que nada, mas nada dissemos. Quando muito, jogamos um ovo na testa dele e é só.
Não penduramos negros enforcados, que horror. Optamos por outra estratégia, seus racistas ignorantes! Construímos uma doutrina da Guerra ao Tráfico, só para isso: invadir comunidades de gente preta e passar fogo em quem for possível. Vale tudo: de feto a criança, todos são pretos, quase pretos, ou vivem como pretos, com direito a carro blindado, a que chamamos carinhosamente de caveirão. Elegemos deputados, temos programas de televisão, humanos direitos, enfim, sabemos fazer a coisa e, claro, sabemos botas a culpa de tudo até na Venezuela.
Nós odiamos vocês, americanos racistas. Odiamos tanto que lutamos ferozmente contra essa coisa horrorosa de colocar cota para pretos em que tudo que é lugar, desde faculdades até concursos públicos, menos, claro, para os concursos perigosos, como os da magistratura e ministério público, em que a meritocracia ainda manda mais alto, ora essa. Não brincamos com fogo, rapazes.
Professores negros, médicos negros, engenheiros negros, arquitetos negros, advogados negros, promotores de justiça negros, juízes negros, já fizemos nossa parte por aqui e não corremos esse risco! Não sofremos desse mal aqui no Brasil, racistas de mierda!
Nessa crise em que vivemos, por culpa do PT, bem que o Itamaraty poderia fazer uma campanha publicitária, com nosso super-prefeito paulistano, sorridente, com pulôver nas costas, com seu arzinho de genro preferido, com aquele rostinho de trabalhador que ele possui, chamando o bravo turista americano e seus dólares de prata:
  “Venha para o Brasil. Aqui o racismo deu certo”
Uma globeleza bem que poderia ilustrar o folder. Seria o máximo. Eles, os racistas americanos morreriam de inveja. Amadores!

 Roberto Tardelli é Advogado. 

sábado, 12 de agosto de 2017

MANUTENÇÃO DE ESPÍRITOS


Nunca tive pai. Isso é, tive, se não, biologicamente eu não existiria. Mas só biologicamente. Mas, por outro lado, fui pai três vezes e meus filhos são meu maior patrimônio como ser humano.



Posso dizer aos jovens, não pais que, ser pai é algo realmente mágico.



Se no momento da fabricação não existe mistério e a própria natureza nos ensina os caminhos, a manutenção do que foi feito é, realmente, o maior desafio que um homem pode ter.



Nem estou me referindo aquelas questões mais materiais, de necessidade de trabalhar e abastecer constantemente a prole com que ela precisa, e como tem coisa que a prole precisa.



Não, me refiro às coisas mais, digamos, espirituais.



Ser pai implica em fazer brotar nos filhos aquelas sementes que eles já trazem de fábrica e que, germinarão ou não, muito, de acordo com a educação que receberem.



É um desafio enorme indicar aos filhos os valores que realmente valem a pena ser priorizados, como solidariedade, amizade, justiça, igualdade.



Podar as ervas daninhas que surgem nos escaninhos do tempo, escondidas e que podem botar a perder toda uma vida, como vaidade, orgulho, arrogância.



Num mundo em que o “vale tudo” é defendido até nos programas televisivos e onde a violência é cultivada até em games, ensinar que a paz vale mais que qualquer valentia grotesca é um verdadeiro quebra-cabeças.



Nesta vida em que campeia a falsa malandragem e a intolerância nos tira o sono, ter filhos é sim, o maior desafio da terra.



Filhos, melhor não tê-los dizem os que preferem não arriscar ou como procedem alguns, imitando a maioria dos animais da natureza, tendo-os, mas se afastando e deixando à fêmea a exclusividade das obrigações.



Mas, não é a esses que nos referimos e sim aos que são pais na essência da palavra.



Por isso, hoje, nesse domingo especial em homenagem aos pais, nosso blog envia o mais afetuoso abraço aos corajosos que não fogem das obrigações que a paternidade responsável impõe.



E um abraço especial aos pais que militam no campo da esquerda e que enxergam não apenas a necessidade de felicidade não apenas de seus filhos, mas de todos os filhos, de todos os pais, principalmente daqueles mais esquecidos e marginalizados no mundo do capital e que se obstinam em mostrar os seus rebentos o quanto podem ser gloriosas as ações que visam a igualdade e a fraternidade, a defesa da dignidade humana e o valor insuperável dos direitos humanos.



Se a manutenção de máquinas é complicada a manutenção de espíritos é algo divino.





Prof. Péricles

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A IMPRENSA NOS ANOS DE CHUMBO


O Correio da Manhã (RJ) foi o primeiro veículo da grande imprensa a manter uma posição firme contra o golpe militar. Tinha uma constelação de grandes jornalistas de esquerda, como Otto Maria Carpeaux, Paulo Francis, Antonio Callado, Jânio de Freitas, Sérgio Augusto, Márcio Moreira Alves e Hermano Alves. Os artigos que Carlos Heitor Cony escreveu sobre os primeiros tempos da ditadura, sarcásticos e combativos, foram depois por ele reunidos em livro: O Ato [alusão aos Atos Institucionais baixados pela ditadura] e o fato.


Quase um nanico, A Tribuna da Imprensa havia sido fundada pelo corvo Carlos Lacerda mas, na ditadura, se tornou uma espécie de trincheira pessoal do combativo jornalista Hélio Fernandes, irmão do Millôr. Seus editoriais, cuspindo fogo contra os tiranos, ocupavam a capa inteira, ou deixavam um pequeno espaço para as manchetes; eram o maior, talvez único, atrativo do matutino. Foi o dono de jornal mais intimidado e retaliado pelos militares.


Longe de serem de esquerda, O Estado de S. Paulo e o Jornal da Tarde honraram o passado de resistência ao arbítrio: repetindo a postura adotada face à ditadura getulista, foram os dois veículos da grande imprensa que mais resistiram à censura do regime militar na primeira metade da década de 1970.


Enquanto os demais, que publicavam as matérias sem os trechos cortados e aceitavam substituir as matérias integralmente vetadas por outras, inofensivas, o Estadão preenchia esses espaços vagos com poesias e o Jornal da Tarde com receitas culinárias. Assim, os leitores podiam saber exatamente qual era o espaço ocupado pelos textos tesourados e até adivinhar a que se referiam.


O semanário O pasquim foi o grande respiradouro da imprensa na virada dos anos 60 para os 70, com Paulo Francis pontificando nos comentários políticos e humoristas como o Millôr Fernandes, Jaguar, Ziraldo e Henfil soltando suas farpas na área de costumes, além de fazerem também suas alusões ao arbítrio e à burrice institucionalizada. Outros destaques eram Ivan Lessa, Tarso de Castro e o guru da nova esquerda Luís Carlos Maciel. Havia, ainda, colaboradores de peso como Glauber Rocha, Chico Buarque, Caetano Veloso e Carlos Heitor Cony.


Anárquico, irreverente, difundindo o jeito carioca de ser num Brasil ainda provinciano, atraiu um público jovem e não necessariamente politizado. Chegou a vender mais de 200 mil exemplares, tiragem superior à de muitos veículos da grande imprensa, antes de sucumbir ao arbítrio oficial e ao terrorismo oficioso: imposições da censura, prisões de integrantes da equipe, atentados contra bancas de jornais que ousassem vendê-lo, etc.


Finalmente, mais na linha da esquerda convencional, os alternativos Opinião, Movimento, EmTempo e Coojornal foram outros respiradouros importantes, ao longo da década de 1970. Atingiam um público bem menor que o do Pasquim, de pessoas que já pertenciam à esquerda ou com ela simpatizavam, a maioria do meio estudantil.


Corajosamente, conseguiam passar a esse pequeno universo informações importantes que a grande imprensa preferia não revelar (ou era impedida de fazê-lo).



Por Celso Lungaretti, jornalista e escritor, foi resistente à ditadura militar ainda secundarista e participou da Vanguarda Popular Revolucionária.

sábado, 5 de agosto de 2017

A VERDADE É DURA, A VOLKS APOIOU A DITADURA


Do site Nocaute


Uma força-tarefa investigativa formada pelo jornal Süddeutsche Zeitung e as emissoras estatais NDR e SWR obteve acesso exclusivo à investigação externa, ordenada pela própria Volkswagen, sobre o papel de sua filial brasileira na ditadura militar (1964-1985).


Segundo reportagens publicadas em 23/07 desse ano, a filial brasileira da montadora colaborou de forma mais ativa do que antes se imaginava com os militares na perseguição de opositores do regime.


Análise extensa de documentações mostrou quão participativo foi o papel da Volkswagen do Brasil e sugere que a sede em Wolfsburg tomou conhecimento disso – o mais tardar em 1979.


Os repórteres alemães analisaram documentos corporativos localizados na filial brasileira e na sede alemã, papéis classificados como secretos pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e relatórios confidenciais do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha.


“Operários eram presos na planta da fábrica e, em seguida, torturados: a colaboração da Volkswagen com a ditadura militar brasileira foi, aparentemente, mais ativa do que antes presumido”, escreveu o Süddeutsche Zeitung.


Os repórteres alemães também tiveram acesso às atas de investigação do Ministério Público de São Paulo. Além disso, eles realizaram entrevistas com alguns ex-funcionários da Volkswagen do Brasil – muitos confirmaram que foram detidos na fábrica em 1972. Eles faziam parte de um grupo oposicionista e distribuíram folhetos do Partido Comunista e organizavam reuniões sindicais.


Os veículos de comunicação alemães corroboraram que a filial brasileira espionou seus trabalhadores e suas ideias políticas, e os dados acabaram em “listas negras” em mãos do Dops. As vítimas lembraram como foram torturadas durante meses, após terem se unido a grupos opositores.


“A Volks roubou dois anos da minha vida”, disse Lúcio Bellentani, ex-operário da montadora e agora com 72 anos, que afirmou ter sofrido oito meses de tortura e ter passado outros 16 meses na prisão. “Indiretamente a Volkswagen foi responsável por numerosos casos de tortura e perseguição. A Volkswagen deve ter a dignidade de reconhecer sua responsabilidade por esses atos”.


Em 2016, a montadora alemã nomeou para uma investigação sobre seu passado o historiador Christopher Kopper, que confirmou a existência de “uma colaboração regular” entre o departamento de segurança da filial brasileira e o órgão policial do regime militar.


“O departamento de segurança atuou como um braço da polícia política dentro da fábrica da Volkswagen”, antecipou Kooper, pesquisador da Universidade de Bielefeld, à imprensa alemã. Segundo ele, a montadora “permitiu as detenções” e pode ser que, ao compartilhar informações com a polícia, “contribuísse para elas”. Ele sugeriu que a montadora alemã peça desculpas aos ex-funcionários afetados pela conduta.


De acordo com protocolos internos da Volkswagen, as chefias da montadora na Alemanha e em São Paulo trocaram memorandos referentes às detenções de funcionários. O conselho da multinacional tomou conhecimento da conduta em São Bernardo do Campo, cidade satélite de São Paulo, o mais tardar em 1979, quando funcionários brasileiros viajaram à Alemanha para confrontar o então presidente da companhia, Toni Schmücker.


A sede da montadora se negou a comentar o conteúdo das alegações e reiterou ter encarregado o historiador Kooper de investigar e apresentar um parecer sobre a questão. Kooper apresentará suas conclusões até o final do ano.


Há quase dois anos foi aberta em São Paulo uma investigação sobre a Volkswagen do Brasil para determinar a responsabilidade da empresa na violação dos direitos humanos durante a ditadura de 1964 a 1985.


Conforme estabeleceu a Comissão Nacional da Verdade (CNV), que examinou as violações dos direitos humanos cometidas pela ditadura militar, muitas empresas privadas, nacionais e estrangeiras, deram apoio tanto financeiro como operacional ao regime militar.

No caso da Volkswagen, a comissão constatou que alguns galpões que a empresa tinha numa fábrica de São Bernardo do Campo foram cedidos aos militares, que os usaram como centros de detenção e tortura. Além disso, a comissão sustentou que encontrou provas que a multinacional alemã doou ao regime militar cerca de 200 veículos, depois usados pelos serviços de repressão.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A BANCADA EVANGÉLICA E OS EVANGÉLICOS




Por Marcelo Santos

Na última sexta-feira (21/07) foi realizado o debate “Evangélicos, Igrejas Evangélicas e Política”, que fez parte do ciclo de conversas Novos Fenômenos da Realidade Política, promovido pela Fundação Perseu Abramo (FPA), Friedrich Ebert Stiftung (FES) e Instituto Pólis.

Foram apresentados no evento alguns resultados da pesquisa sobre políticas elaborada durante a Marcha para Jesus, realizada em 15 de junho, em São Paulo. “A nossa hipótese de partida é de que existia um descolamento do campo evangélico religioso do campo evangélico político” explicou a pesquisadora Esther Solano, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo ela, apesar de a bancada evangélica no Congresso Nacional ser expressivamente neoliberal e a favor do Estado Mínimo, a imensa maioria dos adeptos da linha religiosa é contra as reformas defendidas pelo atual governo.

Entre os 527 entrevistados que participaram da pesquisa, feita por meio de questionário com perguntas fechadas, a maior parte (66%) afirmou não ter preferência de linha política, seja de esquerda, centro ou direita. Sobre os partidos, 81,6 % afirmaram não possuir preferência partidária. Quando a pergunta foi se eram identificados como conservadores, 45% se identificaram como ‘muito conservadores’ e 34% como ‘pouco conservadores’.

Esther ainda destacou que quando questionados se confiavam nos partidos, apenas 7% disse confiar no PSDB, e 6% no PT. “Os partidos que teoricamente representam os evangélicos, como no caso do PSC, que tem o pastor e deputado federal Marco Feliciano, e o PRB, de Marcelo Crivella, tiveram 1,2% e 0,4% de confiança dos entrevistados. Ou seja, praticamente zero”, relatou.

Quando questionados se confiavam ou não em determinados políticos, 57% afirmaram não confiar em Bolsonaro, 53 % não confiam em Marcelo Crivella e 57% não demonstraram confiança em Marina Silva. “Baixíssima confiança nos partidos evangélicos e nos representantes evangélicos”, avaliou Esther.

O professor Marcio Moretto, da Universidade de São Paulo (USP), lembrou que alguns resultados coletados durante a Marcha para Jesus foram “surpreendentemente progressistas”. Questões como sobre se a escola deveria ensinar as pessoas a respeitar os gays teve o apoio de 77%. Já 70% entendem que ‘cantar uma mulher na rua é ofensivo’ e 64% dos que foram ouvidos durante o evento evangélico concordaram que ‘não se deve condenar uma mulher que transe com muitas pessoas’ e 90% discordam que o ‘lugar da mulher é em casa, cuidando da família’. “Principalmente nas pautas em relação ao direito das mulheres, com exceção do aborto, eles se mostraram mais progressistas do que se poderia imaginar.”

Moretto reforçou que mesmo em questões mostrando que 33% não concordam com a afirmação de que ‘pessoas do mesmo sexo não constituem família’ e apenas 35% entenderem que ‘dois homens devem poder se beijar na rua sem serem importunados', "é bom lembrar que se trata de pessoas que estão dentro do campo evangélico e que se definem como conservadores".

Já o pesquisador e professor Leandro Ortunes, do grupo de estudos de Mídia, Religião e Cultura (Mire), da Universidade Metodista de São Paulo, comparou dados levantados durante os eventos evangélicos de 2016 e 2017 e, com base neles, elencou algumas hipóteses para a vitória de João Doria (PSDB) nas eleições paulistanas do último ano. “Será que o discurso do ‘João Trabalhador’ não faz mais sentido para os evangélicos? Para os microempreendedores, por conta do ‘mérito’, do trabalho... Será que os discursos de luta de classes, de revolução, ecoam no mundo evangélico ou eles querem ser empreendedores?", questionou. "Isso porque existe uma teologia por trás. A ‘Teologia da Prosperidade’ ensina que você é capaz de conquistar bens materiais através do seu trabalho”.

Para a antropóloga Regina Novaes, pesquisadora do CNPq, é preciso ter em mente a pergunta sobre ‘a quem interessa generalizar sobre os evangélicos’. “Há interesses daqueles que falam em nome dos evangélicos e vimos como há diferenças entre eles. Há interesses também, numa conjuntura como a atual, de juntar conservadorismos que não atuam da mesma forma. Conservadorismo ‘político’ é uma coisa; de ‘costumes’ ou ‘econômico’ é outra”.

Para ela, a visibilidade exacerbada de alguns representantes evangélicos, como os pastores midiáticos e a bancada no Congresso, cria a invisibilidade de outros, como os evangélicos mais progressistas (caso da Frente Evangélica pelo Estado de Direito) ou mesmo os que não concordam com as reformas neoliberais e a ideia do Estado Mínimo, que são a maioria, de acordo com os levantamentos. “Precisamos desconstruir a ideia da polarização. Se há pontos que nos unem, esses pontos devem ser colocados acima da pauta.”

O evento foi mediado por Joaquim Soriano, da Fundação Perseu Abramo, e teve apresentação de Altair Moreira (Pólis) e Thomas Manz (FES). “Temos debatido sobre a base de um mapa político que parece ter origens nos anos 1990 e cujo data de validade já venceu. Isso parece mais verdade para a esquerda, deslocada de seu tempo. Então, precisamos fazer um esforço para nos reconectar com a realidade, reconstruir esse mapa político e abordar melhor as questões políticas e sociais”, avaliou Thomas.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

NOSSA GUERRA DO PELOPONESO


O povo grego se formou a partir de ondas sucessivas de invasões no sul da península Balcânica.


Não era um lugar deserto e sem vida, ao contrário. A região era habitada por grupos muito primitivos denominados de “pelasgos”, os ”pés descalços”.


Mas o povo helênico, como o conhecemos, surgiu mesmo dessas ondas invasoras.


Como o relevo da Grécia é extremamente acidentado, com montanhas, planaltos, planícies e depressões, esses grupos invasores acabaram acomodando-se em determinada parte e isolando-se do resto. Assim surgiram comunidades independentes, que denominamos de polis. Como pequenos países, autônomos uns dos outros, que mantinham identidade na língua, na religião e algumas tradições.


Foi, portanto, o relevo acidentado, a geografia, que fomentou a criação de núcleos independentes, porém, identificados e que até falavam do mesmo jeito.


No Brasil, não foi o relevo, mas a história acidentada, que criou bolsões identificados pela religião e pelo idioma, mas distantes entre si.


Aqui coexistem grupos que apesar de terem a mesma nacionalidade são tão diversos que mais parecem estrangeiros uns aos outros.


Temos, por exemplo, os preconceituosos se acotovelando todos os dias com a turma da inclusão.


Gente das extremas trabalhando junto e até suportando-se mutuamente, embora quase nada tenham em comum.


O fato de pagarem os mesmos impostos e, teoricamente, estarem expostos as mesmas leis, cria a falsa ideia de um mesmo povo, mas, é apenas uma ideia, não a realidade.


Os ricos brasileiros, que são muito ricos mesmo, tanto quanto outros ricos do mundo suportam conviver com a massa de pobres, aliás, muito pobres, tão pobres quanto os mais pobres do mundo.


Torcem pelo mesmo time de futebol, mas, de preferência, em arquibancadas, ou camarotes distantes.


Como a Grécia antiga o Brasil também tem seus pelasgos.


São os membros da classe média, média, tão média quanto em outros países, talvez apenas um pouco mais estúpidos, que acreditam viver na planície, quando na verdade habitam as depressões, na beirada do Hades.


Existem vários Brasis já se disse por aqui, e essa afirmação está coberta de razão.


Existe um Brasil, dessa gente varonil, que não vacila pegar a clava forte para defender os interesses da pátria mãe, nem tão gentil assim.


Mas também tem um Brasil de entreguistas que consciente, ou inconscientemente, negocia o tempo todo a sua honra verde amarela e seus bens, debaixo da terra ou do pré-sal.


Durante as Guerras do Peloponeso, no século V a.C. gregos enfrentaram gregos e a Grécia inteira definhou até perder de vez sua independência.


Tem gente que ainda não percebeu, mas a nossa guerra do Peloponeso já começou e tem sido cruel para a gente varonil massacrada em Canudos e no Contestado, suicidada na Rua Toneleros, massacrada nos porões da CIA/DOI/Codi e morta e desaparecida nas lutas contra os entreguistas.


Assim como Macedônia esperou pelo declínio grego para conquistar suas terras, “macedônios” do capital internacional aguardam nossa degradação.


O povo está perdendo o amor-próprio, o Brasil, sua tênue independência e todos nós, a guerra.



Prof. Péricles